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24.10.2007

DEZOITO DIAS NA TERRINHA DE MEU PAI

por Elza Guerra Aleman

(Elza Guerra Aleman tem a verve da narrativa. Em poesia, como nas 120 estrofes que contam a história de sua família, ou em prosa, como se lerá abaixo.

Ela prometeu ao Museu da Pessoa – ver Os Guerra da Galícia – contar sua mais recente viagem à Galícia com o pai, Manuel, e a irmã, Mariazinha. Chegou há uma semana e tratou de cumprir a promessa.

Na primeira parte há um relato da paisagem física. Na segunda parte predomina a paisagem humana.

Em minha primeira conversa com Elza, fiquei sabendo que seu tio José havia combatido na Guerra Civil espanhola. Como o pai do barbeiro Julio Pita, Vitoriano, alistado à força na tropa do general Francisco Franco. Elza não soube dizer de que lado combatera José. Sugeri-lhe que tentasse saber. Isso não foi possível.

No fim deste mês o parlamento da Espanha deverá aprovar a Lei da Memória. A Espanha, segundo a edição da revista The Economist datada de 20 de outubro, destacou-se ao longo dos anos por dar as costas à rememoração da pavorosa tragédia nacional que foi a Guerra Civil. Essa prolongada sombra explica, talvez, silêncios renitentes. Mas uma dramática passagem levou Elza a refazer a imagem que guardara do tio. Mauro Malin.)

Muito embora parecesse a toda a família que este ano ninguém iria à Espanha, equivocamo-nos. Meu pai continua lúcido e forte como os carvalhos de sua terra. Quando chega janeiro já começa a perguntar: "Bamos ou nom bamos?" E assim vai, mês a mês, até que se decida quem vai acompanhá-lo em mais uma viagem à Galícia. E este ano não foi diferente: depois de uns mal-estares passageiros ele quase nos intimou a decidir quem iria, senão iria sozinho. Tudo concordado, já ligou para a Pepita, da agência de viagens, reservou três passagens e num piscar de olhos lá estávamos os três num avião da Ibéria rumo à Espanha. Havia 17 anos que minha irmã não ia à Espanha. Eu, entre tantas outras, estivera pela última vez em 2004. E lá ia meu pai feliz com suas duas filhinhas, como carinhosamente nos chama.

O Aeroporto de Barajas, em Madri, é um colosso. Só quem teve que atravessá-lo por corredores, escadas, passarelas rolantes, elevadores e até metrô é que pode fazer idéia. Por sorte, pedimos uma cadeira de rodas para meu pai e a funcionária do aeroporto, tanto solícita como veloz, nos levou por portas secretas e rapidinho estávamos esperando o vôo de conexão para Vigo.

A Galícia continua verde
Mesmo com todas as queimadas que houve ultimamente pela Espanha, a Galícia continua verde. Distingue-se perfeitamente a chegada a essa região, pelos seus campos cultivados, pelos pinhos, eucaliptos e montanhas pedregosas. Em menos de uma hora o pequeno avião fez o trajeto Madri/Vigo e pousamos tranqüilos no solo galego. Meia hora, numa estrada verdejante, que víamos pelas janelas do táxi... meu pai já fazendo suas perguntas habituais ao motorista: "O senhor é biguês? Ou pontebedrês?"... minha irmã boquiaberta ao ver casas tão bonitas: "Olha, Elza, olha!", e chegamos ao Hotel Comércio, no centro de Pontevedra.


Mariazinha, Elza e Manuel no Hotel Comércio, Pontevedra, outubro, 2007

Almoçamos no restaurante do hotel. Comemos merluza à galega e brindamos com vinho Rioja. Meu pai quis descansar e recolheu-se à habitación. Maria e eu aproveitamos para conhecer o hotel. É muito bom. Não nos arrependemos de reservá-lo via internet. Tem seis andares, restaurante, cafeteria, elevadores, calefação, telefone, TV internacional. E um pessoal muito educado. Ficamos no 6º andar com vista para a rua e de frente para o prédio da Caixa Nova, um forte banco por aqui. Uma enorme estátua de um deus grego, em cima no telhado do prédio, apontava em direção ao mar.

