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5.5.2008
A MORTE DO ENCANTADOR DE ALMAS
Antônio Crispim Veríssimo era cantador de vissungos, os cantos fúnebres bantos trazidos pelos escravos e preservados na comunidade quilombola de Ausente, Minas Gerais, graças à sua voz e às suas lembranças. Em agosto de 2007, Seu Crispim, como era conhecido, foi personagem do projeto Memória dos Brasileiros. Recebeu a equipe do Museu da Pessoa vestindo seu traje para a festa de Nossa Senhora do Rosário. Emocionou os pesquisadores cantando, concentrado, os vissungos que embalavam as almas dos mortos de sua comunidade. A história desse encontro foi narrada pelos pesquisadores do Museu no blog do projeto.

Em 3 de maio de 2008, Seu Crispim morreu. E sua morte entristeceu os amigos e vizinhos, como a diretora do Museu do Diamante, em Diamantina, Lilian Oliveira. Comadre de Antônio Crispim, Lilian nos enviou o seguinte depoimento sobre a perda do amigo:
"É tomada por uma dor e sentimento de um vazio profundo que lhes comunico que hoje, dia 3 de maio, Crispim nos deixou. Fez a travessia do rio para sempre. Faltam-me palavras para expressar sobre 'quem' hoje nos deixa. Algo aconteceu sob o 'céu certamente'; onde religaremos não sei, pela tamanha perda. 'O rei está morto', foi o que disse minha filha Maria ao me ouvir dizer que Crispim morreu. 'Epa rei... Jesus seja louvado... a roda do mundo é grande, mas a de Zumbi é maior... vamos tomá a jurema prá puxar a juventude esta noite', (palavras do Crispim quando se referia à cachaça)."
A historiadora Lilian Oliveira tinha uma preocupação sobre a história do Seu Crispim, a de que sua condição como guardião da memória de um povo e de uma época não fosse por demais romanceada a ponto de encobrir a condição social em que ele vivia e a lógica da exclusão social da qual sua história era, também, uma conseqüência, como ela revelou nesta entrevista.
A triste condição social revelada pela história
de Antônio Crispim Veríssimo, entretanto, não
deixou de inspirar em Lilian a nostalgia dos cantos entoados por
ele.
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