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09.01.2008
CICERONE DE MÁRIO DE ANDRADE EM
BH
por Mauro Malin
Wilson Figueiredo, Figueiró para
os amigos, é um dos nomes que vêm à mente quando
se pensa no Jornal do Brasil, onde trabalhou 45 anos. Nasceu
por acaso em Castelo, no Espírito Santo, em 1924, foi batizado
em Belo Horizonte e cresceu em diferentes cidades de Minas Gerais
– com uma passagem pelo Liceu Municipal de Orlândia,
interior paulista.

Wilson Figueiredo
Figueiredo é jornalista, mas começou
a descobrir o mundo pela literatura e com amigos que se tornaram
autores célebres: entre outros, Otto Lara Resende, Fernando
Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Sábato
Magaldi, Autran Dourado e João Etienne Filho. Ciro dos Anjos
e Emílio Moura também faziam parte do grupo, mas eram
de uma geração anterior, a de Carlos Drummond de Andrade.
Um jornalista que passeou pela ficção
e acabou na Academia Brasileira de Letras, Carlos Castello Branco,
amigo fraternal de Otto Lara Rezende, deu a Figueiró o primeiro
emprego numa redação, em Belo Horizonte.
Figueiredo era rapazote, livre do controle
familiar – morava numa pensão, seus pais em outra cidade,
trabalhava como redator de notícias internacionais da Agência
Meridional –, e foi com essa liberdade que, em 1944, se tornou
cicerone de Mário de Andrade na capital mineira. Mário
ficou impressionado com a vitalidade de Figueiró, que conta
a história neste áudio:
Isso que Figueiredo conta com jeito simples, pé no chão,
tinha para Mário a força de uma verdadeira crença.
Em resenha publicada no Jornal do Brasil em 1983 (29/1)
sobre o livro com cartas de Mário para Drummond (A Lição
do Amigo – Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond
de Andrade), José Guilherme Merquior, intelectual que
morreu em 1991, faz uma longa citação, aqui abreviada,
tirada de uma das cartas de Mário:
“Só há
um jeito de viver a vida: é ter espírito religioso.
Explico melhor: não se trata de ter espírito católico
ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a
vida, isto é viver, com religião a vida. (....) Eu
acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços
de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem
de verdade da vida. Como não atinaram com o jeito de gostar
da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria,
o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste.”
Lição atualíssima,
entre tantas transmitidas no livro: fingir alegria é mais
idiota do que ser sinceramente triste.
Na apresentação dessa correspondência,
Drummond escreve que a primeira visita de Mário a Belo Horizonte,
em 1924, quando se conheceram, foi capitaneada por Dona Olívia
Guedes Penteado (Figueiredo diz no áudio “Yolanda Penteado”,
sobrinha da primeira). E, sobre a relação estabelecida
com Mário, revela:
“Estabeleceu-se imediatamente
um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida
intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo
estímulo à atividade literária por mim recebido
em toda a existência.”
Figueiredo dá uma explicação
para a paciência e a generosidade com que Mário acolhia
originais que lhe eram submetidos por iniciantes: a experiência
de ter sido mal recebido, na juventude, por um poeta então
famoso.
Não conheço o que se escreveu sobre a participação
mineira no Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, realizado
em São Paulo no final de janeiro de 1945. Foi um marco da
luta pela redemocratização do país, quando
já se entendia que, perto da derrota nazista na Europa, o
Estado Novo brasileiro não poderia sobreviver. Argumento
político que não anulou algo que se poderia ter como
proverbial prudência mineira mas era apenas, diz Figueiredo,
reflexo condicionado de quem vivia mergulhado no oficialismo.
O jovem Figueiredo, liberto desse constrangimento,
aproveitou:
Ouça mais sobre literatura em Memórias
da Literatura.
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