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Maria Helena Rocha Iglesias de Gendre Vidal Identificação Família Meu pai já estava a trabalhar em Moçambique, era jornalista, inclusive eles casaram por procuração. A minha mãe teve que ir depois. Vários fatores, eu nunca soube direito, impediram que ela fosse junto. Ele tinha que estar presente no trabalho dele, então ela se casou por procuração e depois foi para Moçambique pelo Canal Suez. Naquela época ainda não tinha problema de travessia. Depois ficou complicado. Uma coisa exótica: ela passou pelo Egito, ficou com uma recordação e um arquivo fotográfico muito interessante Eles ficaram a morar na capital, em Lourenço Marques e meu pai trabalhava para os Correios, Telégrafos e Telefones, embora fosse jornalista. Na Primeira Guerra Mundial ele tinha andado em submarinos, então ele entendia muito de Morse, telegrafia sem fio, e começou a instalar estações de rádio pelo país. Diz a minha mãe, que eu fiquei lá uns dois anos, desde o nascimento em Lourenço Marques . Depois fomos indo até o norte. Mais tarde o meu pai adoeceu e nós tivemos que voltar para a capital; então eu sou bem urbana. Acabei ficando lá, estudando, até terminar os estudos, até onde havia estudos em Moçambique. Meu pai se
deslocava muito, por causa do seu tipo de trabalho. Era chamado de um
lugar para outro, para montar estações de rádio.
Chamava Rádio Marcon, na época. Quando eu
nasci ele já tinha 56 anos e tinha cabelo branco há muito
tempo Ele tinha idade para ser meu avô. E minha mãe e meu
pai diziam pequena, como se eu fosse neta deles. Ele embranqueceu o cabelo muito cedo. Ele tinha sido casado em Portugal, tinha tido duas filhas. E na época morriam muitas pessoas de tuberculose, porque não tinha um tratamento eficaz de combate. E em duas semanas ele perdeu a mulher e as filhas. Uma manhã os amigos foram visitá-lo para o abraçarem, darem apoio, e quando olharam para ele estava com o cabelo todo branco. Foi uma coisa meio chocante. Ele teve o cabelo todo branco, mesmo jovem. Meu pai era
maçom, e mais tarde o Salazar mandou destruir tudo da maçonaria
porque ficava fora do controle dele. Então se eu tivesse trazido
um anel, alguma coisa, na hora - eles são muito unidos - eu teria
passado melhor do que eu passei. Eles proibiam entrada de livros em Moçambique,
então o pessoal fazia com se estivessem transportando drogas. As
malas tinham fundo falso, para poder por livros. Então eu estive
por muitos anos sem poder ler nada. Meu pai não engolia a ditadura de extrema direita que no fim ela tem pontos em comum com a extrema esquerda. Tudo é extremista, radical, para dominar o inconsciente coletivo, todo aquele processo, para que as pessoas não tenham pensamentos próprios. A minha mãe,
quando era garota, no Algarve (hoje zona de turismo com belas praias),
tinha vários irmãos que punham ela de plantão para
cozinhar. Ela ficou com raiva da cozinha. Fugiu para Lisboa, foi estudar
e começou a trabalhar. Foi um escândalo, porque as mulheres
não podiam ser independentes. Eu também não gosto
da cozinha. Só faço o essencial, principalmente agora que
estou sozinha.
E eu fiquei semi-interna num colégio de freiras que era o melhor da cidade para que minha mãe pudesse ir lá na clínica visitar meu pai. Era um colégio pago. Eu tinha um desconto porque nas condições em que meu pai estava, foi obrigado a aposentar-se. Ficou um tempo fora do trabalho e não sabia se ele ia ter capacidade de recuperar a memória, foi até um espanto que em 2 anos ele tenha recuperado totalmente a memória. Então eu desde cedo lidei com essas diferenças. As freiras eram, na verdade, muito boas, como educadoras, na parte de instrução e ocupavam parte do dia para a gente rezar. Então ficou aquela formação religiosa. Eu ajudava na capela a cortar as hóstias, a limpar os dourados do padre, e de todo tipo de trajes religiosos que eles usavam. Até teve uma época que eu quis ir para freira, por toda aquela influência de lidar com as freiras. No colégio de freiras, na época usavam-se saias compridas, uma coisa assim secular. Eu entrei com 3 anos de idade, abriram uma exceção, porque não havia pré na época, nem jardim como tem agora. Mas como tinha esse caso, meu pai estava doente, a minha mãe não podia estar em casa e eu era filha única, eu ficava no colégio semi-interno. Ia para casa era só para dormir; fazia os deveres lá também. Quando eu tinha 9 anos, eu estava a aprender a nadar, e estava a ganhar umas medalhas e uma das vezes apareceu no jornal de notícias de Lourenço Marques uma foto minha, em que eu estava com uma medalha, toda feliz. Porque havia poucas crianças ainda que estavam a aprender a natação. Achavam aquilo uma coisa do outro mundo. Eram meio atrasados. E a minha mãe foi chamada pela superiora do colégio que disse que aquela foto era muito escandalosa e se eu continuasse a despir-me daquele jeito elas me expulsavam do colégio. Minha mãe ficou muito chocada, tirou-me. Aí,
só tive uma chance, fui para uma escola pública. Porque
não tinha escolas particulares.Então fui para a Escola Correa
da Silva. E eu estranhei muito porque a professora quando queria castigar
os alunos usava a palmatória. Foi quando eu comecei a apanhar nas
mãos com palmatória. Eu fiquei em estado de choque, sem
ter feito nada. Ela punha todos em fila para a palmatória. Coisa
mesmo feudal. Mais tarde eu entrei para o ensino secundário, que seria aqui o ginásio. Quando terminavam o colegial o pessoal tinha que ir embora, ou ia estudar na África do Sul ou na Inglaterra, algum país da Europa, ou Portugal, que teve sempre um ensino de alto nível, embora fosse um país pobre e com muitos analfabetos. O nível de ensino nas Universidades portuguesas sempre foi muito bom, pra quem conseguia entrar. Na escola eram misturados, brancos e negros só que a chance... Na escola primária ainda apareceram bastante. Agora quando chegou ao secundário, aí rarearam. Porque não eram muitos os negros que tinham condição social para fazer isso. Embora dissessem que não eram racistas, as pessoas nascidas em Portugal, todas eram racistas. O meu pai era uma das exceções, talvez porque ele tivesse um espírito aberto. Nós tínhamos sempre criados, que faziam os trabalhos. A minha mãe, por alguma razão que ela achava que era importante, batia na cara deles, e eu sempre chorava, achava aquilo o cúmulo. Então ela era racista, mesmo. Eu ficava incomodada com aquilo. Ela achava que eu era muito boazinha. "Eu nasci aqui, eles são iguais a mim." Ela queria me matar por eu dizer essas coisas. No colégio de freiras não tinha nenhuma pessoa de cor. Na escola
pública eu só fiz a instrução primária,
porque era só para primário. Depois eu passei para a Escola
Comercial. Quando eu estava um pouco mais velha, com 15 - 16 anos, quando acabei o colegial, ficou mais ou menos acertado que eu iria estudar para Sorbonne. Eu tinha me apaixonado pelo André Malraux, que era Ministro da Cultura do De Gaulle, mais tarde foi Ministro dos Negócios Estrangeiros. "A Condição Humana" que ele tinha escrito foi apaixonante. Na época eu não sabia porque eu gostava tanto dos textos dele. Ele era socialista e eu vivendo num país daqueles. E aí eu fiquei a chorar essas lágrimas amargas, porque como eu já nasci fora de tempo, meus pais já estavam a ficar mais velhotes, não aceitaram se afastar de mim, porque eu era filha única. E eu sonhei com Paris e não fui lá até hoje. Então foi sempre assim, no meio de gente que gostava de ler e de escrever, que eu vivi desde criança. Aqui no Brasil, sempre perguntam, porque acham que eu tenho bastante cultura, e eu depois fico a sorrir e às vezes com vontade de chorar. "Olha, quem, freqüenta faculdade aqui, não consegue ter a sua cultura". "Que faculdade você freqüentou?" "Olhe, os meus professores eram os jornalistas amigos do meu pai". Muitas vezes eles não sabiam que eu estava a ouvir as conversas. Eu comecei a fazer isso, com 8 ou 9 anos. Antes eu não entendia direito, só via que todos tinham cabelo branco, essa parte visual, que é o que a criança pega. É interessante essa universidade que eu freqüentei, até parece uma benção, porque a vida sempre dá um equilíbrio, quando parece que tira uma coisa surge outra coisa para compensar. Aqui eu ainda pensei em estudar, mas como eu me apaixonei pelo meu trabalho, comecei só a fazer literatura para minha alegria e realização. Fiz ainda vestibular, mas depois não quis continuar porque na Universidade, cada tipo de Faculdade, dá dez matéria, por exemplo, e duas é que interessam para você. As outras são a tal cultura geral que no fim a pessoa não absorve. Eu preferia fazer coisas que me dessem prazer, já que eu tinha vivido contrariada tantos anos por não conseguir cultura.
