Maria Helena Rocha Iglesias de Gendre Vidal

Identificação
Meu nome é Maria Helena Rocha Iglesias de Gendre Vidal, nasci na cidade de Lourenço Marques que era a capital da Província de Moçambique, na época província ultramarina de Portugal, na África Oriental Portuguesa. Nasci em 21 de abril de 1944. Na minha documentação eu não existo, porque Lourenço Marques não existe mais.Depois da independência voltou a chamar-se Maputo, que significa reserva de elefantes. Lourenço Marques era um português agrimensor que tinha ido lá demarcar terrenos e batizou o lugar com o nome dele.

Família
Meu pai nasceu em Portugal, Emílio Guimarães Iglesias e a minha mãe é também de Portugal, Maria Flora da Conceição Rocha Iglesias. Minha mãe era nascida no sul de Portugal, no Algarve.

Meu pai já estava a trabalhar em Moçambique, era jornalista, inclusive eles casaram por procuração. A minha mãe teve que ir depois. Vários fatores, eu nunca soube direito, impediram que ela fosse junto. Ele tinha que estar presente no trabalho dele, então ela se casou por procuração e depois foi para Moçambique pelo Canal Suez. Naquela época ainda não tinha problema de travessia. Depois ficou complicado. Uma coisa exótica: ela passou pelo Egito, ficou com uma recordação e um arquivo fotográfico muito interessante

Eles ficaram a morar na capital, em Lourenço Marques e meu pai trabalhava para os Correios, Telégrafos e Telefones, embora fosse jornalista. Na Primeira Guerra Mundial ele tinha andado em submarinos, então ele entendia muito de Morse, telegrafia sem fio, e começou a instalar estações de rádio pelo país. Diz a minha mãe, que eu fiquei lá uns dois anos, desde o nascimento em Lourenço Marques . Depois fomos indo até o norte. Mais tarde o meu pai adoeceu e nós tivemos que voltar para a capital; então eu sou bem urbana. Acabei ficando lá, estudando, até terminar os estudos, até onde havia estudos em Moçambique.

Meu pai se deslocava muito, por causa do seu tipo de trabalho. Era chamado de um lugar para outro, para montar estações de rádio. Chamava Rádio Marcon, na época.
Meu pai tinha idade para ser meu avô. Minha mãe tinha 41 anos e ele ia fazer 56 quando eu nasci. Era 15 anos mais velho do que ela.
Ele teve um esgotamento cerebral por acúmulo de trabalho, ficou amnésico e teve que ser internado numa clínica, inclusive isso ficou muito marcado na minha vida. E como ele tinha uma bagagem cultural grande, normalmente vivenciava algum rei da Inglaterra. Mesmo nesse processo amnésico ele sempre criava um ambiente de nível cultural elevado, porque era o que ele gostava. Eu lembro que minha mãe teve que me levar junto um dia, e me impressionei muito, porque tinha lá alguns com distúrbios maiores e eram agressivos. Ele não, ele ficava tranqüilo. Mas era o único lugar que aceitavam pessoas no caso dele, que tinha perdido a memória por esgotamento cerebral. E teve que ser tratado com eletro-choque. É uma coisa que pareceu uma cadeira elétrica, onde dão choques na cabeça. Coisa bem antiquada e bem feudal. Depois injetavam insulina num processo que eu não sei exatamente como funciona.
Até que passados 2 anos ele pode vir para casa, recuperou a memória, mas sempre ficou com um trauma, ficava nervoso, mas não que afetasse a memória, tanto que depois, quando eu tinha deveres de escola de história e geografia, coisas que é preciso decorar, ele sabia datas, detalhes, guerras, conquistas, desde as Cruzadas.

Quando eu nasci ele já tinha 56 anos e tinha cabelo branco há muito tempo Ele tinha idade para ser meu avô. E minha mãe e meu pai diziam pequena, como se eu fosse neta deles.
Eu era muito pequena e lembro-me que os amigos dele, todos tinham cabelo branco. Eu achava então, que os homens todos tinham que ter cabelo branco.

Ele embranqueceu o cabelo muito cedo. Ele tinha sido casado em Portugal, tinha tido duas filhas. E na época morriam muitas pessoas de tuberculose, porque não tinha um tratamento eficaz de combate. E em duas semanas ele perdeu a mulher e as filhas. Uma manhã os amigos foram visitá-lo para o abraçarem, darem apoio, e quando olharam para ele estava com o cabelo todo branco. Foi uma coisa meio chocante. Ele teve o cabelo todo branco, mesmo jovem.

Meu pai era maçom, e mais tarde o Salazar mandou destruir tudo da maçonaria porque ficava fora do controle dele. Então se eu tivesse trazido um anel, alguma coisa, na hora - eles são muito unidos - eu teria passado melhor do que eu passei. Eles proibiam entrada de livros em Moçambique, então o pessoal fazia com se estivessem transportando drogas. As malas tinham fundo falso, para poder por livros. Então eu estive por muitos anos sem poder ler nada.
Então minha fome de leitura existe até hoje. E é interessante é que depois eu me aproximei das pessoas que estão ligadas à literatura. Poetas, escritores, jornalistas, sempre acham que eu fiz faculdade lá. Por causa dessa minha fome de leitura, estou sempre com eles para ler lá em casa. E o que eu tenho mais lá em casa são livros.

Meu pai não engolia a ditadura de extrema direita que no fim ela tem pontos em comum com a extrema esquerda. Tudo é extremista, radical, para dominar o inconsciente coletivo, todo aquele processo, para que as pessoas não tenham pensamentos próprios.

A minha mãe, quando era garota, no Algarve (hoje zona de turismo com belas praias), tinha vários irmãos que punham ela de plantão para cozinhar. Ela ficou com raiva da cozinha. Fugiu para Lisboa, foi estudar e começou a trabalhar. Foi um escândalo, porque as mulheres não podiam ser independentes. Eu também não gosto da cozinha. Só faço o essencial, principalmente agora que estou sozinha.
Minha mãe ficava em casa. Ela tinha estudado, estudou numa escola técnica que é o que existia lá. Para se ocupar aprendeu datilografia. Ela escrevia e sempre um jornal ou uma revista publicava os seus escritos.
Quando os amigos do meu pai iam visitá-los ela fazia uns aperitivos. Nos dias frios, à noite - embora a gente vivesse em África, tinha uma época que era frio - ela sempre fazia um belo caldo verde, que eles adoravam. Geralmente era uma sopa consistente, sempre com broa, que é como se fosse um pão italiano, ainda mais consistente, típico de Portugal e os padeiros aprenderam a fazer em Moçambique. Engraçado, nenhum padeiro era português, eram todos da Ilha de Chipre. Maior mistério. Como eu era garota, eu nunca me interessei em saber porque. Eu sei que ela servia coisas, mas mais tarde ela só fazia o essencial, porque ela devorava livros também. Acho que eu herdei um pouco.


Infância e Educação

Na minha casa, os amigos do meu pai, eram jornalistas também, escritores, gente ligada à cultura escrita, alguns de rádio. - não havia televisão na época. Eu sempre pertenci a um grupo de gente culta e acabou por ser a minha universidade. Eu consegui ir absorvendo sempre informações e determinada cultura até da experiência das viagens que esses amigos do meu pai faziam e que ele também já tinha feito. História, Geografia. Todos falavam vários idiomas para se poderem fazer entender fora de Moçambique, e isso acabou por ser muito grato para mim, mas eu tinha ainda aquela ânsia de querer estudar mais.

E eu fiquei semi-interna num colégio de freiras que era o melhor da cidade para que minha mãe pudesse ir lá na clínica visitar meu pai. Era um colégio pago. Eu tinha um desconto porque nas condições em que meu pai estava, foi obrigado a aposentar-se. Ficou um tempo fora do trabalho e não sabia se ele ia ter capacidade de recuperar a memória, foi até um espanto que em 2 anos ele tenha recuperado totalmente a memória. Então eu desde cedo lidei com essas diferenças.

As freiras eram, na verdade, muito boas, como educadoras, na parte de instrução e ocupavam parte do dia para a gente rezar. Então ficou aquela formação religiosa. Eu ajudava na capela a cortar as hóstias, a limpar os dourados do padre, e de todo tipo de trajes religiosos que eles usavam. Até teve uma época que eu quis ir para freira, por toda aquela influência de lidar com as freiras. No colégio de freiras, na época usavam-se saias compridas, uma coisa assim secular.

Eu entrei com 3 anos de idade, abriram uma exceção, porque não havia pré na época, nem jardim como tem agora. Mas como tinha esse caso, meu pai estava doente, a minha mãe não podia estar em casa e eu era filha única, eu ficava no colégio semi-interno. Ia para casa era só para dormir; fazia os deveres lá também.

Quando eu tinha 9 anos, eu estava a aprender a nadar, e estava a ganhar umas medalhas e uma das vezes apareceu no jornal de notícias de Lourenço Marques uma foto minha, em que eu estava com uma medalha, toda feliz. Porque havia poucas crianças ainda que estavam a aprender a natação. Achavam aquilo uma coisa do outro mundo. Eram meio atrasados. E a minha mãe foi chamada pela superiora do colégio que disse que aquela foto era muito escandalosa e se eu continuasse a despir-me daquele jeito elas me expulsavam do colégio. Minha mãe ficou muito chocada, tirou-me.

Aí, só tive uma chance, fui para uma escola pública. Porque não tinha escolas particulares.Então fui para a Escola Correa da Silva. E eu estranhei muito porque a professora quando queria castigar os alunos usava a palmatória. Foi quando eu comecei a apanhar nas mãos com palmatória. Eu fiquei em estado de choque, sem ter feito nada. Ela punha todos em fila para a palmatória. Coisa mesmo feudal.

Uma coisa que eu comecei a estranhar foi quando eu saí do convento e fui para a escola pública: Tinha muita gente pobre na escola pública e no colégio não.
Eu notei uma coisa, depois eu perguntava... As professoras tinham que ter feito escola normal em Coimbra que é o lugar de Portugal onde normalmente ficam as áreas universitárias, e é onde tem a língua mais clara, onde as pessoas tem menos sons estranhos pra chiar, falar. Então foi sempre muito interessante a toada na escola primária, eu achei interessante aquele sons das professoras que era diferente das freiras. As freiras sempre falavam com uma voz mais velada, parecia que a gente sempre estava no claustro. E ficava uma coisa meio monótona porque elas não tinham alteração de som. Então parece que eu tinha sido atirada às feras. Eu me sentia nua, desprotegida e depois com aquelas pancadas nas mãos... Eu tinha me habituado a ficar quieta porque eu sempre ficava em classes onde eu era sempre a mais nova. Era tranqüila e sempre que apanhei não tinha culpa.
Agora na escola pública aí eu continuei a ir à piscina porque não tinha nenhuma madre superiora a me acusar de assassinato ao pudor.

Mais tarde eu entrei para o ensino secundário, que seria aqui o ginásio. Quando terminavam o colegial o pessoal tinha que ir embora, ou ia estudar na África do Sul ou na Inglaterra, algum país da Europa, ou Portugal, que teve sempre um ensino de alto nível, embora fosse um país pobre e com muitos analfabetos. O nível de ensino nas Universidades portuguesas sempre foi muito bom, pra quem conseguia entrar.

Na escola eram misturados, brancos e negros só que a chance... Na escola primária ainda apareceram bastante. Agora quando chegou ao secundário, aí rarearam. Porque não eram muitos os negros que tinham condição social para fazer isso. Embora dissessem que não eram racistas, as pessoas nascidas em Portugal, todas eram racistas. O meu pai era uma das exceções, talvez porque ele tivesse um espírito aberto. Nós tínhamos sempre criados, que faziam os trabalhos. A minha mãe, por alguma razão que ela achava que era importante, batia na cara deles, e eu sempre chorava, achava aquilo o cúmulo. Então ela era racista, mesmo. Eu ficava incomodada com aquilo. Ela achava que eu era muito boazinha. "Eu nasci aqui, eles são iguais a mim." Ela queria me matar por eu dizer essas coisas. No colégio de freiras não tinha nenhuma pessoa de cor.

Na escola pública eu só fiz a instrução primária, porque era só para primário. Depois eu passei para a Escola Comercial.
Havia o Liceu, mas a minha mãe vendo que eu era filha única e não queria que eu me afastasse deles, pôs-me na Escola Técnica para que fosse ser contadora, alguma coisa prática. As escolas eram vizinhas só uma grade com uma rede separava as duas escolas. Eu sempre olhava para o Liceu e chorava muito, porque eu não tinha nenhuma tendência para fazer uma coisa comercial; achei aquilo irritante e acabava por estudar de uma maneira meio ilegal lá em casa para acompanhar como era o Liceu. Mais tarde eu prestei os exames e deu para passar. Aí eu empaquei porque eu tinha que me deslocar geograficamente para poder continuar a estudar. Foi sempre a minha pena.

