|
14.11.2007
ATUALIDADE DE ANNE FRANK
por Mauro Malin
Tami Toledo Matuoka, estudante de Relações
Públicas da Escola de Comunicação e Arte da USP, foi uma das monitoras
da exposição Anne Frank, Uma História Para Hoje, montada entre 1
de agosto e 2 de setembro, pela empresa WZM Plataforma Brasil Holanda,
no térreo das novas instalações da Livraria Cultura da Avenida Paulista.

O
painel de abertura da exposição
Crédito: WZM Plataforma Brasil Holanda |
Conversei
com ela no final de agosto. Essa conversa, e outra que tivemos por
telefone semanas depois, fez eco a pensamentos que me acompanhavam
ao percorrer os painéis da exposição: com facilidade inversa ao
desconforto de tomar posição e agir na arena política, perde-se
de vista que os fatos ali resumidos não remetem a questões de um
passado superado, mas do presente.
A Anne Frank House administra o museu
criado na casa em que se escondeu a família Frank em Amsterdã. Partiu
dessa entidade, em 1996, a iniciativa de fazer uma mostra em painéis
fotográficos andar pelo mundo. À época de sua chegada a São Paulo,
publicou-se um livro que reproduz grande parte das fotos e dos textos
exibidos: Uma história para hoje - Anne Frank (Amsterdã,
Anne Frank House, 2007). No prefácio se diz:
"O nacional-socialismo (nazismo) sofreu uma derrota militar em
1945, mas o corpo de pensamento que lhe deu origem continua a ameaçar
o mundo, sob variadas formas."
E dá exemplos: persistência do anti-semitismo e do racismo, a convicção
de que certos grupos de pessoas são melhores do que outros, o ressurgimento
nos países balcânicos, em plena Europa, nos anos 90 do século XX,
da idéia de "pureza racial", pretexto para uma terrível "limpeza étnica".
O dever de lembrar e o de não esquecer
No final de setembro, Jeanne Marie Gagnebin, professora de filosofia
da PUC-SP e de teoria literária da Unicamp, abriu com uma palestra
o Seminário Internacional Memória e Cultura - Amnésia Social e Espetacularização
da Memória. Sua mensagem principal foi: mais do que o dever de lembrar,
há o dever de não esquecer. Em especial, não esquecer a destruição
produzida pelo nazismo, tema antes de mais nada europeu, como os autores
que Jeanne Marie comentou.
Armênios e judeus
No debate após sua palestra, Jeanne Marie falou, a pedido de uma pessoa
da platéia, de um tema que ganharia peso no noticiário nas semanas
seguintes: o genocídio de armênios pela Turquia durante a Primeira
Guerra Mundial. A professora disse que há relativamente pouca memória
das vítimas porque elas eram, em sua grande maioria, analfabetas.
Diferentemente do que aconteceu com os judeus na Segunda Guerra, a
tragédia armênia foi transmitida oralmente, explicou. Mas
também a tragédia dos judeus não foi contada de forma ampla no primeiro
momento. No livro Uma história para hoje - Anne Frank lê-se
que depois da guerra havia pouco interesse em olhar para trás. Os
sobreviventes não só estavam preocupados em continuar sobrevivendo
como lhes teria sido insuportável voltar sistematicamente às memórias
do terror.
Em outubro passado, o caderno Mais! da Folha de S. Paulo
mostrou como foi - e, em alguma medida, ainda é - difícil e tardia
a recepção em Israel da obra de Primo Levi, escritor italiano que
produziu alguns dos mais importantes relatos sobre os campos de
extermínio. Num dos textos, assinado por Meron Rapoport, lê-se:
"Por que tanto atraso? Ariel Rathaus, professor de literatura
italiana na Universidade de Jerusalém, diz que Israel segue os EUA.
Quando lá se começou a falar de Levi (em meados dos anos 1980),
Israel também se deu conta de sua existência. Nem todos estão de
acordo. Dan Miron, respeitado crítico literário, escreveu que o
establishment israelense não podia aceitar Levi porque seu modo
de conceber o Shoah era contrário à maneira como Israel queria ver
aquele período. A Auschwitz de Levi, diz Miron, não era ´um outro
planeta´, mas ´a continuação e a manifestação da normal conduta
humana´. Israel, ao contrário, queria tratar o Shoah como um acontecimento
único, razão pela qual ´o melhor escritor da Shoa´ era ignorado
pelos estudantes israelenses. Também para Margalit Shlain [estudiosa
israelense que encontrou em 2007 no Yad Vashem, o mais importante
centro de documentação do extermínio de judeus na Europa, um depoimento
do escritor datado de 1960], Levi não foi ignorado por acaso. Israel
buscava heróis, e Levi não era um herói. A literatura israelense
sobre o Shoah pendia ao patético, e Levi observava Auschwitz com
um olhar quase calmo. Para completar, não era sionista."
Rapoport diz que as coisas mudaram e hoje os relatos de Levi são
estudados nos colégios de lá.
