NOME: Tadeu Augusto Matheus (T.
Kaçula)
NASCIMENTO: 27/10/1972,
São Paulo-SP
DATA DA
ENTREVISTA: 06/07/2007
"De
repente, eu preferia muito mais trabalhar com música, cultura,
arte, e até ganhar super pouco, porque significava fazer o que
eu gostava, do que estar sentado das oito da manhã às
seis da tarde atrás de uma mesa."
Eu tive um professor, que
hoje é meu amigo, o professor Marcos. Ele foi um cara que sempre
me incentivou. Foi ele que me deu um norte muito bacana, mostrou pra
mim o quanto é bonito eu reconhecer e demonstrar minha
negritude; essa coisa de você entender que o cidadão
negro, ele tem um papel fundamental pra construção
política, econômica e social do país. Nessa
época, eu trabalhei em olaria, eu trabalhei em fábrica de
calçados, trabalhei como office boy, trabalhei em empreiteiras,
eu trabalhei com muitas coisas. Mas sempre foram em paralelo com a
música, porque eu toco cavaquinho desde os 13 anos.
Aí, já com 25 anos eu decidi me afastar da empresa onde
estava e, de fato, comecei a trabalhar só com a música,
com samba. De repente, eu preferia muito mais trabalhar com
música, cultura, arte, e ganhar super pouco, porque significava
fazer o que eu gostava, do que estar sentado das oito da manhã
às seis da tarde atrás de uma mesa. Mas é
difícil: samba é uma música que todo mundo
vê como uma das principais referências da música
popular brasileira, mas na prática mesmo não há um
reconhecimento. Então eu comecei a aliar o trabalho de
músico com o de pesquisador.
Aí eu acho que o samba começou a mudar minha vida quando
eu comecei a encará-lo de forma diferente, de que ele pode mudar
a vida de muitas pessoas que trabalham com ele desde que você
consiga estabelecer também uma relação
profissional. Eu encaro o samba como um psicólogo encara a
Psicologia, como um advogado encara o Direito, como um médico
encara a Medicina. A minha forma de encarar o samba é dessa
forma, sem perder aquela coisa lúdica, aquela coisa de entrar na
roda, de cantar, de brincar. Mas também com o foco da
importância do samba como elemento de existência cultual,
política; um dos principais representantes da música
popular.
Fizemos então o Projeto Cultual Samba Autêntico, que vinha
de encontro com essa questão de você colocar o samba em
discussão, mas com um olhar cultual. Começamos a fazer um
trabalho no Centro de São Paulo no final de 99. Na primeira
semana tinham 20 pessoas, na segunda semana já tinham 40. Eu sei
que um ano depois nós tivemos que sair de dentro da loja que
ficávamos, porque já não comportava mais o tanto
de gente que ia. Nós mostrávamos porque a pessoa
compôs, quando ele compôs, quem gravou, quem deixou de
gravar e que período gravou e canta a música. E outra
ação foi a organização e
criação do Projeto Samba Paulista, que é da
preservação da música e ocupação do
Centro, revitalização do Centro através da arte,
através da música.
Então o meu trabalho é totalmente voltado pra essa
questão de transformar. Eu não quero ser famoso, eu
não quero estar na mídia. Mas se existe uma coisa que
pode ser classificada como um sonho, talvez seja isso: que os sambistas
e que o samba em São Paulo, do Brasil, ele seja reconhecido como
de fato um elemento fundamental da música popular brasileira.