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28.11.2007

HERR PURWIN E HERR BAUMEISTER

por Mauro Malin

Thomas Purwin foi meu colega na Faculdade de Arquitetura da URFJ, no Rio de Janeiro, de onde saímos em 1970, ele com uma profissão e eu com um diploma. Seu pai era um judeu alemão que escapou do nazismo e se fixou em Ipanema, mais precisamente em diferentes endereços da Rua Visconde de Pirajá, território preferido de Thomas.

Thomas fez uma primeira viagem à Alemanha pouco depois de formado, com sua primeira mulher. Não ficou lá muito tempo. E o casamento também não durou. Em meados de 1989, resolveu voltar para a Alemanha, com a nova família - mulher, dois filhos e duas filhas. Ele foi primeiro e conseguiu emprego num escritório de arquitetura na cidade de Nieder Roden, a sudeste de Frankfurt.

Clique aqui para ver a localização da cidade no Google Maps.

A família chegou em 1 de janeiro de 1990. E logo ocorreu um episódio futebolístico que Thomas narra neste áudio.



O treinador de futebol de Nieder Roden não se deu por satisfeito com a escalação de Thiago, filho de Thomas. Convocou o próprio Thomas, que não comenta sua atuação na cancha mas lembra-se vivamente da comemoração etílica após a primeira pelada. Ouça.

No livro livro Paisagens da Memória - Autobiografia de uma sobrevivente do Holocausto, Ruth Klüger fala de sua convivência com estudantes universitários na Alemanha depois da guerra:

"Os estudantes se tratavam formalmente, o senhor, a senhora, e nós [pessoas que não eram estudantes universitários mas assistiam a aulas na Escola Superior Filosófico-Teológica de Regensburg, em 1947] também; coisa impensável hoje em dia que dois estudantes se tratem com formalidade em passeios ou visitas a teatros. Entretanto, este tratamento ridículo na perspectiva atual era correto para nós, era adequado como sinal de distância, e a distância, por sua vez, como o tempero no qual essa amizade resistiu anos afora. Somente nos anos 60, quando todos se tratavam informalmente por você ou tu na Alemanha, começamos também a fazê-lo (....)".

Diferentemente do que imaginava Ruth, tratamento cerimonioso é um traço cultural que a pós-modernidade, ou que nome tenham os tempos atuais, não modificou, ou não modificou em toda parte da Alemanha. É o que se deduz da história que Thomas conta sobre o tratamento que vigorou durante os primeiros anos de sua relação com o matemático Hans Baumeister, seu vizinho de condomínio em Nieder Roden, e as mudanças que este lhe propôs.

Como o mundo às vezes é pequeno, Hans costuma visitar o Brasil, onde às vezes trabalha no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Impa, no Rio. E se reencontra com Thomas. Ouça neste áudio.



O filho mais velho de Thomas, Tito, viveu na Alemanha num período da adolescência em que é mais difícil estabelecer laços com outros jovens. Não gostou da experiência. Os outros três filhos têm um comportamento curioso, diz Thomas: afeiçoam-se àquele dos dois países onde estão em cada momento. Talvez as crianças mais novas não se tenham deixado marcar muito pelo tratamento formal que Thomas encontrou na época. Ouça o áudio.



A sabedoria do imigrante inclui aprender a navegar entre as características de sua cultura herdada e as do país ou lugar para onde se muda - ou, em casos infelizmente tão numerosos, para onde é empurrado.

P.S. - Há no acervo do Museu da Pessoa mais histórias de pessoas nascidas na Alemanha, como

Hans Otto Taube

Irena Bedonska Viti

Leonie Rosenthal

Hilda Margarita Makuz nasceu na Argentina, de pai austríaco e mãe alemã.

Vários personagens do projeto Heranças e Lembranças, todos judeus como o pai de Thomas, nasceram na Alemanha.



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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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