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22.11.2007

COLUNA DO CASTELLO NA ÍNTEGRA

por Mauro Malin

Os sonhos mais otimistas de estudiosos da política contemporânea do Brasil estão corporificados no site www.carloscastellobranco.com.br, criado por Luciana Castello Branco, filha de um dos maiores, se não o maior colunista brasileiro de política da segunda metade do século XX. Ela atendeu a um pedido da mãe, Élvia Lordello Castello Branco, falecida em novembro de 2005, e fez digitalizar e colocar na internet todas as edições da Coluna do Castello no Jornal do Brasil (a coluna estreou com esse nome em 1962, na Tribuna da Imprensa, então sob controle do JB). São 7.446 textos publicados entre 3 de janeiro de 1963 e 29 de janeiro de 1993.

Nascido em Teresina em 1920, formado em direito em Belo Horizonte, onde se iniciou no jornalismo, Castellinho dirigiu redações importantes na capital mineira e no Rio de Janeiro. Em Brasília assumiu seu único cargo no governo, secretário de Imprensa do presidente Jânio Quadros, convidado por seu amigo José Aparecido de Oliveira (falecido em 19 de outubro passado).

Isso foi em 1961. Luciana Castello Branco conta que o pai ficou em Brasília porque Élvia, que era juíza no Rio de Janeiro, já havia assumido um cargo no Tribunal de Contas do Distrito Federal, onde chegaria a ministra. Pouco antes da renúncia, Jânio havia perguntado a Castello: "E a mulherzinha, ainda não veio?" Ela foi. Jânio é que não ficou.

Carlos Castello Branco sabia colocar em perspectiva o dia-a-dia da política na capital federal. Sabia colocar em perspectiva a própria capital, como se lê numa das primeiras colunas, de 9 de janeiro de 1963:

"Não é que Brasília não cresça e progrida como cidade. Cresce e progride, com ou sem a presença do Governo, mas sem a dignidade de Capital. Cresce como um burgo goiano, contornando a geometria do Plano Piloto e pontuando o cerrado de favelas".


Engajamento democrático

São inumeráveis os objetos de pesquisa que o repertório do colunista oferece. Destaco uma passagem ilustrativa das qualidades que tornaram a Coluna do Castello verdadeiro instrumento de navegação política, para os interessados na reconquista da democracia, durante a ditadura militar. Foi escrita em 6 de setembro de 1969, após a junta militar governante ter aceitado condições impostas pelos seqüestradores do embaixador americano Charles Burke Elbrick para libertá-lo.

Começa com um elogio ao governo por ter cedido às exigências dos seqüestradores:

"As circunstâncias e o nível dos deveres governamentais desaconselhavam qualquer tentativa de estabelecer uma competição ou de aceitar o desafio. Foi feito o que podia e o que devia ser feito, e a opinião pública parece inclinada a tomar as coisas por esse lado".

Para entender melhor o significado desse aplauso deve-se levar em conta que militares descontentes com a decisão da junta cogitaram impedir o embarque dos 15 presos trocados pelo embaixador e "inverter o jogo": fuzilar um a cada hora, no Centro do Rio, caso Elbrick não fosse posto em liberdade. Mesmo que disso resultasse a morte do embaixador.

Castello, nesse texto, escrito em conjuntura dramática, põe a tônica na crítica aos rumos do regime:

"(....) não se deve esquecer que a rede subversiva ampliou-se, aprofundou-se e ganhou importância no curso deste dois últimos anos [o jornalista fala do período marcado pelo Ato Institucional número 5, o AI-5, de 13 de dezembro de 1968] em que praticamente se lançaram para um futuro remoto as perspectivas de uma recomposição da vida brasileira em termos de convivência democrática. Caminharam para a faixa da oposição quando não do desespero parcelas cada vez maiores da população, que iriam se tornar a matéria-prima para recrutamento e formação dos grupos subversivos";

"Houve dois ou três anos [após o golpe de 64] de confiança e expectativa de uma normalização da vida institucional e da devolução dos padrões de liberdade política de que desfrutava anteriormente a sociedade brasileira.

Tal perspectiva, porém, deixou de ser coberta e, em seu lugar, operou-se uma intensificação da ação repressiva que iria encontrar terrível resposta na série encadeada de atentados terroristas. Hoje temos o que não tínhamos em 1964: vivemos episódios típicos do que foi tecnicamente definido como guerra revolucionária ou subversiva".

"Há erros clamorosos em nossa orientação política global e esses erros se refletem na crescente insegurança e na crescente ameaça à paz e ao desenvolvimento do país. O caso da subversão é de polícia mas também de política".

Ameças, morte do filho Rodrigo

O site entrou no ar no dia 1 de novembro. Luciana diz que escolheu essa data para comemorar o aniversário de Lindaura Nunes Brandão, a babá dos filhos de Castello (ela aparece com Élvia na primeira foto da galeria de imagens; trata-se da inauguração da Sala de Redação Carlos Castello Branco, no Palácio do Planalto, em dezembro de 2003).

Uma das preciosidades publicadas é uma longa entrevista de Castello à jornalista Adriana Zarvos. Está sendo inserida em blocos que constituirão o livro "Castello, 50 anos de jornalismo", edição a cargo de Luciano Trigo.

Castello foi preso quatro ou cinco vezes depois da decretação do AI-5. Recebia cartas com ameças do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e de grupos ligados aos órgãos de repressão do regime. Seu filho mais velho, Rodrigo, morreu num estranho acidente de carro em Brasília, em maio de 1976, após o que a correspondência cessou. Luciana conta no áudio abaixo o que sabe desse período sombrio:



O relato da conversa com o ex-presidente João Goulart mencionada por Luciana está nesta página do site de Castellinho.

A morte anunciada de Juscelino

Depois da morte de Rodrigo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek recebeu Castello e sua família em sua fazendinha de Goiás. Juscelino morreu também num acidente suspeito de automóvel, em 22 de agosto de 1976. Estranhamente, uma semana antes haviam telefonado a Castello dando a notícia do acidente com Juscelino. Luciana comenta esse episódio neste segundo áudio.



Vera Brant, a amiga de Juscelino citada por Luciana, comenta em seu site a visita da família Castello Branco ao ex-presidente.

A maneira como são construídas as narrativas históricas faz com que certos traços sejam reforçados e outros esmaecidos, quando não anulados. Assim, muitos podem imaginar que o governo de Ernesto Geisel, o quarto e penúltimo ditador, tenha sido literalmente o da "abertura lenta, gradual e segura" por ele anunciada. Foi, na verdade, um período de luz e sombra, com avanços e recuos e uma dose terrível de brutalidade, que inclui tortura e morte de presos políticos, como Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, as mortes suspeitas de Juscelino Kubitschek e Goulart, acidentes mal explicados - como o que matou Rodrigo Castello Branco -, atentados a bomba e episódios de intimidação de oposicionistas, como o seqüestro do então bispo de Nova Iguaçu, Estado do Rio, D. Adriano Hipólito.

Em 2005, quando se completaram trinta anos do assassinato de Vladimir Herzog, o Museu da Pessoa colheu depoimentos dos jornalistas Alberto Dines, Audálio Dantas, José Vidal Pola Galé, Luiz Weis e Rodolfo Konder. E publicou também, em colaboração com o Observatório da Imprensa, um dossiê intitulado Vlado, a Memória Necessária, preparado pelo jornalista Luiz Egypto. Clique aqui para conhecer esse material.

Essa memória é necessária para que jamais se perca de vista o que significa para os brasileiros a conquista da democracia. Ainda que tanta coisa esteja por conquistar até se poder falar propriamente em democracia.

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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