contato mapa english


Home> Histórias> Ontem e Hoje
por Mauro Malin

 



Arquivo:

8.10.2007

DE MÚSICO A DANÇARINO

Numa conversa de agosto, “Evocações de trompete”, manifestei a esperança de que Jorge Ribeiro de Moura não tivesse, como eu, abandonado de todo o mais brilhante dos instrumentos. Personagem das Memórias do Comércio do Rio de Janeiro, ele contou em seu depoimento como se encantou com o piston:

“Eu sempre gostei de música. Ficava encantado quando ouvia na televisão um pianista tocando. E gostava do trompete, que é instrumento de sopro, que o pessoal chama de piston. Naquela época, tinha o Billy Butterfield, um pistonista que fez um sucesso enorme. Ele gravou um LP solando no trompete, praticamente todas as músicas foram sucessos, tocava muito na rádio”.

Jorge Ribeiro de Moura explicou mais adiante, em poucas palavras, como abandonou a música:

“Em 1973 eu me casei e, em setembro de 1974, meu pai teve um infarto. Foi quando eu parei com a música e fiquei só na loja”.

(Clique aqui para ler o depoimento completo de Jorge Ribeiro de Moura)

Mas não me pareceu plausível que ele tivesse deixado para sempre a música.

Poucos dias depois da publicação da crônica fui ao Rio de Janeiro e procurei Jorge Ribeiro de Moura. O Mercadinho do Papai voltara pouco mais de um ano antes para a Praça XV de Novembro, onde havia sido criado em maio de 1957. Não para a mesma exata loja, mas para o mesmo prédio, onde foram feitas estas fotografias:


Mercadinho do Papai na Praça XV, 2007


Jorge Ribeiro de Moura no balcão do Mercadinho do Papai, 2007


A loja da família Ribeiro de Moura mudara-se em 1965 para um sobrado da Travessa do Paço, entre a Travessa da Natividade e a Rua São José. Trata-se de um quarteirão situado nos fundos da Igreja de São José, que dá frente para a Avenida Antônio Carlos.

Na foto abaixo, a entrada do sobrado é a porta de madeira de duas folhas pintada de azul. As duas portas da loja, de metal, à direita, são contíguas ao restaurante Tanaka San.


Travessa do Paço, 2007


A loja e o sobrado ainda não haviam sido realugados pela Irmandade de São José, proprietária do imóvel, que, após oito renovações consecutivas por cinco anos, não chegou a bom termo com Jorge Ribeiro de Moura pela nona vez.

Ele diz que a nova localização é melhor, porque há mais movimento na Praça XV, junto à estação das barcas que fazem a travessia até Niterói. No local existem vários terminais de ônibus urbanos. A disposição física da nova loja, constata Jorge, também é melhor, porque ela fica paralela à rua, e não perpendicular, como na Travessa do Paço. O visitante logo vê uma infinidade de produtos expostos – algo como quatro mil itens povoam a loja.

Mas a finalidade de minha visita não era saber apenas o que havia acontecido com o Mercadinho do Papai. Era principalmente ter notícia da relação de nosso personagem com a música.

No intervalo de uma conversa de pescadores com um freguês que entrou na barulhenta loja, Jorge explicou que passara do trompete ao contrabaixo, antes de parar de tocar. Ouça aqui.

Os instrumentos foram guardados em algum canto, mas a música não saiu da vida de Jorge e de sua mulher, Marilande, que ele conheceu cantora num programa de televisão, quando tocava no conjunto Bossa e Música. O casal entrou para uma escola de dança de salão, como ele conta aqui.

Dança de salão é coisa séria. Alguns filmes tiveram-na como mote. Para não remontar a Fred Astaire e suas diferentes parceiras – para começar, Ginger Rodgers, claro –, cito Os Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta, Vem dançar comigo, australiano, Dança comigo?, japonês, Vamos Dançar?, com Richard Geere e Susan Sarandon. E há aquela cena brilhante do tango no restaurante protagonizada por Al Pacino em Perfume de Mulher.

Jorge Ribeiro de Moura expôs com propriedade a filosofia da dança a dois.

Acrescento algo sobre o código de ética dessa atividade. Em tempos idos realizava-se em São Paulo, nas noites de sexta-feira, um concorrido baile no Clube Homs, na Avenida Paulista. Reza a lenda que um dos casais mais constantes era formado pela esposa de um sargento da Polícia Militar e por seu parceiro de dança. O sargento, que não gostava de dançar, a deixava lá no início do baile e ia buscá-la no fim, depois das três da manhã. Sem encucação, porque o parceiro da dama era só isso mesmo, parceiro de dança.

Também quero contar duas proezas minhas.

No inverno de 1996, visitei em Faxinal do Céu, perto de Guarapuava, a inesquecível Universidade do Professor, criada pelo gabinete do governador Jaime Lerner para contrariar a Secretaria de Educação do próprio governo paranaense.

Novecentos professores passavam lá por semana. Chegavam numa sexta-feira e partiam no domingo seguinte. Era um processo de “desestruturação” da submissão à máquina da educação estadual. Pelo menos foi assim que o entendi. Interessantíssimo. Não durou muito. Antonio Carlos Villaça narrou sua participação num livro de 1998, Diário de Faxinal do Céu.

Eu cheguei numa terça-feira, com o processo já em andamento, mas rapidamente me entrosei com os dirigentes da Universidade, comandados por Arthur Pereira e Oliveira Filho.

O “campus” era no antigo canteiro de obras da construção da usina hidrelétrica de Foz do Areia. Na noite de sexta-feira realizou-se no clube dos funcionários da usina um baile. Animado. Pudera: Faxinal do Céu é um dos lugares mais frios do Paraná. Mas pouca gente sabia dança de salão. Então, convidei uma dama e rapidamente a instruí a respeito de como girar o corpo conduzida pelo cavalheiro, com um dos braços levantado. Sucesso completo, que me deu alguma proeminência naquela festa. A chamada satisfação íntima.

Meu repertório, limitado mas razoavelmente consistente, vinha de aulas no estúdio de J.C. Viola. E aqui passo ao segundo feito. Formamos no Viola um grupo unido que resolveu passar um fim de ano em Cartagena de Índias, na Colômbia. Foi no verão seguinte.

Estávamos hospedados num resort à beira-mar, não muito longe da espantosamente bela cidade histórica. Na noite do réveillon houve um baile à luz da lua. Como sempre ocorre na Colômbia, a meia-noite foi comemorada com o hino nacional. Em seguida, a orquestra começou a tocar música para dançar. E ninguém se aventurava, o que é incompreensível naquele país. Quem sabe os colombianos fossem minoria entre os hóspedes.

Percebi a oportunidade para um lance “histórico”. Convidei uma de nossas dançarinas, a Bia, e lá fomos nós, gloriosamente, aplicar as lições do mestre Viola. Dançamos sozinhos as duas primeiras músicas, até que outros, a começar dos “nossos”, os brasileiros, se animassem. E a noite seguiu.

Sim, leitor, nós abrimos um baile na Colômbia! Parece nada, mas é muito, na vida de um aprendiz de dançarino.

Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net



     
Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
        Rua Natingui, 1100 • São Paulo, SP
fone: +55 11 2144-7150 • fax: +55 11 2144-7151
portal@museudapessoa.net