NOME: Lucimar
Coelho Pena
NASCIMENTO:
13/10/1921, Bragança–PA
DATA DA
ENTREVISTA: 22/09/2001
"Esse meu filho
veio me
mostrar muita coisa que eu não entendia. Eu perguntava
“Por que o meu filho nasceu assim? Deve ser para punir a mim,
ao
meu marido, ou alguém. Por que uma criança nasce
assim?"
Eu tive um
filho que tinha
hidrocefalia. Ele operou com um mês de vida, mas
não
adiantou nada e a cabeça continuou crescendo até
os dois
anos e meio. Ficou tão pesada que ele não
levantava a
cabeça. Ele nunca teve o direito de sentar; sempre
deitadinho, e
a gente carregava ele para todo lado. Eram três pessoas para
carregar, uma nos quadris, uma nos ombros e outra na cabeça,
e
assim ele durou 15 anos.
E ele era um menino alegre. É aí que eu digo que
sou
aberta em matéria de religião: esse meu filho
veio me
mostrar muita coisa que eu não entendia. Eu perguntava
“Por que o meu filho nasceu assim? Deve ser para punir a mim,
ao
meu marido, ou alguém. Por que uma criança nasce
assim?” Eu não entendia. Eu lia muito. Me deram
muitos
livros para ler.
Então eu achei que ele veio para me mostrar alguma coisa,
para
nos fazer sentir alguma coisa em relação
à vida, a
nossa própria vida, porque ele era um menino alegre, feliz.
Ele
vivia. Ele dava gargalhada. Sabe quando tem duas ou três
crianças brincando de bola ao lado e ele dando gargalhada?
Era
assim que ele dava, parece que ele estava convivendo. Ele gostava de
rádio e televisão. Tinha aqueles programas de
circo,
aquelas piadas de circo, e a gente tinha a impressão que ele
entendia. Eu acho que ele entendia, porque ele ria com aquelas
palhaçadas. Tinha umas músicas que ele implicava
e tinha
outras que ele ficava assim embevecido, os olhinhos dele só
faltava descer lágrimas, comovido ouvindo as
músicas.
Ele chegou a falar papá, mama, mas depois perdeu... Dizia
papá, mama e ria solto. Quando ele não queria,
fazia cara
feia; quando a gente agradava ele, ele ficava se deliciando. Foi uma
coisa muito bonita a vida dele. Muito bonita. E morreu
também
assim: tinha convulsões e numa dessas ele ficou em coma e se
foi. Ele se foi aos quinze anos, de forma que eu tenho a
impressão que ele veio para nos mostrar, para marcar alguma
coisa na nossa vida. E assim foi.
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