NOME: Raquel
Barros
NASCIMENTO:
16/02/1966, Sorocaba-SP
DATA DA
ENTREVISTA: 24/07/2009
"Eu tinha uma
idéia:
trazer mães pra estarem junto comigo, e eu ia desenvolver o
potencial da maternidade junto com elas, íamos descobrir
juntos,
fazer com que a maternidade fosse um fator de
transformação na vida dessas meninas."
Eu tinha essa
idéia:
eu ia fazer Psicologia, depois iria morar fora, e morando fora eu
estaria aprendendo as minhas coisas; depois eu iria voltar pro Brasil,
ia casar e ter filhos. E eu tinha esse sonho. Então,
só
faltava ter filhos. Mas eu não engravidava. E
começou a
minha crise. Eu comecei a fazer tratamento. Eu não tinha um
médico, tinha três, porque se um falasse algo pra
mim que
eu não gostava, eu ia em outro. Aí, chegou um dia
que um
dos médicos falou: “Olha, você
não vai ter
filhos”. E eu tenho uma coisa, eu fico deprimida por dois
dias;
é o dia que eu recebo a notícia, eu deprimo
aquele dia, e
no outro dia já começo a tentar bolar uma
solução.
Eu estava na Itália e resolvi que eu ia voltar pro Brasil e
iria
trabalhar com meninas em situação de risco, e que
eram
mães. Porque elas sempre falavam: “Meu sonho
é que
meu filho me chame de mãe. Meu sonho é que eu
possa, um
dia, ir ao abrigo em que está o meu filho e ficar com ele,
porque, afinal de contas ele é meu e eu não tenho
condições”. E eu falava:
“Bom, já que
elas são e eu não sou, então, vamos
resolver esse
problema”.
Quando começou a Lua Nova, foi nessa perspectiva de
trabalhar em
parceria. Eu tinha uma idéia: trazer mães pra
estarem
junto comigo, e eu ia desenvolver o potencial da maternidade junto com
elas, íamos descobrir juntos, fazer com que a maternidade
fosse
um fator de transformação na vida dessas meninas.
Começaram a chegar essas meninas. Eu programei dez. Imagina,
ia
chegando de montão! O nível da
desgraça era tanta.
A minha idéia de maternidade era muito legal, mas eu
não
tinha entendido onde eu estava me metendo. Mas tinha uma menina chamada
Paulete, e ela falava: “O meu sonho é que a minha
filha me
chame de mãe”. Essa Paulete começou a
trabalhar, a
gente começou a fazer a fabriquinha de boneca lá
e ela
começou a guardar dinheiro. E no dia da festa da filha,
comprou
uma bicicleta. Na hora que ela deu a bicicleta, a filha falou:
“Obrigada, mãe”. Nossa, ela
começou a chorar,
eu chorava. “É isso. Eu posso ser louca, a
maternidade
poderia ser minha, do outro, mas é isso”. E
não era
a bicicleta, mas o fato de que ela estava sentindo que aquela pessoa
podia ser a mãe dela.
Depois, começamos a trabalhar nas comunidades. A gente
começou a ter certa visibilidade, a desenvolver potencial,
fazer
geração de renda com a venda de bonecas que elas
faziam.
Mais tarde, surgiu também o projeto das casas, que
é
impressionante. São 12 casas feitas por essas mulheres.
Mulher
na Construção Civil já é
uma mudança
grande de paradigma. Ainda por cima moradora de rua! E, para mim, quem
constrói uma casa, pode construir qualquer
negócio. Na
verdade, ele não é mais um projeto, ele
é um
slogan. Se você acreditar que a pessoa pode, ela pode. E se
ela
acreditar também é ótimo, porque
aí
você vai pra qualquer lugar.
E ainda, no meio desse processo, eu fiquei grávida e tive
gêmeas! Outra dia minha filha falou assim:
“Você
é mãe delas?” Eu falei:
“Não sei, eu
acho que sou.” “Mas você é
minha
mãe”. “Mas eu acho que posso ser
mãe de
várias pessoas.” Não dá pra
tirar isso de
uma pessoa, é pior que matar alguém.
Então, esse
é o projeto, essa é a idéia.