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13.9.2007
PRESERVAÇÃO BELA E AMARGA
Lilian Oliveira é diretora do Museu do
Diamante, em Diamantina. Ela escreveu no final de agosto um comentário
à fala de Seu Crispim, personagem da passagem do projeto Memória
dos Brasileiros pelo Vale do Jequitinhonha . O comentário
aborda mazelas que não aparecem no tópico publicado pela equipe
do Museu da Pessoa: "(....) tanto preconceito protegido pela ausência
de políticas públicas reais (....); o direito de viver em família
e não ver seu filho ser escravo em carvoeiro e mineradoras". Mas
Lilian conclui: "Linda matéria!"
Intrigado, resolvi falar com ela. Foi conversa longa. Lilian me
contou como saiu de Diamantina e foi parar na USP, onde fez História.
Explicou que conhece bem a vida de Seu Crispim, vítima em linha
direta da opressão escravista.
Não foi por escolha que ele ficou
em Milho Verde, perto da nascente do Rio Jequitinhonha (veja outras
fotos de Milho Verde no site Flickr,
do Yahoo; digitar "Milho Verde" e "Diamantina"),
mas por falta de alternativa, diz Lilian. Crispim já viveu em condições
muito piores do que as de hoje e seus filhos também foram submetidos
a um regime de trabalho cruel.
Se tivesse partido para a cidade em
busca de uma vida melhor, especula a historiadora, provavelmente ele
teria perdido a memória dos saberes que tanto encantaram a equipe
do Museu da Pessoa. São dilemas brasileiros freqüentemente negligenciados
nos relatos e em muitas análises.
É o que ela diz neste áudio:
Essas idéias são retomadas em
outra passagem da conversa, onde os ritos são vistos como resposta
a uma terrível carga de sofrimento:
Aqui se projetam um desafio e uma grande oportunidade.
O desafio é submeter as práticas correntes de recolhimento de narrativas, num país onde o poder historicamente foi exercido com grande apoio em repressão - portanto em silêncios -, a uma espécie de choque de realidade. Não ouvir o que se espera ouvir com base em construções intelectuais ou no senso comum, mas ouvir o que as pessoas possam querer dizer sem terem receio de desagradar. Sem se preocuparem em seguir normas tácitas ou explícitas.
A oportunidade é o horizonte de um novo relato da realidade passada e presente. A História do Brasil, mesmo em seus fundamentos básicos, ainda está sendo escrita. Aos monumentos erguidos por autores sábios e sensíveis faltou ainda a argamassa da voz dos "de baixo". Faltaram contraprovas, dados de realidade. Por isso certas verdades ainda chocam, outras nem sequer são enunciadas, muitas, muitíssimas, não chegam a ser conhecidas por quem seria capaz de registrá-las e difundi-las.
Não existe ciência social no vácuo. Os relatos históricos são marcados pela desigualdade que muitas vezes descrevem. Essa desigualdade privilegia certos olhos e certas vozes, lhes dá meios de que a maioria dos olhos e das vozes não dispõem. E aqui não tenho em mente nada de semelhante a uma "história dos vencidos" escrita - tão esquematicamente quanto foram as histórias oficiais - por vencedores em nome desses vencidos. Tenho em mente uma democratização da narrativa e da recepção.
A própria busca de ampliação do público, da audiência, que é salutar, parte constitutiva do processo democrático, impõe padrões de aceitabilidade que mutilam os relatos. Edita-se não apenas no bom sentido, no sentido de se produzir uma visão universal e de se opor à selvageria, mas também no mau sentido, o de remover impurezas, "impropriedades", segundo conceitos gerados por interesses e concepções dos que operam os canais de comunicação mais poderosos.
O Museu da Pessoa é um instrumento de democratização das narrativas. Perdeu algum tempo na internet, que oferece vantagens tecnológicas para dar voz a muitos, mas procura agora alcançar um novo ritmo. A próxima etapa crítica será receber de internautas um número maior de histórias "completas" e de fragmentos de histórias, relatos, comentários, adendos, questionamentos. Como o comentário de Lilian Oliveira.
Da articulação dessas partes poderá nascer
uma visão mais rica, mais ampla, mais útil para iluminar os caminhos
do desenvolvimento social sem o qual a democracia será sempre uma
construção ameaçada.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
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