NOME: Miriam Duarte Pereira
NASCIMENTO: 30/08/1962,
São Paulo-SP
DATA DA
ENTREVISTA: 29/05/2009
"Teve época que os
três filhos estavam na FEBEM. Foi muito
difícil para mim. Eu pegava a foto dos meus filhos pequenos
e
falava assim “Meu Deus, onde eu errei?”, porque eu
me
culpava muito."
No
começo da
adolescência dos meus filhos eles começaram a sair
pra
rua. Mas aí já foram dispersando da escola,
já
foram pegando outras amizades. O meu mais velho começou a
ficar
rebelde dos 13 pros 14 anos. Ele saía de casa, depois ele
saiu
do serviço, não quis saber mais de nada. O
negócio
dele era ficar ali no meio daquele grupo, fazer uso de drogas. E eu
não tinha entendimento nenhum. Então, conheci o
CEDECA
(Centro de Defesa da Criança e do Adolescência
Yves de
Roussan), e ele foi e ficou lá 12 dias, mas daí
fugiu E
aí foi indo e conheci outra casa de
recuperação,
levei ele também. Aí nessa ele conseguiu ficar
cinco
meses. Com cinco meses ele fugiu, onde veio a falecer com 12
dias.
Antes do falecimento dele, os outros irmãos
também se
envolveram. Teve época que os três estavam na
FEBEM. Foi
muito difícil para mim. Eu pegava a foto dos meus filhos
pequenos e falava assim “Meu Deus, onde eu errei?”,
porque
eu me culpava muito. Eu acho que faltava um entendimento meu, do mundo,
do portão pra fora, faltava muita coisa.
Então foi uma experiência muito
horrível. Os
meninos todos sujos. O cabelo do meu filho duro. Eu fiquei horrorizada
com aquilo. Eu não tinha experiência de fazer uma
luta.
Conheci o CEDECA, mas não tinha experiência de
denúncia, tinha muito medo de muitas coisas ainda.
Aí o
meu filho ficou 15 dias lá, e eu comecei a ter
experiência, a dor foi me ensinando muitas coisas. Fui
aprendendo
andar no mundo. Foi quando eu me fortaleci mesmo, tinha
orientação daqui do CEDECA, e aí
também da
AMAR (Associação de Mães e Amigos da
Criança e do Adolescente em Risco). A gente se encontrava na
praça da Sé, sentava e conversava, anotava as
denúncias, o que tinha acontecido numa unidade, o que tinha
acontecido na outra. Aí a gente foi se fortalecendo,
até
que a gente falou assim “Agora a gente vai pro
Fórum, vai
conversar com os promotores. Tudo bem que nossos filhos erraram, mas
ninguém vai lá fiscalizar e ver a
situação.
Pois agora eles vão começar a ir”. A
gente
começava a levar escrito mesmo, mal sabia escrever direito.
A
gente levava do jeito da gente e foi aí que eles
começaram acreditar.
E uma história muito marcante foi a da rebelião
que
aconteceu em Franco da Rocha, que hoje é
penitenciária de
Franco da Rocha. Deu na televisão. Quando nós
chegamos,
os meninos estavam tudo em cima do telhado e a Tropa de Choque pra
entrar. Aí os meninos gritaram “A tropa choque
não,
a gente quer a tropa mãe, a gente negocia só com
a tropa
mãe.” Aí o Choque se afastou e abriram
as portas
pra gente entrar. Nisso, já tiraram tudo as facas, colocaram
tudo nos cantos, negociaram. Aí a gente foi levando cada um
pra
sua ala, pedimos pra tirar a roupa, pra ficar já no meio da
contagem, e isso a gente conseguiu. Achei muito legal o respeito deles
e a confiança. Eles começaram a ver que com a
gente eles
tinham uma ajuda, uma ajuda de controle ali dentro, de harmonia mesmo;
harmonia entre o funcionário e o menino, entre a
direção. Era aceitação do
trabalho.