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26.2.2008
VENDEDORES, COMPRADORES E OUTRAS HISTÓRIAS
GAIATAS
por Mauro Malin
Um amigo meu mostrou-se preocupado, dias
atrás, com um problema aparentemente bizarro, mas sério
para quem praticamente só usa sapatos de tênis, porque
os outros incomodam. Ele vai a uma gigantesca feira de produtos
da indústria gráfica na Alemanha, daqui a alguns meses.
E pensou em voz alta: Acho que vou usar terno e tênis. São
quatro pavilhões do tamanho do Anhembi, e um deles tem três
andares. Com sapato social, não consigo andar tanto. Outro
disse: que importância tem isso na Alemanha, onde as pessoas
andam tão à vontade? Depois, pensou mais um pouco
e perguntou: Você vai vender ou comprar? Se vai vender, precisa
ir bonitinho. Se vai comprar, pode ir de tênis, chinelo de
dedo, bermudas...
Eu já vi vendedor de serviços
literalmente de bermudas e sandália havaiana. Mas o ambiente
era todo informal. Em situações convencionais, funciona
a equação: vendedor tem que se vestir nos trinques.
E agüentar caprichos, idiossincrasias e maluquices do comprador.
Lembro-me de uma estagiária da Câmara Americana de
Comércio de São Paulo que foi propor a um empresário
associar-se à entidade. Ao chegar, contou, encontrou ao pé
da mesa do empresário um cão, que, de tão grande,
parecia um leão. E não conseguia tirar os olhos do
bicho. O homem, para complicar ainda mais a cena, fumava charuto.
A moça desenrolou como pôde o script de venda
e tratou de sair rápido de lá. Não sei se o
dono da empresa virou ou não sócio da Câmara
Americana.
Numa conversa que tive em novembro com
o representante de vendas Divino Marques Sobrinho, do Laboratório
Aché, narrada aqui sob o título Coração
de vendedor, ele me contou histórias engraçadas
que compartilho agora.
A primeira é a da molecagem de
um médico:
A segunda é a de um trote entre
representantes de venda que acabou se voltando contra os autores:
Episódios gaiatos ou curiosos
do mundo do trabalho são um filão saboroso.
Eu trabalhava na editoria de Política
do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. A história
aconteceu em 1986 ou 1987. A informatização do jornal
tinha apenas começado. Começou pela Política,
por sinal. A sucursal de Brasília ainda não estava
conectada ao Rio. A coluna diária de Carlos Castello Branco
vinha por malote, de avião, e era redigitada num computador
na redação do Rio. Um dos redatores se encarregava
disso, sempre no início da tarde, porque Castellinho fazia
a coluna de manhã, com informações recolhidas
na véspera.
Início da tarde em jornal é
um período mais relaxado, ou menos alucinado, como preferirem.
O editor era Marcelo Pontes, que contou uma ótima história
sobre sua cidade natal, Aracoiaba, no Ceará, aqui chamada
“Seu
Neo, o inconcebível guardião”. Marcelo,
naquele dia, encarregou Jura, Carlos Jurandir, de redigitar o texto
do Castello. E Jura, cabeça no mundo do jazz (ele toca trompete
e flugelhorn), saiu digitando. No final, quando deveria escrever
“Carlos Castello Branco”, escreveu seu nome completo:
“Carlos Jurandir Monteiro Lopes”.
O artigo desceu para a gráfica.
Lá, alguém se deu conta da troca de assinatura. Mas
como Castellinho, para ter uma folga, pelo menos uma vez por semana
era susbtituído por alguém, o que ocorria também
em suas férias, o gráfico, em vez de perguntar à
redação se a assinatura estava correta, tirou o bico-de-pena
com o rosto de Castellinho. Quando a coluna era assinada por um
substituto, não tinha bico-de-pena.
E assim o jornal saiu para os leitores.
Coluna do Castello assinada por Carlos Jurandir Monteiro Lopes.