Quando eu estava um pouco mais velha, com 15 - 16 anos, quando acabei o colegial, ficou mais ou menos acertado que eu iria estudar para Sorbonne. Eu tinha me apaixonado pelo André Malraux, que era Ministro da Cultura do De Gaulle, mais tarde foi Ministro dos Negócios Estrangeiros. "A Condição Humana" que ele tinha escrito foi apaixonante. Na época eu não sabia porque eu gostava tanto dos textos dele. Ele era socialista e eu vivendo num país daqueles. E aí eu fiquei a chorar essas lágrimas amargas, porque como eu já nasci fora de tempo, meus pais já estavam a ficar mais velhotes, não aceitaram se afastar de mim, porque eu era filha única. E eu sonhei com Paris e não fui lá até hoje. Então foi sempre assim, no meio de gente que gostava de ler e de escrever, que eu vivi desde criança.

Aqui no Brasil, sempre perguntam, porque acham que eu tenho bastante cultura, e eu depois fico a sorrir e às vezes com vontade de chorar. "Olha, quem, freqüenta faculdade aqui, não consegue ter a sua cultura". "Que faculdade você freqüentou?" "Olhe, os meus professores eram os jornalistas amigos do meu pai". Muitas vezes eles não sabiam que eu estava a ouvir as conversas. Eu comecei a fazer isso, com 8 ou 9 anos. Antes eu não entendia direito, só via que todos tinham cabelo branco, essa parte visual, que é o que a criança pega.

É interessante essa universidade que eu freqüentei, até parece uma benção, porque a vida sempre dá um equilíbrio, quando parece que tira uma coisa surge outra coisa para compensar.

Aqui eu ainda pensei em estudar, mas como eu me apaixonei pelo meu trabalho, comecei só a fazer literatura para minha alegria e realização. Fiz ainda vestibular, mas depois não quis continuar porque na Universidade, cada tipo de Faculdade, dá dez matéria, por exemplo, e duas é que interessam para você. As outras são a tal cultura geral que no fim a pessoa não absorve. Eu preferia fazer coisas que me dessem prazer, já que eu tinha vivido contrariada tantos anos por não conseguir cultura.


Namoro
Alberto Manoel Arantes Gendra Vidal, que foi meu marido, era nascido no litoral, mas mais para o norte em Arrimo a 600 quilômetros da capital e depois ele foi estudar em Lourenço Marques, na capital, porque depois do primário não tinha mais nada. No colégio dos padres ele foi colega do Rui Guerra. A família dele tinha muitos elementos familiares numa empresa de mineração de ouro que fazia exploração de minas de carvão, e que contratava mão de obra para as minas da África do Sul, mão de obra negra. África do Sul é um país muito rico, tem diamantes, urânio, tem muita coisa. Ele foi funcionário dessa empresa, o pai tinha sido, o tio tinha sido e por hierarquia eles achavam que seria interessante ele adquirir cultura na Inglaterra, na África do Sul. Foi isso que ele fez, fez essa carreira, tinha um cargo importante vivia muito bem.

Aos 19 anos se casou com uma inglesa que ele conheceu na África do Sul, onde ela estava a estudar, mas o casamento não deu certo. Não tiveram filhos. Eles viviam numa grande mansão, uma área para um uma área para outro. Um na ala Norte e outro na ala sul. Ele queria o divórcio, mas ela não dava.

Aos 16 anos eu fui trabalhar porque meu pai morreu e eu queria ajudar a minha mãe, e continuei a estudar à noite. O diretor administrativo e financeiro da empresa onde eu fui trabalhar era meu padrinho de batismo e depois foi meu padrinho de casamento. Só para vocês terem uma idéia, uma pessoa de brasão, realmente uma pessoa especial. Teodorico César de Sândi Pacheco de Sacadura Bode era o nome dele. Eu trabalhava em um prédio de três andares. A empresa se chamava (Breiner Wither?), o (Wither?) Era de dois estrangeiros, um suíço e outro inglês (ou americano) que tinham ido a viver pra Moçambique e resolveram abrir essa empresa. Era uma companhia de navegação, ela tinha uns pilares bem sólidos era quase como uma estatal, embora fosse particular. Tinha bastante poder. Tinha diversos departamentos: farmacêutico, técnico com eletrodomésticos e no último andar desse prédio tinha a Companhia do Sisal, porque sisal foi sempre uma das grandes riquezas de Moçambique, com o qual eles faziam todo tipo têxtil possível e imaginário. Bem artesanal, mas faziam.

E eu entrei muito garota, e eu tinha uma mentalidade de criança mesmo porque eu tinha estado no colégio de freiras, e como eu tinha idade para ser neta dos meus pais, fui sempre muito preservada, embora depois tivesse ido para a escola pública. E comecei a trabalhar e como o diretor era o meu padrinho, então sempre vivi assim dentro de uma concha.

Um dia, vi aquele homem lindo. Toda a mulherada em volta dele. Era o fã clube dele. Por alguma razão, uma amiga minha disse: "Olha, tem um homem lindo, parece um militar, liga para mim que eu não vou saber falar, e tu falas tão bem." e eu falei: "Ai os seus cabelos" porque ele tinha um cabelo grisalho. Ele tinha uns 26 anos talvez.

Eu fiz a chamada e ainda não sabia quem era. "Eu trabalho no teu prédio." "Como, se eu conheço todo mundo?" assim todo estabanado. "É o homem mais lindo" Era uma figura que eu não via porque ficava rodeado de mulheres parecia um sultão, e as mulheres desmaiavam. Ele era bem humorado, com senso de humor, muito bem vestido, uma cor de carioca, cabelo meio grisalho. Muito novo ainda, mas com cabelo grisalho. Ele fazia safári e andava sempre ao ar livre. Ele se vestia muito bem. Soube depois que ele tinha 14 ternos e tinha umas 50 gravatas. As gravatas tinham que ter o tom das meias. Só usava sapatos que ele importava da Inglaterra.
Tinha lá uma avenida larga, não tão larga como a Paulista, era a Avenida da República, que era aonde se cruzavam as elegantes, na cidade baixa. A empresa estava no fulcro principal¸ como se fosse a Av. Paulista. Os escritórios e bancos principais eram lá nessa avenida; era a nossa Paulista. Tinha os cafés principais e as pastelarias, que lá eles usavam para doceria. Pastel não era coisa salgada; podia ter coisas salgadas, mas pastelaria era doce. Era o Scala e o Continental. Todo mundo conhecia o Alberto porque ele engraxava os sapatos três vezes por dia. (Os sapatos vindos da Inglaterra). Ele era muito elegante, praticava esporte, estava sempre bronzeado. Às quartas à tarde não trabalhavam porque ele e os ingleses iam jogar golfe. Já isto era uma casta diferente. Me irritavam as mulheres à volta dele, eu já desligava e ia embora. Isto também chamou atenção dele. Talvez tenha arranhado o ego dele, não sei.

Então, ele achou muito engraçado. Ele viu que era uma criança que estava no telefone. "Eu quero conhecer você." "Ah, está bom." mas eu ia mandar minha amiga. Ele já era manhoso, era mais velho. "É você que eu quero conhecer." "Onde é que você trabalha?" "Eu trabalho na Braine Wither" "O que!!!. É o prédio onde eu trabalho, no terceiro andar" Eu nunca tinha subido no terceiro andar porque eu trabalhava no segundo. Eu conhecia o pessoal do térreo, do primeiro e do segundo. Eu não tinha subido lá porque a empresa não tinha nada no terceiro andar.
Ele disse: "Eu vou ver você, lá na contabilidade" - eu trabalhava na contabilidade, odiava aquilo, mas trabalhava na contabilidade. Ele entrou e os chefes dos departamentos cumprimentaram, pois ele já tinha um cargo importante; era como se fosse assessor aqui, do gerente em Moçambique, um inglês. Ele chegou ao departamento pra ver quem eu era. Olhou pra mim e falou: "Foste tu..." - lá não se usa você, você é pra serviçal. "Foste tu que me ligaste?" "É.". Imagina a cena, eu infantil de tudo.

Falou na frente de todo mundo. Eu não ligava, eu era muito brincalhona. E depois uma vez eu estava na praia, e ele apareceu. Ou ele soube que eu ia à praia, sei lá. Para avaliar como eu era de maiô. Maiôs inteiros tipo Marta Rocha, bem pudicos. Ele falou que ficou deslumbrado com os meus pés, (até tem um filme do Eddie Murphy, ele namorava muito, ele era bem galinha, depois ia dormir com uma das namoradas e a primeira coisa que ele fazia era ver os pés de manhã. Aí ele descartava aquelas com pés horríveis.)
Então nós começamos a sair.

Na escola eu tinha me encantado com alguns meninos, mas nunca tinha dado um beijo em nenhum.

Eu fiz o aniversário de 17 anos e eu o convidei para ir à minha festa de aniversário. Achava aquele senhor muito interessante; eu o tratava por senhor, eu o achava muito velho, já tinha cabelos brancos. Ele me mandou um presentinho para menina adolescente mesmo, uma coisa para por perfumes cheia de florzinhas. Eu fiquei anos com aquilo, ele dava risada quando olhava. Depois teve uma festa, a 3 de novembro - não esqueço porque acompanhou-me esse 3 de novembro a vida inteira - num lugar que tinha um nigth club, tinha uma parte para dançar, a beira mar, e ele foi. Começamos a dançar, e me apaixonei na hora por ele. Foi a 3 de novembro de 1962. A coisa atingiu um ponto que as admiradoras me fecharam no banheiro pra me darem uma surra. Porque elas acharam que era sério. Eu era menor, se ele está interessado é uma coisa séria. Quiseram nos afastar e eu chorava muito.
Ele estava sempre com namoradas, mas ainda estava casado, já com processo de querer se separar da mulher, a inglesa que estudava em Johannesburg.

O ascensorista não podia permitir que nós dois subíssemos ou descêssemos no mesmo elevador, para não nos tocarmos e não nos olharmos. Ele trabalhava no terceiro andar e eu no segundo. Eu escrevia, ia ao correio, punha a carta no correio; ele escrevia punha carta no correio. Ele mesmo fazia isso para que nenhum contínuo ou office boy soubesse para quem era a carta. Imagine um homem de cabelos brancos fazer isso.

Então a mulher veio a saber, mas eles já não viviam juntos. Eu chorei tanto durante três anos porque a minha mãe disse: "Só te deixo casar quando tiveres 21 anos" - o meu pai já tinha morrido. Ela dizia que eu tinha me apaixonado por um macaco velho - que era a expressão que se usava. Ela pôs um detetive pra saber quem era o cara: não era recomendável, era casado, já tinha entrado com um processo de divórcio de comum acordo, mas quando a mulher soube que ele estava interessado numa garotinha, virou divórcio litigioso.

Tínhamos 13 anos de diferença e na época contava. Ele tinha se encantado, mas eu ia me moldar à imagem e semelhança dele como Deus, não há dúvida. Era um tipo de ditadura de seda. . Mas foi um romance muito engraçado, muito interessante.

A mulher ligava para a sala de trabalho do meu padrinho - ninguém entrava lá porque ele era o dono e senhor da empresa. Ele dizia "Leninha, vem cá. (ele sempre me chamava de Leninha, porque eu sempre era a mais nova) Tem uma mulher malcriada ao telefone, diz que tu estás a roubar o marido dela." Eu contei tudo a ele, mas ele adorava o Alberto. "Mas, eu sei que eles estão separados." Todo mundo sabia, a cidade não era tão grande, todo mundo sabia da vida de todo mundo.
"Ele sempre anda com outras mulheres." Ele, meu padrinho, também fazia a mesma coisa. Então ele sabia, talvez se cruzassem, eu levo essa, você leva aquela, sei lá o que acontecia nos bastidores.

Bem a coisa atingiu uma gravidade X que meu padrinho chamou o pai do Alberto, que era dessa empresa de contratação de mão de obra mineradora, chamou o cunhado dele, que era um homem muito importante, dono da maior transportadora de mineiros brasileiros. Esse irmão mais novo da minha sogra, o Antonio Abrantes, - tinha estudado em Oxford, o que era um espanto. Naquele buraco, gente que tinha estudado em Oxford - com o meu sogro, o meu tio, tiveram uma reunião de cúpula e depois chamaram o meu futuro marido, para pedir satisfações, se ele ia levar a sério, se ele ia casar comigo. Eles iam arranjar um jeito do litigioso ser rápido, compravam o advogado, sei lá o que faziam, essas estratégias que a gente sabe quando cresce.

Eu chorei tanto durante esse romance, porque as pessoas achavam que eu tinha roubado o bezerro de ouro da vida delas. Coisa idiota, ridícula. Eu estava completamente apaixonada por ele. Achava ele o máximo. Mas eu não tinha noção dessa realidade.


