NOME: Cláudia Dias
Batista de Souza (Monja Coen)
NASCIMENTO: 30/06/1947,
São Paulo-SP
ORDENAÇÃO MONÁSTICA: 14/01/1981
DATA DA
ENTREVISTA: 12/08/2009
"Eu só chorei, fiquei
triste, uma coisa de nada. Mas que
comoveu, pela simplicidade. Eu não fui fazer um movimento de
libertação das monjas, mas a mudança
aconteceu,
porque foi do coração."
Quando eu estava no Japão, fui escolhida pela nossa
superiora,
entre outras monjas, para representar o nosso mosteiro em um grande
evento de pessoas que iam receber os preceitos budistas. Eu era a
representante das mulheres na cerimônia, a pessoa que levava
os
alimentos para o abade superior, para o mestre, que seria o Papa da
nossa ordem. Eu levava a comida pra ele e saía em
silêncio, não precisava falar nada, mas o clima
era
extraordinário. Só que quando chega no
último dia,
é o dia que a monja e o monge - tinha um jovem monge que
representava os homens - iam fazer perguntas para esse abade. E tem um
paninho que a gente abre pra fazer reverência. E o monge
abriu o
pano dele por extenso, e o meu disseram que era pra ficar dobrado. Eu
falei: “Não, por quê? Eu quero abrir o
meu”.
“Não, não pode, porque você
é monja,
mulher. O monge vai na frente e abre o pano, e você, como
é monja, vai atrás e abre menos”.
Aí, eu
chorei.
Aquilo estava tão lindo, era tão maravilhoso, era
tudo
perfeito, mas porque eu era mulher, era monja, não podia
abrir o
meu paninho. Aí houve uma coisa muito
extraordinária,
houve uma cisão e todos que estavam lá
começaram a
questionar, porque eles me viram o tempo todo, eu era muito
visível, era uma estrangeira, uma brasileira, que
não
falava japonês. Eu fluía com tudo, estava feliz, e
de
repente eu chorei. Todo mundo: “Por que ela chorou? O que
aconteceu?” “Por causa do paninho, não
abriu o
paninho”. “É a
discriminação com
mulheres”. E houve uma divisão. E no dia da
cerimônia, um dos auxiliares desse abade superior chegou pra
mim
e disse: “Eu vou ficar do seu lado, se você quiser
você abra o pano todo”. Mas eu não abri.
Havia uma
coisa em mim que dizia: “Se não concordam, como
é
que eu vou fazer? Tem que ser uma coisa que todos concordem.”
Hoje as monjas todas abrem o paninho. Porque eu chorei no dia.
Não é fascinante isso? Eu só chorei,
fiquei
triste, uma coisa de nada. Mas que comoveu, pela simplicidade. Eu
não fui fazer um movimento de
libertação das
monjas, mas a mudança aconteceu, porque foi do
coração.
Depois, o nosso curso acabou sendo direcionado para a
discriminação. Nós fomos fazer uma
revisão
de toda essa discriminação que existiu porque, se
eu
entro nessa ordem, essas pessoas que vieram antes de mim são
meus ancestrais, e eu estou concordando com eles, ou discordando. E se
eu discordo, o que eu faço? O que eu faço hoje
pra
transformar isso? Então, o nosso trabalho, essencial na
minha
formação de professora no Japão, era
sobre
discriminação: não admita,
não faça.
E isso foi importante pra mim, fazer uma revisão:
será
que eu preconceito? Claro que tinha. Muitos, claro que ainda tenho.
Ainda trabalho com isso, incessantemente. Não é
dizer
tenho ou não tenho, ou não discrimino nada.
É
mentira, discriminamos ou contra ricos ou contra pobres.
Então,
nós fomos rever todos os textos budistas
clássicos vendo
aonde havia discriminação, não pra
apagar os
textos, mas pra pôr notas e explicar pras pessoas que naquela
época a discriminação existia, mas
isso não
é uma coisa que nós vamos transmitir pras
gerações futuras, porque nós
já temos um
outro olhar.