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OUTRAS HISTÓRIAS
 

 

NOME: Patrícia Chalaça Moreira

NASCIMENTO: 17/08/1970, Recife-PE

DATA DA ENTREVISTA: 04/11/2002


"Tão importante quanto a criança beneficiada é esse sentimento de que consegui que milhares de pessoas olhassem para o lado e entendessem que elas têm que fazer, não por favor, mas por responsabilidade."


Eu tinha um sentimento muito forte de que queria construir uma creche. Falava isso desde os meus 14 anos. Botei na cabeça que seria aos 30 anos. Quando eu visitei a Casa de Carolina, em Pernambuco, percebi um contraste muito grande: minha filha dorme em um quartinho com ar condicionado, com edredonzinho cobrindo, tudo bonitinho, e lá havia o atendimento de 100 crianças, mas num dormitório dormiam 60 crianças juntas, algumas no chão; no banheiro era um cano saindo da parede para os meninos tomarem banho com balde e latinha.

Me veio uma idéia louca: de convencer todo mundo a trabalhar de graça. Eu comecei a conversar com as primeiras pessoas, que falaram para mim assim: “Você está louca. Você não está vendo que não vai conseguir que todo mundo faça isso?” Eu saí convidando arquitetos, decoradores, construtores e criei um projeto geral da casa, com a visão de arquiteta e não de área social, porque eu nunca tinha trabalhado nesse meio. Devolvemos uma casa de primeiro mundo para crianças que viviam no décimo quinto mundo. Logo depois veio toda uma ação de pessoas que não eram da área da construção civil, mas também queriam contribuir: professores de inglês, de música, de dança, de computação. Quando a Casa inaugurou, houve uma repercussão muito grande, porque não era uma ONG nem nada. Não tínhamos recebido nenhuma doação em real, tudo era em produtos e serviços.

Depois da primeira Casa de Carolina, fizemos outra em Brasília, e depois mais uma em Recife. Em 2001, criamos uma franquia social, que é uma metodologia para ensinar como capacitar pessoas que precisam mobilizar uma cidade inteira para fazer o projeto acontecer. Depois fomos para Maceió, para Natal e para Jundiaí. E, em 2002, para Fortaleza, para Goiânia e para São Paulo. Então, em três anos foram 12 casas reformadas e oito cidades que passaram a conhecer o projeto. E ele é multiplicador, senão ninguém ia nem saber o que é que é Projeto Casa da Criança.

Foram muitas viagens, muitas idas e voltas de avião. Uma ausência muito forte da minha própria família, por dedicação. Eu não me arrependo. Tão importante quanto a criança beneficiada é esse sentimento de que - porque eu estou longe da minha casa com toda essa dedicação - consegui que milhares de pessoas olhassem para o lado e entendessem que elas têm que fazer, não por favor, mas por responsabilidade.



 

 

 


 


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