NOME: Paulo Freire
DATA DE
NASCIMENTO: 19/09/1921
LOCAL:Recife-PE
DATA DA
ENTREVISTA: 16/10/1992
"O meu gosto não era
pela advocacia. Eu descobri isso no começo. Logo a minha
primeira causa, ainda para me formar, foi com um jovem dentista que
comprou um equipamento dentário e não pôde pagar.
Eu era advogado do credor dele."
Eu fui um estudante que
começou atrasado. E você poderia então perguntar:
“E você perdeu muito tempo?” Não, não
perdi, eu acho que você não vive perdendo tempo à
toa. Eu não estava escolarizando-me na escola, eu estava
educando-me no mundo. Com muito sacrifício, eu fiz um exame de
admissão através de uma escola privada, que fazia provas
num outro colégio - era uma complicação, que
até já eu esqueço. Eu fiz lá então
do segundo ano do ginásio até o último ano do
curso chamado pré-jurídico, que eu terminei fazendo o
curso de Direito.
Mas o meu gosto não era pela advocacia. Eu descobri isso no
começo. Logo a minha primeira causa, ainda para me formar, foi
com um jovem dentista que comprou um equipamento dentário e
não pôde pagar. Eu era advogado do credor dele. Chamei-o
ao meu escritório, ele veio, começou a conversar comigo,
era um sujeito da minha idade, e disse: “É Dr. Paulo, eu
não posso pagar e o senhor não vai poder me acionar
contra, não pode tomar meus instrumentos de trabalho.” A
lei não permitia, realmente. “Nem tão pouco minha
filhinha. Mas os meus móveis o senhor pode tomar”.
Eu deixei de ser advogado naquele dia. Eu disse pra ele: “Olhe,
vá para casa, passe no mínimo 15 dias em paz, com tua
mulher, porque daqui a 15 dias eu vou devolver essa causa, e o teu
credor vai ter mais uma semana pra arranjar outro advogado como
eu”. E larguei. Até hoje, definitivamente. Terminei sendo
professor de Filosofia da Educação da Universidade do
Recife. E foi exatamente como professor da Universidade do Recife que
eu defendi uma tese universitária, que eu acho que é
ainda hoje profundamente atual. Essa tese anunciava a “Pedagogia
do oprimido”, como anunciava “Pedagogia da
Esperança.” Essa tese tinha as matrizes disso tudo.
Mas antes eu coloquei tudo em prática e aprendi a perceber a
teoria dessa prática quando eu trabalhei no SESI. Foram dez anos
de intensa pesquisa, ao lado de um estudo muito sistemático,
teórico, que eu fazia constantemente comigo mesmo. Trabalhei
então no Recife durante toda essa época, ora assessorando
grupos que trabalhavam em escolas primárias, ora trabalhando
diretamente com adultos, em educação popular. Não
tenho dúvida nenhuma de que aquele período dos fins dos
anos 40 e todos os anos 50 foram profundamente fundamentais do ponto de
vista da minha formação política e da minha
formação científica. E também
ideológica, nos morros do Recife, nos córregos do Recife,
nas áreas rurais de Pernambuco. Aí então, eu
criei, por exemplo, o serviço de Extensão Cultural da
Universidade de Pernambuco, que existe ainda hoje. Me dediquei
exclusivamente à Pedagogia. Foi daí pra cá que eu
comecei e então depois fui trabalhar no SESI de Pernambuco, onde
eu tive toda assim uma experiência fantástica, que me deu
a possibilidade de refletir teoricamente sobre o que eu via, o que eu
fazia e o que eu escutava.