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OUTRAS HISTÓRIAS
 

Ivam Cabral

NOME: Ivam Cabral

NASCIMENTO:25/07/1963, Ribeirão Claro-PR

DATA DA ENTREVISTA: 26/08/2009


"Quando a gente chegou na Praça Roosevelt, era um lugar absurdamente complicado. Mas eu aprendi uma coisa: tinha uma coisa só que me separava do traficante, da pessoa que estava ali, que era uma pergunta: qual o seu nome?"


Quando a gente chegou na Praça Roosevelt com o nosso grupo de teatro, Os Satyros, tudo era escuro, era dominado pelo tráfico, pela prostituição. A ditadura ensinou pra gente que no Centro de São Paulo você não pode sair, você não pode tomar essas calçadas, você vai morrer, você vai ser assassinado, alguma coisa muito cruel vai acontecer com você. O Centro de São Paulo é um lugar que não existe, não pode morar, não tem lugar pra morar, os apartamentos são horrorosos, tudo é feio. E daí? A gente toma as calçadas, a gente acende as luzes e tudo se modifica, e você atrai a pessoa e o humano acontece.

Quando chegamos em 2000, na Praça Roosevelt, era um lugar absurdamente complicado. Mas eu aprendi uma coisa: tinha uma coisa só que me separava do traficante, da pessoa que estava ali, que era uma pergunta: qual o seu nome? Você veio de onde? E daí começou uma conversa. Eles eram pessoas que não tinham nome. Mas eu acho que é um problema do cidadão, não acho que é um problema do Estado. A Roosevelt tinha um dos lugares mais incríveis que eu conheço, porque ela tem uma fotografia linda, de dia a luz da praça é incrível, tem os prédios, tem aquelas árvores, então é uma fotografia linda ali, é algo incrível. E a Roosevelt de dia é uma coisa e a noite ela é outra coisa. Quando tem luz e quando as pessoas caminham por aquelas calçadas, ela tem um significado; quando é a noite, quando essas luzes estão apagadas, ela tem outro.

A gente encontrou esse terreno muito escuro, não tinha luz ali nenhuma, porque os meninos, os traficantes, eles quebravam. A gente ligava pra Eletropaulo, que vinha e colocava luz, e quando anoitecia os meninos quebravam. Daí a gente ligava de novo. Enfim, a gente foi tentando negociar durante muito tempo. Vamos deixar uma luz, vamos trazer gente, vamos circular, vamos tomar essas calçadas.

Acho que quando você olha pra praça Roosevelt hoje, quando tem mesinha na calçada, quando a luz tá acesa, é uma coisa; quando não tem mesa na calçada, quando a luz tá apagada, é outra coisa. Essa luta não tá ganha. Essa luta não vai ser reformar a praça e se ganhou a batalha. Se você não colocar gente nesse lugar, se não acender essas luzes... e por isso o teatro pode sim ser fundamental. É fundamental. Há um público interessado sim em teatro, isso é o primeiro ponto. Segundo, esse cara que não foi ver o teatro ou que chegou lá e estava lotado ou que não gosta de teatro, ele circula sobre uma possibilidade de vida muito diferente. Então vamos tomar essas calçadas, vamos tomar essas praças, vamos andar pelo Centro de São Paulo, eu tenho certeza que tudo muda.



 

 

 


 


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