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OUTRAS HISTÓRIAS
 

 

NOME: Vera Regina Gaensly Cordeiro

NASCIMENTO: 21/07/1950, Rio de Janeiro-RJ

DATA DA ENTREVISTA: 08/12/2000


"Eu acho que, de repente, senti que a gente tinha que dar foco na verdadeira causa da maior parte das doenças das crianças no Brasil, que é a miséria, a estrutura das famílias."


Durante dez anos da minha vida profissional eu trabalhei com adulto. Primeiro, como clínica geral; depois como médica psicossomática, enfocando essa interface mente-corpo; e, depois, como chefe da psicossomática, eu fui trabalhar na pediatria, ajudando as crianças e as mães com problemas graves – com doenças como câncer, AIDS – a aceitarem a quimioterapia. E eu percebi que o buraco era mais embaixo, que elas até aceitavam a doença, mas o que elas não aceitavam eram as condições com que elas tinham que lidar com essa doença. São pessoas muito pobres, e eu percebia que se formava um ciclo vicioso: miséria, internação, reinternação e morte. E que a parte social, a verdadeira causa das doenças, é a miséria, em todos os sentidos. Isso não é focado pela medicina tradicional, porque você prescreve um remédio sabendo que a mãe não vai poder comprar aquele remédio; você prescreve um tipo de alimentação sabendo que ela não tem dinheiro pra comprar arroz e feijão. Então o trabalho médico se torna um teatro e não um trabalho real. Eu acho que, de repente, senti que a gente tinha que dar foco na verdadeira causa da maior parte das doenças das crianças no Brasil, que é a miséria, a estrutura das famílias. Então, eu juntei um grupo de pessoas, num playground do prédio onde eu moro lá na Barra, e em 1991, dia 25 de outubro, nós fundamos o Renascer.

Então, do que consta do Renascer? Existe uma comissão de triagem que fica dentro do Hospital, de forma multidisciplinar, que escolhe os pacientes - em geral são mulheres sozinhas, que não têm marido. Essa família é triada pela comissão de triagem dentro do hospital e vai para o Parque Lage onde fica uma das sedes. Lá ela é atendia durante cerca de oito meses, segundo uns parâmetros de condições de habitação, saúde da criança, saúde da família, escolaridade e autossustento. A voluntária acompanha mensalmente como é que aquela família evoluiu dentro desses parâmetros, e durante esse tempo a gente vai encaminhando essa mãe para cursos profissionalizantes, pra tirar documento, para psicóloga, pra nutricionista, pra comprar remédio, comida e, principalmente, a gente mantém um vínculo muito forte. Pra essa mãe que não tem família, o Renascer se torna a família por trás da família desestruturada. E a primeira pergunta que a gente faz para a mãe é assim: “Quando você tiver alta do Renascer, como é que você vai se autossustentar?”. Porque eles têm que perceber que por um tempo nós vamos ajudar, e depois eles precisam correr atrás. Então, oito ou nove meses depois - é quase uma gestação – ela já é outra pessoa, se autosustentando.



 

 

 


 


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