NOME: Luiz
Alberto Mendes
NASCIMENTO:
04/05/1952, São Paulo–SP
DATA DA
ENTREVISTA: 27/04/2007
"Eu tinha vinte
anos de idade
e estava acostumado com gandaia pesada. Esse cara começou a
trocar idéia comigo e começou a falar de livro.
Mas eu
nunca tinha lido um livro na minha vida. Eu mal sabia ler, mal sabia
escrever."
Dos meus 18 aos
20 anos
é o que eu chamo de período de ferro. Eu andava
com uma
arma de um lado da cinta, outra arma do outro, e uma sacola cheia de
bala. Andava armado vinte e quatro horas. Vivia trocando tiro com a
polícia, fazendo assalto e vivendo com um monte de mulher.
Daí comecei tirar cadeia na Casa de
Detenção.
Lá eu matei um cara e fui pra penitenciária pra
tirar
castigo. Eu fui condenado a tirar seis meses de cela forte.
Eu fui pra tirar seis meses e tirei um ano. E aí uma dia o
cara
faxina passou e falou assim “Ô meu, liga o
telefone”.
Falei, “Telefone, que telefone é esse?”.
E aí
o cara “É o boi”. O boi é a
privada.
Aí fui lá fui e joguei a água fora.
Daí
comecei a escutar “Ô, quem tá ligando o
telefone?” Era o cara que morava no mesmo corredor que eu, do
outro lado da cela forte. E esse cara aí não
tinha mais
ninguém pra trocar idéia. Eu tinha vinte anos de
idade e
estava acostumado com gandaia pesada. Esse cara começou a
trocar
idéia comigo e começou a falar de livro. Mas eu
nunca
tinha lido um livro na minha vida. Eu mal sabia ler, mal sabia
escrever. O cara começou a contar história e eu
não gostava, mas só tinha o cara pra conversar.
Daqui a
pouco ele começou a contar uma história de livro
que me
interessou: “Os Miseráveis”, do Victor
Hugo.
Aí, quando eu saí do castigo, esse cara me mandou
duas
pilhas de livros. Eu saí do castigo da cela forte, mas
fiquei
mais seis meses em regime de observação na
mão da
psiquiatria. Então ali que eu comecei a ler. Primeiro
comecei
com quinze minutos e doía a cabeça, os olhos e
tal.
Depois mais quinze, vinte, trinta, quarenta e quando eu percebi eu
já estava lendo doze horas; eu lia o dia inteiro.
Fiquei
louco por livros, virei um bibliomaníaco
terrível,
até hoje.
Um dia chegou uma atriz chamada Sofia Bisilliat, e ela montou dentro da
casa de detenção um projeto chamado
“Talentos
aprisionados”. O projeto dela consistia em fornecer material
pra
pessoas que tivessem algum talento artístico desenvolver sua
arte. Da parte da literatura, quem foi fazer oficina
literária
foi o Fernando Bonassi. E aí eu fui lá e,
conversando com
ele, montamos um concurso literário na casa de
detenção toda. O doutor Dráuzio Varela
arrumou
grana, e fizemos o concurso. Eu tinha esse livro e o Fernando quis ver.
Eu mostrei pra ele, ele leu, gostou muito. Falou “Faz uma
revisão, eu vou digitar e nós vamos levar pra
editoras.” E aí pra primeira editora que ele
levou, a
Companhia das Letras, os caras já me chamaram pra negociar.
E
aí que publicou “Memórias do
Sobrevivente”,
que é meu primeiro livro. Eu escrevo pra mostrar pras
pessoas
que mesmo que a gente chegue ao fundo do poço, porque eu
cheguei
ao fundo do poço, tanto da violência, como da
estupidez,
da ignorância, de tudo que você possa imaginar, mas
eu
continuei humano.