Casamento

Resumindo a história, casamos em 3 de novembro de 1965. Ele tinha um primo irmão, filho deste que tinha estudado em Oxford, o João Eduardo Abrantes e um amigo, o Luis Lopes da Silva que ficaram encarregados do seguinte: a mulher dele ameaçou. Primeiro disse que eu estava grávida, depois ameaçou que ia levar uma arma. Ela estava totalmente desequilibrada. Nunca quis saber dele e depois quando soube que ele ia mesmo casar, depois dessa reunião de cúpula, ela disse que ia com uma arma para nos matar. O João Eduardo Abrantes e o Luis Lopes da Silva estavam armados atrás dos convidados, pelo menos para assustar, se fosse necessário, Avisaram o padre. Era o arcebispo que nos ia casar, mas ele foi chamado a Roma.

Foi um casamento muito bonito, a sociedade achou muito interessante e estranho. Eu casei com um missal de madrepérolas e um terço que tinha sido benzido em Fátima, aquelas tradições de família. Depois o terço e o missal eu dei para as freiras que tinham, digamos, uma agência do colégio nas montanhas.

Aí fomos passar a lua de mel na África do Sul, que era um país vizinho, e quando voltamos eu já fui para o interior. Interior à beira mar, mais ao norte, Xai-Xai.


Vida de casada
Minha ida mudou muito. Eu era 100% urbana e ali era um bairro (no começo dessa empresa, em 1901, eram barracas de campanha.) Mesmo depois, quando já tinha mansões grandes, todas em concreto, sempre se chamou de acampamento. Então acontece que já fui para o mato, mas quando eu cheguei lá fiquei deslumbrada porque meu marido foi colocado no cargo que meu sogro ocupava, porque ele voltou para a capital. Ele, que toda a vida tinha trabalhado num escritório central, foi comandar um acampamento. Era o chefe do acampamento. É uma coisa que só se via em filmes, como aquele filme Out of Africa que passou com a Meryl Streep. Chorei o filme inteiro, vi muitas vezes porque tem muitas cenas que eu tive em minha vida.

Agora ele sempre se vestia de cáqui, nunca mais usou os ternos, a não ser quando algum amigo casava. Tinha toda uma estrutura montada: o cozinheiro, o que lavava e passava roupa, o ajudante de cozinha. "Não te quero na cozinha, quero você sempre vestida de seda, de linho, cheirar perfume francês". Eu fazia, de vez em quando, quando ele estava a trabalhar, sobremesas, algum suflê.

Tinha uma grande vida social no acampamento, em relação às autoridades, por exemplo, era o diretor de banco, o diretor da fazenda - eu agora dou risada porque sou um rosto na multidão - era o diretor do hospital, estavam todos os macacos nos galhos da diretoria. Eram com essas pessoas que a gente lidava. Tinha sempre jantares, almoços servidos à francesa, então tinha que ter uma equipe de criados. Eu tinha sete empregados incluindo os três jardineiros. Tinha jardins muito grandes e o serviço era contínuo. E tinha que ter cozinheiro altamente treinado. O presente de casamento de minha sogra foi um cozinheiro altamente treinado para poder fazer todo esse trabalho.

Conforme eu fui mudando de cidade já tinha uma equipe montada que meu sogro providenciava lá de Lourenço Marques. Ele falava: "Minha nora vai para aí com Alberto, eu não quero que ela fique com o trabalho doméstico." Então eles treinaram um ano antes para que quando eu fosse pra lá já estar pronto.

Alberto tinha muita prática, porque embora ele vivesse na capital, o pai tinha vivido muito tempo no interior e ele ia muito para lá. Então ele conhecia toda essa estrutura, sabia como funcionava e ele ficou contente de eu aceitar isso porque nesse lugar ele tinha possibilidade de ser promovido, e se ficasse na capital ia ser sempre o assessor do gerente, do diretor que representava o presidente na África do Sul. Então fui assim bem africana.

Aí quando nós fomos para um outro lugar, era Xai Xai, - os portugueses puseram o nome de João Belo que tinha sido o primeiro homem que tinha demarcado as áreas lá - aí nasceu a minha filha mais velha.

Depois meu marido foi transferido e nós fomos para Maxixe e depois fomos para Massinga. Em Massinga ele foi presidente de um clube e ele queria apresentar programas diferentes nas festas da cidade, como fazem aqui com as exposições agropecuárias. Uma das coisas que ele queria apresentar, além de coisas que tinha lá, eram tribos, porque muita gente que vivia lá nunca tinha visto tribos. E ele andou pelo interior da selva, de Land Rover, aquele jipe Land Rover, que aparece muito em Paris-Dakar. Ele descobriu uma tribo que se chamava tribo dos macacos, e foi um deslumbramento. Vieram uns 30 dançarinos, só homens, com aquelas marimbas. Eles tocavam as marimbas deitados. Eu vi essas marimbas feitas por índios. Eu emocionei demais quando fui no Memorial. tem coisas lá que eu achei que eram exclusividades dos povos africanos, e a base para fazer sons, percussão na selva tem que usar a mesma coisa, conforme a dimensão para dar aquela musicalidade. Incrível, eles davam uns saltos acrobáticos extraordinários. Foi o maior sucesso. Eu fiquei deslumbrada porque eu nunca tinha visto uma tribo, mesmo do interior da selva, atuando assim a três metros de distância.

Havia moças que se enamoravam de negros. Aí eram postas a margem. Você não podia chamar de mulato, era ofensivo pra eles, tinha que ser mestiço.

Minhas crianças quando foram nascer, cada um nasceu em um lugar diferente. Minha filha mais velha nasceu em Xai-Xai. O nascimento de meu filho foi interessante: nós estávamos em Massinga e tinha muitas missões americanas, médicos missionários mesmo, no interior da selva, no interior de Moçambique. E havia um muito famoso que era o Robert Simpson que comandava um hospital. Então eu decidi que eu ia ter esse meu terceiro filho lá. Não tinha ultra-som, eu não sabia qual era o sexo, sempre tentando um menino e veio. Era no meio da selva, eram só missionários especializados em medicina. A chefe da maternidade era sueca. Estavam altamente equipados, e só atendiam negros. A única branca que entrou naquele hospital fui eu. Tinham acabado de inaugurar o pavilhão da maternidade. Eu nunca me esqueço da cena: começaram a aparecer a mulher do diretor não sei de que, não sei de que. Tinha a enfermaria, mas eu estava numa suíte que eles tinham construído caso aparecesse alguém especial, As senhoras de lencinho rendado, com perfume francês, tinham que atravessar a enfermaria porque não tinha uma porta de entrada independente. Não me esqueço, o hospital tinha uma equipe altamente treinada para limpar, mas as negras que estavam lá no hospital faziam cocô no chão, porque elas viviam na selva. Faziam cocô no mato. Então elas estavam dentro de um concreto, achavam que era um mato diferente, achavam natural. E as senhoras chiques tiveram que passar no meio daquele fedor. Eu não me esqueço da cena, eu ria e achava muito engraçado.

O filho ficava junto de mim o tempo inteiro, não tinha berçário, então não havia nem a possibilidade de trocar o filho por outro. Também, era o único branco que tinha lá. Meu filho dizia: "Mãe, que romântico, eu nasci no meio da selva". Ele contou isso para os amigos da moda e diziam "Você é um cara diferente."

Meus partos sempre foram normais. Onde eu fui melhor assistida foi na selva. Eles usavam um pano de cor bege, que tiravam da autoclave, altamente desinfetado e usavam. Eles tinham uma noção de assepsia melhor que hospitais de brancos.
Parecia sempre que era um pano sujo, não passado à ferro. Todo o pessoal parecia que estavam amassados também. O Henrique demorou muito para nascer, então ele nasceu com uma marca na cabeça. Eles iam esperar mais um pouco para nascer com fórceps, aí, graças a Deus ele conseguiu nascer. Ele era muito magro, ele tinha só 3 kg e 56 cm. Ele tinha o aspecto meio cinza, embrulhado e com aquela marca na cabeça. Embrulhado naquele pano amassado e bege, que parecia que não tinha sido lavado, parecia incrível. Diziam que eu era louca, que estava no meio daquela porcaria, totalmente selvagem. Foi muito bem.

Eu pedi ao Robert Simpsom para fazer a circuncisão que aqui vocês chamam de fimose. Então fizeram no Henrique com dois dias de nascido. Eles diziam: "Você é uma portuguesa diferente, imagine se o povo português faz isso. Só judeu, americano e negro é que faz circuncisão quando o filho nasce." Então eu fui assistir. Ele deu uma colherzinha de café de rum para não precisar de anestesia, porque ele era bem "natureba." Então na mesa de cirurgia de adulto, ele estava muito magro e com aquela marca na cabeça, parecia um coitado, um faquir. Nem precisou dar nenhuma anestesia. A cirurgia foi muito rápida e a recuperação foi muito legal.

Depois de ter casado, eu viajava 5 ou 6 vezes por ano pra África do Sul. Porque meu marido trabalhava para uma empresa de contratação de mão de obra de negros para as minas da África do Sul, cuja sede era em Johannesburg, que é uma cidade, digamos para a África do Sul o que é São Paulo para o Brasil, indústrias. Então eu ia na África do Sul, e é famoso o"apartheid" da África do Sul, e eu dizia "mas lá também tem". Só que os portugueses não são tão honestos como os ingleses. Os ingleses declaravam abertamente: "A gente não gosta deles e ponto final". È incrível que eu não sabia que isso estava tão dentro de mim, que é muito coerente porque eu nasci num país negro.


Fuga
Aí começou a luta da independência de Moçambique.
Nós vivíamos muito bem, de uma maneira bem folgada em Moçambique, tínhamos muito, quer dizer, bastante dinheiro, casa própria, três carros, um jipe para andar na selva, pra fazer safáris. Não conseguimos vender nada disso. Foi tudo nacionalizado. Tivemos que fugir. Fomos de Moçambique para Johanesburgo, na África do Sul.

Para complicar a nossa saída de Moçambique, tínhamos uma pasta, um processo com um monte de documentos, endereçados à Fazenda. E os funcionários já tinham fugido. Então foi um drama, porque quem estava lá, ou era ajudante ou office boy. Não tinham nenhuma noção. Parte dos arquivos tinha sido destruída. Foi horrível. E ficava aquela angústia, porque tinha um prazo X pra fazer isso, e depois já não podia sair do país. Nem com salvo conduto. Ali tinha um documento, era o item, digamos, Z. Nós tínhamos que renunciar à nacionalidade moçambicana, sendo que a gente nunca tinha sido moçambicano. Isso era um drama, porque o Ministro da Justiça se estava de mau humor naquele dia, dizia assim: " Não. Você não vai .Você fica." E tinha histórias pesadas do meu sogro. Então, nós estávamos indo juntos, um clã familiar. Esse detalhe foi muito estranho, muito interessante

Quando nós saímos de Moçambique, tinha uma série de negros no aeroporto chorando. Alguns vestiram trajes tribais como homenagem, sabiam que a gente gostava e as tropas de Samora Machel maltratavam-nos muito. Não admitiam que um negro estivesse a chorar por um branco que tinha destruído o país e que tinha posto lá coisas corruptas. O enfoque dos nativos da terra era que ela tinha sido invadida por colonizadores.

No aeroporto, eles liberavam 150 cruzeiros para cada adulto, no passaporte. Ficaram com todas as nossas propriedades, coisas que a gente tinha, tudo. Foi tudo nacionalizado e só os adultos tinham 150 cruzeiros, que mesmo com a outra moeda era muito pouco para começar a vida no Brasil. E as crianças não contavam. Chegamos no aeroporto, estavam esses negros à nossa espera. Choramos muito, por causa dos negros estarem lá, a tribo dos "macondes." Tinham um metro e um, como minha filha diz sempre, tinha um metro e um. Eles serravam os dentes para ficar com ar feroz, bicudos, até porque comiam carne crua, e então arrancavam melhor, como as feras. Eles estavam com baionetas, que tem aquela faca na ponta da espingarda. Abriram as nossas malas, com a raiva de ter negros chorando por nossa causa e praticamente esvaziaram as malas, que era a única coisa que a gente estava trazendo. Então foi patético.

