NOME: Valdete da
Silva Cordeiro
DATA DE
NASCIMENTO: 07/09/1938, Barra do Norte (BA)
DATA DA
ENTREVISTA: 05/08/2007
"Eu passava todo dia para
trabalhar em frente ao Centro de Saúde e via as mulheres saindo
com sacolas de antidepressivo. Comecei a observar as mulheres e parar
para conversar com elas."
Meu primeiro trabalho foi
como empregada doméstica. Dessa casa de família eu
saí no dia em que eu me casei. Mas meu marido teve um fracasso
na vida, e eu passei muita necessidade. Eu já tinha quatro
filhos. Como minha sogra tinha uma amiga, que morava lá na
comunidade do Alto Vera Cruz, foi esse o caminho que eu achei de me
instalar. Quando eu mudei para esse lugar não tinha água,
não tinha luz, não tinha rua. Aí eu comecei a
pensar em como lutar pela melhoria daquele bairro. E com isso eu tive a
idéia de convidar as mulheres para a gente começar a
lutar pela melhoria; pela água, pela luz, por escola, por
creche, que a gente não tinha nada. Chegou a ponto de a gente
juntar 50 mulheres na minha casa.
E depois da luta pela melhoria, eu comecei a pensar também nas
pessoas que moram no bairro, na qualidade de vida delas. Eu passava
todo dia para trabalhar em frente ao Centro de Saúde e via as
mulheres saindo com sacolas de antidepressivo. Comecei a observar as
mulheres e parar para conversar com elas: “Porque você toma
esse remédio?”. “Ah, porque eu sinto uma dor aqui
dentro.” Então eu comecei a notar que as mulheres
não eram doentes, elas precisavam de uma auto-estima. Voltei
para casa pensando. Aí teve uma festa lá no bairro, que
tinha diversas apresentações, e tinha uma sala de
expressão corporal para idoso. Aí fiz a expressão
corporal e pensei: “Meu Deus do céu, é isso que as
mulheres precisam, trabalhar com o corpo e com a mente.” A
expressão corporal era três vezes por semana: segunda,
quarta e sexta. Então sexta-feira eu comecei a deixar a
expressão corporal e comecei a brincar com elas. E qual era as
brincadeiras? Eram as nossas brincadeiras de infância, era passa
anel, era barra-manteiga, que era chicotinho queimado. Comecei com
aquelas brincadeiras com elas.
Logo depois nós tivemos um evento no Alto Vera Cruz, que se
chamava Tambor Alto. Tinham diversos grupos que se apresentavam, era
capoeira, era dança afro, banda, hip hop, o rap, e nós
fomos convidadas para apresentar a expressão corporal. Quando
nós chegamos lá tinha 2000 pessoas, a maioria jovem. E a
gente olhava pro palco e falava: “Nós não vamos ali
em cima, porque nós vamos ser vaiadas”. Mas enfeitamos
pauzinho de vassoura de verde e amarelo, a nossa blusinha era amarela,
e subimos no palco. Quando nós subimos, nós pusemos o
bastão no chão e começamos a fazer a
ginástica. Foi um silêncio, eu só escutava o
barulho dos carros. Quando nós terminamos fomos muito
aplaudidas, tinha gente chorando, gente assobiando. Quando nós
descemos, uma delas olhou para mim, pôs a mão nas
cadeiras, e falou: “Viu, minha filha, nós somos
artistas!” E aí foi que nasceu o trabalho com as Meninas
de Sinhá. Hoje eu sou uma mulher feliz. Elas são felizes.
E não tem mais remédio para depressão.