Aos 19 anos se casou com uma inglesa que ele conheceu na África do Sul, onde ela estava a estudar, mas o casamento não deu certo. Não tiveram filhos. Eles viviam numa grande mansão, uma área para um uma área para outro. Um na ala Norte e outro na ala sul. Ele queria o divórcio, mas ela não dava. Aos 16 anos eu fui trabalhar porque meu pai morreu e eu queria ajudar a minha mãe, e continuei a estudar à noite. O diretor administrativo e financeiro da empresa onde eu fui trabalhar era meu padrinho de batismo e depois foi meu padrinho de casamento. Só para vocês terem uma idéia, uma pessoa de brasão, realmente uma pessoa especial. Teodorico César de Sândi Pacheco de Sacadura Bode era o nome dele. Eu trabalhava em um prédio de três andares. A empresa se chamava (Breiner Wither?), o (Wither?) Era de dois estrangeiros, um suíço e outro inglês (ou americano) que tinham ido a viver pra Moçambique e resolveram abrir essa empresa. Era uma companhia de navegação, ela tinha uns pilares bem sólidos era quase como uma estatal, embora fosse particular. Tinha bastante poder. Tinha diversos departamentos: farmacêutico, técnico com eletrodomésticos e no último andar desse prédio tinha a Companhia do Sisal, porque sisal foi sempre uma das grandes riquezas de Moçambique, com o qual eles faziam todo tipo têxtil possível e imaginário. Bem artesanal, mas faziam. E eu entrei muito garota, e eu tinha uma mentalidade de criança mesmo porque eu tinha estado no colégio de freiras, e como eu tinha idade para ser neta dos meus pais, fui sempre muito preservada, embora depois tivesse ido para a escola pública. E comecei a trabalhar e como o diretor era o meu padrinho, então sempre vivi assim dentro de uma concha. Um dia, vi aquele homem lindo. Toda a mulherada em volta dele. Era o fã clube dele. Por alguma razão, uma amiga minha disse: "Olha, tem um homem lindo, parece um militar, liga para mim que eu não vou saber falar, e tu falas tão bem." e eu falei: "Ai os seus cabelos" porque ele tinha um cabelo grisalho. Ele tinha uns 26 anos talvez. Eu fiz a
chamada e ainda não sabia quem era. "Eu trabalho no teu prédio."
"Como, se eu conheço todo mundo?" assim todo estabanado.
"É o homem mais lindo" Era uma figura que eu não
via porque ficava rodeado de mulheres parecia um sultão, e as mulheres
desmaiavam. Ele era bem humorado, com senso de humor, muito bem vestido,
uma cor de carioca, cabelo meio grisalho. Muito novo ainda, mas com cabelo
grisalho. Ele fazia safári e andava sempre ao ar livre. Ele se
vestia muito bem. Soube depois que ele tinha 14 ternos e tinha umas 50
gravatas. As gravatas tinham que ter o tom das meias. Só usava
sapatos que ele importava da Inglaterra. Então,
ele achou muito engraçado. Ele viu que era uma criança que
estava no telefone. "Eu quero conhecer você." "Ah,
está bom." mas eu ia mandar minha amiga. Ele já era
manhoso, era mais velho. "É você que eu quero conhecer."
"Onde é que você trabalha?" "Eu trabalho na
Braine Wither" "O que!!!. É o prédio onde eu trabalho,
no terceiro andar" Eu nunca tinha subido no terceiro andar porque
eu trabalhava no segundo. Eu conhecia o pessoal do térreo, do primeiro
e do segundo. Eu não tinha subido lá porque a empresa não
tinha nada no terceiro andar. Falou na
frente de todo mundo. Eu não ligava, eu era muito brincalhona.
E depois uma vez eu estava na praia, e ele apareceu. Ou ele soube que
eu ia à praia, sei lá. Para avaliar como eu era de maiô.
Maiôs inteiros tipo Marta Rocha, bem pudicos. Ele falou que ficou
deslumbrado com os meus pés, (até tem um filme do Eddie
Murphy, ele namorava muito, ele era bem galinha, depois ia dormir com
uma das namoradas e a primeira coisa que ele fazia era ver os pés
de manhã. Aí ele descartava aquelas com pés horríveis.)
Na escola eu tinha me encantado com alguns meninos, mas nunca tinha dado um beijo em nenhum. Eu fiz o
aniversário de 17 anos e eu o convidei para ir à minha festa
de aniversário. Achava aquele senhor muito interessante; eu o tratava
por senhor, eu o achava muito velho, já tinha cabelos brancos.
Ele me mandou um presentinho para menina adolescente mesmo, uma coisa
para por perfumes cheia de florzinhas. Eu fiquei anos com aquilo, ele
dava risada quando olhava. Depois teve uma festa, a 3 de novembro - não
esqueço porque acompanhou-me esse 3 de novembro a vida inteira
- num lugar que tinha um nigth club, tinha uma parte para dançar,
a beira mar, e ele foi. Começamos a dançar, e me apaixonei
na hora por ele. Foi a 3 de novembro de 1962. A coisa atingiu um ponto
que as admiradoras me fecharam no banheiro pra me darem uma surra. Porque
elas acharam que era sério. Eu era menor, se ele está interessado
é uma coisa séria. Quiseram nos afastar e eu chorava muito.
O ascensorista não podia permitir que nós dois subíssemos ou descêssemos no mesmo elevador, para não nos tocarmos e não nos olharmos. Ele trabalhava no terceiro andar e eu no segundo. Eu escrevia, ia ao correio, punha a carta no correio; ele escrevia punha carta no correio. Ele mesmo fazia isso para que nenhum contínuo ou office boy soubesse para quem era a carta. Imagine um homem de cabelos brancos fazer isso. Então a mulher veio a saber, mas eles já não viviam juntos. Eu chorei tanto durante três anos porque a minha mãe disse: "Só te deixo casar quando tiveres 21 anos" - o meu pai já tinha morrido. Ela dizia que eu tinha me apaixonado por um macaco velho - que era a expressão que se usava. Ela pôs um detetive pra saber quem era o cara: não era recomendável, era casado, já tinha entrado com um processo de divórcio de comum acordo, mas quando a mulher soube que ele estava interessado numa garotinha, virou divórcio litigioso. Tínhamos 13 anos de diferença e na época contava. Ele tinha se encantado, mas eu ia me moldar à imagem e semelhança dele como Deus, não há dúvida. Era um tipo de ditadura de seda. . Mas foi um romance muito engraçado, muito interessante. A mulher
ligava para a sala de trabalho do meu padrinho - ninguém entrava
lá porque ele era o dono e senhor da empresa. Ele dizia "Leninha,
vem cá. (ele sempre me chamava de Leninha, porque eu sempre era
a mais nova) Tem uma mulher malcriada ao telefone, diz que tu estás
a roubar o marido dela." Eu contei tudo a ele, mas ele adorava o
Alberto. "Mas, eu sei que eles estão separados." Todo
mundo sabia, a cidade não era tão grande, todo mundo sabia
da vida de todo mundo. Bem a coisa atingiu uma gravidade X que meu padrinho chamou o pai do Alberto, que era dessa empresa de contratação de mão de obra mineradora, chamou o cunhado dele, que era um homem muito importante, dono da maior transportadora de mineiros brasileiros. Esse irmão mais novo da minha sogra, o Antonio Abrantes, - tinha estudado em Oxford, o que era um espanto. Naquele buraco, gente que tinha estudado em Oxford - com o meu sogro, o meu tio, tiveram uma reunião de cúpula e depois chamaram o meu futuro marido, para pedir satisfações, se ele ia levar a sério, se ele ia casar comigo. Eles iam arranjar um jeito do litigioso ser rápido, compravam o advogado, sei lá o que faziam, essas estratégias que a gente sabe quando cresce. Eu chorei tanto durante esse romance, porque as pessoas achavam que eu tinha roubado o bezerro de ouro da vida delas. Coisa idiota, ridícula. Eu estava completamente apaixonada por ele. Achava ele o máximo. Mas eu não tinha noção dessa realidade.
