Ilda Rosa de Souza Cunha

Identificação

Meu nome é Ilda Rosa de Souza Cunha, nasci em 06/09/53, nasci no município de São João del Rei numa fazenda chamada Fazenda de São José. Meu pai José Maximiano de Souza e minha mãe, Geraldina Estefânia de Souza de Souza. Naquela época as mulheres tinham os filhos na própria casa, eu sou a última filha de uma família de quatorze filhos. O meu irmão mais velho morreu ao doze anos com pneumonia, na época cinco irmãos mais velhos tiveram pneumonia, ainda não tinham inventado a penicilina, os médicos operavam, ele foi operado e morreu, se chamava João, depois vem o Zoti,o nome dele é Joaquim, mas todo mundo o conhece por Zoti, vou falar os apelidos porque dificilmente a gente trata pelo nome, Maria, Juquinha, Chiquito, , Fânico ,Conceição Estefânia, Armando, Ladinho, Geraldo, morreu aos quarenta e quatro anos, com pancreatite, adoeceu e morreu dentro de dois dias. Minha família é assim, tem um monte de trajédias. O Flávio que morreu aos vinte e oito anos com um ano de casado, deixou a mulher grávida, morreu num passeio que ele fez na casa de um outro irmão, o Fânico. O Ivan que era um dos mais novos, morreu aos cinquenta anos num acidente com o trem. Minha irmã mais velha tem filhos mais velhos que eu. Quando eu nasci ela já era casada, eu nunca morei com ela, eu tenho três ou quatro sobrinhos mais velhos que eu.

Será que eu lembrei de todos, porque se eu esquecer de alguém vai ser terrível (risos).

Origem/Casa

A minha casa é a minha referência, toda vez que eu estou em dificuldades eu sonho com esta casa. Era uma fazenda, destas bem antigas, corredor, quartos grandes, geralmente os quartos das filhas dava por quarto dos pais, porque tinham medo de fugir à noite, ir namorar. Então minha casa era uma casa de cinco quartos, salas enormes, cozinha enorme, forno para fazer quitandas, era aquele forno de cupim, forno à lenha, tenho tantas recordações daquela época.... Tinha os vizinhos que moravam próximos, não havia televisão, então era muito cultivada a amizade entre as famílias tradicionais da roça . Um ia passear na casa do outro sempre e levava a família toda, filhas, filhos, então tínhamos muitos amigos na redondeza , inclusive, cinco irmãos meus são casados com outros cinco irmãos. Três irmãos casados com três irmãs e duas irmãs casadas com dois irmãos da mesma família.

Meu pai tinha três fazendas, a Fazenda São José, uma outra localidade chamada ---------------- e uma outra chamada Campos, perto do Morro Grande.

Origem / Família

Meu pai era um fazendeiro aqui da região. Até a morte dele nós vivemos lá na fazenda. Ele morreu quando eu tinha doze anos.

Com a morte do meu pai os meus irmãos, Armando, o Ladinho e o Ivan, assumiram a fazenda. Eu e minha irmã assumimos a casa. Na fazenda começava-se a trabalhar muito cedo, as meninas ajudando a mãe e os meninos ajudando o pai. Meu irmão Armando, mais velho que eu três anos, tirava o leite desde pequenino, ia pra roça, eu também ia pra roça.

Desde a morte do meu pai eu tive muitas perdas, naquela época era obrigado a usar luto fechado, um ano inteiro, seis meses luto fechado e outros seis meses um luto aberto, era permitido usar um branco, uma roupa com umas bolinhas brancas. Mas era um ano, era uma questão de sentimento, de tradição. Até eu, tive que usar luto aos doze anos. Logo que completou um ano da morte do meu pai, minha mãe também morreu. Minha mãe morreu de tristeza, ela combinava demais com meu pai. Quando ele morreu ela não teve mais vida e depois que ele morreu ela acabou, ficou magrinha, só rezava, só chorava, e aí a família toda ficou toda de preto novamente. Quando tinha uma festa, uma missa, as pessoas comentavam que era triste ver aquele tanto de gente todos de preto, unidos, filhos, netos e noras.

Era uma coisa só pra mostrar um sentimento, uma tradição que prejudicou demais, e nem por isso, depois de mais de trinta anos, os meus sentimentos são os meus, a tristeza, a perda deles, continua o mesmo, não importa se eu estou sorrindo, de preto ou de vermelho, o sentimento é não está de fora, ele está por dentro e permanece, com o tempo isso fica um pouco mais ameno, vai se transformando em saudade muito gostosa de se lembrar dessa época.

