NOME: Jonatas
Rodrigues dos Santos
NASCIMENTO:
12/11/1981, Camocim-CE
DATA DA
ENTREVISTA: 13/08/2009
"A idéia do projeto
Morro da Macumba surgiu a partir da vontade de contar uma
história; era uma vontade de fazer um grafite diferenciado; era
a vontade de juntar as potencialidades artísticas de cada um."
O meu bairro, que hoje
é o Residencial Cocaia, era conhecido por Morro da Macumba.
Antes mesmo de ser bairro, era só um matagal, morro, e tinham
muitos despachos, muitos mesmo. De vez em quando apareciam uns mortos
jogados lá, umas coisas meio sinistras. Até porque como
não tinha policiamento, não tinha nem uma estrutura para
uma comunidade, uma formação de bairro, nada disso. E o
bairro crescia a cada dia. Acho que ele crescia mais nesse sentido do
número de pessoas que vão se amontoando no lugar do que
propriamente crescer no sentido de melhorias, saúde e tudo o
mais.
Aos poucos, já mais velho, eu fui entrando na ondinha do
movimento urbano, andar de skate, fazer tag na rua. E foi quando rolou
o meu primeiro contato com grafite. Quando me deparei com aquilo na
parede eu falei: “Isso é feito com o quê? Com spray?
Impossível”. Era um tipo de acesso à
informação, do que era aquilo e como fazer aquilo em si,
que não tinha. Surgiu toda uma identificação com
essas coisas, com esses movimentos que vêm da rua.
E então a idéia do projeto Morro da Macumba surgiu a
partir da vontade de contar uma história; era uma vontade de
fazer um grafite diferenciado; era a vontade de juntar as
potencialidades artísticas de cada um. Várias vontades
foram se fundindo. Pra gente enviar o projeto para que ele fosse
aprovado, tinha que ter as autorizações, e são
mais ou menos umas 15 casas que foram pintadas com a história
dos seus moradores, mais os muros. Então, vamos dizer assim que
conseguimos umas 10 autorizações. A gente explicava a
proposta, muitos entendiam, mas visualizar isso é
difícil. Até pra gente mesmo, a gente não sabia
exatamente como iria ficar aquilo. O fato de ser uma casa, você
não pode estampar uma imagem muito agressiva, nem cores muito
quentes, tem toda essa preocupação. Então a gente
fez todo um estudo, até pra chegar aos moradores e explicar. E
quando a gente iniciou, todo mundo adorou e foi uma coisa maravilhosa,
porque a gente conseguiu as autorizações que faltavam pra
poder concluir a idéia.
Foi muito bem aceito, de um modo geral. Por quê? Porque
não é só um grafite, é um grafite que traz
informação, teve toda uma preocupação
estética, tem esses diferenciais, que é a coisa do
relevo. A rua que a gente grafitou foi escolhida porque ela é
uma região do bairro que está desassistida ainda em
pavimentação: falta esgoto, asfalto, etc, e é uma
rua que dá acesso a muitas outras ruas. E incentivou os
próprios moradores, porque é costume na estética
das casas na periferia aquela coisa de casas laranjinhas, sem
acabamento. Às vezes nem é uma questão financeira,
mas porque é tão comum todo mundo terminar as casas por
dentro e deixar a parte de fora pra depois, que acaba ficando assim.
Foi então uma forma das pessoas começarem a cuidar. Tanto
é que, realmente, depois que a gente fez o projeto, eu vi muitas
pessoas rebocarem a casa, outras pintando, outras até arriscando
fazer umas bolinhas, umas coisas com spray. Foi uma coisa que trouxe
bons resultados, em vários sentidos.