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9.4.2008

ÁRVORE DE NATAL VAI LONGE

por Mauro Malin

João Batista da Costa Veiga nasceu em Lajinha, Minas Gerais, município colado a Ibatiba, Espírito Santo, em 2 de maio de 1962. Criou-se na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. Mora em Paciência. Casado com Nilda Celestina dos Santos, tem duas filhas: Leandra e Leliana. Batista, como é chamado por Dona Nilda, aparece na foto abaixo. Repare no que está escrito no out-door da Samsung: “Imagineaza-ti o noua forma...”

Que língua é essa? Uma daquelas línguas românicas de que a gente ouvia falar no ginásio (faz tempo...). Por exclusão, o leitor já deduziu: se não é português, italiano, francês, espanhol, nem catalão, só pode ser romeno. (O dicionário – Aurélio – dá mais algumas: galego, provençal, franco-provençal, gascão, reto-sardo, sardo e dalmático; mas no ginásio só ouvíamos falar das principais.)

Sim, é romeno. E a foto foi tirada em Bucareste no fim de 2007.

O que Batista fazia lá? Mais uma pista na foto seguinte, em que ele aparece com seus colegas eletricistas diante de uma grande estrutura metálica.

Ainda não dá para ter certeza. Muito bem. A foto seguinte revela o assunto: estrutura metálica de uma árvore de Natal parecida com a da Lagoa, no Rio de Janeiro. Só que a terceira foto não foi tirada em Bucareste, mas sim em Varsóvia, no final de 2005.


Agora, a árvore de Varsóvia – 72 metros de altura – iluminada.

Batista trabalha numa firma carioca chamada P&G Montagem de Feiras e Eventos. Trata-se da empresa que põe de pé a famosa árvore de Natal da Lagoa. Foi contratada por um banco português, o Millennium BCP, para montar árvores semelhantes na Polônia e na Romênia.

Coisas da globalização. Se alguém tivesse colocado essa historinha numa obra de ficção, soaria forçada. A famosa questão da verossimilhança: obra de ficção tem compromisso com ela, a vida não precisa ser verossímil. Simplesmente acontece.

Sucesso na Romênia, nem tanto na Polônia

Na Romênia, contou-me Batista em conversa no dia 6 de abril, a árvore foi um sucesso estrondoso. Inaugurada pelo próprio presidente da República. Tanto público que o trânsito deu um nó e 50 crianças se perderam dos pais. “Saiu no jornal de lá”, conta ele.

E na Polônia? A coisa não foi bem assim, como diz Batista no áudio a seguir. O povo até gritava “Vai cair! Vai cair!” (em polonês, claro):



Numa publicação do Instituto de Estudos Ibéricos da Universidade de Varsóvia (www.iberystyka.uw.edu.pl) de dezembro de 2005 confirma-se, em reportagem sobre a árvore, certo mal-estar da população local com a iniciativa de marketing do banco: “(....) Logo que acabar esta construcção, voltam às suas casas para passar Natal com as suas famílias, para preparar tudo. E para decorar uma árvore mais. Desta vez, verde, com cheiro agradável. Mas com certeza menor do que 72 metros”.

Santo Domingo e Paris

Batista fez até agora quatro viagens internacionais. A primeira foi a Santo Domingo, no Pan de 2003, para divulgar o Pan de 2007 no Rio. Ficou 45 dias na República Dominicana. A equipe da P&G montou no gramado de um estádio uma bandeira com 17 mil metros quadrados, feita de tecido de pára-quedas, com imagens da Baía de Guanabara, do Pão-de-Açúcar e do Cristo Redentor. Na foto abaixo ele aparece com um companheiro no início da montagem. A bandeira tinha quatro partes. Cada uma pesava 350 quilos.

Batista gostou do povo, amigo de brasileiros e praticante do mais autêntico merengue, ritmo inventado lá. Na foto abaixo uma turma da P&G aparece num restaurante.

A viagem seguinte foi para Paris. Trinta e cinco dias. Batista gostou da França. Mas não gostou da comida. Nem lá, nem na Polônia, nem na Romênia. Ouça no áudio:



Era o Ano do Brasil na França e Batista foi participar da montagem de estandes no Espaço Brasil, feito para divulgar o artesanato do país. Ele fez a foto abaixo.

Depois vieram Polônia e Romênia. Na Europa do Leste, o frio foi de lascar. Numa etapa de manutenção da árvore de Varsóvia, chegou a 23 graus negativos. A empresa providenciou roupas de proteção, forradas com penas de ganso, mas para as mãos, diz Batista, não tem jeito: “Você não pode colocar muito pano, porque precisa mexer com elas”. Veja Batista com cara de desânimo, sem luvas, embaixo da estrutura metálica, e depois com um colega, já num clima de gozação:




Ninguém falava português, arranhava-se inglês de um lado e de outro, mas a convivência com o povo foi boa nos dois lugares. Em polonês, Batista sabe dizer “bom dia”: “Dzien dobre”. O “dz” soa como “dj”.

Entre as duas temporadas na neve, a montagem de uma árvore de Natal da Coca-Cola em São Gonçalo, perto de Niterói, em 2006.

Órfão, namorado, soldado, eletricista

João Batista da Veiga perdeu a mãe e o pai cedo. Aos 12 anos de idade foi morar com uma irmã do pai, no mesmo bairro carioca da Penha, mas se sentiu oprimido. “Era muita louça para lavar”. Um ano depois, fugiu para a casa de outro irmão do pai. Ele tinha uma chácara. Na mesma Penha. Batista trabalhou na chácara: “Eu comia, bebia, então precisava trabalhar”. Estudou só até a 6ª série, ou, como ele diz, “enquanto Papai do Céu deixou”. Aos 16 anos conheceu Nilda, um ano mais velha. Namoro firme. Batista serviu o Exército. Quando saiu do quartel, os dois foram morar juntos. Em Paciência, onde estão até hoje. Batista começou a trabalhar como eletricista. Passou dez anos como horista na P&G: “Eu ganhava o que trabalhava.” Hoje, “graças a Deus”, tem carteira assinada.

Das muitas viagens que fez pelo Brasil montando e iluminando estruturas, nenhuma lhe deu tanto prazer quanto montar um balão de 40 metros de altura no Barra Shopping, no extremo da Zona Sul do Rio, perto da Zona Oeste, onde mora. Por quê? “Ficou muito bonito.” Só. E pode haver razão melhor?

Também gostou de conhecer a Mina do Sossego, em Canaã dos Carajás, sudeste do Pará. “Fui montar um palanque para o Lula.” Era uma inauguração feita pela Vale do Rio Doce (hoje é só Vale) em julho de 2004. “A mina é impressionante”, relata Batista, pronto para novas viagens.

P.S. – No dia 16 de maio haverá em todo o mundo a celebração do Dia Internacional de Histórias de Vida. Se você presenciou algum dos eventos narrados neste texto, por favor entre em contato com o Museu da Pessoa e faça o seu relato. Se presenciou outros, e quer compartilhá-los, não hesite. É fácil cadastrar-se e mandar texto, áudio, foto e vídeo. Você conta.


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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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