Homenagem a um saudoso papagaio
Encontrei Pontevedra mais bonita. Da última vez estava sendo remodelada. Agora está quase pronta, não fosse por uns poucos prédios que estão sendo reformados. Eles conservam as fachadas e as paredes laterais e refazem o miolo dos prédios. Quando digo prédio quero dizer casas de dois ou três andares. Esse sistema de preservar as fachadas, que são de pedras, grandes janelas e sacadas, faz com que a cidade pareça que é a mesma de séculos atrás. Por dentro das casas, entretanto, há tudo do mais moderno e funcional. Nesta cidade de pedra, até o calçamento das ruas é feito de blocos de pedras polidas. O centro é todo destinado aos pedestres. Há poucas ruas onde os carros podem passar. A cada passo nos deparamos com um chafariz, uma estátua ou um marco histórico. Pontevedra já foi cercada por muralha, construída pelos romanos. Não sei se o tempo, o povo ou as guerras a obstruíram. Essa muralha está reaparecendo graças a um trabalho arqueológico. Já se pode observar parte dela em frente ao Rio Lerez. Há um trecho, passando pelo meio de uma rua próxima ao Mercado Principal, devidamente demarcado e onde se pode ler que ela já existia no século XII.


Mariazinha diante de muralha em restauração em Pontevedra, outubro, 2007


Preciso contar sobre uma pequena obra de arte, colocada num canto da praça onde fica a igreja de Nossa Senhora Pelegrina, a padroeira da cidade. Trata-se de uma escultura em metal escuro feita por conhecida artista plástica – não lembro o nome da artista. Tem a forma de um papagaio sobre um pedestal próprio para esse tipo de ave. Conta-se que há anos passados, numa barbearia, naquela esquina, havia um louro muito falante. Não havia quem não o conhecesse e admirasse pelo linguajar e cantar com que cativava a todos. Um dia o louro morreu e o povo, ficando tão triste, lhe fez um enterro como só se fazia para gente muito importante. Hoje em dia, pelo Carnaval, ainda sai um bloco, todos vestidos de negro, cantando e chorando a morte do querido louro. Por isso a artista reverenciou o amigo do povo com uma moderna estátua.


Mariazinha e Manuel. Conjunto de esculturas em Pontevedra, outubro, 2007


Elza diante de um pinho em Pontevedra, outubro, 2007

Pontevedra é cinza e em alguns lugares tem cheiro de peixe frito. Não que seja ruim. É o cheiro característico da comida diária.

A Escola Naval perdeu algo do glamour
Passear por Marin, para meu pai, é recordar seu tempo de menino. Veio da cidade de Couso, com 8 anos, para morar ali, até os 17, quando foi para o Brasil. Do Sequelo, bairro de Marin, lugar das terras de seu pai, ele vinha até a escola, que ficava no centro. Ele nos mostra o prédio onde Don Lino lhe ministrava as aulas e onde aprendia as poesias que sabe até hoje. Um pouco abandonado, o prédio ainda está lá, para recordação do antigo aluno. Antigamente, onde hoje é uma bela praça, com jardins, chafariz e estátuas, havia um bonde que saía rumo a Pontevedra, que fica a uns 20 quilômetros de distância. Nesse trem, ia meu pai, quatro vezes por mês, para trabalhar na feira da Ferraria, vendendo tecidos.


No bairro do Sequelo, em Marin, Manuel posa diante das propriedades que eram de seu pai, outubro, 2007

Marin ficou conhecida por ter a única Escola Naval de Espanha. Uma escola que formava os militares da Marinha espanhola. Até o rei Juan Carlos e o filho do rei, herdeiro da coroa, fizeram o serviço militar ali. Hoje em dia o serviço militar não é mais obrigatório. Só os rapazes que desejam se incorporam, ganhando ordenado por isso.

A Escola Naval me pareceu um pouco decaída. Já não tem aquele glamour de quando era cheia de moços com uniformes brancos. Passeamos pelo píer e vimos de um lado a Escola Naval, com uns poucos marinheiros marchando ao som de um hino, de outro lado muitos barcos de pescas. Ainda bem recoberta de árvores e plantas nativas, no meio da ria está a ilha de Tambo. Pertence aos militares. Não é, por enquanto, permitida a visita de estranhos. Fala-se que brevemente será aberta ao turismo. É uma ilha muito pequena, mas que deverá ser um passeio interessante e curioso.


