NOME: Maria
Ângela Marcovaldi
NASCIMENTO:
03/07/1958, Porto Alegre-RS
DATA DA
ENTREVISTA: 15/02/2006
"Se
nós não
conseguíssemos imediatamente parar com a coleta dos ovos na
praia e a matança das fêmeas, automaticamente o
ciclo
estaria interrompido pela ação do homem."
Eu morei no
centro de Porto
Alegre. Morava num apartamento num bairro bastante urbano. Quando eu
fiz vestibular, eu optei por fazer Oceanologia na Faculdade de Rio
Grande, que era o único curso de
graduação de
Oceanografia na América Latina na época.
Então, a
minha vida mudou radicalmente: eu saí de um centro urbano e
fui
morar em uma área rural.
E o grupo de Rio Grande foi o grande embrião do Projeto
Tamar,
porque todos os períodos de férias, quando
nós
podíamos, nós organizávamos uma
expedição para uma ilha oceânica
distante. Assim,
nós fomos pro Atol das Rocas, pra Fernando de Noronha, pro
Arquipélago de Abrolhos. Fizemos isso praticamente todos os
anos
durante o período de faculdade.
E numa dessas expedições pro Atol das Rocas esse
grupo
presenciou os pescadores virando 14 fêmeas de tartarugas que
estavam vindo a praia pra desovar. Pra matar. E na verdade
não
era só uma questão de subsistência, era
uma
questão também de falta de
informação. Esse
grupo de jovens ficou todo mundo chocado com a cena. Houve um embate
com os pescadores e conseguiram salvar a metade, a outra metade morreu.
E isso foi fotografado, documentado e isso gerou um primeiro documento
que era o relatório de jovens estudantes, que foi para
Brasília, pedindo pra o Instituto Brasileiro de
Desenvolvimento
Florestal (IBDF), que era uma parte do IBAMA na época, que
tomasse alguma providência. Bom, essa história
toda
rendeu, anos depois, uma chamada do pessoal de Brasília, que
formou um primeiro trabalho na área de
conservação
marinha, desse grupo de pessoas que tinha mandado esse
relatório.
Então, nós saímos a pé, a
cavalo, de barco,
nadando, do jeito que dava, do jeito que podia, fazendo um levantamento
do Rio de Janeiro até o Amapá. Numa enorme equipe
de no
máximo quatro. Nessa época nós
não
tínhamos nem um carro apropriado pra andar na areia, nada,
absolutamente nada.
Eu me lembro da primeira vez que eu consegui fazer nascer mais de 500
filhotinhos de tartaruga, que ninguém mais tinha registro
que um
ovo gerava um bebê de tartaruga, porque já tava
tão
arraigada a cultura de comer os ovos que as pessoas praticamente
não viam o nascimento. Então, quando eu passei na
vila,
que era uma ruazinha, com aquela caixa cheia de filhotinhos de
tartaruga e convidei as pessoas pra soltar, todo mundo ficou
impressionado. Nem na cabeça deles mais eles achavam que um
ovo
podia gerar um filhote.