Origem / Educação

Tinha uma estação, a Estação de Ibitutinga, um povoado onde moravam as pessoas da Rede Ferroviária, tinha a Igreja, tinha missa todos os domingos e a escola. Antes do meu pai morrer eu fiz até a segunda série. Esse povoado ficava mais ou menos a uns cinco quilometro da minha casa, íamos a pé e voltávamos. Com a morte do meu pai, meu irmão mais velho não quis mais estudar, então eu parei de estudar, porque não tinha quem me levasse para a escola.

A Minha primeira professora se chamava dona Iracema Vivas de Oliveira, morro de saudades dela, ela não era formada, era leiga, eu adorava ela, era apaixonada por ela. Eu sempre gostei muito de estudar e tive que parar muito cedo, era frustradíssima com isso. Eu tenho a minha primeira cartilha, eu a guardo porque tenho muita saudade.

Tinha a estrada de ferro da Rede Ferroviária, a plataforma onde o trem parava, depois várias casas, e mais adiante tinha uma sala grande. Nessa sala estudava todo mundo, nem relógio tinha, a Dona Iracema mandava as crianças irem olhar as horas lá na plataforma e o relógio era de algarismos romanos. A primeira coisa que ela ensinava eram algarismos romanos, porque assim os alunos aprendiam a olhar as horas. E nesta sala estudavam os alunos da primeira, segunda e terceira séries, não tinha a quarta série.

Dona Iracema ficava sentada na cadeira, chamava cada criança e passava os exercícios para cada criança no caderno, ela sempre ficava sentada, mas você nunca a via sozinha lá na mesa, sempre tinham três ou quatro crianças em volta dela, e as crianças adoravam e respeitavam a Dona Iracema, se ela xingasse alguma criança, ficava triste a semana inteira, ela chamava os pais para conversar, era uma pessoa respeitadíssima na comunidade. Não era como hoje, que as pessoas nem sabem quem são as professoras. Todos os fazendeiros dali tinham a Dona Iracema em alta conta. Ela não era autoritária, era exigente e meiga. Não formou o magistério e alfabetizou a todos. A Escola se chamava Escola Mista Municipal da Estação de Ibitutinga. Mais tarde os fazendeiros, por politicagem levaram uma professora que era forma no magistério, Dona Luzia, que também morava na comunidade e levaram a quarta série pra lá. Eu retornei, mas por causa do calendário de escola rural que é diferente, começava mais tarde, por causa de colheita. Daí o meu pai morreu nós fomos morar com meu irmão mais velho.

 

Origem / Pessoal

Minha infância foi pequena, porque meu pai morreu cedo e me deixou com doze anos, mas foi excelente. Fico vendo as crianças de hoje os pais compram brinquedos caríssimos e a criança brinca algumas horas, escreve no brinquedo, estraga. Lá nós brincávamos de boneca feita por nós mesmos, de pano, passava o carvão na carinha da boneca para fazer o olho, o nariz, a boca; tampinha de garrafa, vidro vazio, trenzinho de caixa de fósforo, com sabugo, o brinquedo da gente era esse. E a gente ficava horas brincando, criava, imaginava coisas, fazia um monte de coisas, com essas sucatas. Eu sou muito parecida com minha mãe, alegre, extrovertida, mais cheinha (risos).

Depois que meu pai morreu eu fiquei um pouco rebelde, eu acho que nada do que eu fazia naquele momento eu gosta de fazer, primeiro porque eu perdi a minha casa, a casa da gente é a coisa melhor do mundo, quer dizer, além de perder meu pai e minha mãe, eu perdi a minha casa e eu achava isso muito injusto e fui morar numa outra fazenda totalmente diferente da minha, morava com meu irmão. Todo mundo mandava, antes era o meu pai, depois os meus tios e os meus irmãos, a gente não podia fazer nada, namorar, nada.