Foi um casamento muito bonito, a sociedade achou muito interessante e estranho. Eu casei com um missal de madrepérolas e um terço que tinha sido benzido em Fátima, aquelas tradições de família. Depois o terço e o missal eu dei para as freiras que tinham, digamos, uma agência do colégio nas montanhas. Aí fomos passar a lua de mel na África do Sul, que era um país vizinho, e quando voltamos eu já fui para o interior. Interior à beira mar, mais ao norte, Xai-Xai.
Agora ele sempre se vestia de cáqui, nunca mais usou os ternos, a não ser quando algum amigo casava. Tinha toda uma estrutura montada: o cozinheiro, o que lavava e passava roupa, o ajudante de cozinha. "Não te quero na cozinha, quero você sempre vestida de seda, de linho, cheirar perfume francês". Eu fazia, de vez em quando, quando ele estava a trabalhar, sobremesas, algum suflê. Tinha uma grande vida social no acampamento, em relação às autoridades, por exemplo, era o diretor de banco, o diretor da fazenda - eu agora dou risada porque sou um rosto na multidão - era o diretor do hospital, estavam todos os macacos nos galhos da diretoria. Eram com essas pessoas que a gente lidava. Tinha sempre jantares, almoços servidos à francesa, então tinha que ter uma equipe de criados. Eu tinha sete empregados incluindo os três jardineiros. Tinha jardins muito grandes e o serviço era contínuo. E tinha que ter cozinheiro altamente treinado. O presente de casamento de minha sogra foi um cozinheiro altamente treinado para poder fazer todo esse trabalho. Conforme eu fui mudando de cidade já tinha uma equipe montada que meu sogro providenciava lá de Lourenço Marques. Ele falava: "Minha nora vai para aí com Alberto, eu não quero que ela fique com o trabalho doméstico." Então eles treinaram um ano antes para que quando eu fosse pra lá já estar pronto. Alberto tinha muita prática, porque embora ele vivesse na capital, o pai tinha vivido muito tempo no interior e ele ia muito para lá. Então ele conhecia toda essa estrutura, sabia como funcionava e ele ficou contente de eu aceitar isso porque nesse lugar ele tinha possibilidade de ser promovido, e se ficasse na capital ia ser sempre o assessor do gerente, do diretor que representava o presidente na África do Sul. Então fui assim bem africana. Aí quando nós fomos para um outro lugar, era Xai Xai, - os portugueses puseram o nome de João Belo que tinha sido o primeiro homem que tinha demarcado as áreas lá - aí nasceu a minha filha mais velha. Depois meu marido foi transferido e nós fomos para Maxixe e depois fomos para Massinga. Em Massinga ele foi presidente de um clube e ele queria apresentar programas diferentes nas festas da cidade, como fazem aqui com as exposições agropecuárias. Uma das coisas que ele queria apresentar, além de coisas que tinha lá, eram tribos, porque muita gente que vivia lá nunca tinha visto tribos. E ele andou pelo interior da selva, de Land Rover, aquele jipe Land Rover, que aparece muito em Paris-Dakar. Ele descobriu uma tribo que se chamava tribo dos macacos, e foi um deslumbramento. Vieram uns 30 dançarinos, só homens, com aquelas marimbas. Eles tocavam as marimbas deitados. Eu vi essas marimbas feitas por índios. Eu emocionei demais quando fui no Memorial. tem coisas lá que eu achei que eram exclusividades dos povos africanos, e a base para fazer sons, percussão na selva tem que usar a mesma coisa, conforme a dimensão para dar aquela musicalidade. Incrível, eles davam uns saltos acrobáticos extraordinários. Foi o maior sucesso. Eu fiquei deslumbrada porque eu nunca tinha visto uma tribo, mesmo do interior da selva, atuando assim a três metros de distância. Havia moças que se enamoravam de negros. Aí eram postas a margem. Você não podia chamar de mulato, era ofensivo pra eles, tinha que ser mestiço. Minhas crianças quando foram nascer, cada um nasceu em um lugar diferente. Minha filha mais velha nasceu em Xai-Xai. O nascimento de meu filho foi interessante: nós estávamos em Massinga e tinha muitas missões americanas, médicos missionários mesmo, no interior da selva, no interior de Moçambique. E havia um muito famoso que era o Robert Simpson que comandava um hospital. Então eu decidi que eu ia ter esse meu terceiro filho lá. Não tinha ultra-som, eu não sabia qual era o sexo, sempre tentando um menino e veio. Era no meio da selva, eram só missionários especializados em medicina. A chefe da maternidade era sueca. Estavam altamente equipados, e só atendiam negros. A única branca que entrou naquele hospital fui eu. Tinham acabado de inaugurar o pavilhão da maternidade. Eu nunca me esqueço da cena: começaram a aparecer a mulher do diretor não sei de que, não sei de que. Tinha a enfermaria, mas eu estava numa suíte que eles tinham construído caso aparecesse alguém especial, As senhoras de lencinho rendado, com perfume francês, tinham que atravessar a enfermaria porque não tinha uma porta de entrada independente. Não me esqueço, o hospital tinha uma equipe altamente treinada para limpar, mas as negras que estavam lá no hospital faziam cocô no chão, porque elas viviam na selva. Faziam cocô no mato. Então elas estavam dentro de um concreto, achavam que era um mato diferente, achavam natural. E as senhoras chiques tiveram que passar no meio daquele fedor. Eu não me esqueço da cena, eu ria e achava muito engraçado. O filho ficava junto de mim o tempo inteiro, não tinha berçário, então não havia nem a possibilidade de trocar o filho por outro. Também, era o único branco que tinha lá. Meu filho dizia: "Mãe, que romântico, eu nasci no meio da selva". Ele contou isso para os amigos da moda e diziam "Você é um cara diferente." Meus partos
sempre foram normais. Onde eu fui melhor assistida foi na selva. Eles
usavam um pano de cor bege, que tiravam da autoclave, altamente desinfetado
e usavam. Eles tinham uma noção de assepsia melhor que hospitais
de brancos. Eu pedi ao
Robert Simpsom para fazer a circuncisão que aqui vocês chamam
de fimose. Então fizeram no Henrique com dois dias de nascido.
Eles diziam: "Você é uma portuguesa diferente, imagine
se o povo português faz isso. Só judeu, americano e negro
é que faz circuncisão quando o filho nasce." Então
eu fui assistir. Ele deu uma colherzinha de café de rum para não
precisar de anestesia, porque ele era bem "natureba." Então
na mesa de cirurgia de adulto, ele estava muito magro e com aquela marca
na cabeça, parecia um coitado, um faquir. Nem precisou dar nenhuma
anestesia. A cirurgia foi muito rápida e a recuperação
foi muito legal.
