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OUTRAS HISTÓRIAS
 

Roberto da Silva


NOME: Roberto da Silva

DATA DE NASCIMENTO: 31/08/1957

LOCAL: Garça - SP





"Fui aos arquivos do Sistema Penitenciário e de diversos órgãos para levantar as informações, saber quem eram meus pais, meus irmãos, e por onde eles andavam. Eu me interessei também pela história daqueles outros meninos que encontrei na prisão."




Meu nome é Roberto da Silva. Todos os outros dados da minha biografia são o que eu chamo de “dados oficiais”, porque foram extraídos de processos judiciais, do Juizado de Menores, principalmente. Tenho três datas e três cidades de nascimento, todas registradas oficialmente pelo Estado. Sou Roberto da Silva nascido supostamente em Garça, interior de São Paulo, no dia 31 de agosto de 1957.

A versão oficial da história é a seguinte: Os pais moravam em São José dos Campos e, com a separação do casal, a mãe veio com os quatro filhos para São Paulo em busca do auxílio de um programa do Juizado de Menores, mas só conseguiu ser atendida depois de quatro ou cinco meses. Enquanto isso, ela vivia com as crianças na rua. Quando finalmente foi atendida, o juiz percebeu que a família estava tão debilitada e a mãe tão vulnerável, que recomendou a internação dela em um hospital psiquiátrico na Vila Mariana. Os quatro filhos foram encaminhados para a Febem [Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, hoje Fundação Casa].

Com 17 anos, fui mandado embora da Febem e passei a morar nas ruas. Precisei morar na rua nos quatro anos seguintes. Fui mais de 50 vezes para distritos policiais. Com quase 19 anos, já maior de idade, não teve jeito, me mandaram pela primeira vez para a Casa de Detenção. Lá eu estudei Direito, como autodidata. Direito Penal, Direito Constitucional.

Fui perseguido intensamente por causa do trabalho que comecei a fazer ainda na prisão e que deu origem a essa entidade que se chama História do Presente. Era uma questão de resgatar minha história de vida. Quando fiquei o período mais longo na Casa de Detenção, encontrei lá quase todos os meninos que foram criados comigo na Febem. Ingressaram na instituição como bebês e acabaram na prisão. Esses encontros me deram a certeza de que tínhamos uma história comum e de que se alguma coisa havia dado errado em nossas vidas, não era só por responsabilidade nossa. Voltei aos arquivos públicos, do Juizado de Menores, quando já fazia Mestrado na USP.

Foi lá que localizei, pela primeira vez, um processo a meu respeito. Fui aos arquivos do Sistema Penitenciário e de diversos órgãos para levantar as informações, saber quem eram meus pais, meus irmãos, e por onde eles andavam. Eu me interessei também pela história daqueles outros meninos que encontrei na prisão. Comecei o trabalho na tentativa de localizar meus irmãos, reconstituir a história deles, passar a limpo meus dados pessoais sobre o local e a data de meu nascimento. Fiz a mesma coisa para outros 60 meninos. Ao final do trabalho, localizei 60 grupos de irmãos, que foram separados ainda bebês ao ingressarem na Febem. Foi o ponto de partida do trabalho que comecei a fazer.



 

 

 


 


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