Nessa época eu não trabalhava, eu era revoltada, levantava tarde, meio mal humorada. O dia que eu queria, pegava meu cavalo branco e vinha para São João del Rei deixava ele lá na estação e a minha irmã mais velha dizia, "Ilda não faça isso", finais de semana não ficava lá nem amarrada. Em São João eu ia à bailes, freqüentava o Lampião, tinha amigos, do tempo em que meu pai tinha uma casa aqui em São João, as vezes passávamos uma temporada aqui. Vinha pra dançar, bebia, tomava Run, Cuba, minha bebida preferida.(risos). Nessa época eu vive uma época meio louca, me apaixonei por uma pessoa uns vinte anos mais velho que eu, sempre gostei dos mais velhos. A minha rebeldia não era nem próxima das rebeldias de hoje, era só vir pra cá, dançava e via coisas bonitas, menos tristes. Eu não vinha escondido. Meu irmão dizia: "Ilda você não vai, você é louca, você me mata". Eu respondia: "Não adianta, não vou ficar aqui nesta coisa morta". Eu ia pro pasto, pegava o cavalo branco, marchador, difícil de pegar. Pegava o que estivesse mais fácil na minha frente, arreava , vinha pra estação pegar o ônibus e meu irmão, as vezes mandava o filho dele atrás, pra tomar conta. Foi uma época que eu aproveitei a minha vida, a minha juventude. Namorei, dancei. Era a época do auge da Jovem Guarda, Twiste. Roni Von, Roberto Carlos, Jerry Adriane, Wanderlei Cardoso, Rosemere. Eu era apaixonada pelo Roberto Carlos, fui no show dele e fiquei louca pra ele cantar a minha música, "De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar"(canta), ele não cantou e eu fiquei só esperando. Eu adoro o Roberto, ele é Rei e sempre será Rei, sempre esteve presente nas épocas boas e ruins da minha vida.

 

Transição/ Família

Mais tarde a minha irmã Geralda resolveu vir morar em São João del Rei, estava ruim no sítio onde eles moravam, ela já era casada e resolveu vir morar na casa do meu pai, que tinha ficado pra nós duas. A casa onde eu nasci, os irmãos compraram dos herdeiros e foram morar lá. A casa , hoje, não é mais da família.

Nesta época eu não sabia o que eu queria fazer, de uma coisa eu tinha certeza, eu queria ser feliz, queria buscar alguma coisa que me trouxesse alegria, por isso eu lutei a vida inteira. Na época as moças que não casassem até os dezesseis anos eram "titias", eu não estudei, meu pai tinha dinheiro para pagar um colégio para eu estudar no Colégio Nossa Senhora das Dores ou em um internato, mas isso não era valor para ele, valor para filha mulher seria aprender a assinar o nome para escrever uma carta pro namorado, se necessário e casar.

Quando minha irmã veio morar em São João eu tinha uns dezessete anos e fui morar na Rua Alfonsina Alvarenga nº 95, Tejuco.

Em frente à nossa casa morava uma família, a da minha sogra, e nessa época um dos seus filhos, o Miguel ,tinha ficado viúvo. Eu fui amiga da primeira mulher dele e fui no casamento deles. Ela morreu e deixou um filho de sete meses. O filho deles, o Daniel, era assim, que nem pintado num papel, era lindo, loirinho do cabelo branquinho e de olhos azuis. Eu sempre fui apaixonada com criança, então as vezes me pediam para ficar com ele. As vezes o Miguel ia buscar o Daniel na minha casa, surgiu , então uma ligação afetiva muito grande e começamos a namorar no dia 12 /12 / 1981 e nos casamos no dia 29 de Julho de 1982. Minha vida começou a mudar totalmente. Eu sempre fui educada para casar e ficar casada aconteça o que acontecer, você tem que ficar casada. Na época o pior erro da minha vida foi ter casado, eu e meu marido gostávamos um do outro mas ele casou para ter uma mulher pra cuidar do filho dele, ele perdeu a casa , perdeu a mulher, mãe do filho dele, ele queria recuperar o que tinha perdido. Eu queria mudar de situação, tinha que casar, porque se não ia virar "titia", eu tinha que arrumar um casamento, eu não tinha que arrumar um amor, eu tinha que arrumar alguém que me sustentasse e que eu saísse da companhia dos meus irmãos. Vivi a minha vida mais tumultuada ainda. Foram dez anos de tumulto. Eu era a pessoa mais frustada e infeliz desse mundo. Com o tempo veio o amor. Hoje em dia nós temos isso muito claro.

Dentro da concepção religiosa com que fui educada, não podia tomar nenhum tipo de anticonceptivo e logo em seguida fiquei grávida. Educamos os filhos com dificuldades financeiras, O Daniel, a Adriana, nasceu em maio de 1973, está se formando em jornalismo, a Andréa, nasceu em maio de 1976, vai se formar em medicina e a Daniela que nasceu em maio de 1977 e está cursando Direito.

 

Transição / Educação

Eu e minha irmã tínhamos um projeto, eu iria estudar e ela costurar. Eu ajudaria na costura e estudar. Vim para São João com o objetivo de estudar, isso nunca saiu da minha cabeça.

