NOME: Valdemar de Oliveira Neto
NASCIMENTO: 10/06/1959,
Recife–PE
DATA DA
ENTREVISTA: 14/06/2005
"Foi um momento de curto-circuito,
de não conseguir entender
este mundo. Na vida de um menino de 11, 12 anos isso passa, mas volta
muitos anos depois. É muito marcante."
Um momento que
me marcou foi
uma pelada de rua quando eu era criança. A gente convidou
uns
meninos que pediam esmola para jogar, e no meio da partida um dos
meninos desmaiou. Deu aquele pânico, a gente correu para
casa, e,
enfim, o menino se recuperou. Fazendo perguntas, eu descobri que o
menino tinha desmaiado porque de manhã ele tinha vendido
sangue.
Foi um momento de curto-circuito, de não conseguir entender
este
mundo. Na vida de um menino de 11, 12 anos isso passa, mas volta muitos
anos depois. É muito marcante.
Com 17 anos de idade, de mochila, com dois amigos brasileiros, passei
três meses viajando pela Índia, Nepal,
Paquistão,
Afeganistão, Irã, Turquia, sem contato com a
família. Depois, quando voltei ao Brasil, já na
faculdade, fiz todo o interior do Nordeste, no ônibus
Belém-Manaus, ou de navio gaiola, ou viagem pelo Pantanal...
A
entrada na universidade e o contato com o movimento estudantil serviram
para abrir a consciência, de começar a pensar e a
entender
um pouco da sociedade brasileira. Mas chegou um momento em que achei
que tinha que fazer uma opção: ou entrava de
cabeça na política mesmo – na
época eu tinha
uma militância partidária num partido clandestino,
no
Partidão, o PCB -, ou fazer uma opção
bem radical:
“Não, eu quero ir para as favelas, quero trabalhar
com os
pobres, quero me meter no meio dessa população
que
está sofrendo”. Com um grupo de estudantes,
fundamos em
1981 o Gajop, Gabinete de Assessoria Jurídica às
Organizações Populares, uma alternativa
à
opção de assistência aos pobres da
Faculdade de
Direito, o modelo da assistência judiciária
tradicional. O
Gajop é hoje uma das grandes entidades de direitos humanos
no
Brasil.
E a gente via que tinha uma luta por direitos, uma luta por
justiça que estava acontecendo na sociedade e que a
universidade
não respondia. Era a luta pela terra, pela
habitação, pelo acesso à
educação,
pelo acesso aos serviços de saúde, enfim, a luta
duma
população. Que naquela época, final
dos anos 70 e
começo dos anos 80, foi a época das grandes
invasões urbanas, foi uma época de grande
crescimento das
cidades, grande fluxo de migração do campo pras
cidades e
com muitos conflitos pela posse da terra, no contexto urbano. Foi a
época da multiplicação das favelas e
sempre
envolvendo conflitos em relação à
posse da terra.
A maior parte dos favelados até hoje vivem em
situação ilegal do ponto de vista da propriedade
da
terra. Então a gente resolveu montar um projeto para
trabalhar
com o direito coletivo. A universidade não aceitava isso
como um
projeto alternativo de assistência aos pobres,
então a
gente saiu e foi pra luta construir um espaço, construir uma
entidade que pudesse abrigar um trabalho alternativo ao modelo da
faculdade. E aí começou uma trajetória
no campo
dos direitos humanos, no campo das organizações
na
sociedade civil, que define um pouco o meu caminho.