Sobre a tribo dos "macondes", do norte de Moçambique: Samora Machel era ajudante de enfermeiro, nunca teria tido capacidade de subir no organograma ou na hierarquia de hospital. Como ele era um revoltado, estava sempre a dizer "eu vou formar uma guerrilha aqui." Mas ninguém tinha levado muito a sério. Ele estava mais interessado em criar grupos de revolta do que propriamente evoluir na profissão dele.O Samora Machel achou por bem que os "macondes" eram os melhores. Era a tribo mais selvagem. Então, eu não sei se aqui tem umas árvores árvores largas, que dá para você se deitar lá em cima, tem os troncos largos e tem umas cavidades que quando chove fica uma reserva de água por que depois havia seca. Eles recorriam a essas árvores. Os "macondes" sempre dormiam em cima das árvores, eram bem pequenos, bastante selvagens. Samora Machel achou que eles eram rebeldes, eles não tinham sido contaminados pela civilização dos portugueses, achou que a porta de elite tinha que ser aqueles porque nunca tinham visto uma arma a não ser estilingues, zagaias, setas com arcos e tal. Esse foi um dos perigos que aconteceu após a intendência porque eles viravam as armas de qualquer maneira, não tinham controle, passavam a viver bêbados porque tinham acesso a tudo como tropa de elite. Eu vivenciei isso, porque antes de ir para a capital, já depois da intendência eu vivi na fronteira. Atrás da minha casa passava um arame farpado. Então essa visão era uma visão do inferno para mim, os "macondes", quando eles apareciam. Impressionavam porque eles eram bem escuros com aquele aspecto selvagem, arrastando uma arma de fogo sem saber como utilizar. Quando eu ouço falar de balas perdidas, eu sempre estremeço, porque tenho essa referência da época.

E no caminho, de onde as pessoas ficam no aeroporto até os aviões, tinha o campo de pouso, tinha uma certa distância, Tinha umas tendas, barraca de campanha como eles chamam, onde mulheres faziam revisão corporal. Mandavam você tirar a roupa toda na frente de todas as mulheres pra ver se você não tinha grudado no seu corpo dinheiro ou até ouro. Houve mulheres que enfiavam tubos na vagina. Ainda o contrabando não estava tão sofisticado e isso passou. Teve gente que levou diamantes assim. Por sorte eles não encrencaram com nossa aliança de casamento. Mais tarde eu soube que quando tinha aliança, para tirar a aliança eles amputavam o dedo. Nós saímos numa época não tão ruim. Dizia-se muito mal da África do Sul por causa do racismo. Mas foi a África do Sul que salvou Moçambique cedendo aviões para as pessoas saírem do país.

Então embarcamos e fomos até Johannesburg, foi a primeira parada. Esse avião só fazia essa ponte aérea. Viemos todos em pé dentro do avião. Era tanta gente, que eu não me esqueço. Quando eu viajo de avião e mandam por os cintos, eu sempre me lembro da cena de lata de sardinha.

Fiquei com muito medo. Eu estava tão traumatizada com os "macondes" atrás, com armas, arrastando no chão aquela espada que tem na ponta. A gente nunca sabia se ia ser atingido por uma bala perdida. Bem entramos no avião, chegamos em Johannesburg, numa viagem de 50 minutos,e ficamos no Holiday Inn a dormir. Todo mundo dormiu, roncou, descontraiu, e eu sabia que muitas vezes telefonavam as autoridades de Moçambique e traziam as pessoas de volta para Moçambique:"Olha, descobrimos aqui que ele maltratou a minha avó, no ano 1915." E recambiavam as pessoas para Moçambique. Eu fiquei tão tensa que todo mundo achou que eu tinha ficado pirada. Aí depois entraram novos passageiros e chegamos em Cape Town, que é já na ponta do mapa.
Mas esse já em outro avião, da Varig, todos sentados.
E depois aquela alegria do pessoal de bordo brasileiro, uma coisa.

Quando a avião levantou vôo e começou a sobrevoar o Atlântico, e que já não dava pra voltar pra trás, e estava todo mundo numa boa, eu comecei a ter uma crise de histerismo, de gritar, que tiveram que me amarrar. É que eu relaxei, inclusive depois, eu fiquei mais de um mês sem voz, eu fiquei com uma grande inflamação. Veio à tona todo o meu desespero que ficou embutido, alguém tinha que manter uma certa consciência. E diz essa minha amiga - que já está aqui a morar faz tempo, amiga de infância mesmo, foi incrível quando a gente se cruzou aqui em São Paulo - que daí para frente quem sempre comandou fui eu. Eu ficava normalmente nos bastidores para meu marido brilhar. Não era que eu não tinha capacidade, era um processo ditatorial que havia lá, embora ele fosse um cara diferente. Era uma ditadura de seda, porque era assim lá.

Depois de ter pegado o avião para Johannesburg, ter ficado em pé, todos entraram numa inconsciência.O meu sogro tinha aprontado muito em Moçambique, mil historias lá. Por causa dele nós tínhamos que sair urgente. Meu marido tinha uma promoção a espera dele em Johannesburg, onde nós iríamos viver muito bem, as crianças iam ter estudos pagos até o final da faculdade. Então tinha um projeto de vida legal. Mas, eles não queriam velhos na África do Sul, porque havia tido uma fuga grande, tinha lá velhos dormindo nos bancos do jardim. E a África do Sul herdou uma série de coisas inglesas. Então eles não aceitavam velhos no país porque estava super lotado de refugiados e não tinha lugar para os colocar. E meus sogros não podiam ficar.

Para mim era indiferente vir para o Brasil ou para Portugal. Eu nunca achei Portugal era minha pátria. Quando eu lidava com portugueses de Portugal era um horror, eu não sou dessa tribo. Agora eu digo isso a brincar.

A minha concepção do Brasil era através da revista O Cruzeiro. Eu nunca tinha falado com ninguém do Brasil. Era muito longe, como se fosse outra galáxia. Eu adorava ver as fotos que tinham praias, eu dizia "ah, são iguais as daqui", água tão azul, provavelmente é do norte, Natal, sei lá. Mas eu ficava alucinada com as matéria do Carlos Lacerda.

Na escola falavam que o Brasil era a maior colônia portuguesa, só. Eu fiquei impressionada quando eu soube que a Amália Rodrigues, que era a maior fadista portuguesa tinha casado com um empresário brasileiro.
Eu delirava quando lia a revista O Cruzeiro, incrível os textos de Carlos Lacerda e ficava chocada com as fotos das favelas. Porque sempre teve sensacionalismo, como os meninos da Candelária, e eu sempre combato isso quando vem estrangeiros. Então eles me acham com uma sabedoria grande, mas você acumula com as experiências que você tem na vida.

Para ir para Portugal, minha mãe ficou 9 meses depois que a gente saiu de lá. Pra ir para o Brasil, no mesmo dia tinha passagem. Ninguém estava vindo para o Brasil. Todo mundo queria voltar para a mãe pátria. Eu não tinha nenhuma ligação com Portugal, a gente sempre vivia revoltado.


Chegada ao Brasil
Chegamos a São Paulo estava aquele frio. Eu lembro-me que não tinha teto e nós fomos para Campinas, lá em Viracopos, eu fiquei assustada porque de repente eu via as mesmas luzes. Era uma viagem longa, e na terceira vez eles avisaram que ia pousar em uma cidade perto de São Paulo, no aeroporto de Viracopos. Viemos de ônibus de Campinas até São Paulo.
No Brasil
Fiquei extremamente espantada quando cheguei aqui e vi que só tem padarias de portugueses. Nunca vi um português numa padaria em Moçambique. As pessoas portuguesas tinham uma base cultural boa e tinham ido para Moçambique, para uma nova terra. Iam pessoas com cultura pra Moçambique e depois importavam agricultores. Então tinha gente de classe média pra alta, não tinham de classe baixa. Depois é que chegaram os de trabalho braçal.

Quando houve a evasão, a chegada ao Brasil de muitos portugueses, sei lá há uns 50 - 60 anos atrás, era tudo gente que não sabia ler, da roça, que em Portugal é o Trás-os-Montes, o lugar mais pobre de Portugal; as terras são pobres, e eles viviam em casas de pedras.. Lugar frio e viviam numas casas com pedras assim amontoadas que agora serve para guardar lenha. Então obrigou eles emigrarem para muitos países, inclusive Brasil. Essa gente de padaria e lanchonete. É muito interessante porque a maioria não sabia nem assinar o nome, punha a impressão digital. Esses são os que hoje estão muito bem de vida porque se sujeitavam a qualquer situação. Mais tarde, com a independência das províncias ultramarinas, tanto de Angola como de Moçambique, era gente com cultura que vinha. Sofreram muito mais esses portugueses que vieram mais tarde, com mais cultura, com a descolonização das províncias ultramarinas do que esses primeiros que chegaram aqui.

A irmã do meu marido, uma delas, morava na Alameda Franca. Ela tinha fugido de Moçambique um ano antes. O marido dela era especialista em plantio de cana de açúcar então teve facilidade em arrumar emprego aqui. Estavam numa casa que tinha sido cedido por uma empresa ligada à plantação de cana de açúcar. Mais tarde eles foram para o Iaiá, em Araras onde estão até hoje. Eles moram lá. Os filhos casaram e tal.

Fomos para a casa dessa minha cunhada, que por acaso morava na Alameda Franca. Olha que chique. No lugar onde eram cinco, porque era ela, o marido e três filhos, já meio grandes, passamos a ser doze, e foi complicado. As nossas mantas, os "macondes" rasgaram com as baionetas, então não trazíamos nada de inverno. Dormíamos vestidos, no chão juntos, e tinha só uma mantinha que tinha sobrado da minha cunhada, e deitamos no chão e dormíamos bem juntos para ficarmos quentes.

Eu não me esqueço quando ela levou-me a uma feira e ela ensinou a meus filhos a roubar fruta. "Vocês esperam quando estiverem para fechar e vai ficando assim barato, vai pondo os papéis." A Vânia era a mais velha, tinha 9 anos - essa é a que se lembra mais de Moçambique - a do meio tinha sete e o Henrique era muito pequeno, tinha quatro anos. Iam os três de mãos dadas muito encolhidos, magros - tinham passado um bocado de fome. Quando está a acabar a feira, normalmente eles rejeitam as frutas. Normalmente a fruta ainda estava lá e quando o sujeito se virava de costas eles pegavam a fruta. Imagina eu que tinha educado aqueles filhos e agora eles estavam aprendendo a roubar, para comer.

Eu não me esqueço, a cena mais marcante. A minha cunhada, nesse dia que nós chegamos, muito cansados, ela foi à padaria e trouxe esse pãozinho, o filão quente, tinha acabado de sair do forno. Eu comi cinco e depois passei mal, porque eu não comia pão há muito tempo. O pão que eu tinha comido a última vez foi numa refeição nesse agrupamento, onde eu estive lá no campo. Era um pão não identificado, azedo há muito tempo, mais duro que uma pedra e tinham feito um caldo verde. Eu vim a saber mais tarde que tinha sido feito de grama e uma mandioca também já azeda que servia de batata. E aquele pão era um deslumbramento. Quando eu comi o filão, até hoje eu gosto. Ela pôs manteiga, eu engoli quente, imagine a dor de estômago. Comi cinco seguidos.

Era pão francês, às vezes chamam de filão. Eu não via pão há muito tempo. Os meus filhos ainda comiam, eu não. Parecia um animal, isso ficou como um ícone. Gostei muito da água quente, do chuveiro. Quando o ser humano vai lá na base, os cinco sentidos são os que marcam mais presença, que muitas vezes estão embotados. Quando você está bem na vida, quase nem nota que tem cinco sentidos.
Quando eu vou à Cleuza Presentes, eu passo só para olhar, toda aquele "material bélico", coisa para escargot, essa coisa pra essa concha, eu tinha aquilo tudo. Gente, pra que eu queria todo aquele material bélico? Sabe essas coisas que embelezam a vida, eu julgava que só aquilo era importante. Mas eu sempre fui meio rebelde, foi isso que me salvou.

Os mais velhos da casa não agüentaram, meus sogros morreram de tristeza. Minha sogra morreu em maio do ano seguinte. A gente chegou em maio de 76 ela morreu em maio de 77, meu sogro morreu em janeiro de 78.

Mudamos para prédios da Brigadeiro Luis Antonio, porque a escola das crianças era ali perto, na Batatais. Nem pensar em ter carro. Então para irem a pé para a escola que a gente sempre escolhia ali a volta.
Só mudamos para a Av. Brigadeiro Luis Antonio, quando conseguimos enfim um fiador, porque era o maior drama para a gente que tinha tido sempre casa própria. Queríamos chorar, ficamos noites assim sem dormir. Eu achava um espanto. Ninguém tinha me dado nenhum tipo de subsidio, quando eu vi aquela gente com um sotaque muito carregado de Portugal, na lanchonete da esquina. (Porque a posição estratégica normalmente elas ficam nas esquinas)
Foi uma coisa que depois eu observei e achei muito engraçado. Esses senhores: "ah, a senhora é portuguesa?" "Sou, sou de Moçambique." Quando subo um pouco mais na minha história, ele começou a ficar com uma postura tão desconfiada que eu deixei de ir lá.