A minha educação religiosa foi rígida, muita catequese, isso é pecado, Deus castiga, não podia beijar na boca e isso me atrapalhou muito. Quando a gente começa a entender que as coisas não são desse jeito e quando se tem a oportunidade de perceber que elas podem ser de outro jeito e que tem outras pessoas que não têm essa chance de ver as coisas de outro jeito e continuam naquela vidinha pelo resto da vida.

O Miguel, a pessoa mais linda do mundo, mais inteligente e sábia que eu já vi na minha vida, se dedicou a me fazer feliz. Eu nunca falei pra ele que gostaria de voltar a estudar, pensava que ele não concordaria. Um dia ele me perguntou o que eu mais gostaria de fazer. Eu disse que seria voltar a estudar. E ele disse: Porque não volta?

Quando voltei a estudar, voltei a ser gente, a ser feliz a deixar o mal humor. Isto foi em 84, eu estava, com trinta e um anos. Estudava compulsivamente, estudava, saía de casa, adorava. Comecei a reviver, era como uma semente que brotava dentro de mim e tudo que eu fazia me deixava feliz. Dentro de um ano e meio fiz o primeiro e o segundo grau. Ninguém acreditava no meu sucesso, diziam que eu estava abandonando meus filhos, jamais vai conseguir passar no vestibular. Fiz o primeiro grau no SESI em quatro meses, estudava e fazia provas em massa, passei. Em 85, fiz o segundo grau sozinha, porque não tinha nenhuma escola que ministrasse o segundo grau. Fiz as matérias mais difíceis no primeiro semestre e as mais difíceis no segundo. Nesse mesmo ano uma professora do SESI me incentivou a fazer o vestibular, porém, a faculdade era particular e meu marido não teria condições de pagar. Ela falou que se eu passasse, ela arrumaria uma bolsa pra mim. Estudei feito uma maluca, minhas filhas me ajudavam muito. Ligava para amigos para tirar dúvidas, para professores do SESI.

A escolha do curso foi meio no escuro, eu queria estar dentro da faculdade, não tinha consciência para escolher, fui pelo gosto da matéria, gostava de História, então fiz Filosofia. Antes, o vestibular era divido por provas, você fazia as provas do primeiro dia, se passasse, faria as provas do dia seguinte. Eram três dias de provas. Passei em décimo segundo lugar. Meu marido me acompanhou em cada momento, me aplaudindo, me deu a maior força. Foram quatro anos de faculdade que eu vivi minha adolescência corretamente (risos). Era rato de biblioteca.

 

Trajetória Profissional

A primeira escola onde eu trabalhei foi no Garcia de Lima, na sétima e oitava série, Educação Moral e Cívica. Com idéias críticas, a primeira coisa em que fui trabalhar foi conscientização dos meninos com relação ao país que eles viviam, fiz uma crítica ao Hino Nacional, a diretora, Dona Rute Viegas chamou minha atenção e disse que o Hino Nacional tem que amar e não criticar. Sou apaixonada com aula, estou fora de sala de aula este ano, mas o que eu gosto é de sala de aula. Trabalhei no Estadual, Maria Teresa, Brighenti, Polivalente, João dos Santos, Iago Pimentel, Inácio Passos.

A gente sempre acha que se pode mudar o mundo, mudar as coisas e nem sempre a gente tem condições para isso. Daí veio a vontade de montar em São João delRei uma escola que apoiasse as pessoas que tivessem as mesmas condições que eu. Não tinha grana para começar a escola, quando bate uma coisa na minha cabeça não sai, eu sou muito determinada nesse sentido, não tem dificuldades para mim. Comecei a rebanhar alguns amigos. O primeiro a topar foi o Lenine. Em três ou quatro meses que o Lenine topou, nós montamos o SIEES, em 1996. O que eu desejava, não aconteceu. Eu pensava nas pessoas que tinham vontade de voltar a estudar e que não tinham escola para isso. Uma pessoa mais velha que vai cursar o Ensino Médio, Ensino Fundamental, estudar com uma criança, não por discriminação, mas até para trabalhar fica complicado, trabalhar com uma criança de treze anos e uma pessoa mais velha, é complicado. Isso não aconteceu, a nossa clientela é o aluno difícil das outras escolas, é o aluno excluído das outras escolas. Um dia uma pessoa de uma outra escola me disse:" O SIEES só pega resto"! A minha resposta foi a seguinte: "Mas o objetivo do SIEES é esse mesmo, tentar ajudar as pessoas". Nada é impossível nessa vida, as coisas são impossíveis até você compartilhar isso com outras pessoa e tornar isso realidade.