Marcelo, nesse dia, prometia uma punição drástica:
“Estou com gosto de sangue na boca” – o que ninguém
levou a sério, porque nem o Jornal do Brasil, nem
muito menos o Marcelo, doce sujeito, tinham tradição
punitiva.
Em Brasília, alguém perguntou
a Castellinho se ele tinha visto a coluna. E ele: “Vi. Esse
Carlos Jurandir escreve bem, hein?...”
Leia mais sobre Castellinho em “Coluna
do Castello na íntegra”.
A próxima história, deste
texto que já ficou longo, envolve trabalho e família.
Alex Periscinoto conta um caso famoso de manequim resumido assim
no livro Memórias do Comércio, editado pelo
Museu da Pessoa para o Sesc-SP em 1995:
“Meu cunhado casado com a irmã
da minha mulher era muito linguarudo. Nos anos 50, eu trabalhava
no Mappin e tinha um velho Coupé Mercury 1948. A manivela
do vidro oposto ao do motorista estava quebrada. Um dia de chuva,
na hora da saída, a Sônia, irmã de um diretor,
me diz: ´Alex, você vai para a Vila Clementino?´
– ´Vou.´ – ´Me leva?´ –
´Claro.´ A Sônia teve que sentar perto de mim
porque o banco estava molhado embaixo da janela dela. Subo a Rua
Augusta, antes do Cine Marajá tem um sinal, eu paro, ouço:
´Fiu, fiu´, era aquele meu cunhado. Pensei: ´Meu
Deus do céu, todos, menos esse!´ Com a Gazeta Esportiva
feito telhado na cabeça, ele fazia um gesto como quem diz
: ´Abre a porta que eu pulo´, e a Sônia meio tonta,
já enxugando o lugar onde ele ia sentar. Pensei: ´Não,
esse não´. O sinal ficou amarelo, fui embora, deixei
ele lá. Imagina a situação que eu criei. A
Sônia falou: ´Alex, eu conheço tua mulher, vou
falar com ela, você está só me levando para
casa!´ Mas eu deixei a Sônia, peguei o carro e voltei
para o Mappin. Cheguei e falei para o Zé Paródia,
era meu subordinado, acho que trabalha lá até hoje:
´Coloca um desses manequins de gesso aí, vestido, no
assento da frente do meu carro.´ Sabe esses manequins que
ficam na vitrine com dedos tortos, de gesso, peruca de náilon?,
ele pôs. Eu fui segurando, que o bicho caía. Quando
cheguei em casa, falei para minha mulher: ´Eu demorei porque
tenho que comprar umas duas dúzias de manequins. Tem um de
mostruário aí.´ Ela olhou pela janela da cozinha:
´Acho bom tirar isso daí, senão vão dizer
que você está andando com mulher no automóvel.´
Ela me ajudou a desatarraxar e botamos tudo na mala do carro. Jantamos,
eu falei: ´Vamos jogar buraco lá na casa da tua irmã?´
– ´Vamos.´ Entramos, não deu outra: ´O
Alex assim, assado´ – o louco contou tudo, com todos
os detalhes. Acabou de falar, minha mulher nem olhou para ele, olhou
para a irmã: ´Você fala para o seu marido tomar
cuidado porque ele é muito linguarudo. Era um manequim, eu
ajudei a tirar, agora eu tive a prova de que ele fica inventando
histórias do Alex.´ Ele olhava para mim como quem diz:
´Como é o negócio?´ Nós jogamos
buraco naquela noite, ele dava carta para mim dizendo: ´O
manequim.´ Passados dois anos, eu estava pescando sossegado
no barco dele, no Guarujá, eram dez da noite, ele meteu o
pé nas minhas costas e me jogou na água, eu só
ouvi: ´Manequim é a puta que te pariu!´ Acho
que ficou dois anos com aquele negócio atravessado.”
Leia o depoimento completo de Alex
Periscinoto no projeto Memórias do Comércio de
São Paulo.
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