O meu marido era muito expansivo, era uma pessoa muito agradável, conversante, uma pessoa alegre com muito senso de humor e criou uma certa amizade com o dono da lanchonete, com o senhor Victor. Ele queixou-se: "A sua senhora veio aqui algumas vezes, depois ela parou de vir, ela nem olha para dizer bom dia e tal." Meu marido me falou: "É melhor tu ires lá que ele está com uma má impressão". Eu disse: "Eu estou tão preocupada...", "Me diz o que aconteceu?" Eu disse: "Aconteceu isso assim, assim, assim. Começou a querer me maltratar desconfiado que eu ia pedir dinheiro a ele."

Aí, um dia eu passei lá, pedi um refrigerante e ele disse: " Ah, que bom que a senhora veio..." Eu estava assim meio sem graça. "A senhora não se ofende se eu perguntar porque a senhora não parou mais aqui na lanchonete?" "O senhor teve uma postura que me deixou muito mal, porque nós ficamos sem nada, mas eu não ia vir aqui para lhe assaltar, pedindo dinheiro só porque nós dois somos portugueses. Aliás, somos muito diferentes. Eu nasci num país parecido com o Brasil e vocês nasceram em Portugal e se o senhor veio para cá é porque achou que valia a pena e sua postura é bem de Portugal. A sensação é que o senhor não absorveu nada de um país tropical, de ficar mais descontraído. Uma vez eu pedi-lhe um copo d'água, eu não sei se o senhor pensou eu queria ficar na sua casa, a comer à sua custa. Eu fiquei chocada porque eu estive 11 anos num campo de concentração, minha escala de valores mudou e então..." Eu fiquei brava com ele, sabe. E depois eu comecei a notar essa postura, agora eu tiro de letra, mas eu tenho 25 anos de treino no Brasil pra lidar com eles. Os meus bons amigos nenhum é português.


Visões do Brasil
Logo quando eu cheguei no Brasil, logo nas primeiras semanas eu vi como tem racismo aqui. Aparentemente não parece ter. Por exemplo, para entrar num ônibus, as pessoas empurravam um negro na frente pra subir, empurravam eles para trás, às vezes eles até caem. São pequenos detalhes que nem um brasileiro nota. Eu fiquei tão chocada porque eu pensei que tinha me livrado disso lá. Eu não sabia muito da escravatura daqui porque nunca deram muito sobre o Brasil.

Uma coisa que me deslumbrou no Brasil, foi a facilidade com que você assiste rituais de candomblé, macumba, todo esse tipo. Lá não, era no meio da selva, raros brancos podiam assistir. Eu lembro que um dos funcionários da empresa onde meu marido trabalhava, tinha casado até na igreja, e a mulher dele era epilética. Então o meu marido disse "Olha Helena, tu queres ir ver uma cena incrível, eu vou te convidar pra ires comigo, só que é uma vez sem exemplo. Nunca ninguém teve acesso". Eu tinha porque eu tinha amigos negros, mas eu sempre me preservava porque eu achava que era tão selvagem que eu ia me chocar.
Fomos para o interior lá, e Lourenço, levou a mulher toda retorcia, com a língua mordida, os olhos revirados de epilepsia. Eles achavam que ela estava tomada por um espírito maligno. Aí eu assisti minha única vez a um ritual muito interessante. O feiticeiro com aquele aspecto é sempre o mais esperto, é o que se informa mais sobre todos os rituais, tem que ser essa figura simbólica e põe aqueles penachos todos como os índios. Porque a base é igual, com as devidas situações geográficas, mas eu sempre me emociono quando vejo exibição com os índios. Então, eles usavam os ossos de animais, uns grandes outros pequenos, e eram com aqueles ossos que eles chamavam os deuses, os espíritos. E ela teve uma cena de se contorcer e a fogueira sempre perto. E eu achando que ela ia se queimar. Então ele ficou sentado com o ar mais apático que eu já tinha visto na cara dele, que ele era muito alegre. E a mulher dele ficou entregue a tudo que o feiticeiro fosse fazer. É uma loucura porque eles entram num transe mesmo. Tinha um grupo de dançarinos da tribo, estremece o chão, a noite fica uma coisa assustadora. Pra meu marido não era porque ele já tinha visto muitas vezes, então ele ficou atrás de mim e me segurou, pra eu saber que eu estava protegida. Mais tarde eu soube que, o feiticeiro não olhava nos nossos olhos, nunca. Talvez por ser suficientemente esperto por ver que estávamos com olhar cético, crítico, de ver qual ridículo estava sendo. Fiquei com olhar aberto de criança, abrindo uma cortina, tendo a chance de ver pela janela um outro mundo. Eu que era muito urbana. Foi na verdade uma experiência de muito valor pra mim.

Mais tarde apareceu na capital o Lourenço. Eu perguntei: "Ah, Lourenço, tudo bem, e sua mulher?" "Apesar dos deuses nossos eu acabei por levar ao hospital onde a senhora foi ter os filhos porque aquele tratamento tem que ser de branco, não tem jeito." Ele já estava cansado e ela estava piorando, estava deixando de se alimentar, estava esquelética, quase a morrer e recuperou-se, mas epilepsia não tem cura. Existe um apoio e um controle.
Eu tenho assistido muito candomblé aqui. a gente tem cartão de livre trânsito pra ver isso aqui. O Brasil, na verdade é aberto.

Cheguei em 1976, eu vim na época do Ernesto Geisel, só para dar uma dimensão de quando que eu cheguei. Ainda era ditadura militar.

No trabalho do meu marido, prometido em Johansburg, eles esperaram uns dois anos para ver se ele decidia voltar. Guardaram o cargo, mas não dava porque os meus sogros eram muito agarrados a ele. Meu marido tinha mais quatro irmãs, o único filho homem era ele. Tanto que eles não foram a Portugal, poderiam ter feito esse tipo de triangulo. Eles iriam para Portugal, nós iríamos para a África do Sul e mais tarde eles iriam viver conosco.

Viemos sete. Meus filhos, uma de nove, uma de sete e meu filho que tinha quatro, ia fazer cinco anos. A minha mãe ficou naquela lista de espera para ir a Portugal. Foi por isso que ela não veio logo. Eu era filha única e não tinha razão de ser de ela ficar lá. Ela ficou só aguardando que o processo de documentação ficasse pronto. Era perigoso para ela, e nem escrevia porque tinha censura na correspondência. Mas uma irmã do meu marido ficou lá também, para poder tratar dos papéis da transferência para Portugal, porque ela ia via banco. Ela trabalhava no Standard Bank. Que virou Standard Totta, porque tinha um banco Totta em Portugal, e ela tinha oportunidade profissionalmente de ser transferida. Foi a primeira da família que veio ao Brasil, E ela depois trouxe notícias da minha mãe. Ela não trouxe nada escrito porque ainda podiam fazer uma revisão corporal. Ela contou como minha mãe estava e contava o que ocorria em Moçambique.

Os prédios na cidade foram invadidos por negros da selva, e uma vez minha mãe estava na rua e ouviu umas cabras na janela. Eles levaram gado para dentro dos apartamentos. Entupiram tudo. Eles nunca tinham visto um bidê, todo em cerâmica, e eles pilavam o milho e depois plantavam o milho na banheira, porque estavam habituados a tomar banho no rio. Eles saíam a procurar um charco para poder tomar banho, porque nunca iam entender o que era aquela coisa de chuveiro. E deu uma série de noticiário, notícias nos jornais. Destruíram tudo, faziam fogueira no chão que tinha carpete, não tinha corpo de bombeiros e muitos morriam queimados. Aquela história cultural: eles viviam felizes na selva, passaram a viver infelizes na cidade. Eles tinham destruído com bombas tudo que era reservatório de água só porque foram construídos por portugueses, e aconteceu uma seca como não se via há muito tempo. E aí eles começaram a morrer em Moçambique, porque não tinham água para plantar nada; as mulheres começaram a secar o leite, e morreram aos milhares, morreram muitos, muitos, muitos.

Eu ainda estava lá na época em que eles estavam a destruir, eram aqueles rios d'água. Agora por causa da energia e da água, eu sonho às vezes ainda, aquele mar na cidade, passando nas ruas, Morreram milhares quando teve aquelas inundações há dois anos atrás. Até mostraram uma mulher a dar a luz a uma criança em cima de uma árvore. Agora morreram afogados, na outra vez morreram de sede.

A vinda para o Brasil foi uma coisa diferente, isso aí eu não esqueço. Eu comecei a achar tudo muito grande, quando eu voltei lá em 97, gente viu como aquilo era pequeno, como é pequeno. A capital, eu acredito que é menor que Porto Alegre. Era Lourenço Marques, mas voltou-se a chamar Maputo, que significa reserva de elefantes. Lourenço Marques que era agrimensor e que foi lá demarcar terrenos, apareceu lá e batizou o lugar com o nome dele.


Trabalhos no Brasil
Meu marido morreu em 84, teve um derrame. Com tudo o que ele passou lá, veio a falecer aqui, muito tempo depois, dentro de um ônibus com um derrame. E esse perigo todo que ele passou, estava bem de saúde e tal. Ele era hiper tenso, como o pai e a mãe. A família sempre foi muito hiper tensa, mas morreram sempre muito velhos, pois não tiveram o impacto de mudar a vida e vir a morar aqui. Ele sempre ficou muito nervoso com a responsabilidade Como a minha sogra ficou muito doente, depois o meu sogro, eu não podia trabalhar. Ele conseguiu empregar-se numa escola de inglês, que hoje não existe mais, chamava-se One Twelve, na rua Estados Unidos. Depois eu acabei por tornar-me secretária, recepcionista; ele achou que era bom para eu ficar em contato com o povo brasileiro. E só depois de passar por um outro emprego rapidamente é que eu entrei na sessão de cavalo árabe.

Meu marido dava aulas de inglês, e foi contratado para dar aulas de inglês numa multinacional de plásticos, a Monsanto, ali atrás da Praça da República. Os engenheiros químicos - ele dava aulas pra executivos - o adoravam, mas um especialmente se afeiçoou muito a ele. Ele soube que eu precisava trabalhar, meus sogros já tinham morrido, tinha três filhos pequenos. Ele disse "Meu pai trabalha no Parque da Água Branca, ele é diretor técnico, é veterinário, especialista em cavalo árabe." Foi através dele que eu entrei. E fiquei lá até hoje, na Associação de Cavalo Árabe.

A Associação de Cavalo Árabe divulga a raça e promove através de eventos, leilões, exposições, provas, para criar interesses, que apareçam interessados para comprar cavalos, e isso é uma bola de neve, vai aumentando, aumentando. Dentro da Associação funciona o cartório, o registro genealógico dos cavalos árabes. Esse departamento pertence ao Ministério da Agricultura. Começou todo em Pelotas, no Rio Grande do Sul. E era o Ministério da Agricultura que comandava isso, eram sempre os mesmos que criavam cavalo árabe. Então acharam por bem que cada raça criasse a sua associação, com um mínimo de 30 pessoas, para promoverem a raça e se sustentarem. É uma empresa particular, mas com um departamento do governo dentro. Porque a maior receita é do movimento do cartório lá dentro.

Me apaixonei pelo trabalho, primeiro porque é o cavalo mais belo. Em Moçambique eu lidava com as pessoas que cultuavam a beleza, e por ironia o meu filho depois foi para a moda. Parece ser um carma. E acabei por ficar lá. Aí como meu marido morreu, eu recebi alguns convites para trabalhar em multinacional, teria investido em mim, em cursos, já teria apartamento próprio. Vivo em casa alugada, ganhando muito mal, pois essas associações não visam fins lucrativos. Ninguém fica num lugar muito tempo investindo numa atividade financeira. Então eu fui ficando, porque eu sempre gostei de história e geografia, e é um cavalo que está em mais países do mundo.

É interessante que eu me especializei analisando uma árvore genealógica de um cavalo árabe. Começa no deserto e depois aos poucos os garanhões e as éguas vão se espalhando conforme os interesses dos ocidentais. Os europeus começaram a interessar-se e mais tarde os americanos.

