NOME: René
Schärer
NASCIMENTO: 27/02/1941, Berna
– Suíça
DATA DA
ENTREVISTA: 06/07/2007
"Sabemos
que, sem a pesca, as comunidades vão desaparecer, mas para
sermos sustentáveis, precisamos desenvolver o turismo
comunitário, a arte, a cultura, o artesanato, como uma fonte de
valorização do próprio ser, do próprio
passado, e também para geração de renda."
Em 1987, conheci a
comunidade onde moro hoje. A pequena comunidade de mil habitantes que
se chama Prainha do Canto Verde. Era uma comunidade de pescadores
artesanais que os políticos tinham abandonado muito, e os
pescadores estavam sendo explorados pelos atravessadores. A comunidade
queria se organizar, para lutar na Justiça contra grileiros que
queriam se apropriar da terra. Esse foi um pressuposto muito bom. Vimos
que um grupo na comunidade queria melhorar, mudar.
Em 1990 nós resolvemos que o primeiro trabalho a se fazer era
controlar a comercialização do pescado, porque, com os
atravessadores, os pescadores pescavam, pescavam, pescavam e nunca
ficava nada. Achamos que seria fácil de resolver. Só
precisava de uma infra-estrutura, uma caminhonete, um pouco de capital
de giro e uma pessoa para administrar a compra de peixe. Eu me
comprometi com a comunidade: se eles estivessem dispostos a trabalhar,
eu ia ver se conseguia arrecadar o dinheiro para financiar esse
projeto. Houve uma mudança do poder na comunidade: dos caciques
para a associação de moradores. E as falsas
lideranças não tiveram como se opor. Tiveram que aceitar
e participar do jogo.
Nós conseguimos melhorar a renda, porque tiramos o atravessador,
mas ao mesmo tempo, devido à sobre-pesca, à pesca
irresponsável, a captura estava diminuindo. Começamos a
tentar trabalhar com o governo para fazer um ordenamento da pesca. Logo
vimos que esse problema não se resolvia na comunidade, era
preciso juntar pescadores de outras comunidades. Estava
começando a se desenvolver o turismo de massa, com grandes
intervenções do governo, do Banco Interamericano de
Desenvolvimento. Com a ajuda de jovens estudantes, professores das
universidades lá de Fortaleza, a idéia foi mandar para o
Rio de Janeiro uma jangada com quatro pescadores. Saíram no dia
4 de maio de 1993 - e por terra duas mulheres da comunidade
acompanhavam. Essa viagem demorou 74 dias para chegar no Rio e
realmente chamou muita atenção na imprensa, até no
exterior.
O governo não gostou, mas ao mesmo tempo, como resultado da
viagem de jangada para o Rio, nós criamos o Instituto Terramar,
considerado a maior ONG que trabalha com a questão do
desenvolvimento sustentável na zona costeira do Brasil.
Começamos a discutir modelos de desenvolvimento de um turismo
alternativo e também em 1998 a desenvolver um projeto de turismo
comunitário. Na comunidade da Prainha do Canto Verde é
possível se hospedar na pousada domiciliar da Dona Mirtes, ou na
Pousada Solimar; comer no restaurante O Navegador; fazer trilhas nas
dunas com jovens condutores de trilhas da comunidade; ou comprar o
artesanato que está sendo produzido na comunidade. Sabemos que,
sem a pesca, as comunidades vão desaparecer, mas para sermos
sustentáveis precisamos desenvolver o turismo
comunitário, a arte, a cultura, o artesanato, como uma fonte de
valorização do próprio ser, do próprio
passado, e também para geração de renda.