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11.2.2008

A TROCA DA BATINA PELO ÁLCOOL

por Mauro Malin

Em algum momento da década de 10 do século XX, na cidade de Columbus, estado americano de Ohio, James Aloysius Burns, de pais irlandeses imigrantes, casou-se com Gertrude Fetter, de pais austríacos. Ambos eram católicos fervorosos. Gertrude Fetter Burns teve dez filhos em 12 anos. As seis mulheres se tornaram freiras. Uma delas é hoje a superiora das Irmãs de Nossa Senhora de Namur, ordem a que pertencia a missionária Dorothy Stang, assassinada no Pará há dois anos. Dos quatro homens, três se tornaram padres e um, não. Esse teve dez filhos.

Um dos irmãos que usaram batina é John E. Burns, nascido em 1931. Ele foi ordenado padre oblato, de uma ordem canadense, em 1958. Queria ir para o que se chamava na época Indochina, mas a derrota dos franceses em Dien Bien Fu, em 1954, que dera independência efetiva ao Vietnã do Norte – poucos anos depois atacado pelos Estados Unidos –, impediu sua ida para lá. John Burns veio para o Brasil, onde se tornaria, muitos anos depois, o criador e principal dirigente da Vila Serena, Centro para Tratamento de Dependência Química (http://www.vilaserenasp.com.br).

Essa descrição linear esconde muitas idas e vindas. A principal delas diz respeito a como, antes de tratar de dependentes, ele foi um deles:



O álcool a que se refere John Burns é a cerveja. Dá o que pensar para quem imagina que é simplesmente uma bebida inocente. Pode ser, pode não ser. John, que viveu em Fortaleza, Porto Alegre, Rio e Recife, mergulhou na cerveja na cidade em que ele liderava uma paróquia de gente chique: São Paulo.

O criador da Vila Serena, que desde 1982 trata com usuários e dependentes de todo tipo de droga, viu o filme Meu Nome Não é Johnny, gostou, mas faz reparos:



Nada como um filme atrás do outro, com algumas conversas no meio. Para mim, Bicho de Sete Cabeças foi um filme de primeira linha. Mas a visão do especialista John Burns é diferente. Por isso é sempre bom querer saber mais sobre cada assunto, na medida das possibilidades de cada um. Nossas descrições da realidade são sempre mais ou menos superficiais, e trabalhamos intelectualmente com essas sínteses precárias. O resultado só podem ser visões de mundo que variam do relativamente complexo ao grotescamente simplório. Na cabeça de cada um de nós.

A vida de John Burns é uma história e tanto. Conheço alguns poucos pedacinhos. Em breve teremos novos capítulos dela.


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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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