Para complicar a nossa saída de Moçambique, tínhamos uma pasta, um processo com um monte de documentos, endereçados à Fazenda. E os funcionários já tinham fugido. Então foi um drama, porque quem estava lá, ou era ajudante ou office boy. Não tinham nenhuma noção. Parte dos arquivos tinha sido destruída. Foi horrível. E ficava aquela angústia, porque tinha um prazo X pra fazer isso, e depois já não podia sair do país. Nem com salvo conduto. Ali tinha um documento, era o item, digamos, Z. Nós tínhamos que renunciar à nacionalidade moçambicana, sendo que a gente nunca tinha sido moçambicano. Isso era um drama, porque o Ministro da Justiça se estava de mau humor naquele dia, dizia assim: " Não. Você não vai .Você fica." E tinha histórias pesadas do meu sogro. Então, nós estávamos indo juntos, um clã familiar. Esse detalhe foi muito estranho, muito interessante Quando nós saímos de Moçambique, tinha uma série de negros no aeroporto chorando. Alguns vestiram trajes tribais como homenagem, sabiam que a gente gostava e as tropas de Samora Machel maltratavam-nos muito. Não admitiam que um negro estivesse a chorar por um branco que tinha destruído o país e que tinha posto lá coisas corruptas. O enfoque dos nativos da terra era que ela tinha sido invadida por colonizadores. No aeroporto, eles liberavam 150 cruzeiros para cada adulto, no passaporte. Ficaram com todas as nossas propriedades, coisas que a gente tinha, tudo. Foi tudo nacionalizado e só os adultos tinham 150 cruzeiros, que mesmo com a outra moeda era muito pouco para começar a vida no Brasil. E as crianças não contavam. Chegamos no aeroporto, estavam esses negros à nossa espera. Choramos muito, por causa dos negros estarem lá, a tribo dos "macondes." Tinham um metro e um, como minha filha diz sempre, tinha um metro e um. Eles serravam os dentes para ficar com ar feroz, bicudos, até porque comiam carne crua, e então arrancavam melhor, como as feras. Eles estavam com baionetas, que tem aquela faca na ponta da espingarda. Abriram as nossas malas, com a raiva de ter negros chorando por nossa causa e praticamente esvaziaram as malas, que era a única coisa que a gente estava trazendo. Então foi patético. Sobre a tribo dos "macondes", do norte de Moçambique: Samora Machel era ajudante de enfermeiro, nunca teria tido capacidade de subir no organograma ou na hierarquia de hospital. Como ele era um revoltado, estava sempre a dizer "eu vou formar uma guerrilha aqui." Mas ninguém tinha levado muito a sério. Ele estava mais interessado em criar grupos de revolta do que propriamente evoluir na profissão dele.O Samora Machel achou por bem que os "macondes" eram os melhores. Era a tribo mais selvagem. Então, eu não sei se aqui tem umas árvores árvores largas, que dá para você se deitar lá em cima, tem os troncos largos e tem umas cavidades que quando chove fica uma reserva de água por que depois havia seca. Eles recorriam a essas árvores. Os "macondes" sempre dormiam em cima das árvores, eram bem pequenos, bastante selvagens. Samora Machel achou que eles eram rebeldes, eles não tinham sido contaminados pela civilização dos portugueses, achou que a porta de elite tinha que ser aqueles porque nunca tinham visto uma arma a não ser estilingues, zagaias, setas com arcos e tal. Esse foi um dos perigos que aconteceu após a intendência porque eles viravam as armas de qualquer maneira, não tinham controle, passavam a viver bêbados porque tinham acesso a tudo como tropa de elite. Eu vivenciei isso, porque antes de ir para a capital, já depois da intendência eu vivi na fronteira. Atrás da minha casa passava um arame farpado. Então essa visão era uma visão do inferno para mim, os "macondes", quando eles apareciam. Impressionavam porque eles eram bem escuros com aquele aspecto selvagem, arrastando uma arma de fogo sem saber como utilizar. Quando eu ouço falar de balas perdidas, eu sempre estremeço, porque tenho essa referência da época. E no caminho,
de onde as pessoas ficam no aeroporto até os aviões, tinha
o campo de pouso, tinha uma certa distância, Tinha umas tendas,
barraca de campanha como eles chamam, onde mulheres faziam revisão
corporal. Mandavam você tirar a roupa toda na frente de todas as
mulheres pra ver se você não tinha grudado no seu corpo dinheiro
ou até ouro. Houve mulheres que enfiavam tubos na vagina. Ainda
o contrabando não estava tão sofisticado e isso passou.
Teve gente que levou diamantes assim. Por sorte eles não encrencaram
com nossa aliança de casamento. Mais tarde eu soube que quando
tinha aliança, para tirar a aliança eles amputavam o dedo.
Nós saímos numa época não tão ruim.
Dizia-se muito mal da África do Sul por causa do racismo. Mas foi
a África do Sul que salvou Moçambique cedendo aviões
para as pessoas saírem do país. Fiquei com
muito medo. Eu estava tão traumatizada com os "macondes"
atrás, com armas, arrastando no chão aquela espada que tem
na ponta. A gente nunca sabia se ia ser atingido por uma bala perdida.
Bem entramos no avião, chegamos em Johannesburg, numa viagem de
50 minutos,e ficamos no Holiday Inn a dormir. Todo mundo dormiu, roncou,
descontraiu, e eu sabia que muitas vezes telefonavam as autoridades de
Moçambique e traziam as pessoas de volta para Moçambique:"Olha,
descobrimos aqui que ele maltratou a minha avó, no ano 1915."
E recambiavam as pessoas para Moçambique. Eu fiquei tão
tensa que todo mundo achou que eu tinha ficado pirada. Aí depois
entraram novos passageiros e chegamos em Cape Town, que é já
na ponta do mapa. Quando a avião levantou vôo e começou a sobrevoar o Atlântico, e que já não dava pra voltar pra trás, e estava todo mundo numa boa, eu comecei a ter uma crise de histerismo, de gritar, que tiveram que me amarrar. É que eu relaxei, inclusive depois, eu fiquei mais de um mês sem voz, eu fiquei com uma grande inflamação. Veio à tona todo o meu desespero que ficou embutido, alguém tinha que manter uma certa consciência. E diz essa minha amiga - que já está aqui a morar faz tempo, amiga de infância mesmo, foi incrível quando a gente se cruzou aqui em São Paulo - que daí para frente quem sempre comandou fui eu. Eu ficava normalmente nos bastidores para meu marido brilhar. Não era que eu não tinha capacidade, era um processo ditatorial que havia lá, embora ele fosse um cara diferente. Era uma ditadura de seda, porque era assim lá. Depois de ter pegado o avião para Johannesburg, ter ficado em pé, todos entraram numa inconsciência.O meu sogro tinha aprontado muito em Moçambique, mil historias lá. Por causa dele nós tínhamos que sair urgente. Meu marido tinha uma promoção a espera dele em Johannesburg, onde nós iríamos viver muito bem, as crianças iam ter estudos pagos até o final da faculdade. Então tinha um projeto de vida legal. Mas, eles não queriam velhos na África do Sul, porque havia tido uma fuga grande, tinha lá velhos dormindo nos bancos do jardim. E a África do Sul herdou uma série de coisas inglesas. Então eles não aceitavam velhos no país porque estava super lotado de refugiados e não tinha lugar para os colocar. E meus sogros não podiam ficar. Para mim era indiferente vir para o Brasil ou para Portugal. Eu nunca achei Portugal era minha pátria. Quando eu lidava com portugueses de Portugal era um horror, eu não sou dessa tribo. Agora eu digo isso a brincar. A minha concepção do Brasil era através da revista O Cruzeiro. Eu nunca tinha falado com ninguém do Brasil. Era muito longe, como se fosse outra galáxia. Eu adorava ver as fotos que tinham praias, eu dizia "ah, são iguais as daqui", água tão azul, provavelmente é do norte, Natal, sei lá. Mas eu ficava alucinada com as matéria do Carlos Lacerda. Na escola
falavam que o Brasil era a maior colônia portuguesa, só.
Eu fiquei impressionada quando eu soube que a Amália Rodrigues,
que era a maior fadista portuguesa tinha casado com um empresário
brasileiro. Para ir para Portugal, minha mãe ficou 9 meses depois que a gente saiu de lá. Pra ir para o Brasil, no mesmo dia tinha passagem. Ninguém estava vindo para o Brasil. Todo mundo queria voltar para a mãe pátria. Eu não tinha nenhuma ligação com Portugal, a gente sempre vivia revoltado.
