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7.11.2007

PAZ E GUERRA EM PARAMOTI

por Carol Quintanilha


(Carol Quintanilha é fotógrafa. Trabalhava na revista IstoÉ e foi fazer reportagens no Nordeste. Uva no São Francisco, denúncia política em outro lugar. Nada que tivesse relação direta com cultura popular. Mas apaixonou-se pela região. Começou a ler compulsivamente. Adora Ariano Suassuna. "O Brasil é lá", me garantiu, em conversa por telefone neste início de novembro. "É índio, negro, português: a mistura deu o nordestino típico! A cultura desses povos também se misturou, formando a cultura brasileira. Mas parece que desde então nada mais mudou, ficou intocado".

Em 1998, Carol decidiu ir passar um tempo lá, máquina em punho. Um patrocínio da Kodak lhe garantiu filmes para milhares de slides, em várias viagens, cada uma de vários meses. Uma pequena amostra disso está no site de fotografias do Yahoo!, o Flickr.

Se Carol fosse só craque com a máquina fotográfica, seria ótimo. Mas ela é boa também nas pretinhas, como se dizia nas redações do tempo da máquina de escrever. Sem mais delongas: confira nos causos e nas fotos abaixo. O cenário é Paramoti, Ceará. Está num mapa do Yahoo! Maps. Mauro Malin.)


Paramoti, 1999. Criança espera o tempo passar.
Crédito: Carol Quintanilha

Em 1999 estive em Paramoti, conhecida na época como a Cidade da Paz, no interior do Ceará. Antônio Carlos, do Diário do Nordeste, que me servia como guia, passou no hotel em Canindé com Fernando Filho e uma moça que eu nunca soube quem era. Apenas permaneceu sentada ao meu lado no carro. Além da história da própria cidade, que eu contarei depois, estive com "personalidades" interessantes.

Como Antônio Carlos conhecia todos os "poderosos" do pedaço, arranjou um almoço com sete deles. Vereadores, jornalistas, assessores, representantes. Machistas. Almoço longo. Fui extremamente bem tratada. Entre eles o Sr. Francisco de Assis Sampaio, que me lembrou o personagem Quaderna da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Com orgulho ele me mostrou a coleção de fotos, desenhos, documentos e poesias que guarda em memória de seu avô: Coronel Capitão Pedro Sampaio, da Serra Branca, que viveu em 1870 e foi sobrinho do general Sampaio da guerra do Paraguai.

Dito cangaceiro pelo restante da mesa, o que foi negado pelo neto, o Capitão Pedro Sampaio teve, ou dizem ter tido, uma vida típica do sertão do século XIX. Dono de terras, da Fazenda Serra Branca, onde em 1916 foi inaugurado o primeiro açude do Sertão Central do Ceará. Ele teve uma visão à frente nas questões de terra e produções. Suas opiniões ficaram em forma de poesias, algumas passadas verbalmente e registradas apenas agora pelo seu neto.


Um misto de bondoso e bandido para sobreviver na região, foi conhecido pelos cangaceiros. Fez casamentos na marra e tinha uma marca de briga que ia da sobrancelha até o final da nuca. "Antigamente a reza era o mais forte", disse seu neto. "Hoje não tem mais isso não". Todos concordaram. Na mesa todos achavam que a Paz de Paramoti era ótima, que nada melhor que a tranqüilidade, mas passaram a tarde contando, com certa nostalgia, casos passados da época do banditismo. Estávamos num galpão escuro, grande, bagunçado, duas mesas de ferro, o reflexo do sol caindo sobre nós. O vento entrou forte, de repente. Fizeram o sinal da cruz e disseram: "Sai, cão!"

A seguir, algumas histórias contadas nesse almoço.

Zé Antônio do Fechado, 1918*

As eleições eram a "bico de pena", como chamavam. A cada eleitor que chegava o escrivão já anotava o voto de acordo com o interesse. Para tentar controlar a indisciplina resolveram fazer eleições nas igrejas. Em Canindé, próximo a Paramoti, uma briga eleitoral fez com que Zé Antônio do Fechado matasse dois "cabras" dentro da basílica. Ele tinha um olho vazado e um cacho de cabelo caindo sobre a pestana para disfarçar, cicatrizes pelo rosto.

