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05.12.2007
ANANINDEUA, PARÁ
por Mauro Malin
"No Pará, por incrível que pareça, é corriqueiro manter mulheres em cela masculina", escreveu a Veja de 28 de novembro. Múltiplas violações de uma menina de 15 anos encarcerada com trinta homens numa prisão haviam chamado a atenção da mídia para Abaetetuba, cidade a 90 quilômetros de Belém.
O Google
Maps permite visualizar a localização da cidade.
Os relatos escritos alcançam, como se sabe, uma minoria bem pequena de brasileiros. Para esses segmentos da população, é como se periodicamente, a reboque dos acontecimentos (quase sempre) ou de forma planejada (quase nunca), se fizesse uma visita etnográfica a alguma região selvagem. Não a milhares de quilômetros de distância, mas a poucos quilômetros do centro de qualquer das capitais brasileiras, a federal incluída.
Trabalhos como Falcão, os Meninos do Tráfico, de MV Bill
e Celso Athayde, não se enquadram nessa categoria, porque, embora
dirigidos ao mesmo público letrado, são iniciativa de pessoas que
têm contato cotidiano, não eventual, com as realidades retratadas.
Curioso seria estudar a recepção do noticiário da televisão a respeito
desses casos miseráveis. Talvez uma parte nada desprezível da audiência
- e a audiência da tevê aberta no Brasil é hoje praticamente universal,
portanto isso equivale a dizer uma parte nada desprezível da população
- conheça por experiência própria realidades assim. Nós, da minoria
que lê jornais e revistas, é que as conhecemos quase sempre de ouvir
falar. Somos poupados.
Ananindeua, Pará
Alguns depoentes do Museu da Pessoa relatam condições de vida muito duras. Em outra cidade paraense, Ananindeua, região metropolitana da capital (na imagem do Google Maps ela aparece a nordeste de Belém), Amezilda Calandrini Santos, agente comunitária de saúde ouvida no Projeto da Abifarma 50 Anos, de 1997, mostrava como uma comunidade pobre se deteriora em poucos anos:
"P - Quanto tempo tem essa invasão?
R - Dez anos.
(....)
P - Então já tinha um tempo da invasão quando você entrou?
R - Tinha mais ou menos meses, estava nova, bonita, aquelas coisas de casas bonitinhas, limpinho, que eu nunca pensei que ia ficar assim como ficou. Agora que eu vou aprendendo o que é a invasão. A invasão, está aquela área toda limpa, aí faz casa, casa, casa, aí já vem sanitário, que não tem. Sanitário, cava um buraco e fica ali, o poço cava ali perto. Agora eu vim entender. Eu pensei que ia ficar todo tempo bonito, limpinho, como era limpo. Agora é lama, a gente fala que não tem para onde sair a água, fica tudo parado.
P - Quando você chegou era bom e depois ficou ruim?
R - Era, era bom. Eu adorava."
Vítima do ´terçado´
Nesse contexto de falta de meios, a agente comunitária de saúde conta histórias assim:
"R - Tem muita briga de bandido. Eles brigam.
P - Por causa de droga, tóxico? Lá não tem tráfico de drogas?
R - [Silêncio.]
P - E aí acontece muito tiroteio, gente se machuca?
R - Acontece.
P - E vai parar na tua porta?
R - Vai parar na minha porta e querem que eu faça. ´Eu não posso,
gente.´ Eu faço. O que der eu faço, nem que seja um pedaço de pano
ou uma fralda, eu peço nas vizinhas. Um dia desses chegou um bandido,
desculpe te dizer, o braço dele, este braço dele estava quase caído.
Você já pensou?
P - O braço esquerdo?
R - Sim. Aquele sangue jorrando.
P - Tinha levado um tiro?
R - Tinha levado ´terçado´.
P - ´Terçado?´ Uma faca?
R - Sim. Um ´terçado´ grande, quase tira o braço do rapaz, sabe?
´Faça alguma coisa por mim!´ Eu digo: ´Eu não posso, eu não tenho
nem carro, não tenho nada para fazer por você, tem pronto socorro
e é rápido. Tu vai morrer se tu não for logo, vai logo, vai logo.´
E chama a família, pega a camisa ou uma fralda mesmo, amarra aqui.
Esse eu agi aqui, estava demais. As veias estavam cortadas.
P - E você fez o quê? Você amarrou o torniquete em cima?
R - É. Aí apareceu... Nós temos um vizinho que tem carro, boa posição
financeira, mora dentro da comunidade, e esse vizinho nunca optou
por dizer que não. Bateu na porta dele para pedir uma ajuda com
o carro, ele prontamente está preparado para fazer o favor. Para
levar aquela pessoa.
P - Ele levou...
R -Ele levou o rapaz para o Pronto Socorro e está bem de novo. Já
está a mesma coisa (riso).
P - Isso é que é duro.
R - Isso é doído."
Clique
aqui para ler o depoimento de Amezilda Calandrini. A página de
entrada do projeto de Agentes da Saúde pode ser vista aqui.
Uma realidade que está longe de ser do Norte. É do país todo. Eu ia
terminar com citação referente à situação carcerária em São Paulo,
mas abstenho-me de fazê-lo. Seria pesado demais. Mais do que o que
já se leu acima.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
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