|
27.5.2008
A AVÓ ALEMÃ DE TORMOD
por Mauro Malin
Tormod Carlsen é norueguês. Nasceu em 12 de agosto de 1984, num pequeno hospital à margem de uma estrada por onde sua mãe passava dirigindo o carro. Ane Kathrine, de uma das famílias mais ricas e tradicionais de Bergen, era hippie. O pai de Tormod, Kjell, veio de família pobre mas logo se tornou um empresário rico. Ela agora é pobre, estuda para ser enfermeira e ir ajudar na África pessoas em estado de necessidade. Ele está aposentado. Tiveram seis filhos. Nunca se casaram.
Tormod estudou na Noruega e na Dinamarca, numa escola montessoriana, depois numa escola waldorfiana, em seguida numa escola tradicionalista e finalmente numa escola radical onde os estudantes votavam para escolher os professores. "Nem sempre dava certo, porque se formavam grupos – por exemplo, imigrantes ou filhos de imigrantes contra nacionais do país – e eles se boicotavam mutuamente". Tormod ia de uma escola para outra segundo as inclinações ora do pai, ora da mãe. 
'Garoto problema'
Ele me disse em entrevista no dia 15 de janeiro que foi um "garoto problema". Fazia “muita coisa errada". O quê? Fumar. Só? Fumar maconha. Só? Errar pelas ruas de Oslo à noite. Só? Bem, nem tão problemático assim. Mas na Noruega, com aquela idade, 12, 13 anos, era o bastante.
Foi mandado para um programa destinado a lidar com pessoas fora da linha. Lá havia uma equipe de profissionais de diversos campos. "Eu tinha teatro três vezes por semana. No início, odiava. Achava muito chato. Mas eu era bom naquilo". No final do período, recebeu dos professores uma oferta de trabalho e se tornou um deles. E começou a viajar. "Encontrei muita gente que fazia teatro. Achei que estava do lado bom e resolvi continuar".
Voltou para uma escola de Oslo onde havia estudado e tinha amigos. Queria ir para a Índia, mas acabou na Costa Oeste da Noruega. Depois, começou a trabalhar de novo com teatro, que o levou à Índia – onde fez uma pesquisa sobre formas antigas de representação –, a Praga, na República Tcheca – não gostou da experiência, porque o povo é triste, ele andava sem dinheiro e o diretor do teatro onde trabalhava perambulava entre as pessoas do elenco com um porrete na mão –, em Copenhaguem – "Os dinamarqueses são alegres, convidam as pessoas para festas" –, voltou à Noruega, foi à China, viajou muito pela Europa do Leste e passou quatro meses na Groenlândia. " É muito estranho. Quando cheguei, era noite. Quando fui embora, era noite. E não vi a luz do sol nem uma vez".
Tormod aparece bronzeado na fotografia porque tinha acabado de passar uma temporada em Itacaré e Ilhéus, na Bahia.
Horrores da guerra
Pedi a Tormod que me falasse de seus avós. Os avós maternos, da rica família de Bergen, chamavam-se Carlsen Christinian e Dagny. Ela ainda está viva e, diverte-se Tormod, é muito grande e desastrada. "Sempre deixa cair alguma coisa no chão, uma xícara, um copo, quando vai a uma recepção".
Os avós paternos eram Eva Bereths e Kjell Carlsen. Eva era alemã, filha de um comunista que, com a chegada de Hitler ao poder, exilou-se na Noruega. Depois que os nazistas invadiram e dominaram o país, em 1940, ele foi descoberto pelas tropas de ocupação e fuzilado. Eva foi mandada para um campo de concentração. Ficou cerca de um ano, até a guerra terminar, em 1945.
"Depois, o governo norueguês e a Cruz Vermelha conseguiram fazer com que as pessoas que estavam lá voltassem para a Noruega, onde na época havia muito ódio aos alemães", conta Tormod. "Minha avó não foi muito bem tratada. Da Noruega, foi mandada, com outros alemães, embora fosse comunista, portanto adversária de Hitler, para limpar o campo de concentração de Auschwitz. Acharam que todos os alemães que viviam na Noruega deviam receber uma lição sobre o que eles haviam feito".
Mas ela era comunista, como aconteceu isso?
