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OUTRAS HISTÓRIAS
 

Carmen Bascaran Collantes


NOME: Carmen Bascaran Collantes

DATA DE NASCIMENTO: 19/09/1944

LOCAL: Oviedo – Espanha

DATA DA ENTREVISTA: 30/10/2007





"Fizemos a primeira assembléia e elegemos quatro prioridades para ser trabalhadas: uma era trabalho escravo - havíamos escutado que havia trabalho escravo, mas não sabíamos muito bem do que se tratava."


Foi no colégio, ainda na Espanha, que eu acordei pra uma realidade social, através das atividades religiosas. Eu fui sempre muito inquieta, então quando meus filhos terminaram todos os estudos, eu falei: “Meus filhos, sou eu quem vou voar agora. Vocês ficam no ninho e eu vou”.

Eu tinha um irmão aqui no Brasil, o Carlos, que é missionário comboniano. Ele estava morando aqui no Maranhão, em Açailândia. Então eu vim para cá pra ver como era Açailândia. Cheguei em julho de 95. Não sabia nenhuma palavra de prtuguês, nada. Eu chorei todos os dias durante os primeiros meses. Só que as pessoas de Açailândia se abriram, nos acolheram.

Quando cheguei não havia nada aqui. Era uma cidade que tinha uma fama de ser cidade dos pistoleiros. Havia corrupção por todo canto, era uma coisa terrível. E Carlos: “O que podem fazer?” Surgiu o tema dos direitos humanos. “Por que não fazemos uma associação dos direitos humanos?” E começamos, um grupo de 12 pessoas. Fizemos uma feijoada para 250 pessoas e foi a primeira feijoada que fizemos, que depois virou tradição. Aí arrecadamos 1.200 reais e com isso fizemos e legalizamos o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos.

Fizemos a primeira assembléia e elegemos quatro prioridades para ser trabalhadas: uma era trabalho escravo - havíamos escutado que havia trabalho escravo, mas não sabíamos muito bem do que se tratava. Isso foi em novembro de 96. Quatro dias depois chamaram à porta; era um rapaz que se chamava Francisco. Ele começou a contar uma história de uma carvoaria, e tinha uma ferida na cabeça - havia caído uma tora. O gerente, o rato da carvoaria, havia largado ele. Dois dias depois chegaram mais três, e começaram a contar uma história de uma fazenda de pecuária em Rezende. Ninguém falava que trabalho escravo existia na carvoaria e em outros lugares, e nos começamos a viver com essa gente. Com seis meses do Centro nós montamos um filme com todo esse material.

Então foi um jogo, até que a confiança foi se estabelecendo, e pudemos fazer um trabalho fantástico também com o Ministério do Trabalho. Criamos a Primeira Semana dos Direitos Humanos, em junho de 97. Foi um escândalo, um autêntico escândalo, um choque mesmo, porque ninguém havia tocado nunca nas siderúrgicas do país. Era a pedra sagrada - continua sendo -, mas na época muito mais. Quinze dias depois foram fechadas dezenove carvoarias! As dezenove que havíamos denunciado.



 

 

 


 


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