Lisardo e Elza em Marin, com a Ilha de Tambo ao fundo, outubro, 2007



Elza diante de uma marina em Sanxenxo, outubro, 2007

Viviendas magníficas
Marin, ao contrário de Pontevedra, não me pareceu tão renovada. Só o passeio marítimo, ou o calçadão, como chamamos, é que está mais bonito e cheio de flores. O comércio não evoluiu, e até os poucos restaurantes que pipocavam estão de portas fechadas. As casas, sim, as viviendas, estas são de babar. Muitas e bem construídas casas de pedras, com imensos jardins floridos, com parreiras carregadas de uvas, e com os tradicionais ho[ó]rreos de pedra, que serviam antigamente para guardar os cereais. Agora são sinal de status e patrimônio cultural. É proibido retirá-los. Devo comentar que na casa de meus avós, que hoje pertence a um primo, há um horreo comprado por meu avô. Por curiosidade fui investigar, numa Exposição e Feira Industrial, quanto custa um novo. Mais ou menos 10 mil euros!!!

[Clique aqui para ver fotos de horreos]

Um lugarejo quase fantasma
Ao Sequelo, que é a propriedade dos Guerra, onde moram os netos e bisnetos de meu tio, fizemos apenas uma visita. Em outras ocasiões encontramos os primos e os priminhos gêmeos. Para falar a verdade, não me sinto bem lá. Meu pai conversa normalmente, pergunta sobre as famílias vizinhas, nos mostra até onde iam as terras, onde estão os moinhos, as árvores que ainda restam... Acho que sente saudade, mas não demonstra. Para mim é desconfortável, quase sufocante. Prefiro estar no vilarejo em que ele nasceu, Couso.

Couso de Avión, lugarejo quase fantasma, não deve ter mais que cinco famílias morando. Nos anos 20 havia 40 famílias. Os descendentes quase todos vivem no México. Só por ocasião das festas da Padroeira, Nossa Senhora Pelegrina, nos meses de julho e agosto, eles vêm e se hospedam em suas casas reformadas e confortáveis, com jardins e piscinas. Fazem uma grande festa na pracinha, confraternizam e se vão até o próximo ano. Demos uma volta nessa aldeia por entre casas desmoronadas e as inexplicavelmente modernas. Meu pai nos mostrou, sem uma expressão mais triste, o riacho onde ele pescava com o padre Dom Juanito, seu primeiro professor e confessor. Das casas de suas tias já quase não resta nada. A casa onde ele nasceu, construída todinha de lascas de lousa, uma pedra negra, permanece intacta bem na entrada da aldeia. Incluímos no passeio uma breve olhada no cemitério. Tem uma bonita e pequena igreja central, rodeada pelos nichos fúnebres. Em torno dessa igreja, onde se rezam as missas, também se fazem festas.

A prima Elvira nunca foi ao médico
De Couso é um pulinho para Villariño. Nessa aldeia também me sinto bem. Resta-nos ali uma prima de meu pai, seu filho e netos. Elvira tem a mesma idade de meu pai, mas não minto se disser que está ainda mais esperta que ele. Nunca tomou uma injeção, nunca foi ao médico. Só no ano passado queixou-se de ter que ir ao dentista, pois lhe caíram dois dentes. Quando chegamos, acabava de vir do moinho, com um saco quase cheio de fubá. Parte é para ela fazer o pão e o resto para dar aos porquinhos que cria. Imediatamente nos pôs uma mesa com vinho e jamon.


Em Villariño, dona Ermita (primeira à esquerda) e a tia Elvira (vestido escuro, ao fundo), outubro, 2007


Elza, Manuel, a tia Elvira e Camila, atual mulher de Lisardo, outubro, 2007

Depois de sermos parados para conversar com umas cinco ou seis senhoras, quase todas vestidas de preto, fomos visitar dona Ermita. Os pais desta senhora eram contemporâneos de meu pai. Dona Ermita é uma senhora sacudida, veste-se de preto, pois seu "homem" morreu no Brasil. Ficara casada menos de um mês e o marido partiu para a América. Nunca mais o viu, mas teve, por felicidade, uma filha, que lhe deu dois netos. Trocamos abraços e presentes. Contamos coisas alegres e outras tristes. Levou-nos para ver sua casa velha, que está reformada e mobiliada com o mais de moderno que se pode imaginar. Dinheiro para isso veio da Alemanha, onde trabalha sua filha.