O primeiro cavalo árabe chegou ao Brasil importado da Argentina, em 1923-25. Vieram vários. Era secretário do registro genealógico do cavalo árabe, (Echenich?) que é uma família tradicional do Rio Grande do Sul, Se interessou e conheceu uma família de fidalgos na Argentina. Ele ouviu falar que eles tinha estado em Damasco, procurando cavalos exóticos que os beduínos usavam no deserto. E ele em criança já tinha visto um desenho de um cavalo árabe. O cavalo parece lapidado, ele é lindo. Então o Dr. (Echenich?) era engenheiro agrônomo e professor em Pelotas de Zootecnia, foi visitar a família (Argersa?) em Buenos Aires e ficou deslumbrado. Ele comprou muitos cavalos e era o único proprietário e particular, porque o resto era do Ministério da Guerra. Tinham as (coldalarias?), espalhadas pelo país, especialmente no sul. Importaram cavalos para defesa do país, e depois virou propriedade do Ministério da Agricultura. Então ele era o latifundiário de cavalo árabe no Brasil. O Guilherme (Echenich?) por muito tempo. Aí ele dava cavalos para os amigos. Luis Villares que fundou as indústrias Villares foi um dos amigos dele, encontrados na Argentina e mais tarde nos Estados Unidos. "Villares, eu vou te dar alguns cavalos árabes" e o Luis Villares que era muito culto, tinha até estudado em Portugal, ele disse: "Ah, eu já ouvi falar nessa raça, eu até julgava que já estavam mortos". Ia ser extinto, porque isso tem milhares de anos. O Luis e Dummont Villares é quem trouxe os cavalos árabes para a área de São Paulo, que é onde se concentram. O maior número de haras de cavalo árabe que tem é no Estado de São Paulo.
Associação está dentro do Parque da Água Branca.
Trabalho nessa Associação faz 22 anos. Dia 28 de junho fez 22 anos.

Eu moro hoje em frente ao Senac, na Francisco Matarazzo, eu atravesso uma quadra e meia, ouço os pássaros e entro no pavilhão. Aí estou há três anos e meio. Antes morava no final da Vergueiro. Minha filha mais velha tinha um apartamento de cobertura numa travessa da Vergueiro, quase no final. E ela disse: "Ah, mãe estás muito sozinha aí. Tem aqui um apartamento para alugar, vens morar aqui." Mas, a gente nunca se via. Ela trabalhava na American Airlines em Guarulhos e os horários eram muito diferentes. Aí vi que eu fui tão burra, ficava cansada, levava duas horas para chegar à Associação e sempre atrasada. Vim para cá E eu estou aí há três anos. Para mim é o paraíso. É o bairro que eu conheço melhor, porque eu sempre trabalhei aí e agora eu vivo nesse bairro.

Nesses 22 anos que freqüento o bairro ele mudou. No bairro, muitas residências viraram empresas. Uma coisa que eu achei interessante é que parte delas mantém as roseiras, então tem um toque de residência, não ficaram tão concretas Não sei da onde as pessoas me conhecem, acham que me vêem há muito tempo por aí. Porteiros, motoristas, engraxates, à volta do parque. E para mim é uma emoção grande, porque ali é minha casa. Comecei a conhecer melhor o bairro depois que eu comecei a morar ali. Eu fazia sempre o mesmo trajeto.

Dizem: " Você é uma portuguesa diferente, você fala diferente." Porque em África era muito longe da mãe pátria, os de Angola falavam mais serrado. Nós já abrimos um pouco as vogais. Com 25 anos de Brasil... Agora em Portugal, quando vou visitar minha filhas, as minhas cunhadas dizem: "Ah, estás tão brasileira". Eu fiquei no meio do Atlântico porque eu não falo brasileiro totalmente, nem falo português totalmente. Só que elas moram em Portugal e fecharam a boca. Elas não sabem que elas não falam como elas falavam em Moçambique. Não tem um termo de comparação como elas falavam em Moçambique elas falam agora em Portugal.

A minha pátria é aqui. Foi a melhor opção para ter que mudar radicalmente. Se tivesse ficado em Johannesburg, eu teria feito talvez dois cursos na faculdade. Dominaria o inglês, teria chance de aprender os idiomas que eu queria. Poderia ter-me especializado em várias coisas, história é uma paixão.

O contato estrangeiro eu fiz questão de aumentar. Por exemplo, eu vou atender a Princesa da Jordânia, filha mais velha do Rei Houssein que vem julgar cavalo árabe em setembro, no Mart Center. Ela vai julgar junto com o (Jorgan Fredericsen?) que é um dinamarquês, o Jorge (Concaro?) que é um argentino e dois brasileiros. E é esse o trabalho onde eu evoluo, quando estou com estrangeiros.

Aí eu vi que eu gosto de ser guia turístico. Eu vi que eu conheci São Paulo e o Estado de São Paulo com esse trabalho feito assim na brincadeira.


Costumes
Não estranhei as comidas. Veja bem, tem uma influência portuguesa muito grande aqui. Os temperos, por exemplo, das comidas baianas vieram da Índia com Vasco da Gama, e tínhamos esses temperos em Moçambique. O cheiro dos temperos... Agora nós não tínhamos lá só uma coisa, azeite de dendê. De resto, é muito familiar pra mim, os cheiros da Índia. Quando ficou independente a Índia Portuguesa, o primeiro paredão que eles encontraram foi em Moçambique. Praticamente não tinham indianos em Angola. Que já era o Atlântico em frente ao Brasil. O que aconteceu, primeiro o cheiro horroroso porque eles não tomam banho. Lá no Rio Ganges é aquela porcaria, eles só entram porque é sagrado. O cheiro de não se lavarem, misturado com o cheiro de incenso e de especiarias é barra pesada. Eu entro nesses lugares esotéricos, eu faço logo uma seleção de cheiros, tem uns adocicados que... Tiveram uma influência grande até para a conservação de alimentos e os negros assimilaram aquelas coisas, e acabaram vindo negros mesmo de Angola, houve uma influencia de intercambio de negros que trouxeram com a escravatura para a Bahia, pro Rio de Janeiro.

O azeite de dendê. É muito forte para mim. Eu levo a passear os turistas que eu atendo, que são os juizes de cavalo árabe. Eu faço muitos programas de índio. Eles são pessoas que andam muito a pé. Pra julgar cavalos tem que ter muita resistência, precisa ficar horas em pé, caminhando no meio dos cavalos, e a maioria deles são cavaleiros, e vivem no campo. Então é gente muito chiques mas estão habituados a ter resistência. Eu ando muito com eles a pé. Tem aquele restaurante Oxalá da Bahia que serve comidas da Bahia. Adoram a peixada a baiana. Eu digo para tirarem o azeite de dendê porque eu sei que eles iam ter diarréia. Ficam deslumbrados, pedem a casquinha de siri, aquelas coisas.

Em Moçambique nós comíamos feijão branco. Quando vi feijão preto pela primeira vez achei esquisitíssimo, porque o molho deixa tudo roxo.

Temos um livro de ouro na Associação, para as visitas importantes escreverem as impressões, como quando você visita um lugar, um museu, não sei o que. Tem sempre aquele livro aberto pros visitantes. E falam sobre o evento que são convidados pra vir trabalhar, pra dar premiação. É como exposição de cachorro, até chegar ao campeão, campeã, macho e fêmea e tal. Mas, o que eles escrevem embaixo, é sobre o programa de índio que eu faço, depois eu dou o testemunho, elogio dou louvores: "Ah. O que a gente aprendeu de cultura brasileira." E outra, eu até me admiro das coisas que eu sei, principalmente de São Paulo. Eu aprendi a gostar de São Paulo, porque é complicado e é assustador.
E é interessante, que, uma das coisas que eles põe todos eles, sem exceção é a comida. Então, a cultura, ligada à comida é muito marcante, porque é o alimento. Conforme eu fui lendo aquilo, eu disse: "Gente, que responsabilidade." Eu nunca tinha reparado.

Eu demorei muito tempo pra comer arroz com feijão.
Porque eu nunca comi comida pesada. Aquilo me passava uma coisa pesada, gente que tinha que fazer mais trabalho braçal tinha que comer pra ficar alimentado mais horas, e eu achava que eu ia sentir muito calor com aquela comida. Nunca falei. Agora que estou a conversar, veio essa observação. E eu como com bastante freqüência. Agora, por exemplo, comíamos muito menos arroz que aqui. Eu tenho tentado variar...

A primeira vez que eu comi arroz e feijão foi assim: comer num lugar assim... Era uma quarta ou um sábado, por exemplo que sempre servem feijoada. Mas eu via todos os dias. Uma vez minha cunhada me deu, pra experimentar. Eu disse: "Puxa, não é ruim". Aí, ela só me deu arroz com feijão. Aí eu comi um frango, alguma coisa. Depois ela pôs um pouco de farofa, que era para aos poucos ir me habituando. Eu disse: "Pode servir tudo". Aí, eu fiquei curiosa e eu queria saber tudo. Em que lugar do Brasil plantava o feijão? A farofa vinda da onde, feita de que? E eu noto uma coisa. Os estrangeiros sempre perguntam. Então, eu sempre recupero minha alma de estrangeira, quando eu os atendo. Tem todo um contexto mais profundo do que somente atende-los.


Volta às origens
Outra coisa que eu achei interessante, a caminho de Moçambique, eu fiz vários tours em Johannesburg, fui a Pretória, fui até Sun City, onde tem aquele hotel seis estrelas, que o pessoal de Las Vegas construiu no deserto, aquele hotel, só com caça níqueis . Isso é um contexto africano, independente de estar na África do Sul, quando ficaram sem apartheid. Quando eu entrava, só brancos, fazendo a excursão, e eu sentava na frente com o motorista. Começava a conversar em inglês, e dizia assim: "Como é que você se chama?" "Ah, eu sou Johnny e sou zulu." Apresentava a etnia, no ato. Com isso vinha à tona fazer com que os brancos lhes dessem importância, ou eles passaram achar que de direito passaram a ser os donos da terra e impressionar, porque zulu, é tribo maior do sul da África. Não da África do Sul. Do sul da África. "Como é que você sabe?" "Eu nasci no Maputo". Um deles chorou. "Que bom, você também é africana?" "Sou branca por fora e negra por dentro." Brincando. O outro dizia: "O meu nome é... Sei lá, Johnny e eu sou shoza". "Ah, você é da tribo do Mandela, da Província do Cabo?" Aí eu vi como a minha negritude estava gravada e eu nem sabia que a tinha. Eu fiquei chocada comigo. À noite eu chorei muito no hotel. Eu estava à espera que minha filha chegasse lá, e eu fiquei uma semana lá.
Voltei Á África do Sul apoiada pela minha filha, porque eu não tinha coragem de ir pro local do crime, digamos assim, voltar. Eu vi coisas chocantes, e, interessante. Teve um motorista, que era do ponto de táxi em frente ao bairro... do tipo Morumbi, onde eu fiquei hospedada, eu e minha filha, com o que tinha sido o último secretário do meu marido, E é interessante que tinha um ponto de táxi, e em frente tinha muitas embaixadas, quer dizer, as mansões das pessoas que viviam muito bem, foram vendidas ou alugadas pras embaixadas estrangeiras. Eu tinha a embaixada da Suécia na frente, e do lado a da Finlândia. Não sei o que a Finlândia foi fazer pra Moçambique, mas tinha a da Finlândia. E por aí afora. E o hotel cinco estrelas da cidade era em frente, e foi onde tinha garotos que vendiam brinquedos com arame. Então, eu tinha um Senhor Castilho que era um dos motoristas, negro. Ele servia pra fazer trabalhos e serviços de levar e trazer pra esse nosso amigo, que tinha sido secretário do meu marido, o Emílio Gomes. Ele disse: "Maria Helena, ele é de confiança, você pode pedir o que quiser, porque ele é do tempo da colônia." Com seu Castilho eu recuperei memória, porque eu conhecia marcas comerciais que eu nunca mais tinha visto. Ah. Fiquei em estado de choque. Prédios que nunca mais tinha sido feito manutenção, estavam a cair de podres. Prédios lindos. Aquilo começou a me deixar mal. A minha filha queria a minha história, então eu fui à minha escola primária, fui lá ao colégio das freiras que é o Instituto de Línguas. Eles aproveitaram as salas de aula. Fiquei contente de eles não terem destruído. Ali fora a piscina, onde eu aprendi a nadar Foi muito interessante. E ela foi documentando tudo. Eu recuperei o nome das ruas porque agora estão todas com nomes de comunistas. Parte deles, Mao Tse Tung, Karl Marx... só gente de extrema esquerda. Todas as outras, não ficaram os nomes nativos. Não tem nada. Tinha umas quatro ou cinco ruas com os nomes dos reis de Portugal. Pra eles era simbólico, não tinham lhes feito mal, simplesmente eram pessoas importantes. Eu fiquei espantada.
Aí, fomos para o interior, para ir ao Xai Xai. Meu filho tinha dito: " Mãe, vai ao Sshicuc,(que era essa missão). Eu quero areia, terra onde eu nasci, perto da porta da maternidade." E a minha outra filha também. Eu disse: " Gente, que coisa que elas queriam: terra."

Na embaixada lá em Brasília, minha filha perguntou lá pra dois moçambicanos negros, se ela podia, se tinha alguma coisa que era proibida em Moçambique, porque ela não queria ferir a lei de Moçambique, que a gente não sabia qual era. "Não. Nada. Vocês vão lá, após 21 anos, recordar não sei que Tudo bem." Aí, lá ela começou a tirar fotos. Tirou muitos, muitos filmes.

