NOME: Roberto Laureano da Rocha
NASCIMENTO: 15/09/1974,
Poá–SP
DATA DA
ENTREVISTA: 16/12/2004
"Eu precisava fazer alguma coisa.
Tinha duas opções: ou
eu ia roubar e ser mais um na estatística dos
latrocínios, ou ia ser um trabalhador. Comecei a me adaptar
a
ser catador."
Eu era rapper, e
minha esposa
também. Nos conhecemos, fizemos bastante shows juntos, e
depois
veio a gravidez. Aí a gente começou a viver uma
outra
vida, e passou a pensar um pouco mais sério. Vieram
vários conflitos, e eu comecei a entrar muito no alcoolismo;
bebia muito mesmo. Fiquei meio desesperado, não sabia o que
ia
fazer. Teve uma fase dessa época da minha vida que eu acabei
usando drogas. Fiquei um bom tempo desempregado, batendo a
cabeça. Vivi um bom tempo com ajuda de igreja, cesta
básica, essas coisas todas. E aí veio essa
questão
de pegar um carrinho e ir para a rua para coletar material.
Eu precisava fazer alguma coisa. Tinha duas
opções: ou eu
ia roubar e ser mais um na estatística dos
latrocínios,
ou ia ser um trabalhador. Comecei a me adaptar a ser catador. Passei
por várias questões coletando material: as
pessoas, as
crianças mesmo, tratavam a gente meio mal, chamavam a gente
de
“burro sem rabo”, “o homem do
saco”.
A princípio eu não tinha perspectiva, eu achava
que eu
precisava era coletar para eu sobreviver. Eu ia até a casa
da
pessoa e primeiro falava era catador, que estava desenvolvendo um
programa de coleta seletiva, e perguntava se a pessoa sabia o que era
coleta seletiva. Explicava um pouco sobre coleta seletiva e que ia
passar determinado dia naquele local para coletar esses materiais; e
que todos esses materiais, além da pessoa estar colaborando
com
o meio-ambiente, ela também estaria ali colaborando com a
renda
de famílias.
E então veio essa coisa de pensar em um programa de coleta
seletiva. Surgiu a Cruma, que é Cooperativa de Reciclagem
Unidos
pelo Meio Ambiente. Quando veio essa história de
organização, para todos nós veio uma
nova
perspectiva na nossa cabeça porque teve essa coisa de ter
essa
nova perspectiva de crescimento.
A cadeia da reciclagem não vive sem o catador.
Nós
catadores estamos na ponta dessa história e não
somos
reconhecidos. Então, conhecendo realidades daqui e dali,
formamos uma Comissão Nacional dos Catadores. Eu comecei a
fazer
uma articulação no estado de São
Paulo. Nós
temos Comitês dos catadores em todo o estado de
São Paulo,
representações dos catadores de várias
micro-regiões. As coisas começaram a abrir,
muitas
pessoas que não queriam nem me ver, começaram a
me
atender. Eu me vi até no Senado discutindo
política
nacional de resíduos sólidos. Eu nunca imaginava
estar no
senado discutindo essa coisa.
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