Mausoléu exibicionista
Nessa aldeia minúscula, perdida entre montanhas verdejantes, há, entre outras, uma mansão riquíssima. Suas paredes são todas feitas de mármore escuro, tão reluzente quanto impressionante. O chão da entrada e do quintal também é feito dessa pedra polida. A capela não é diferente. Já estive lá dentro quando ainda vivia uma outra prima de meu pai, que era a dona do patrimônio. Aliás, quem construiu esse mausoléu exibicionista foi o genro, que enriqueceu no México. Dentro daquilo, a gente se perde. Há tantos quartos e salas... uns forrados de lambri, outros de espelhos. Minha irmã pôde vê-la por fora, e ficou impressionada. Deixamos Villariño, com suas mansões e casinhas, seus cães, galinhas e porcos, trazendo conosco os regalos: tabletes de chocolate para chocolatada, pacotes de lingüiça caseira, jamon e duas blusas de seda.

Lisardo, marido de minha falecida prima, filha de meu tio José, levou-nos a passear por muitos lugares. Soutelo do Monte foi um deles. Essa cidade, já na província de Orense, é famosa por seus gaiteiros, músicos importantes e reconhecidos. Ali pudemos saborear um bacalhau inesquecível no restaurante Millenium, um lugar a que gostaria de voltar.

Morte, testamento. Mas o soldado sobrevive e volta
Entre outros papos e conversas meu primo me contou algo de que eu não tinha conhecimento, e não me lembro de meu pai haver comentado isso algum dia. Meu tio José, sogro do primo Lisardo, por umas continhas que fizemos deveria ter 25 anos, em 1936, quando foi convocado para a Guerra Civil espanhola: Ou vais ou... vais! e ele foi. Deixava seu pai, a mulher e um filhinho. Perguntei de que lado ele combatera e Lisardo respondeu: "Ora, eram espanhóis contra espanhóis." Eu fiquei na mesma.

A guerra seguia e em dado momento chega ao Sequelo uma carta do exército contando da morte de José. Imagino o drama e a dor que a esposa dele e meu avô sofreram. Meu avô, segundo as leis, teve que fazer certidão de óbito e um testamento doando as terras para o netinho. Fizeram-se missas e vestiu-se luto. A guerra só acabou em 1939. Um dia, de repente, chega um homem esfarrapado, fétido, cheio de piolhos e feridas chamando à porta do Sequelo. Era José, que havia sido solto de algum campo de concentração.

Lisardo não sabe mais detalhes, mas isso me chega para refazer a idéia que tinha de meu tio. Se ele era um menino violento e um rapaz metido a valentão, que fez até meu pai decidir ir para o Brasil, agora eu penso que viria a ter razões de sobra para não ser uma pessoa normal como todos queriam. Meu pai já se encontrava no Brasil desde 1931. Não viu guerra, não viu fome. José se achou no direito de ficar com toda a herança, que era de muitas terras. Em 1955 meu pai tentou reaver alguma coisa, porém já havia caducado o prazo para a petição. Meu tio José, que tivera mais um herdeiro, uma filha, faleceu em 1964.

Casas lindas, ruas floridas, praias limpas
Não vou descrever Villagarcía, Redondela, Poio, Combarro, Portonovo, Sanxenxo, O Grove ou La Toja, pois parecerá que exagero, falando dessas cidades, de suas casas lindas, das ruas cheias de flores, das praias limpas. Não vou me demorar falando das viagens nos trens da Renfe, tão pontuais e extremamente limpos, contornando a velha ria de Vigo e dando um panorama tão pitoresco. Não vou detalhar o gostoso almoço em Vigo, servido pela Sandra, uma carioca gentil, com sotaque galego.