Quando houve a evasão, a chegada ao Brasil de muitos portugueses, sei lá há uns 50 - 60 anos atrás, era tudo gente que não sabia ler, da roça, que em Portugal é o Trás-os-Montes, o lugar mais pobre de Portugal; as terras são pobres, e eles viviam em casas de pedras.. Lugar frio e viviam numas casas com pedras assim amontoadas que agora serve para guardar lenha. Então obrigou eles emigrarem para muitos países, inclusive Brasil. Essa gente de padaria e lanchonete. É muito interessante porque a maioria não sabia nem assinar o nome, punha a impressão digital. Esses são os que hoje estão muito bem de vida porque se sujeitavam a qualquer situação. Mais tarde, com a independência das províncias ultramarinas, tanto de Angola como de Moçambique, era gente com cultura que vinha. Sofreram muito mais esses portugueses que vieram mais tarde, com mais cultura, com a descolonização das províncias ultramarinas do que esses primeiros que chegaram aqui. A irmã do meu marido, uma delas, morava na Alameda Franca. Ela tinha fugido de Moçambique um ano antes. O marido dela era especialista em plantio de cana de açúcar então teve facilidade em arrumar emprego aqui. Estavam numa casa que tinha sido cedido por uma empresa ligada à plantação de cana de açúcar. Mais tarde eles foram para o Iaiá, em Araras onde estão até hoje. Eles moram lá. Os filhos casaram e tal. Fomos para a casa dessa minha cunhada, que por acaso morava na Alameda Franca. Olha que chique. No lugar onde eram cinco, porque era ela, o marido e três filhos, já meio grandes, passamos a ser doze, e foi complicado. As nossas mantas, os "macondes" rasgaram com as baionetas, então não trazíamos nada de inverno. Dormíamos vestidos, no chão juntos, e tinha só uma mantinha que tinha sobrado da minha cunhada, e deitamos no chão e dormíamos bem juntos para ficarmos quentes. Eu não me esqueço quando ela levou-me a uma feira e ela ensinou a meus filhos a roubar fruta. "Vocês esperam quando estiverem para fechar e vai ficando assim barato, vai pondo os papéis." A Vânia era a mais velha, tinha 9 anos - essa é a que se lembra mais de Moçambique - a do meio tinha sete e o Henrique era muito pequeno, tinha quatro anos. Iam os três de mãos dadas muito encolhidos, magros - tinham passado um bocado de fome. Quando está a acabar a feira, normalmente eles rejeitam as frutas. Normalmente a fruta ainda estava lá e quando o sujeito se virava de costas eles pegavam a fruta. Imagina eu que tinha educado aqueles filhos e agora eles estavam aprendendo a roubar, para comer. Eu não me esqueço, a cena mais marcante. A minha cunhada, nesse dia que nós chegamos, muito cansados, ela foi à padaria e trouxe esse pãozinho, o filão quente, tinha acabado de sair do forno. Eu comi cinco e depois passei mal, porque eu não comia pão há muito tempo. O pão que eu tinha comido a última vez foi numa refeição nesse agrupamento, onde eu estive lá no campo. Era um pão não identificado, azedo há muito tempo, mais duro que uma pedra e tinham feito um caldo verde. Eu vim a saber mais tarde que tinha sido feito de grama e uma mandioca também já azeda que servia de batata. E aquele pão era um deslumbramento. Quando eu comi o filão, até hoje eu gosto. Ela pôs manteiga, eu engoli quente, imagine a dor de estômago. Comi cinco seguidos. Era pão
francês, às vezes chamam de filão. Eu não via
pão há muito tempo. Os meus filhos ainda comiam, eu não.
Parecia um animal, isso ficou como um ícone. Gostei muito da água
quente, do chuveiro. Quando o ser humano vai lá na base, os cinco
sentidos são os que marcam mais presença, que muitas vezes
estão embotados. Quando você está bem na vida, quase
nem nota que tem cinco sentidos. Os mais velhos da casa não agüentaram, meus sogros morreram de tristeza. Minha sogra morreu em maio do ano seguinte. A gente chegou em maio de 76 ela morreu em maio de 77, meu sogro morreu em janeiro de 78. Mudamos para
prédios da Brigadeiro Luis Antonio, porque a escola das crianças
era ali perto, na Batatais. Nem pensar em ter carro. Então para
irem a pé para a escola que a gente sempre escolhia ali a volta. O meu marido era muito expansivo, era uma pessoa muito agradável, conversante, uma pessoa alegre com muito senso de humor e criou uma certa amizade com o dono da lanchonete, com o senhor Victor. Ele queixou-se: "A sua senhora veio aqui algumas vezes, depois ela parou de vir, ela nem olha para dizer bom dia e tal." Meu marido me falou: "É melhor tu ires lá que ele está com uma má impressão". Eu disse: "Eu estou tão preocupada...", "Me diz o que aconteceu?" Eu disse: "Aconteceu isso assim, assim, assim. Começou a querer me maltratar desconfiado que eu ia pedir dinheiro a ele." Aí, um dia eu passei lá, pedi um refrigerante e ele disse: " Ah, que bom que a senhora veio..." Eu estava assim meio sem graça. "A senhora não se ofende se eu perguntar porque a senhora não parou mais aqui na lanchonete?" "O senhor teve uma postura que me deixou muito mal, porque nós ficamos sem nada, mas eu não ia vir aqui para lhe assaltar, pedindo dinheiro só porque nós dois somos portugueses. Aliás, somos muito diferentes. Eu nasci num país parecido com o Brasil e vocês nasceram em Portugal e se o senhor veio para cá é porque achou que valia a pena e sua postura é bem de Portugal. A sensação é que o senhor não absorveu nada de um país tropical, de ficar mais descontraído. Uma vez eu pedi-lhe um copo d'água, eu não sei se o senhor pensou eu queria ficar na sua casa, a comer à sua custa. Eu fiquei chocada porque eu estive 11 anos num campo de concentração, minha escala de valores mudou e então..." Eu fiquei brava com ele, sabe. E depois eu comecei a notar essa postura, agora eu tiro de letra, mas eu tenho 25 anos de treino no Brasil pra lidar com eles. Os meus bons amigos nenhum é português.
Uma coisa
que me deslumbrou no Brasil, foi a facilidade com que você assiste
rituais de candomblé, macumba, todo esse tipo. Lá não,
era no meio da selva, raros brancos podiam assistir. Eu lembro que um
dos funcionários da empresa onde meu marido trabalhava, tinha casado
até na igreja, e a mulher dele era epilética. Então
o meu marido disse "Olha Helena, tu queres ir ver uma cena incrível,
eu vou te convidar pra ires comigo, só que é uma vez sem
exemplo. Nunca ninguém teve acesso". Eu tinha porque eu tinha
amigos negros, mas eu sempre me preservava porque eu achava que era tão
selvagem que eu ia me chocar. Mais tarde
apareceu na capital o Lourenço. Eu perguntei: "Ah, Lourenço,
tudo bem, e sua mulher?" "Apesar dos deuses nossos eu acabei
por levar ao hospital onde a senhora foi ter os filhos porque aquele tratamento
tem que ser de branco, não tem jeito." Ele já estava
cansado e ela estava piorando, estava deixando de se alimentar, estava
esquelética, quase a morrer e recuperou-se, mas epilepsia não
tem cura. Existe um apoio e um controle. Cheguei em 1976, eu vim na época do Ernesto Geisel, só para dar uma dimensão de quando que eu cheguei. Ainda era ditadura militar. No trabalho do meu marido, prometido em Johansburg, eles esperaram uns dois anos para ver se ele decidia voltar. Guardaram o cargo, mas não dava porque os meus sogros eram muito agarrados a ele. Meu marido tinha mais quatro irmãs, o único filho homem era ele. Tanto que eles não foram a Portugal, poderiam ter feito esse tipo de triangulo. Eles iriam para Portugal, nós iríamos para a África do Sul e mais tarde eles iriam viver conosco. Viemos sete. Meus filhos, uma de nove, uma de sete e meu filho que tinha quatro, ia fazer cinco anos. A minha mãe ficou naquela lista de espera para ir a Portugal. Foi por isso que ela não veio logo. Eu era filha única e não tinha razão de ser de ela ficar lá. Ela ficou só aguardando que o processo de documentação ficasse pronto. Era perigoso para ela, e nem escrevia porque tinha censura na correspondência. Mas uma irmã do meu marido ficou lá também, para poder tratar dos papéis da transferência para Portugal, porque ela ia via banco. Ela trabalhava no Standard Bank. Que virou Standard Totta, porque tinha um banco Totta em Portugal, e ela tinha oportunidade profissionalmente de ser transferida. Foi a primeira da família que veio ao Brasil, E ela depois trouxe notícias da minha mãe. Ela não trouxe nada escrito porque ainda podiam fazer uma revisão corporal. Ela contou como minha mãe estava e contava o que ocorria em Moçambique. Os prédios na cidade foram invadidos por negros da selva, e uma vez minha mãe estava na rua e ouviu umas cabras na janela. Eles levaram gado para dentro dos apartamentos. Entupiram tudo. Eles nunca tinham visto um bidê, todo em cerâmica, e eles pilavam o milho e depois plantavam o milho na banheira, porque estavam habituados a tomar banho no rio. Eles saíam a procurar um charco para poder tomar banho, porque nunca iam entender o que era aquela coisa de chuveiro. E deu uma série de noticiário, notícias nos jornais. Destruíram tudo, faziam fogueira no chão que tinha carpete, não tinha corpo de bombeiros e muitos morriam queimados. Aquela história cultural: eles viviam felizes na selva, passaram a viver infelizes na cidade. Eles tinham destruído com bombas tudo que era reservatório de água só porque foram construídos por portugueses, e aconteceu uma seca como não se via há muito tempo. E aí eles começaram a morrer em Moçambique, porque não tinham água para plantar nada; as mulheres começaram a secar o leite, e morreram aos milhares, morreram muitos, muitos, muitos. Eu ainda estava lá na época em que eles estavam a destruir, eram aqueles rios d'água. Agora por causa da energia e da água, eu sonho às vezes ainda, aquele mar na cidade, passando nas ruas, Morreram milhares quando teve aquelas inundações há dois anos atrás. Até mostraram uma mulher a dar a luz a uma criança em cima de uma árvore. Agora morreram afogados, na outra vez morreram de sede. A vinda para o Brasil foi uma coisa diferente, isso aí eu não esqueço. Eu comecei a achar tudo muito grande, quando eu voltei lá em 97, gente viu como aquilo era pequeno, como é pequeno. A capital, eu acredito que é menor que Porto Alegre. Era Lourenço Marques, mas voltou-se a chamar Maputo, que significa reserva de elefantes. Lourenço Marques que era agrimensor e que foi lá demarcar terrenos, apareceu lá e batizou o lugar com o nome dele.