Padre Cícero

Falam do Padre Cícero como se fossem íntimos. Era de se esperar, já que fazem o mesmo com todos os santos... Contam que o padre estava mais para um coronel disfarçado de batina, em contos que eu não consegui distinguir se eram piadas ou sérios. Aí vai o milagre da lamparina: O velho pobre pediu ao Padre Cícero uma ajuda, pois estava na miséria. "O que você sabe fazer?", "Eu sei fazer lamparinas, Padre...", "Pois faça muitas, mas muitas mesmo, que o milagre virá!". O velho arranjou lata, pediu material emprestado e fez. "Padre, já fiz muitas, e agora?", "Espere". Alguns dias depois o Padre diz à multidão: "A próxima procissão será com lamparinas, mas elas têm que ser novas!".

O preguiçoso

O preguiçoso, tentando fugir do trabalho, se fingiu de morto. O Padre foi chamado. Notando a respiração, disse baixinho ao ouvido do preguiçoso: "Ouvi dizer que São Pedro tá precisando de mão-de-obra lá em cima". Foi o suficiente para despertar o morto e fazer então o milagre da ressurreição.

Coronel de Canindé

Um coronel de Canindé era tão bravo que mandou dar uma surra no "cabra" que tinha se apaixonado por sua filha. "Vai-te do Ceará! Se eu te vir por aqui, te mato!". Passados dez anos, o coronel foi ao Piauí comprar gado. Parou na cidade para fazer a barba. O barbeiro, sentado, o olhava firme enquanto afiava a navalha. "Da onde o senhor é? O que veio fazer aqui?". Quando não houve mais dúvida, se postou atrás do coronel, pôs a navalha em seu pescoço e disse secamente: "Pois o senhor se lembra do cabra que o senhor expulsou com uma sova? Sou eu!". E o coronel: "Pois faça a barba direito, senão lhe dou outra sova!".

Banquete de São Lázaro

Fui procurar Araci, o primeiro prefeito da cidade, que deveria estar cheio de histórias... Encontrei um senhor sem memória e desconfiado que não entendia nada do que eu dizia. Em sua loja de bugigangas encontrei também a D. Maria Carlo da Silva, 77 anos, pedindo esmola para a "mesada" do dia 1 de novembro, dia de São Lázaro. Depois de não entender o que ela dizia, Araci deu 1 real e se calou, sentado.


Paramoti, 1999, D. Maria Carlo e o ex-prefeito Araci em sua loja.
Crédito: Carol Quintanilha

Entrei em cena e resgatei a história: São Lázaro é o santo das chagas e na versão da narradora suas pernas cheias de feridas eram lambidas por cães. A mesma narradora me disse que também tem problemas nas pernas e uma vez suas dores foram tão fortes que achou que nunca mais andaria. Seguindo exemplo de sua irmã, que já havia sido curada por São Lázaro, ela fez uma promessa. Assim que se curou, juntou-se à penitência da irmã, que a cumpria há 15 anos. D. Maria, que se juntara à irmã havia seis anos, deve na época de outubro esmolar pela cidade e com o dinheiro recebido fazer uma "mesada". Ou seja, um banquete bem servido numa mesa, e liberar para os cães.

Os italianos

Todos na cidade citaram os italianos como exemplo de pessoas que vieram de fora para o sossego de Paramoti. Fui atrás deles e descobri que os italianos não são italianos. D. Maria de Lurdes Woboto Cordeiro, gaúcha, enfatizou a descendência da nobreza alemã. Não muito feliz com o sossego da cidade. Na falta do que fazer e com quem conversar ("Afinal, aqui não dá, né?"), cria peixes, tem gado, visita pessoas, fala no telefone ("Quantos idiomas a moça fala?"). Aos sábados abria a fazendinha com piscina e playground para crianças da região, fazendo um clube. Num sábado meninos e no outro meninas. "Atrapalha a gente, mas, coitados, não têm lazer por aqui...".


Paramoti, 1999. D. Maria de Lurdes Woboto Cordeiro, ao lado de João Cordeiro, segura foto do casal quando jovem.
Crédito: Carol Quintanilha

Aniversário de João Cordeiro

João Cordeiro fazia 84 naquele dia. Bonito. Olhos expressivos e confusos. Surdo. Silêncio. Chegamos, cantamos parabéns, e eu não sei bem se salvamos o seu aniversário ou se estragamos tudo. Comemos bolo e partimos.