Nazismo russo
Também de Israel veio recentemente uma notícia à primeira
vista assombrosa: a prisão de um grupo de neonazistas. Há uma explicação:
seriam filhos de russos que se fizeram passar por judeus para escapar
da então União Soviética. Entre eles, diga-se de passagem, um contingente
não desprezível de mafiosos. Leia mais no blog O
outro lado da Terra Santa, de Renata Malkes.
A União Soviética, como se sabe, deu muito sangue pela derrota dos
nazistas. Isso torna mais amargo ler o que escreveu Martin Amis
no final do livro Casa de Encontros (Companhia das Letras,
2007), narrativa ficcional ambientada no Gulag:
"Naquela noite, era sexta-feira e Predposilov
[uma cidade remota] estava de porre, não de vodca, mas de álcool
cirúrgico, a trinta centavos o garrafão. Um quiosque era envidraçado
e totalmente iluminado, como um farol. Cheguei perto e observei.
Observei a confortável figura da loura em sua ratoeira. Tudo o que
tinha para vender era álcool cirúrgico e pilhas de livros de bolso
de um só gênero. Era tudo o que ela negociava: O mito dos seis milhões,
Mein Kampf, Os protocolos dos Sábios de Sião, e álcool".
Infelizmente, esses reveses da memória, essas vitórias do esquecimento,
ou de uma memória que se gostaria de ver superada, não são episódios
ocorridos apenas em terras e contextos distantes.
Destino ingrato dos veteranos da Itália
Eu me lembro de um certo desprezo com que muitos jovens víamos desfilar
em meio aos soldados, nas paradas de Sete de Setembro, os veteranos
da FEB, a Força Expedicionária Brasileira. Durante a ditadura, compreende-se
que as paradas militares fossem vistas com maus olhos pelos opositores
do regime. Mas os pracinhas eram o que havia de mais concretamente
antinazista no Brasil! Ao longo dos anos, valorizei cada vez mais
o papel do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o que só me deixou
mais intrigado a respeito daquele estranho sentimento.
Uma explicação é fornecida no livro O Brasil na mira de Hitler,
de Roberto Sander (Rio de Janeiro, Objetiva, 2007). Ele fala dos
pracinhas da FEB:
"Depois de uma calorosa recepção, em que desfilaram heroicamente
pelas ruas da capital federal, por determinação do governo os expedicionários
foram apressadamente desmobilizados, sendo, inclusive, proibidos
de ostentar condecorações e andar uniformizados. Eram devolvidos
aos seus lares, sem qualquer assistência ou garantia de emprego.
Mesmo os que tinham seqüelas do conflito - mutilações, deficiências
visuais e auditivas, neuroses e alcoolismo - acabaram esquecidos.
Sander cita uma tese de doutorado do professor de história Francisco
César Alves Ferraz ("A Guerra que não Acabou - a Reintegração Social
dos Veteranos da FEB"):
"As dificuldades para partilhar com a sociedade as recordações
da participação na guerra, por parte dos veteranos, eram semelhantes
à sua reintegração social. As pessoas já não queriam ouvir os ex-pracinhas
e suas histórias de batalhas [Milton Nascimento e Fernando Brant
destacaram em Conversando no bar, entre os casos da campanha da
Itália que contava um motorneiro de bonde, o "tiro que ele não levou"],
e várias vezes ex-combatentes chegaram a escutar que o que fizeram
na Itália fora mais um passeio do que a participação numa guerra
de verdade."
E Sander:
"Essa marginalização foi conseqüência da decisão da cúpula militar
do Estado Novo de impedir, a todo custo, uma possível utilização
política dos pracinhas que lutaram pela democracia - o que fez com
que acabassem sendo tratados como estorvos."
Guerra, o pior inimigo
Ao terminar de percorrer a exposição de Anne Frank, folheei o livro
de assinaturas e encontrei uma manifestação de descrença em relação
a tudo o que ali se exibia. Esse foi o primeiro ponto de minha conversa
com Tami. Ela disse que se tratava de uma minoria ínfima entre os
6 mil visitantes que, calcula, passaram por lá. Ínfima. Meia-dúzia.
Esses sempre chamam a atenção, porque contrariam o senso comum,
as idéias otimistas, ou irrealistas, sobre os rumos da humanidade.
Mas o que impressionou a estudante foram os que se preocupam em
não esquecer, como ela diz neste áudio.
Um episódio familiar ocorrido na época
da exposição fez Tami trazer para seu dia-a-dia o tema da solidariedade,
que havia permitido a Anne Frank viver para escrever o Diário, mas
não sobreviver ao extermínio. Ouça
o áudio.
Traduzir para a vida de hoje as lições
das duas guerras mundiais é uma tarefa em aberto. O homem está longe
de ter aprendido que seu pior inimigo, pior do que a pobreza e a
doença, é a guerra.
P.S. - Após a exposição, Tami tornou-se funcionária da WZM Plataforma
Brasil Holanda. Ela criou um blog
para divulgar o trabalho da empresa.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
|