Meu marido dava aulas de inglês, e foi contratado para dar aulas de inglês numa multinacional de plásticos, a Monsanto, ali atrás da Praça da República. Os engenheiros químicos - ele dava aulas pra executivos - o adoravam, mas um especialmente se afeiçoou muito a ele. Ele soube que eu precisava trabalhar, meus sogros já tinham morrido, tinha três filhos pequenos. Ele disse "Meu pai trabalha no Parque da Água Branca, ele é diretor técnico, é veterinário, especialista em cavalo árabe." Foi através dele que eu entrei. E fiquei lá até hoje, na Associação de Cavalo Árabe. A Associação de Cavalo Árabe divulga a raça e promove através de eventos, leilões, exposições, provas, para criar interesses, que apareçam interessados para comprar cavalos, e isso é uma bola de neve, vai aumentando, aumentando. Dentro da Associação funciona o cartório, o registro genealógico dos cavalos árabes. Esse departamento pertence ao Ministério da Agricultura. Começou todo em Pelotas, no Rio Grande do Sul. E era o Ministério da Agricultura que comandava isso, eram sempre os mesmos que criavam cavalo árabe. Então acharam por bem que cada raça criasse a sua associação, com um mínimo de 30 pessoas, para promoverem a raça e se sustentarem. É uma empresa particular, mas com um departamento do governo dentro. Porque a maior receita é do movimento do cartório lá dentro. Me apaixonei pelo trabalho, primeiro porque é o cavalo mais belo. Em Moçambique eu lidava com as pessoas que cultuavam a beleza, e por ironia o meu filho depois foi para a moda. Parece ser um carma. E acabei por ficar lá. Aí como meu marido morreu, eu recebi alguns convites para trabalhar em multinacional, teria investido em mim, em cursos, já teria apartamento próprio. Vivo em casa alugada, ganhando muito mal, pois essas associações não visam fins lucrativos. Ninguém fica num lugar muito tempo investindo numa atividade financeira. Então eu fui ficando, porque eu sempre gostei de história e geografia, e é um cavalo que está em mais países do mundo. É interessante que eu me especializei analisando uma árvore genealógica de um cavalo árabe. Começa no deserto e depois aos poucos os garanhões e as éguas vão se espalhando conforme os interesses dos ocidentais. Os europeus começaram a interessar-se e mais tarde os americanos. O primeiro
cavalo árabe chegou ao Brasil importado da Argentina, em 1923-25.
Vieram vários. Era secretário do registro genealógico
do cavalo árabe, (Echenich?) que é uma família tradicional
do Rio Grande do Sul, Se interessou e conheceu uma família de fidalgos
na Argentina. Ele ouviu falar que eles tinha estado em Damasco, procurando
cavalos exóticos que os beduínos usavam no deserto. E ele
em criança já tinha visto um desenho de um cavalo árabe.
O cavalo parece lapidado, ele é lindo. Então o Dr. (Echenich?)
era engenheiro agrônomo e professor em Pelotas de Zootecnia, foi
visitar a família (Argersa?) em Buenos Aires e ficou deslumbrado.
Ele comprou muitos cavalos e era o único proprietário e
particular, porque o resto era do Ministério da Guerra. Tinham
as (coldalarias?), espalhadas pelo país, especialmente no sul.
Importaram cavalos para defesa do país, e depois virou propriedade
do Ministério da Agricultura. Então ele era o latifundiário
de cavalo árabe no Brasil. O Guilherme (Echenich?) por muito tempo.
Aí ele dava cavalos para os amigos. Luis Villares que fundou as
indústrias Villares foi um dos amigos dele, encontrados na Argentina
e mais tarde nos Estados Unidos. "Villares, eu vou te dar alguns
cavalos árabes" e o Luis Villares que era muito culto, tinha
até estudado em Portugal, ele disse: "Ah, eu já ouvi
falar nessa raça, eu até julgava que já estavam mortos".
Ia ser extinto, porque isso tem milhares de anos. O Luis e Dummont Villares
é quem trouxe os cavalos árabes para a área de São
Paulo, que é onde se concentram. O maior número de haras
de cavalo árabe que tem é no Estado de São Paulo. Eu moro hoje em frente ao Senac, na Francisco Matarazzo, eu atravesso uma quadra e meia, ouço os pássaros e entro no pavilhão. Aí estou há três anos e meio. Antes morava no final da Vergueiro. Minha filha mais velha tinha um apartamento de cobertura numa travessa da Vergueiro, quase no final. E ela disse: "Ah, mãe estás muito sozinha aí. Tem aqui um apartamento para alugar, vens morar aqui." Mas, a gente nunca se via. Ela trabalhava na American Airlines em Guarulhos e os horários eram muito diferentes. Aí vi que eu fui tão burra, ficava cansada, levava duas horas para chegar à Associação e sempre atrasada. Vim para cá E eu estou aí há três anos. Para mim é o paraíso. É o bairro que eu conheço melhor, porque eu sempre trabalhei aí e agora eu vivo nesse bairro. Nesses 22 anos que freqüento o bairro ele mudou. No bairro, muitas residências viraram empresas. Uma coisa que eu achei interessante é que parte delas mantém as roseiras, então tem um toque de residência, não ficaram tão concretas Não sei da onde as pessoas me conhecem, acham que me vêem há muito tempo por aí. Porteiros, motoristas, engraxates, à volta do parque. E para mim é uma emoção grande, porque ali é minha casa. Comecei a conhecer melhor o bairro depois que eu comecei a morar ali. Eu fazia sempre o mesmo trajeto. Dizem: " Você é uma portuguesa diferente, você fala diferente." Porque em África era muito longe da mãe pátria, os de Angola falavam mais serrado. Nós já abrimos um pouco as vogais. Com 25 anos de Brasil... Agora em Portugal, quando vou visitar minha filhas, as minhas cunhadas dizem: "Ah, estás tão brasileira". Eu fiquei no meio do Atlântico porque eu não falo brasileiro totalmente, nem falo português totalmente. Só que elas moram em Portugal e fecharam a boca. Elas não sabem que elas não falam como elas falavam em Moçambique. Não tem um termo de comparação como elas falavam em Moçambique elas falam agora em Portugal. A minha pátria é aqui. Foi a melhor opção para ter que mudar radicalmente. Se tivesse ficado em Johannesburg, eu teria feito talvez dois cursos na faculdade. Dominaria o inglês, teria chance de aprender os idiomas que eu queria. Poderia ter-me especializado em várias coisas, história é uma paixão. O contato estrangeiro eu fiz questão de aumentar. Por exemplo, eu vou atender a Princesa da Jordânia, filha mais velha do Rei Houssein que vem julgar cavalo árabe em setembro, no Mart Center. Ela vai julgar junto com o (Jorgan Fredericsen?) que é um dinamarquês, o Jorge (Concaro?) que é um argentino e dois brasileiros. E é esse o trabalho onde eu evoluo, quando estou com estrangeiros. Aí eu vi que eu gosto de ser guia turístico. Eu vi que eu conheci São Paulo e o Estado de São Paulo com esse trabalho feito assim na brincadeira.
