NOME: Gustavo
Rafael Brusca Ramon
NASCIMENTO:
19/08/1959, Montevidéu – Uruguai
DATA DA
ENTREVISTA: 13/05/2009
"Uma amiga minha
me ligou e
falou: 'Quero abrir outro restaurante'. Eu falei: 'Olha que
coincidência! Eu não quero mais ficar no que eu
estou
fazendo. Eu quero mudar radicalmente'."
Eu era
considerado o
inovador do mercado, eu era o diferencial de todas as
confecções de surfwear. Tinha meus
privilégios.
Mas um dia eu conversei com o meu pai – ele ainda era vivo -,
e
uma coisa que ele falou, eu guardei: “Se você for
fazer
alguma coisa, faça com coração, seja
feliz com o
que você faz. Se você tiver feliz com o que
você
está fazendo, não precisa ir atrás de
dinheiro, ir
atrás de todos esses bens. Lógico que isso ajuda,
mas a
tua felicidade, depois de um tempo você vai ver que
você
não tem”.
Desde que meu filho tinha nascido, eu vinha estudando
culinária.
Eu fui falar com a menina que trabalhava na 775, falei: “Eu
estou
querendo fazer um curso, quero fazer jardinagem, qualquer
coisa
para me dar um estalo, para ver se eu volto a ter
inspiração”, ela falou:
“Não, vai
fazer culinária. Tem uma amiga minha que tem uma escola de
culinária, vai lá”. E fui na Wilma
Kövesi. A
mulher falou: “Mas um homem?” Comecei o curso
básico: fritar um ovo, fazer um arroz, uma carne de panela,
um
mousse, o bê-á-bá, a mulher ficou
encantada comigo,
era o único homem da turma. E nesse meio ínterim
eu
falei: “Eu quero fazer um curso profissionalizante de
Gastronomia, eu quero ser chefe de cozinha”.
No começo de 2007, eu ainda trabalhando com roupa, eu peguei
os
caras roubando na empresa, e ouvi: “Você
tá criando
uma situação insustentável na empresa,
vou te
convidar para você se retirar”. E no dia mesmo uma
amiga
minha me ligou e falou: “Quero abrir outro
restaurante”. Eu
falei: “Olha que coincidência! Eu não
quero mais
ficar no que eu estou fazendo. Eu quero mudar radicalmente”.
E eu
tinha uma condição financeira para ficar dois
anos sem
fazer nada, pagava-se contas, mas mais nada, ia ficar quietinho. Passei
20 dias maravilhosos com o meu filho no Uruguai. Já comecei
a
estudar padaria e churrascaria. Quando eu voltei, minha amiga me
convenceu de que eu tinha que abrir um vegetariano.
Eu fui andar nos vegetarianos, fui comer vegetariano, levei meus filhos
para comer. A gente não conseguia comer! Era uma coisa sem
graça, sem sabor, sem toque. Eu abri o meu e quebrei a cara.
Fiz
carnes horríveis, fiz carne de soja que nem os mais
fanáticos comeriam, mas fui aprendendo com tudo isso. E hoje
eu
sei o que eu tenho, sei aonde eu cheguei pelos estudos que eu fiz em
sobre culinária. E uma coisa que me orgulha muito
é de
ver hoje que pessoas comem aqui e acham que a comida é a
melhor
que tem, melhor que em muitos lugares em que elas já
estão acostumadas a comer há anos. Tem gente que
vem aqui
que já é vegetariano há 10, 20 anos
fala:
“Nunca comi nada igual!” Então,
não sei se
é uma dádiva, ou o que é, mas
é tão
gostoso você ver que as pessoas acabam comendo a sua comida e
falam que é boa. Eu percebo que eu estou aqui para fazer
alguma
coisa a mais, não só por mim, mas por outros
seres
humanos. Conseguir isso é o que eu mais quero hoje: poder
ajudar
a pessoa a mudar a maneira de ser.