Quando chegamos lá, ela quis ir ver o hospital onde tinha nascido. Subimos um morro e tinha uma única bandeira que estava aberta; as outras todas estavam assim pendentes.. E ela achou linda por causa das cores. Disse: "Vou fotografar." E a gente subiu. Fomos ao hospital, ficou chocada porque o hospital está caindo aos pedaços. Só tinha aquele caminho. Quando descemos, tinha quatro comandos a metralhadora à nossa espera. Eu fiquei muito mal. O seu Castilho ficou morto. Ele disse:" Ah!! Mas que horror. Mas o quê que é isso? Faz muito tempo que a gente não tem isso. Só nas fronteiras."
Estavam então vestidos a Vietnã, de comando, com aquelas malhas verdes. E aquilo era o corpo da polícia. Era o comando da polícia. Estão, estávamos as duas dentro do carro a olhar, cheio de comandos com metralhadoras. Fiquei mal. Aí, mandaram ela sair, com a carga. Não podia fotografar nada que fosse do governo. Depois escreveu pro cara aqui da embaixada e disse: "Olha, já que o senhor não sabe, eu vou lhe informar. Não pode fotografar nada que tenha a bandeira de Moçambique hasteada". Olha o detalhe: O motorista tinha trocado o táxi, porque aquele que ele andava na cidade não agüentava uma viagem grande. Era um táxi meio velho. Ele trocou por um Toyota,
porque a gente ia fazer uma viagem de 250 km, e deram-lhe um Toyota vermelho (não esqueço a cor). Fomos então. Então disseram: "Vocês não são terroristas, são espiãs." A gente não reparou: o carro tinha placa da África do Sul." Nem eu nem ela olhamos pra placa. Duas brancas...Num carro daquele.
Duas brancas, tirando fotos. Estavam vigiando. Eternamente lá tem problema étnico. É a história de árabes e judeus. Isso não vai mudar nunca.

Ela foi chamada, ficou mais de uma hora lá dentro. Eu não sabia se estavam a esquarteja-la. Gente, eu passei muito mal. Voltou tudo. Que eu achava que eu já não tinha nada dentro, na alma, sei lá, na memória. Passei muito mal. E o Castilho chorava. "Como é possível ainda fazerem essas coisas? A gente não estava fazendo nada de mal. É por isso que eu fico revoltado com este governo".
Passado um bocado, veio um daqueles da tropa de elite. Chamaram o seu Castilho. Não olharam pra mim. Seu Castilho foi pra dentro e foram interroga-lo numa sala separada. Depois a Vânia saiu, e falou: "Mãe vamos embora. Amanhã de manhã, estou indo pra Johannesburg. Eu quero que tu termines de visitar os teus amigos, eu te espero lá. Eu vou aproveitar pra fazer sonoterapia, vou dormir lá no Holliday Inn, vou nadar, vou escrever, vou passear. Eu te espero lá. Mas, eu quero sair desta terra." Ela que tinha inventado a viagem. E ela nunca podia sonhar que ia aparecer coisas como a época da Independência. Chamaram-na e queriam destruir a máquina..

Já tinha tirado fotos, as principais. Ela tinha ido à Moçambique pra ver a praia, que ela tem fotos na praia quando era pequena, de um ano. O hospital, a casa onde a gente vivia onde estavam os três jardineiros... Ela foi ver o tamanho do jardim. Não se lembrava. Tinha saído com um ano de lá. Esse filme ficou com eles e o destruíram. Então, nos deram a câmera de volta. Ai, ela dizia: "Eu mostro meu passaporte. Eu nasci nesta terra aqui, no Xai Xai, e eu queria ver a minha terra. Eu vim aqui só por causa disso. Eu estou... Eu fui embora há 21 anos... " Depois eles viram a data de nascimento, tudo. Coincidia. " E eu vim aqui pra visitar. Eu não vou fazer mal a ninguém". Aí, interrogaram descaradamente, o motorista, pra ver se coincidia. E a gente já tinha conversado bastante, eu tinha chorado, que não tinha pra onde ir pra outro país, mas que eu tinha sofrido muito com a Independência, com a fome, parte da família já tinha morrido de fome. Ficamos muito próximos. Então sabia alguns detalhes. E ele contou, Coincidia com o que ela dizia. Aí, nós fomos...

Ela tinha feito umas compras, na própria cidade de Xai Xai, e disse: "Mãe, vamos pra casa do Gomes, no Maputo, e amanhã de manhã eu preciso que vocês me levem para o aeroporto, porque eu vou viajar pra Johannesburg, e fico lá. O Gomes ficou horrorizado, porque ele ia... Todas as semanas fazia aquele trajeto.

Depois, acabou. Eu não fui mais pra frente que a gente tinha que andar até 500 km de distância, e a gente só foi até 250. E eu não consegui a terra dos lugares para os filhos. Em Johannesburg a gente contou pra eles, e meu filho dizia assim: "Mãe essa eu não vou perdoar. Tu não trazeres areia do (Shicuco?)" Brincando..

Vi vários amigos, que eu achava que estavam mortos... Porque é o seguinte: quando eu saí do campo, eu fiquei no campo de concentração, e quando eu fui pra capital, meu marido alugou um apartamento no prédio onde estava o partido comunista. Ele sabia... Olha o lance dele. Ele sabia, que ninguém ia metralhar o prédio. Só iam metralhar do prédio ara fora. Então, o melhor era viver naquele prédio. Então, minha mãe e meus filhos e a babá dos meus filhos ficaram lá, enquanto eu ficava acampada. E ele ficou na fronteira. A gente ficou sem se ver muito tempo. Quase um ano. E eu sempre atravessava a fronteira com os soldados armados atrás, sem saber se ia levar um tiro.

Foi uma grande lição a ida a meu país de origem, onde deixei muitos cadáveres, onde eu perdi muitos amigos também, em prisões subterrâneas. O prédio, em Maputo onde meu marido colocou os filhos, no prédio do partido comunista, perto tinha um grande jardim. Não como o Ibirapuera, mas muito grande. E era muito exótico. Tinha plantas lá do mundo inteiro. E tinha lá um paredão, de onde saiam plantas do meio das pedras. E era ali que era o paredão de fuzilamento. Eles foram fuzilados lá, os amigos meus. E isso não tem como tirar. São cicatrizes que deixaram de doer. Na verdade o tempo... Aquela coisa, os chavões do tempo é o melhor remédio. Mas não é verdade. Gente simples é que cria esses provérbios. Vai ficando só aquela saudades, aquelas coisas, e eu fiquei legal só depois de seis meses ter voltado... E eu precisava chorar.

Você sabe qual é a designação que eu dou pra Moçambique, pra mim é uma Atlântida, porque quando eu cheguei lá, não era mais. Era outra coisa. E, tinha uma referência vaga, que eu tinha estudado ali, mas a casa já estava diferente. Então, nada do que eu vi lá era mais, a não ser o museu. Mas só; e museu é um lugar que tem coisas mortas, é um depósito de coisas mortas, que eu já vi quando eu estava lá, e mais nada. Nem reconheci a baía, o mar, porque não tinha mais navios, os estivadores. Nada daquilo... Era tudo diferente. O meu clã, a minha tribo, ninguém está lá. Então, é só um lugar geográfico onde existiu... Pra mim é uma Atlântida mesmo, como ícone.

Estive lá em 97, e quando voltei para o Brasil fiquei seis meses, com depressão. Já tinha estado sete anos com depressão com a morte de meu marido e depois com o suicídio da minha mãe.- Minha mãe se suicidou. Jogou-se do 6º andar - Voltei a ter depressão. Andei na mão de psiquiatras, feiticeiros, alienígenas, o que você possa imaginar... Enriqueceu o meu vocabulário, mas eu sou muito cética com as abordagens que eles fazem. Eu já tenho a resposta antes de eu subir lá e falar de tanto que eu sofri nas mãos deles. Andei dependente de droga injetável que eles davam pra que eu ficasse calma. Acabei por me salvar a duras penas. Foi todo um processo. E eu não achei que eu ia conseguir, fiquei até com uma certa amnésia, fiz tratamento pra relaxamento. Fiquei paralisada de um lado também. E é interessante, que após seis meses da vinda de Moçambique, eu tive uma crise de choro, chorei três dias, dia e noite. Não fui trabalhar. E depois o meu choro secou, e eu nunca mais me lembrei de Moçambique, a não ser vagamente.

Vânia, eu quero te agradecer de coração por tu teres insistido pra voltarmos a Moçambique. Aliás, é assim que a gente cauteriza as coisas. Isso foi um exemplo que a gente só leva a sério quando vivencia a coisa. Não é com discurso muito bonito, que na prática amassar com emoção é muito diferente. E, foi incrível.

Amigos
Ela tinha andado comigo, nesse colégio de freiras, a Beatriz Figueiredo, e o marido tinha sido colega do meu marido nessa empresa de mineração de ouro e carvão. Nós achávamos que eles tinham morrido, porque nunca mais soubemos notícias uns dos outros. Um dia, meu sogro quis receber a reforma, a aposentadoria, - a gente chama de reforma - fomos ao Unibanco. E lá eu encontrei com o chefe do câmbio, diretor do câmbio. Não tinha sido bem um namoradinho, mas eu não tinha encantado com ele ainda, no começo do ginásio. E ele é que nos disse: "Olha, o Luís Figueiredo está como diretor do Banco Internacional, ali na Quinze de Novembro. Nós estávamos na Praça do Patriarca e fomos lá. Subimos os dois, eu e meu marido.O Luis Figueieredo que sempre fumou cachimbo. Ele estava a fumar cachimbo, e ficamos os dois encostados na parede, numa distância X. Uma hora ele iria olhar. A cena: Ele levantou a cabeça pra chamar um office boy, sei lá, e viu-nos. Ele começou a fazer assim, e o cachimbo caiu no chão. Foi incrível. Depois, fomos pra casa dele. Ele morava num prédio na Paulista, perto do Objetivo. O prédio do lado, tem umas faixas azuis, eu me lembro muito bem. Sempre ficamos em contato e eu sempre a vejo. Todas as semanas ela vai à minha casa. No meio de milhões de pessoas, uma pessoa que tinha andado comigo com cinco anos de idade, num colégio de freiras.

Tenho uma amiga de infância, que mora em São Paulo, chama-se Maria Helena, mora na Rua Caiubi. Eu estou a morar aí na esquina quase, da Cardoso de Almeida. O filho dela, inclusive é cavaleiro, e estamos mais próximas ainda por causa dos cavalos.. A casa dela parece um museu. Tem tapeçarias da Tailândia... Ela trabalhou na Pan American, então deu a volta ao mundo muitas vezes, já viveu muito bem lá. Ela não acredita... Ela diz que eu sou uma revelação. Eu sempre ouço ela com atenção, porque eu tenho um lado meio hippie de ser. Ela diz que eu era tão chique, tão não sei o que, tinha que ser tudo a condizer, e agora eu visto mais ou menos ... Ela ficou deslumbrada, porque ela continua apegada. Ela esteve numa prisão. Ela foi presa. Esteve num dos compartimentos, com água até a cintura, por causa das coisas que ela dizia pros governantes lá.

