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25.4.2008

MEU TIO ZECA

por Ana Carolina Pereira de Carvalho

Hoje não tem pão. Tem Biscoito Leque da Confeitaria Colombo, serve? É tão sagrado quanto. E pode ser partido com as mãos. Biscoito fino. A Confeitaria Colombo também era lugar fino. Tradição do Rio de Janeiro. E havia uma Confeitaria Colombo em Copacabana, perto da casa do meu tio Zeca. Programas cativos da temporada de férias com a avó. Primeiro, a casa do meu tio Zeca. Tio Bisavô.




Tio Zeca morava sozinho em um apartamento enorme no bairro de Copacabana. Palácio para a menina de 7 anos. Quartos e salas fechadas. Tio Zeca tinha uma dor. Amava a mulher e enviuvou cedo. Não casou de novo. Nem mudou de casa. Trancou quartos e roupas e pertences da mulher. Intactos. Armários fechados que talvez ainda guardassem seu cheiro. A tia Sílvia, que conheci apenas no porta-retrato, sempre ao lado do tio Zeca, os dois na varanda envidraçada do apartamento de Copacabana. Tia Sílvia, morena bonita e sorriso eterno na escadaria de uma igreja. Tio Zeca ao lado na foto, satisfeito. Lindo e apaixonado. Descobri que amei tio Zeca e acho, até fui correspondida. Um dia, quase o traí. Tio Zeca, aonde é o banheiro? E corri para o corredor azul das portas fechadas. Senti o frio de uma das maçanetas. Quarto ou sala, cheio de tia Sílvia dentro. Trancado. Tio Zeca era fiel. Deixei tia Sílvia para minha imaginação.


As visitas repetiam o roteiro. Tio Zeca sentado em uma cadeira de palha no terraço envidraçado. Cobertor nas pernas e boina de lã na cabeça. Os velhos sentem frio. A temperatura da idade é sempre mais amena. Mesmo no verão do Rio de Janeiro. Tio Zeca ria muito e começava suas frases dizendo: Cê sabe? E conforme a conversa avançava – e sempre a conversa avançava – ele abreviava: Cê sá? Quase francês, o meu tio Zeca. E eu lhe fazia desenhos. Num deles, um balão. Tio Zeca e eu dentro, voando pelo céu da cidade maravilhosa. Ele riu muito. Quando formos voar nesse balão, eu te seguro para que não seja levada pelo vento, uma menina tão magrinha, e você segura minha boina para que eu não apanhe um resfriado com o ar gelado das alturas na cabeça. Gargalhamos. Até cairmos sentados no cesto do balão, com os braços completamente sem forças para segurarmos um ao outro. É ou não é amor, criar um absurdo junto?


Depois, tinha o sorvete da Colombo. No meio da visita, saíamos – minha avó e eu – para tomarmos o lanche. Tio Zeca não ia, mas escolhia o cardápio. Biscoito Leque com sorvete. Uma taça enorme. Mais alta que eu, sentada na cadeira de madeira, mesa de mármore e cercada de espelhos do salão Belle Èpoque do Rio de Janeiro. O biscoito vinha em uma lata azul redonda, Especialidade para Sorvetes e Gelados. Envolvido em um papel de seda branca. Biscoitos finos em forma de leques. E a forma inteira de uma hóstia, enorme. Meu lanche sagrado.


E de novo, a casa do tio bisavô. Meus olhos procuravam o desenho em cima da mesa de centro. Já está guardado, me assegurava o tio Zeca. E eu ouvia mais um pouco, Cê sá?


Quando tio Zeca morreu, as portas das salas e quartos de minha tia Sílvia foram abertas. Parece que os dois saíram de mãos dadas. Tio Zeca satisfeito. Lindo e apaixonado. E num dos armários da mulher, uma pasta de papelão. Na capa, uma letra de caligrafia antiga, muito caprichada e um pouco tremida. Desenhos de minha sobrinha bisneta. Voamos muito dentro daquele quarto, entre móveis e roupas de minha tia Sílvia, que nos acenava sorrindo. O mesmo sorriso do porta-retrato. E assim nos amamos, meu tio Zeca e eu. Voando.



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Esta crônica foi escrita por Ana Carolina Pereira de Carvalho em dezembro de 2007. Ana Carolina é editora dos projetos Nossa Escola tem História e Memória Local do Museu da Pessoa e tem um blog. Ela nos enviou seu texto depois de ler as histórias da tradicional Confeitaria Colombo contadas ao Museu da Pessoa por José Pereira Correia Lopes neste depoimento.
       
       
 
   
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