Paz e guerra em Paramoti

Município com mais homem do que mulher. Tenho que escrever isso por encomenda dos homens de lá, que querem lançar o "movimento feminino rumo a Paramoti".

Infelizmente, esses reveses da memória, essas vitórias do esquecimento, ou de uma memória que se gostaria de ver superada, não são episódios ocorridos apenas em terras e contextos distantes.

Destino ingrato dos veteranos da Itália

Eduardo Feijó Santos, quatro vezes prefeito da cidade, me contou a seguinte história: formada por duas famílias que se casaram entre si, Paramoti teve sua primeira casa de tijolo feita apenas em 1901. Em 1910, num forró pé-de-serra, houve uma briga e morte a facada. Um mês depois outra morte matada se seguiu. Um padre franciscano de passagem por lá, que nunca foi realmente identificado, fincou uma cruz no local do crime e disse: "Enquanto esta cruz permanecer aqui, nenhum crime acontecerá!"

Pois desde então Paramoti nunca mais tinha tido um crime. Foram 90 anos em que a cadeia não teve um preso condenado. Durante esse período houve um assalto a banco por pessoas de fora. Tiro, perseguição, morte do ladrão, mas, atenção: já estavam fora do limite do município! O delegado Nascimento dizia: "Aqui de vez em quando é um caso ou outro de embriaguez e desacato, nada mais!" O coveiro José Rodrigues dos Santos reforçava que o trabalho era apenas limpar o cemitério e cuidar da tal cruz que lá estava. Parece que o padre franciscano foi poderoso. "Os franciscanos têm prestígio com Deus".


Paramoti, 1999, o coveiro José Rodrigues dos Santos.
Crédito: Carol Quintanilha

Que pena que esta situação mudou. Infelizmente, o município perdeu o posto de cidade sem crimes... Desde 2000, logo após a minha visita, aconteceu o primeiro crime e depois dele uma sucessão de outros. Conversei agora, nove anos depois, com Maria Luisa Honório Santos, secretária de Administração da Prefeitura, que me colocou a par de como andam os personagens com quem conversei naquela época e lamentou a situação da violência: "Mesmo assim ainda é uma cidade muito calma. Ainda colocamos as cadeiras na calçada como antigamente..."

Na estrada de volta para o hotel, Fernando Filho, colega do meu guia, mostrou onde a assombração loira apareceu a ele. "Surgiu do nada e veio em direção ao carro. Não parei. Era uma loira linda. Ninguém sabe dela, ninguém nunca a viu. Pelo retrovisor a vi indo e sumindo. Se aparecer de novo eu paro o caro na hora!!!". Passamos. Ufa, não apareceu.

(*) O leitor Arievaldo Viana esclarece em mensagem, na qual cita artigo de Gustavo Barroso na extinta revista O Cruzeiro, que José Antônio do Fechado (José Antônio de Souza Uchoa, residente na fazenda Fechado), nasceu em 1824, e que "durante a eleição do juiz de paz da comarca, no dia 8 de setembro de 1852, houve briga de cacete e faca no interior da Matriz do Canindé, seguida de forte tiroteio, onde tombaram mortos Manoel Mendes da Cruz Guimarães, Joaquim Alfaiate e um homem do povo chamado Benevenuto. José Antônio do Fechado teria sido o personagem central deste acontecimento".

Arievaldo transcreve versos de um desafio entre os cantadores Manoel Clementino e José Patrício, citado em Violeiros do Norte, de Leonardo Mota (Leota). Numa das estrofes, Clementino disse:

"(....) José Antônio do Fechado
Morreu em cima da cama,
Brigou, matou muita gente,
Morreu mas ficou a fama."

A bibliografia relacionada por Arievaldo inclui ainda: Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, de Átila de Almeida e José Alves Sobrinho; Cronologia Canindeense, de Hélio Pinto Vieira,"História Criminal do Canindé", folhetos escritos por Francisco Cordeiro da Rocha, Rochinha. O leitor cita ainda os poetas populares Clóvis Pinto Damasceno e Raimundo Rodrigues Marreiro.

Não respondo por Carol Quintanilha, mas é de notar que ela relatou histórias ouvidas num almoço em Paramoti. A Arievaldo Viana, nosso muito obrigado pelos esclarecimentos. Ele mantém um blogue sobre o assunto: http://fotolog.terra.com.br/acorda_cordel:46

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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