NOME: Sebastião Rocha
DATA DE
NASCIMENTO: 30/08/1948
LOCAL: Belo
Horizonte – MG
"Não
temos que tirar
os meninos da rua. Temos que transformar a rua num espaço de
solidariedade. Para nós, solidariedade é
construída, não é por decreto. As
pessoas
não nascem solidárias.
"
Quando eu
saí da
universidade, eu vi que precisava criar um espaço de
aprendizagem. Há 21 anos eu resolvi, com um grupo de amigos,
criar o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, o CPCD.
Nós
tínhamos um monte de perguntas, de dúvidas. A
primeira
pergunta que a gente se fez foi se era possível fazer
educação sem escola, porque a gente via muito
menino na
rua querendo aprender, e que ia pra escola e era expulso. Repetia um,
dois anos e saía fora. Havia muito projeto de
construção de escolas, e ficavam salas vazias.
Então
eu fui para a
Rádio Clube de Curvelo e falei: "Vai ter uma
reunião das
pessoas interessadas pra discutir uma educação
sem
escola, uma escola debaixo do pé de manga”.
Sentamos numa
roda e começamos a falar disso. Depois de uma semana de
conversa
eu vi que a gente não falava de uma escola que a gente
gostaria
de ter, a gente falava de uma escola que a gente gostaria de
não
ter. E aí eu transformei aquelas
informações num
negócio que eu chamei de Não Objetivos
Educacionais. O
que nós não queremos que aconteça? Eu
mandei pra
uma fundação em São Paulo, a
Fundação Kellog. O Marcos Kisil viu aquilo, me
ligou e
falou: "Olha, eu recebi um projeto aqui meio estranho. Não
tem
objetivos, ele tem não-objetivos". Eu falei: "Mas
é isso
mesmo, professor". Ele falou: "Mas com não-objetivos
você
vai ter não-financiamento". Eu falei: "E o senhor vai ter
não-resultado e não vai dar certo". Ele falou:
"Isso
é uma idéia muito maluca. Vou criar um banco de
idéias, vou deixar isso cozinhando aqui pra ver se um dia a
gente possa conversar". Passado uns dois meses ele me chamou: "Se
você nos convencer que isso é interessante,
nós
vamos entrar com você nessa empreitada". Eu consegui
convencê-los e montamos a primeira experiência
nossa, o
Projeto Sementinha.
O que a gente
desenvolveu
nesses anos todos foram quatro grandes pedagogias. Uma é a
pedagogia da roda, que tudo que a gente faz é numa roda e
todo
mundo se vendo. Essa roda produz consensos e não produz
eleições. A outra é a do brinquedo;
que é
possível aprender matemática,
história, geografia,
ética, generosidade, solidariedade, sexualidade, tudo
jogando,
brincando, prazerosamente. Outra é a pedagogia do
abraço,
de construir as relações de auto-estima e de
solidariedade. E outra é a do sabão, quer dizer,
do
aproveitamento dos recursos, do conhecimento ancestral para a
construção de coisas. Cada uma delas foi
construída e é construída diariamente
com a
meninada. E desde essa época eu comecei a defender uma
idéia que vai muito na contramão do discurso
oficial, que
falava que lugar de menino é na escola. Só se for
aprendendo, porque se não for aprendendo é chato
demais.
Lugar de menino é na rua, na praça, no coreto, no
shopping. Não temos que tirar os meninos da rua, temos que
transformar a rua num espaço de solidariedade. Para
nós,
solidariedade é construída, não
é por
decreto. As pessoas não nascem solidárias.