NOME: Geraldo
Moreira Prado
NASCIMENTO:
28/07/1940, Nova Soure–BA
DATA DA
ENTREVISTA: 16/07/2009
"Eu já tinha uns 20
mil livros em casa. A casa só tinha livros: livro embaixo da
cama, em cima da mesa, no armário. Você abria o
armário e caía livro. Aí veio a idéia e eu
comecei a criar uma biblioteca."
Salvador foi minha primeira
grande cidade. E foi também a primeira vez na minha vida que eu
vi uma biblioteca, que foi a biblioteca do Colégio Central da
Bahia. Eu fui com o meu tio, que foi até lá pra
matricular o filho dele. Pra mim foi um choque, foi a primeira vez que
eu vi tantos livros juntos em um lugar. Foi muito importante. Isso
marcou. Tanto que assim que eu cheguei em São Paulo e comecei a
trabalhar lá na Santa Ifigênia, e logo eu tive o primeiro
contato com a biblioteca Mario de Andrade. De repente, eu vejo aquele
monstro ali naquela praça, fui olhar, era uma biblioteca. Entrei
lá tímido, olhando, vi as pessoas lá estudando.
Perguntei lá pra senhora, ela orientou, mostrou.
E aí, eu passei a frequentar também as livrarias, chegar,
ficar olhando os livros. O primeiro livro que eu comprei em São
Paulo foi uma Gramática de Latim, não sei pra quê,
que era de Napoleão Mendes de Almeida. Em São Paulo eu
vivi juntando muitos livros. Perdi muitos livros no fechamento do Crusp
(Conjunto Residencial da USP), mas eu continuei juntando livros,
comprando livros. Era um problema sério quando tinha que mudar
de São Paulo pro Rio de Janeiro, do Rio pra Brasília, de
Brasília pra Recife, de Recife pro Rio... Mas fui juntando.
Quando foi em 2001, eu estava no IBCT (Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia) e tinha um
projeto do Governo Federal que era pra construir a Sociedade da
Informação. E uma das propostas era a
criação de bibliotecas comunitárias e apoio
às bibliotecas públicas. O projeto tinha uma proposta
belíssima. Eu me envolvi. Eu já tinha uns 20 mil livros
aqui em casa. A casa só tinha livros: livro embaixo da cama, em
cima da mesa, no armário. Você abria o armário e
caía livro.
Aí veio a idéia e eu comecei a criar a biblioteca em
São José do Paiaiá, onde me criei. Mas isso gerou
problema também lá. Porque as pessoas mais velhas acharam
que eram livros roubados. Como é que uma pessoa, filho de
lá, ia juntar tantos livros? Teve até uma outra senhora
que na época reagiu muito, dizendo: “Pra que biblioteca
aqui? Nós não precisamos de biblioteca, precisamos de uma
indústria, uma fábrica. Por que não traz aqui uma
fábrica pra gerar dinheiro?”. Essa foi a
reação dela logo no início. Hoje é o
contrário, ela é aliadíssima da biblioteca,
defensora com unhas e dentes.
E foi crescendo a idéia da biblioteca. Hoje tem 65 mil livros. E
eu comecei a perceber que o livro sozinho não tinha
importância. Então já vinha trabalhando com o
público a questão da leitura, a gente já tinha uns
trabalhos aqui de comunidade. Ia visitar a comunidade e trabalhar com
leitura. Aquilo começou a refinar mais a minha idéia:
“Agora tem que trabalhar com mediadores de leituras”. Uma
professora deu uns cursos de mediação de leitura, outras
duas deram cursos de pintura em tecido, arte culinária etc.
Então eu acho que já mudou muito. Na época foi
mais um desvario: “Vou botar uma coisa aqui, uma biblioteca, pra
ver se esse pessoal começa a ler e, quando sair daqui,
não vai enfrentar os problemas que eu enfrentei em São
Paulo...”. Já é diferente hoje. Mas vamos ver se a
gente consegue desenvolver aqui uma espécie de Economia da
Cultura através da leitura. E melhorar também a qualidade
de vida, ou então criar alternativas para essas pessoas
não saírem daqui, ficarem trabalhando, e com uma certa
dignidade, não tão sofrido como o pessoal vive.