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OUTRAS HISTÓRIAS
 

Nise Yamaguchi


NOME: Nise Yamaguchi

NASCIMENTO: 06/05/1959, Maringá-PR

DATA DA ENTREVISTA: 11/08/2009





"Eu queria aprender uma medicina diferente daquela que eu via na faculdade. Eu achava que precisava de outros caminhos e que era necessário você chegar mais perto dos pacientes."


Eu falava para todo mundo que ia ser médica, mas ninguém nem entendia, porque não existiam médicos na minha família. Eu fui a primeira. Quando eu escolhi a USP (Universidade de São Paulo) foi porque eu queria fazer a melhor faculdade do Brasil. E já quando eu me inscrevi na faculdade, eu comecei a fazer vários cursos paralelos. Fiz curso de homeopatia, de acupuntura, de medicina antroposófica, tinha grupos de estudos de filosofia, participava também da Liga de Farmácia para conhecer as medicações da Liga de Febre Reumática, da Liga de Combate à Sífilis. E trabalhava aos sábados como voluntária na paróquia de São Judas Tadeu. Foi lá que eu aprendi a cuidar de gente.

Os médicos, os assistentes, falavam assim “Você não tem que se envolver. Por que é que você se preocupa com isso?” Eu cheguei a conclusão que eu tinha que me envolver sim! E eu tive a sorte de uma amiga ter me trazido uma informação que existia uma médica suíça, que era Elizabeth Kluber-Ross, que tinha escrito alguns livros sobre a relação com pacientes graves. Sobre a morte e morrer. Quando eu li o livro, eu chorava, eu sabia que ali tinha uma verdade e que ninguém estava preparado para lidar com os pacientes graves. Eu me interessava pela medicina antroposófica, pela homeopatia e pela medicina humanizada, eu queria conhecer hospitais que tivessem uma outra visão do ser humano, mais humanizada. Eu queria aprender uma medicina diferente daquela que eu via na faculdade. Eu achava que precisava de outros caminhos e que era necessário chegar mais perto dos pacientes.

Aí, quando eles me chamaram para fazer oncologia eu achei que era uma área onde eu poderia ser útil, e que pela minha percepção da vida e da morte e das perdas do ser humano, eu tinha o estofo filosófico necessário para poder ser médica oncologista. Na época, não existia oncologia, existia hematologia; a oncologia clínica estava começando. Não existia tomografia, não existia ressonância magnética, ultrassom eram poucos. As biópsias, só com cirurgia. Esse meu grupo era praticamente o segundo de oncologia clínica e acabou sendo um grupo muito forte, porque não existia como especialidade. E eu sempre fui buscando a cura, sempre. Eu buscava tratamentos avançados para buscar a cura com aquilo que você tem de melhor. A oncologia, para mim, é uma história de amor, é uma história de você se envolver profundamente, como um mergulho. Entrar junto com o paciente implica muita vezes em abrir mão dos meus conceitos pessoais, compreender aquele momento pelo qual ela está passando, e encontrar direções.


Então fomos buscar na ciência, fomos buscar no indivíduo, na força estruturada da família, na comunhão dos amigos. A gente estimula muito essa relação. Você tem que ter coragem sim, para olhar para um paciente e enfrentar aquela situação juntos, a decepção daquele momento. A pessoa chega derrotada, ela sai mais forte. Ela sai mais forte porque ela sente a força dentro dela, não é porque você deu. Você só espelhou para ela quem ela é. Que é outra característica que eu acho que é bárbara da relação humana, que é você ajudar a outra pessoa a se achar. Eu tenho essa preocupação nas minhas consultas, não só de dar a prescrição técnica, mas sentar para conversar com a pessoa, para ouvir as queixas, o que ela precisa saber, as perguntas, para sentir a dinâmica que ela me traz. As histórias das pessoas são palpáveis, porque é um acervo que ela traz com ela e a partir do qual ela lê o mundo. Então eu entro dentro da história para ler o mundo sobre a ótica dela, para tentar ajudar a encontrar os melhores caminhos.



 

 

 


 


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