O azeite de dendê. É muito forte para mim. Eu levo a passear os turistas que eu atendo, que são os juizes de cavalo árabe. Eu faço muitos programas de índio. Eles são pessoas que andam muito a pé. Pra julgar cavalos tem que ter muita resistência, precisa ficar horas em pé, caminhando no meio dos cavalos, e a maioria deles são cavaleiros, e vivem no campo. Então é gente muito chiques mas estão habituados a ter resistência. Eu ando muito com eles a pé. Tem aquele restaurante Oxalá da Bahia que serve comidas da Bahia. Adoram a peixada a baiana. Eu digo para tirarem o azeite de dendê porque eu sei que eles iam ter diarréia. Ficam deslumbrados, pedem a casquinha de siri, aquelas coisas. Em Moçambique nós comíamos feijão branco. Quando vi feijão preto pela primeira vez achei esquisitíssimo, porque o molho deixa tudo roxo. Temos um
livro de ouro na Associação, para as visitas importantes
escreverem as impressões, como quando você visita um lugar,
um museu, não sei o que. Tem sempre aquele livro aberto pros visitantes.
E falam sobre o evento que são convidados pra vir trabalhar, pra
dar premiação. É como exposição de
cachorro, até chegar ao campeão, campeã, macho e
fêmea e tal. Mas, o que eles escrevem embaixo, é sobre o
programa de índio que eu faço, depois eu dou o testemunho,
elogio dou louvores: "Ah. O que a gente aprendeu de cultura brasileira."
E outra, eu até me admiro das coisas que eu sei, principalmente
de São Paulo. Eu aprendi a gostar de São Paulo, porque é
complicado e é assustador. Eu demorei
muito tempo pra comer arroz com feijão. A primeira vez que eu comi arroz e feijão foi assim: comer num lugar assim... Era uma quarta ou um sábado, por exemplo que sempre servem feijoada. Mas eu via todos os dias. Uma vez minha cunhada me deu, pra experimentar. Eu disse: "Puxa, não é ruim". Aí, ela só me deu arroz com feijão. Aí eu comi um frango, alguma coisa. Depois ela pôs um pouco de farofa, que era para aos poucos ir me habituando. Eu disse: "Pode servir tudo". Aí, eu fiquei curiosa e eu queria saber tudo. Em que lugar do Brasil plantava o feijão? A farofa vinda da onde, feita de que? E eu noto uma coisa. Os estrangeiros sempre perguntam. Então, eu sempre recupero minha alma de estrangeira, quando eu os atendo. Tem todo um contexto mais profundo do que somente atende-los.
Na embaixada lá em Brasília, minha filha perguntou lá pra dois moçambicanos negros, se ela podia, se tinha alguma coisa que era proibida em Moçambique, porque ela não queria ferir a lei de Moçambique, que a gente não sabia qual era. "Não. Nada. Vocês vão lá, após 21 anos, recordar não sei que Tudo bem." Aí, lá ela começou a tirar fotos. Tirou muitos, muitos filmes. Quando chegamos
lá, ela quis ir ver o hospital onde tinha nascido. Subimos um morro
e tinha uma única bandeira que estava aberta; as outras todas estavam
assim pendentes.. E ela achou linda por causa das cores. Disse: "Vou
fotografar." E a gente subiu. Fomos ao hospital, ficou chocada porque
o hospital está caindo aos pedaços. Só tinha aquele
caminho. Quando descemos, tinha quatro comandos a metralhadora à
nossa espera. Eu fiquei muito mal. O seu Castilho ficou morto. Ele disse:"
Ah!! Mas que horror. Mas o quê que é isso? Faz muito tempo
que a gente não tem isso. Só nas fronteiras." Ela foi chamada,
ficou mais de uma hora lá dentro. Eu não sabia se estavam
a esquarteja-la. Gente, eu passei muito mal. Voltou tudo. Que eu achava
que eu já não tinha nada dentro, na alma, sei lá,
na memória. Passei muito mal. E o Castilho chorava. "Como
é possível ainda fazerem essas coisas? A gente não
estava fazendo nada de mal. É por isso que eu fico revoltado com
este governo". Já tinha tirado fotos, as principais. Ela tinha ido à Moçambique pra ver a praia, que ela tem fotos na praia quando era pequena, de um ano. O hospital, a casa onde a gente vivia onde estavam os três jardineiros... Ela foi ver o tamanho do jardim. Não se lembrava. Tinha saído com um ano de lá. Esse filme ficou com eles e o destruíram. Então, nos deram a câmera de volta. Ai, ela dizia: "Eu mostro meu passaporte. Eu nasci nesta terra aqui, no Xai Xai, e eu queria ver a minha terra. Eu vim aqui só por causa disso. Eu estou... Eu fui embora há 21 anos... " Depois eles viram a data de nascimento, tudo. Coincidia. " E eu vim aqui pra visitar. Eu não vou fazer mal a ninguém". Aí, interrogaram descaradamente, o motorista, pra ver se coincidia. E a gente já tinha conversado bastante, eu tinha chorado, que não tinha pra onde ir pra outro país, mas que eu tinha sofrido muito com a Independência, com a fome, parte da família já tinha morrido de fome. Ficamos muito próximos. Então sabia alguns detalhes. E ele contou, Coincidia com o que ela dizia. Aí, nós fomos... Ela tinha feito umas compras, na própria cidade de Xai Xai, e disse: "Mãe, vamos pra casa do Gomes, no Maputo, e amanhã de manhã eu preciso que vocês me levem para o aeroporto, porque eu vou viajar pra Johannesburg, e fico lá. O Gomes ficou horrorizado, porque ele ia... Todas as semanas fazia aquele trajeto. Depois, acabou. Eu não fui mais pra frente que a gente tinha que andar até 500 km de distância, e a gente só foi até 250. E eu não consegui a terra dos lugares para os filhos. Em Johannesburg a gente contou pra eles, e meu filho dizia assim: "Mãe essa eu não vou perdoar. Tu não trazeres areia do (Shicuco?)" Brincando.. Vi vários amigos, que eu achava que estavam mortos... Porque é o seguinte: quando eu saí do campo, eu fiquei no campo de concentração, e quando eu fui pra capital, meu marido alugou um apartamento no prédio onde estava o partido comunista. Ele sabia... Olha o lance dele. Ele sabia, que ninguém ia metralhar o prédio. Só iam metralhar do prédio ara fora. Então, o melhor era viver naquele prédio. Então, minha mãe e meus filhos e a babá dos meus filhos ficaram lá, enquanto eu ficava acampada. E ele ficou na fronteira. A gente ficou sem se ver muito tempo. Quase um ano. E eu sempre atravessava a fronteira com os soldados armados atrás, sem saber se ia levar um tiro. Foi uma grande lição a ida a meu país de origem, onde deixei muitos cadáveres, onde eu perdi muitos amigos também, em prisões subterrâneas. O prédio, em Maputo onde meu marido colocou os filhos, no prédio do partido comunista, perto tinha um grande jardim. Não como o Ibirapuera, mas muito grande. E era muito exótico. Tinha plantas lá do mundo inteiro. E tinha lá um paredão, de onde saiam plantas do meio das pedras. E era ali que era o paredão de fuzilamento. Eles foram fuzilados lá, os amigos meus. E isso não tem como tirar. São cicatrizes que deixaram de doer. Na verdade o tempo... Aquela coisa, os chavões do tempo é o melhor remédio. Mas não é verdade. Gente simples é que cria esses provérbios. Vai ficando só aquela saudades, aquelas coisas, e eu fiquei legal só depois de seis meses ter voltado... E eu precisava chorar. Você sabe qual é a designação que eu dou pra Moçambique, pra mim é uma Atlântida, porque quando eu cheguei lá, não era mais. Era outra coisa. E, tinha uma referência vaga, que eu tinha estudado ali, mas a casa já estava diferente. Então, nada do que eu vi lá era mais, a não ser o museu. Mas só; e museu é um lugar que tem coisas mortas, é um depósito de coisas mortas, que eu já vi quando eu estava lá, e mais nada. Nem reconheci a baía, o mar, porque não tinha mais navios, os estivadores. Nada daquilo... Era tudo diferente. O meu clã, a minha tribo, ninguém está lá. Então, é só um lugar geográfico onde existiu... Pra mim é uma Atlântida mesmo, como ícone. Estive lá em 97, e quando voltei para o Brasil fiquei seis meses, com depressão. Já tinha estado sete anos com depressão com a morte de meu marido e depois com o suicídio da minha mãe.