NOME: Francisco
Edmísio da Silva
NASCIMENTO:
17/08/1968, Nova
Olinda-CE
DATA DA
ENTREVISTA: 16/05/1999
"Quase todos os
que vivem nas
ruas já tiveram uma profissão. Depois que
há uma
recuperação, uma libertação
do passado
obscuro, Deus abre as portas e todos eles voltam a trabalhar naquilo
que trabalhavam antes."
Um dia, quando
eu estava
desempregado, passei em frente a uma igreja cristã e entrei.
Fiz
um compromisso com Deus: que se Jesus abrisse uma porta de trabalho
para mim, e que fosse lá na Nestlé - que era o
lugar que
meu coração queria -, eu ia procurar conhecer
melhor quem
é Jesus. Quando passei na frente da empresa, vinha saindo um
rapaz: “Eu me lembro de você, trabalhava aqui na
transportadora. Eu peguei uma senha aqui para alguém, e vou
dar
para você.” Voltei na segunda-feira e a entrevista
foi
fácil porque eu havia trabalhado na empresa e já
conhecia
algumas regras. Fui novamente à igreja, não
esqueci do
compromisso que havia feito.
O compromisso que fiz com Deus era que, do fruto do meu suor, eu iria
servir ao pobre e ao necessitado. Eu saí na Rua Passos, fui
em
direção ao Largo do Belém. Ali ficava
um
ex-detento. Ouvi uma voz dentro de mim: “Deita ao lado
dele.” E eu deitei naquela grama molhada. Comecei a tremer, e
ele
normal. Aquela voz, de novo: “Agora você sabe o que
é que é a vida de um mendigo de rua?”
“Sei,
porque agora também sou um mendigo de rua. Eu preciso fazer
alguma coisa por essas pessoas. Que é que eu posso fazer?
Ah,
Jesus, a única coisa que eu posso fazer agora é
um
cafezinho quente, com pão, e dar a eles de
madrugada.”
Comecei a dar comida, roupas, a levar um cobertor pro frio. Comecei a
me infiltrar e fazer amizades. Nessa época
construí uma
casinha, para casar. Numa madrugada encontrei um rapaz que me disse:
“Muito bem: cafezinho, roupinha e tal, mas você
não
teria coragem de me levar para a sua casa; eu sou um
viciado.”
Novamente a voz de Deus falou dentro de mim: “Dá a
tua
casa para ele.” Eu o levei para morar comigo. Três
dias
depois, nós tínhamos mais cinco pessoas que
pegamos na
Moóca, no Largo do Belém. Um dia cheguei e eles
não permitiram que eu entrasse na minha própria
casa.
Segundo eles, a casa agora era deles, iam montar um bar e abrir uma
boca de droga. E me ameaçaram. Se eu tomasse alguma atitude
me
matariam.
Deus novamente me deu as rédeas, e o prumo da casa de volta.
Cheguei e disse: “Olha, eu estou aqui para dizer o seguinte:
que
as ordens da casa, que Deus me deu, são: não
fumar,
não beber, não jogar, não brigar,
não
discutir, não deixar a casa desarrumada e ir à
igreja
todos os dias. Se alguém achar ruim e levantar a
mão para
mim, Deus vai cortar a tua mão.”
Chegamos a 40 pessoas nesta casa. Quase todos os que vivem nas ruas
já tiveram uma profissão. Depois que
há uma
recuperação, uma libertação
do passado
obscuro, Deus abre as portas e todos eles voltam a trabalhar naquilo
que trabalhavam antes.