"Por isso foi para um campo de concentração. Outras pessoas sofreram punições mais duras. Mulheres que tinham tido relações amorosas com ocupantes alemães foram tatuadas na testa..."
Como? Nunca ouvi falar nisso.
"Sim. E só na década de 70 receberam indenização do governo".
Quisling, punições
A Noruega viveu extremos durante a Segunda Guerra. De um lado, produziu uma figura, Quisling, que se tornou substantivo em muitas línguas, português inclusive, sinônimo de pessoa que trai sua pátria. Até os anos 70 do século passado ainda se lia essa palavra em textos políticos ou históricos, escritos no Brasil ou traduzidos, publicados em livros ou jornais.
Vidkun Quisling era oficial do Exército, fundador de um partido nacionalista nos anos trinta, e chefiou entre 1942 e 1945 um governo colaboracionista. Foi preso em 9 de maio (a guerra acabou no dia 8), condenado e executado em 24 de outubro por um pelotão de fuzilamento.
De outro lado, agiu com presteza e com rigor após a guerra. Num livro recém-lançado no Brasil, Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945, Tony Judt dedica um capítulo, chamado Punição, à descrição de como o tratamento dos envolvidos com o nazismo e o fascismo variou extremamente de um país para outro da Europa.
Num extremo está a Áustria:
"A Áustria, país com menos de 7 milhões de habitantes, tinha contado com 700 mil membros do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães [o país, como se sabe, havia sido anexado pela Alemanha em 1938]: no final da guerra, ainda havia 536 mil nazistas registrados na Áustria; 1,2 milhão de austríacos tinham servido em unidades germânicas durante o conflito. A representação austríaca na SS e na gestão de campos de concentração tinha sido desproporcional. A vida pública e a alta cultura austríaca estiveram saturadas de simpatizantes nazistas – 45 dos 117 integrantes da Orquestra Filarmônica de Viena eram nazistas (ao passo que a Filarmônica de Berlim tinha apenas oito membros do Partido Nazista entre 110 músicos).
Consideradas as circunstâncias, a Áustria foi poupada, surpreendentemente poupada. Cento e trinta mil austríacos foram investigados por crimes de guerra, dos quais 23 mil foram a julgamento, 13.600 considerados culpados, 43 condenados à morte e apenas trinta executados".
O livro segue relatando como os Aliados deixaram a Áustria conduzir sua própria "desnazificação": brandamente.
Por oposição, a Noruega foi o país mais rigoroso:
"Na Noruega, país com população de apenas 3 milhões de habitantes, todos os 55 mil membros do Nasjonal Sammlung, a principal organização de colaboracionistas pró-nazistas, foram julgados, além de outros 40 mil indivíduos; 17 mil homens e mulheres receberam penas de detenção e trinta sentenças de morte foram expedidas, 25 das quais levadas a cabo".
O avô de Tormod, marido de Eva, Kjell Carlsen, era um líder da resistência antinazista. Tormod diz que se tratou de um “casamento estratégico”: como ela sabia que seria perseguida depois da guerra, casou-se com o mais insuspeito dos homens. Nem assim, como se viu, escapou da passagem punitiva por Auschwitz depois da guerra.
Tatuar testas, mandar pessoas limparem campos de concentração por causa de sua nacionalidade... Os horrores e as loucuras da guerra não poupam ninguém.
Tormod diz que sua avó Eva era linda. "Talvez a pessoa mais bonita que eu já conheci. Alegre e boa para as outras pessoas". Tomava muitas pílulas para dormir. Morreu jovem, com sessenta e poucos anos. "Nos últimos anos ela era tão alegre quanto podia ser convivendo com aquelas memórias".
* * *
O Museu da Pessoa tem dezenas de relatos ligados à Segunda Guerra Mundial. Entre eles os de:
Krystyna Drosdowicz
Adam Edward Drozdowicz
Maria Yefremov
Moriz Lax
Natan Kimeblat
Therèse Bierig
Jules Roger Sauer
Josef Aronson
Palmira de Souza Leal
Hans Otto Taube
René Schärer
Salvador Scutti
Avrahan Ben Avran
Leonie Rosenthal
Sergio Picchiarini
|