Manuel e Elza tomam chocolate na Ilha de La Toja, outubro, 2007

Ônibus para seres humanos
Falarei com gosto sobre passear várias vezes nos ônibus que nos levavam a Marin, ora para fazermos compras na feira, ora para visitarmos velhos e queridos amigos. Posso me demorar descrevendo o que é um ônibus para seres humanos. As portas de vidros, brilhando de limpas, se abrem quase rentes ao chão, deixando as pessoas subirem sem tropeços. O motorista, que também cobra a passagem, usa camisa muito alva. Embora rápido e um tanto monossilábico, é cortês e dirige bem. O troco é dado automaticamente pela caixa-computador. Os bancos são espaçosos, confortáveis e limpos como as janelas, panorâmicas. O ônibus desliza sobre as avenidas aveludadas e sem quebra-molas. Fizemos várias vezes o trajeto Marin-Pontevedra e vice-versa e era sempre um passeio. Há nesse trajeto uma fábrica chamada Celulosa, que como o nome denuncia produz celulose de eucalipto. Em outra época cheirava muito mal. Parece que, pressionada pelos munícipes, tomou as providências necessárias, embora ainda haja reclamações, pois ela está à beira da ria de Pontevedra.

Minha irmã fez pela primeira vez o passeio na Naviera Mar de Ons desde o porto de Cangas a Vigo. Não há quem não goste. Mostrei a ela de onde nosso pai partiu, no navio Alcântara, em 1931. O porto agora já não recebe navios de passageiros, só pesqueiros. Nesse dia almoçamos em Cangas, num pequeno restaurante recém-inaugurado, chamado Chocolate. Recomendamos.

Detalhes, como colher castanhas, subir ao mirante para ver o mar, passear no trenzinho turístico, assistir a vários filmes de um festival francês, ver exposições de quadros, exposições fotográficas, ir ao Corte Inglês, conhecer e se encantar com o professor Juan, de 97 anos, curtir as incríveis livrarias e as tentadoras doçarias, são detalhes, apenas gostosos detalhes.

A súbita riqueza da gente de Espanha
Encontrei uma Espanha rica. Fazia apenas três anos que tinha estado na Galícia. A impressão que tenho é que houve um enriquecimento muito rápido. Algumas pessoas com que falei me disseram que com a entrada do euro a vida ficou mais cara. Não sei... Não vi miséria em nenhum lugar. O povo conseguiu muitos direitos sociais. Pagam, mas recebem. As lojas estão sempre cheias de clientes. Os restaurantes, muito concorridos. As exposições, cinemas e o único teatro que vi, sempre lotados. Os automóveis são novíssimos. Todos têm coches. Os cafés estão sempre com muita clientela. Os mercados e as feiras também, com fregueses aos montes. Apesar da moda estar relaxada, as mulheres e os homens se apresentam bem. As crianças, então, são vestidas com muito esmero. Todos têm direito a férias e parece que viajam muito. As agências de viagens atendem um grande público.

Apesar disso, ou só por isso, percebi em alguns pais certa mágoa, pela displicência dos jovens. Parece, a estes, que a vida sempre foi fácil. Que é tranqüilo ganhar a vida, que os pais nunca tiveram que dar duro para conseguirem o que têm. Gastam demais, bebem muito. Notei também um palavreado chulo. Palavras de baixo calão fazem parte do vocabulário cotidiano de uma juventude tão bonita fisicamente. A programação da TV é muito fútil. Os galegos são práticos e de raciocínio lógico e rápido. Isso notei na programação das rádios, que ouvia pela madrugada.

Um pai mais jovem que as filhas?
Quase não falei de meu pai. Nos seus 93 anos, quatro meses e 6 dias, como orgulhosamente conta, esteve magnífico. Onde quer que fossemos, ele estava sempre junto. Aliás, ele é que sugeria os passeios e os restaurantes. Continua muito falante, contador da história universal e declamador de versinhos. Muitas vezes tivemos que interrompê-lo, pois ficava dizendo poesias para as vendedoras das lojas. Não sei se ficamos contentes ou tristes quando o senhor Donato, gerente do banco onde ele tem conta, disse: "Perdón a las señoras, pero usted está más joven que ellas".


Comentários:
Muy linda esta historia me llena los ojos de lagrimas cuantos recuerdos de mi familia que se encuentra en la querida Galicia

Saludos
Manuel Gomez Diaz
La Pampa, Argentina

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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