Eu tenho uma colega de escola, do ginásio e colegial, que teve que ir pra Portugal. Era comissária de bordo na Varig de Moçambique,. Está como telefonista da Otan desde que foi para Portugal, vai se aposentar assim. Lida com os generais e coronéis da Otan, os americanos. Que é de alta segurança. Então, ela trabalha num subterrâneo há anos. Ela só vivia na praia, fazia nudismo, ioga, não sei o que? E ela pediu a esse meu amigo, é nosso amigo comum, que era passageiro todas as semanas pra a África do Sul, e ela era a comissária de bordo. Então conhece-o muito bem. E ela se encantava com ele. As mulheres todas se encantavam com ele. E então ela dizia assim: " Oh, Zé, vê onde está a Lena, porque eu não sei dela há três anos." Meu marido morreu e eu fiquei numa bolha. Virei autista. E aí, um dia recebi um telefonema na Associação, uma mulher muito aflita e disse " Alô, é Maria Helena Vidal?" " Sou." " A senhora tem certeza?" " Tenho." " Ah. Fulano de tal quer falar com a senhora." Tinha perdido o paradeiro. Eu o vi uma vez, quando eu cheguei, que estava com aquele aspecto de ET, olhou pra minha cara, quando meu sogro foi tratar da aposentadoria lá no Unibanco. Então depois ele disse: " Lena, vem aqui. Eu estou trabalhando aqui no Banco Hispano Americano, aqui na Santos, e eu quero te ver." E eu fui lá. E ele se encantou comigo. E foi muito engraçado. Ele estava. no período entre o término de um casamento que ele tinha feito em Moçambique,

Auto Avaliação
Minha principal qualidade, de personalidade mesmo:
Chama-me a atenção a observação das pessoas que convivem comigo.
Meu poder de adaptação, que eu fui obrigada a treinar, porque eu tinha na verdade, completo despreparo pra isso, e talvez por isso outros morreram bem rápido, porque não se adaptaram.
Desapego. Parece abstrato. É muito complicado. Por exemplo, Tudo o que eu tenho investido, o que circula, é incrível, eu estou sempre... Ando sempre dura, aparece um dinheiro, ou aparece um trabalho pra fazer extra ou... Eu estou sempre a receber presentes, e eu estou sempre a dar muita coisa pra... E as pessoas ficam deslumbradas. E uma coisa, eu tenho uma agenda, aquela agenda permanente, um calendário, onde eu anoto os aniversários. E primeira coisa que eu faço de manhã no escritório...
Eu passei a dar um valor a parte humana das pessoas, que eu sempre tive tendência pra isso, não é que eu me transformei tanto. Eu tinha essa personalidade. Talvez por ser sozinha, ou porque eu já nasci assim. Fica difícil a linha divisória. Eu estou sempre a ajudar as pessoas, por isso me chamam Madre Maria de Moçambique. Dificilmente as pessoas não convivem bem comigo, porque eu aprendi com o acampamento, a deixar de ser espaçosa.
Existe um processo de alegria interior que eu passo pras pessoas
Detalhe interessante também: eu sempre fui portuguesa, nunca fui moçambicana, porque só a partir do momento em que o país é independente....Tanto que os brasileiros só foram brasileiros a partir da Independência. Antes eles eram portugueses, embora nascidos no Brasil.

Vida Atual
Planos! Eu estou a fazer uma lista, pra quando eu me aposentar, porque eu sou do contra, eu quero estar cada vez melhor com o espírito mais aberto...Eu gostaria de visitar vários países. Eu já fui pra lugares diferentes, por exemplo na Irlanda, no Alasca, porque minha filha era, check-in na American Airlines e o marido da minha segunda filha, está a trabalhar na Lufthansa, em Heahrow em Londres. Então vou como stand-by... Então, a escala de valores também fica estranha. Eu passei a viajar de avião em primeira classe, em poltronas de cinco mil dólares e com pouco mais de cem dólares na bolsa. Sou um animal mimético. E eu só lido com gente de muito dinheiro no escritório. E eles acham interessante, o meu desapego, porque já... Como eu estou viúva há muito tempo, já deram cantadas e tal. E é gente com muito dinheiro. Tem vários carros. Eles começam... Eu digo: "Não precisa fazer a lista." Eu mudava de carros todos os anos . Não precisa me deslumbrar com isso, porque eu também já tive carros." Eles me acham um ET - Então me admiram profundamente e dizem: " Helena, sou seu fã clube..." Eles me acham só exótica."

Não namoro. Essa parte é meio complicada. Agora eu não sinto mais muita falta de meu marido,
Na Associação, já apareceram vários criadores. É tudo uma encrenca, porque eles hoje estão divorciados ou estão casados, administram haréns. É uma coisa assim toda louca.
Eu tenho uma amiga casada com um psiquiatra aonde eu vou sempre, que ela agora virou fitoterapeuta e astróloga. Ela diz: "Maria Helena. Você, pra você ficar normal, você vai ter que sair com cara de Moçambique."

Filhos
Minha filha mais velha, a Vânia, foi trabalhar na PanAmerican e depois que a PanAmerican faliu, ela foi trabalhar na American Airlines e ficou vários anos. E depois, por causa de umas denúncias de corrupção, ela saiu, aliás, despediram todo o grupo de funcionários do plantão da manhã. Ela ficou muito chocada. Mais tarde, depois, pagaram todos os direitos dela, viram que tinha sido um engano com ela. Ela quis ir fazer sonoterapia em Portugal, que ela queria estar perto das tias. Duas irmãs de meu marido moram perto de Lisboa. Uma outra mora aqui, e tem mais uma outra em Portugal também. Ela quis ir pra perto dessas duas tias e dormia até tarde e tal. O marido foi junto. O marido é brasileiro. Detalhe: Ele tem 55 anos Eu tenho 57. Meu genro tem vinte anos que ela. Ela está com 34, a Vânia. E a Vânia se entusiasmou, não queria voltar pro Brasil, tinha ficado com trauma, e comprou um café. Fica a 45 minutos de Lisboa, numa vila, nunca conseguiu ser cidade: Salvaterra de Magos, um nome todo inspirado. Português mesmo. Mas ela só assumia o café, se a irmã fosse pra lá.

A irmã,Claudia, é casada com um ex-funcionário da United Airlines. Então, eu viajava pelo mundo ou pela United ou pela American. O papo era só aviões. Então, o Emerson, que é o marido da. Claudia, meu genro, é filho de português, e era o único que tinha prática de atender ao balcão e de saber governar e dirigir um café. O pai, pra variar, tinha tido uma padaria, uma lanchonete e um bar. Todos ajudavam o pai. Bem, resumo da história. Ele foi pra lá, montaram um café, ficou lindo, reformaram. Chama-se Café Tucano, só tem objetos brasileiros. Todo mundo adora. Diz; "Oh, o café das brasileiras." Não entra partido político nenhum.
O tempo foi passando, elas já estão há quase dois anos lá, então a mais velha conseguiu vender o café, o marido já foi à frente e está a trabalhar em North Miami, porque ela queria morar na Flórida, A do meio, a Claudia, está a morar em Londres, e o marido na Lufthansa. Mais tarde ele vai pedir transferência da Lufthansa pra Miami.

Nesse tempo, meu filho Henrique já tinha ido pra Londres. Ele queria investir em fotografia de moda e informou-se. Estava pra ir pra Nova York e descobriu que fotografia de moda mais avançada do mundo, pra aprender, é Londres. E esse cunhado dele, ou seja, meu genro, o Emerson da United, queria trabalhar de novo na companhia aérea, que assim a família pode viajar. Tentou em Lisboa e não conseguiu. Aí, ele foi passar uma semana em Londres. Foi para Heathrow no aeroporto, e distribuiu dez currículos. Duas semanas depois, a Lufthansa chamou-o e ele tinha que ir na Lufthansa. Ficou deslumbrado. Mas a minha filha, a mulher dele, tem um casal de filhos, não estava preparada, porque ele enviou os currículos e não falou nada. Só falou que estava com saudades do cunhado... Foi assim uma reviravolta. E eles não tinham reserva de dinheiro, e Londres é uma das cidades mais caras do mundo. Bem, ficaram na casa do meu filho e tal.

O meu filho saiu de Londres e começou a viver em Nova York. Agora, ele um está aqui, porque a Luciana, que vai ser mulher dele, por causa da Revlon,- de ela ser o rosto da Revlon, um dos quatro rosto da Revlon - tem ficado direto em Nova York. E tem mais. Em Londres não tem trabalho. Ela viajava pra Alemanha, mas só que ia de manhã e voltava à noite, era mais perto do que estar no Brasil. E o meu filho só sobrevivia com os trabalhos que a Zapping, a Zoomp, o Tufi Duec, ou alguém da moda dá pra ele. Então, a idéia, é...

A mais velha, vai pular pra Flórida, de Portugal, tem uma filha pequena, de um ano, minha netinha. Essa tem 34, Vânia, a mais velha. Depois tem a de 32 que é a Claudia. Está a morar em Londres, com o marido na Lufthansa, e um casal de filhos. E o Henrique, que está a morar em Nova York. Eles sabem que eu adoro o Brasil. Agora, a Luciana (Curties?) já comprou um apartamento em Nova York, pra ela fazer um investimento já que ela ganhou bastante dinheiro com a Revlon, e está aproveitando. E meu filho vai comprar um apartamento aqui em São Paulo, pra eu morar nele, até resolver o que ele vai fazer.

E eu acabei ficando independente, porque eles foram saindo lentamente de casa. As duas viveram com os maridos antes de casar, o que eu acho ótimo. Não casaram virgens.


Trabalho Atual

Alem da Associação de Cavalos Árabes, onde trabalho mesmo, eu leio pra uma senhora de idade, que está com problema de visão. Está com 10% num olho e 30% no outro. Uma intelectual, que era casada com um psiquiatra famoso, e viveu na França muito tempo. É um detalhe da minha vida preenchido. Então ela dá subsídio de Paris sempre que eu vou ler lá. Aquele lugar que eu queria estudar. E agora, estou a ler André Malraux, que era professor da Sorbonne e que eu queria ser aluna.

Essa senhora se chama Heloísa Lima Dantas, e o marido, o professor Dantas, Pedro Dantas, foi colega do Franco da Rocha. E eles é que depois, começaram a fazer, com Ramos de Azevedo o Hospital do Juqueri.
Então, é o subsídio francês, que eu tenho com ela. Então, eu leio pra ela os clássicos que eu não pude ler quando eu estava em Moçambique. É por isso que eu digo... Eu esperei muitos anos, já tinha esquecido que eu queria isso. Então eu leio agora Ítalo Calvino, Umberto Eco, depois eu leio, vou ler lá pra trás, Balzac, Emile Zola, Gustav Flaubert, Guy de Maupassant. A tendência é mais pros franceses, que era o que eu queria fazer quando eu tinha 16 anos. Passaram só 40 anos.

Estou inclusive a fazer um curso de Iniciação à Oratória, lá no Parque Água Branca. Termina nesse próximo domingo, porque se forem mais de quatro pessoas, eu não consigo falar. Não sei lá porque é o número quatro. Se forem cinco pessoas, eu já fico com agulhadas na barriga, começa a ficar mal, e pra fazer um exercício a gente tem que subir lá no palco do auditório, e são colegas, e como tudo olhar pra mim, eu uh! Acho que eu estou no paredão de fuzilamento em Moçambique.


Perspectivas

A minha idéia era me aposentar com 60 anos. Faltam três anos. Eu já estou fazendo uma lista das coisas que eu quero fazer quando me aposentar. Eu gosto da parte de guia turístico mas tem que fazer um curso. Isso eu acho muito interessante, porque lá vem Geografia e História. Sempre a base, que também tem no cavalo árabe. Por exemplo, eu gosto muito de saber que a princesa Houssein vai vir pro Brasil, aí eu vou aprender quais as primeiras tribos, qual a cor da bandeira e tal. Eu adoro. Isso aí é a minha praia.

A minha filha que diz que eu tenho sempre que ficar perto dela, está indo pra North Miami. "Oh mãe, não fique preocupada. Eu sei que tu gostas do Brasil. Fica uns seis meses aqui comigo e fica seis meses no Brasil. No inverno da Flórida foges pro Brasil." Então, eu estou assim mais cigana. Como tem planos que mudam, a gente nunca pode fazer planos por muito tempo, mas se eu puder ficar no Brasil, eu prefiro, porque na verdade, a minha terra é aqui. Eu vou a Portugal, eu não tenho nada a ver com aquela tribo. Pensam muito pequeno. Elas também acham.. Então, a idéia é juntarem todos nos Estados Unidos, os que pudessem ir pros Estados Unidos ou Brasil. Eu faço ponte aérea ou fico lá. A coisa que eu sinto mais, lógico, de vez em quando eu ganho, é ficar perto dos netos. Isso eu sinto muita falta.

Passei 15 dias lá em Salvaterra de Magos, depois com essa minha amiga no Estoril e depois fiquei 15 dias em Londres. Fui ver os dinossauros com meu neto de lá. Neve em Londres, que não costuma ter. Gaivotas em Londres.

Talvez eu leia pra pessoas com problemas visuais, ou talvez eu também faça um curso de turismo, ou talvez eu só ande com os netos fazendo cantigas de roda. Lá na frente é um ponto de interrogação, mas eu tenho assim atração... E na Associação não querem que eu saia porque eu sou o dinossauro de estimação, sou a memória ...viva da Associação.


Opinião
Ao dar este depoimento, fiquei surpresa que depois de 25 anos, eu já tinha me esquecido que eu sou imigrante. Estou na verdade tão arraigada no Brasil que eu sempre acho... Quando vou a Portugal é que eu recupero, quando eu atendo estrangeiros é que eu sei que sou estrangeira . É uma experiência que eu nunca tive, nunca, e achei que eu não ia ter subsídio. É interessante, porque eu achei que muitas coisas que estavam esquecidas... Por exemplo: não consegui chorar em Moçambique. Minha filha chorou bastante.

Agora eu fiquei um pouco abalada com as fotos do meu marido. Eu tinha resolvido deixar de olhar pra cara dele. Agora recomecei a olhar melhor: "Puxa, como ele era bonito." No lugar onde ele está, provavelmente eu estou a puxar uma perna. Não sei. Interromper a estadia dele noutra dimensão.