- Minha mãe se suicidou. Jogou-se do 6º andar - Voltei a ter depressão. Andei na mão de psiquiatras, feiticeiros, alienígenas, o que você possa imaginar... Enriqueceu o meu vocabulário, mas eu sou muito cética com as abordagens que eles fazem. Eu já tenho a resposta antes de eu subir lá e falar de tanto que eu sofri nas mãos deles. Andei dependente de droga injetável que eles davam pra que eu ficasse calma. Acabei por me salvar a duras penas. Foi todo um processo. E eu não achei que eu ia conseguir, fiquei até com uma certa amnésia, fiz tratamento pra relaxamento. Fiquei paralisada de um lado também. E é interessante, que após seis meses da vinda de Moçambique, eu tive uma crise de choro, chorei três dias, dia e noite. Não fui trabalhar. E depois o meu choro secou, e eu nunca mais me lembrei de Moçambique, a não ser vagamente. Vânia, eu quero te agradecer de coração por tu teres insistido pra voltarmos a Moçambique. Aliás, é assim que a gente cauteriza as coisas. Isso foi um exemplo que a gente só leva a sério quando vivencia a coisa. Não é com discurso muito bonito, que na prática amassar com emoção é muito diferente. E, foi incrível. Amigos Eu tenho uma colega de escola, do ginásio e colegial, que teve que ir pra Portugal. Era comissária de bordo na Varig de Moçambique,. Está como telefonista da Otan desde que foi para Portugal, vai se aposentar assim. Lida com os generais e coronéis da Otan, os americanos. Que é de alta segurança. Então, ela trabalha num subterrâneo há anos. Ela só vivia na praia, fazia nudismo, ioga, não sei o que? E ela pediu a esse meu amigo, é nosso amigo comum, que era passageiro todas as semanas pra a África do Sul, e ela era a comissária de bordo. Então conhece-o muito bem. E ela se encantava com ele. As mulheres todas se encantavam com ele. E então ela dizia assim: " Oh, Zé, vê onde está a Lena, porque eu não sei dela há três anos." Meu marido morreu e eu fiquei numa bolha. Virei autista. E aí, um dia recebi um telefonema na Associação, uma mulher muito aflita e disse " Alô, é Maria Helena Vidal?" " Sou." " A senhora tem certeza?" " Tenho." " Ah. Fulano de tal quer falar com a senhora." Tinha perdido o paradeiro. Eu o vi uma vez, quando eu cheguei, que estava com aquele aspecto de ET, olhou pra minha cara, quando meu sogro foi tratar da aposentadoria lá no Unibanco. Então depois ele disse: " Lena, vem aqui. Eu estou trabalhando aqui no Banco Hispano Americano, aqui na Santos, e eu quero te ver." E eu fui lá. E ele se encantou comigo. E foi muito engraçado. Ele estava. no período entre o término de um casamento que ele tinha feito em Moçambique, Auto Avaliação Vida Atual Não
namoro. Essa parte é meio complicada. Agora eu não sinto
mais muita falta de meu marido, Filhos A irmã,Claudia,
é casada com um ex-funcionário da United Airlines. Então,
eu viajava pelo mundo ou pela United ou pela American. O papo era só
aviões. Então, o Emerson, que é o marido da. Claudia,
meu genro, é filho de português, e era o único que
tinha prática de atender ao balcão e de saber governar e
dirigir um café. O pai, pra variar, tinha tido uma padaria, uma
lanchonete e um bar. Todos ajudavam o pai. Bem, resumo da história.
Ele foi pra lá, montaram um café, ficou lindo, reformaram.
Chama-se Café Tucano, só tem objetos brasileiros. Todo mundo
adora. Diz; "Oh, o café das brasileiras." Não
entra partido político nenhum. Nesse tempo, meu filho Henrique já tinha ido pra Londres. Ele queria investir em fotografia de moda e informou-se. Estava pra ir pra Nova York e descobriu que fotografia de moda mais avançada do mundo, pra aprender, é Londres. E esse cunhado dele, ou seja, meu genro, o Emerson da United, queria trabalhar de novo na companhia aérea, que assim a família pode viajar. Tentou em Lisboa e não conseguiu. Aí, ele foi passar uma semana em Londres. Foi para Heathrow no aeroporto, e distribuiu dez currículos. Duas semanas depois, a Lufthansa chamou-o e ele tinha que ir na Lufthansa. Ficou deslumbrado. Mas a minha filha, a mulher dele, tem um casal de filhos, não estava preparada, porque ele enviou os currículos e não falou nada. Só falou que estava com saudades do cunhado... Foi assim uma reviravolta. E eles não tinham reserva de dinheiro, e Londres é uma das cidades mais caras do mundo. Bem, ficaram na casa do meu filho e tal. O meu filho saiu de Londres e começou a viver em Nova York. Agora, ele um está aqui, porque a Luciana, que vai ser mulher dele, por causa da Revlon,- de ela ser o rosto da Revlon, um dos quatro rosto da Revlon - tem ficado direto em Nova York. E tem mais. Em Londres não tem trabalho. Ela viajava pra Alemanha, mas só que ia de manhã e voltava à noite, era mais perto do que estar no Brasil. E o meu filho só sobrevivia com os trabalhos que a Zapping, a Zoomp, o Tufi Duec, ou alguém da moda dá pra ele. Então, a idéia, é... A mais velha, vai pular pra Flórida, de Portugal, tem uma filha pequena, de um ano, minha netinha. Essa tem 34, Vânia, a mais velha. Depois tem a de 32 que é a Claudia. Está a morar em Londres, com o marido na Lufthansa, e um casal de filhos. E o Henrique, que está a morar em Nova York. Eles sabem que eu adoro o Brasil. Agora, a Luciana (Curties?) já comprou um apartamento em Nova York, pra ela fazer um investimento já que ela ganhou bastante dinheiro com a Revlon, e está aproveitando. E meu filho vai comprar um apartamento aqui em São Paulo, pra eu morar nele, até resolver o que ele vai fazer. E eu acabei ficando independente, porque eles foram saindo lentamente de casa. As duas viveram com os maridos antes de casar, o que eu acho ótimo. Não casaram virgens.
Essa senhora
se chama Heloísa Lima Dantas, e o marido, o professor Dantas, Pedro
Dantas, foi colega do Franco da Rocha. E eles é que depois, começaram
a fazer, com Ramos de Azevedo o Hospital do Juqueri. Estou inclusive a fazer um curso de Iniciação à Oratória, lá no Parque Água Branca. Termina nesse próximo domingo, porque se forem mais de quatro pessoas, eu não consigo falar. Não sei lá porque é o número quatro. Se forem cinco pessoas, eu já fico com agulhadas na barriga, começa a ficar mal, e pra fazer um exercício a gente tem que subir lá no palco do auditório, e são colegas, e como tudo olhar pra mim, eu uh! Acho que eu estou no paredão de fuzilamento em Moçambique.
A minha filha que diz que eu tenho sempre que ficar perto dela, está indo pra North Miami. "Oh mãe, não fique preocupada. Eu sei que tu gostas do Brasil. Fica uns seis meses aqui comigo e fica seis meses no Brasil. No inverno da Flórida foges pro Brasil." Então, eu estou assim mais cigana. Como tem planos que mudam, a gente nunca pode fazer planos por muito tempo, mas se eu puder ficar no Brasil, eu prefiro, porque na verdade, a minha terra é aqui. Eu vou a Portugal, eu não tenho nada a ver com aquela tribo. Pensam muito pequeno. Elas também acham.. Então, a idéia é juntarem todos nos Estados Unidos, os que pudessem ir pros Estados Unidos ou Brasil. Eu faço ponte aérea ou fico lá. A coisa que eu sinto mais, lógico, de vez em quando eu ganho, é ficar perto dos netos. Isso eu sinto muita falta. Passei 15 dias lá em Salvaterra de Magos, depois com essa minha amiga no Estoril e depois fiquei 15 dias em Londres. Fui ver os dinossauros com meu neto de lá. Neve em Londres, que não costuma ter. Gaivotas em Londres. Talvez eu leia pra pessoas com problemas visuais, ou talvez eu também faça um curso de turismo, ou talvez eu só ande com os netos fazendo cantigas de roda. Lá na frente é um ponto de interrogação, mas eu tenho assim atração... E na Associação não querem que eu saia porque eu sou o dinossauro de estimação, sou a memória ...viva da Associação.
Agora eu fiquei um pouco abalada com as fotos do meu marido. Eu tinha resolvido deixar de olhar pra cara dele. Agora recomecei a olhar melhor: "Puxa, como ele era bonito." No lugar onde ele está, provavelmente eu estou a puxar uma perna. Não sei. Interromper a estadia dele noutra dimensão.
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