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OUTRAS HISTÓRIAS
 

Yaguarê Yamã

NOME: Álvaro Fernandes Sampaio

NASCIMENTO: 03/11/1953,
Alto do Rio Negro-AM

DATA DA ENTREVISTA: 09/04/2009 


"Eu saí do Brasil e fui à Holanda, no tribunal aberto, para defender as culturas da minha região e denunciar o etnocídio que era praticado."


Eu tive os melhores momentos de minha infância na minha aldeia. A brincadeira era espontânea. Era tomar banho livremente no porto, pescar e caçar, acompanhar os pais - os pais não eram aquelas pessoas que davam tarefas, eram pessoas que faziam tarefas cotidianas. As meninas iam com suas mães aprender as regras pra vida delas. E os meninos na roda dos homens. Mas quando foi na última semana de fevereiro de 63, meu pai me disse: “Agora você vai pra escola”. Foi muito chato isso, porque eu não tinha roupa, eu não conhecia ninguém, eu era o único da família.

A pior coisa de relação que eu tinha lá é que o aluno de outra tribo, ou mesmo da mesma tribo, que era maior, pegava a carne do meu prato, eles tomavam dos outros e comiam. Nós não tínhamos outra saída, era chorar calado. Sem proteção de ninguém. O pior ainda era quando nós apanhávamos de nossos padres ou das freiras também, porque elas batiam na gente, e nossos pais não podiam reclamar nada. Quando um aluno índio reclamava do padre, ele era expulso. E todos os dias, ao final de cada semana, tinha um boletim no quadro dizendo que o aluno que mais falou língua indígena foi tal. Então nossa nota era controlada. Nós fomos obrigados a confessar os pecados quando era sábado ou sexta feira; fazer o jejum e ouvir histórias de santos, tantos santos que a igreja tem. Nós fomos obrigados a praticar o calendário católico apostólico romano e seguir os grandes exemplos de brasileiros; decorar as poesias de Olavo Bilac, conhecer quem foi Getúlio Vargas, como é que foi a civilização no país. Acatar de maneira calada como é que foi a entrada de Bandeirantes pra matar os índios ou a chegada dos missionários como uma grande salvação pra população indígena, e tudo isso foi uma mentira

Na época os militares, eles queriam nos eliminar nos integrando. E nós deveríamos ser cidadãos brasileiros. Isso também foi interessante porque nós obtivemos documentos como certidão de nascimento, reservistas militar, título de eleitor, facilitando a nossa comunicação com a sociedade nacional. Então foi com esses documentos de brancos que eu saí do Brasil e fui à Holanda, no tribunal aberto, para defender as culturas da minha região e denunciar o etnocídio que era praticado pela congregação salesiana, e a morosidade do Governo brasileiro pra defender a demarcação dos territórios no Alto Rio Negro.

Eu acabei criando a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro justamente para congregar 23 tribos indígenas e defender o grande território tradicional que é nosso. Hoje isso é uma realidade, o povo hoje está com as terras homologadas, outras estão em vias de demarcação e o nosso grande território continua como sempre. Esse é um bolsão de culturas naturais de nossos povos. Hoje nós somos autônomos e isso se chama autodeterminação. Não é pra criar o Estado brasileiro, como pensam os militares, muito pelo contrário, é um espaço cultural que o Brasil tem que preservar. Eu sou uma cultura pequena, mas importante como as demais.



 

 

 


 


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