Quando montamos o SIEES éramos onze sócios. Lenine, Dorinha, Perpétua, Miriam, Eliane, Júlio, Edilene, Hebert, Regiane e o Anderson.

Montamos o SIEES na Rua Fidélis Guimarães, com uma filosofia totalmente diferente das escolas estaduais, uma filosofia mais humanística , de mais respeito, sem separação, sem aquela diferenciação "eu sou o professor você é o aluno". No início nós tentamos trabalhar com portas abertas, mas não deu certo.

Quando falo de pessoas excluídas, a partir do momento que você não consegue educar uma criança ou um adolescente, você tem que olhar os dois lados, as características do aluno do aluno e a sua competência. Quando falo de competência não falo de conhecimento empírico, epistemológico, temos conhecimento de vida, não existe receita, a sua intuição no momento é que vai resolver o problema, é você querer que aquele aluno fique ali, aprender e mudar a vida dele. Muitas vezes fracassamos aqui no SIEES, não demos conta do aluno. Mas o problema é só do aluno? Não. O problema é nosso, dos profissionais também. Não existe falha de um lado só, existe dos dois. ESSE É O MEU DESAFIO, mas eu não posso fazer uma escola sozinha, eu lido com outras pessoas. Como profissionais da educação nós trabalhamos com a alma das pessoas. Quando perdemos um aluno eu me sinto fracassada, impotente. O ser humano é complicado de se lidar com ele. 80% dos nossos objetivos são alcançados. Muitos pais chegaram chorando dizendo: "Meu filho não tinha jeito". Nossa equipe do SIEES é uma equipe muito boa, Lenine, Dorinha, Perpétua, Miriam, Eliane, Júlio e a Edilene. Nossa equipe é DEZ.

Com um ano de funcionamento a enchente encheu a escola de lama, lá na Fidélis Guimarães. Praticamente ficamos sem nada. A minha amiga, Maria do Carmo Antunes, era amiga das irmãs da Associação São Vicente, ele se empenhou muito. Conseguimos alugar o prédio pertencente ao Colégio Nossa Senhora das Dores.

Eu tenho muitos sonhos para o SIEES. Queremos começar com o ensino regular.

Há dois anos estamos aceitando bolsas da prefeitura, porque é a chance que algumas pessoas têm de estudar aqui.

No SIEES, nós tivemos problemas, decepção, nunca.

Desde de que abrimos o SIEES, eu comentei com meus sócios sobre a faculdade de direito. Em um passeio em um hotel fazenda, junto com uns sobrinhos, o Sérgio e o Afrânio, eu comentei sobre a minha vontade de montar uma faculdade, o Afrânio concordou. De alguma forma o SIEES vai estar junto. Foi difícil conciliar, mas eu tenho uma equipe forte. Nossa intenção é começar o ano que vem, no que depender de nós. Os cursos são: Direito, Turismo, Geografia e Matemática, mas o projeto é grande, temos uma equipe trabalhando em outros curso, para o ano 2002. O nome da faculdade é IPTAN - Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves. Queríamos fazer uma homenagem a alguém da terra.

Eu gosto de política, mas eu jamais me meteria em política, hoje eu vejo que para você conseguir ultrapassar essa máfia que é a política, você tem que ter duas, três, quatro, cinco caras, isso não me atrai. Eu tenho, sim, ambições sociais de ajudar, beneficentes. Vários partidos políticos de São João del Rei já tentaram me levar para o lado deles. Com relação ao apoio para a faculdade eu não tive nenhum, de São João del Rei, principalmente. O prefeito de Tiradentes nos ofereceu todas as condições materiais de espaço, de construir a faculdade lá. O prefeito de Ritápolis, também. Mas eu quero fundar a faculdade aqui porque São João del Rei é a minha cidade. A política que está aí é transitória. Se eu agisse dessa forma, eu estaria castigando o meu povo, o meu conterrâneo. Eu tenho um compromisso com a educação e com a minha cidade. Eu sou apaixonada com isto aqui. Eu tenho visto muita coisa errada. Não há investimento onde realmente tem que ter, politicagem barata. Aqui em São João del Rei eles não têm o poder de somar as forças.

A FUNREI nos apoiou integralmente, está em andamento um convênio com ela. O Mário Neto e a Professora Maria do Carmo nos receberam de braços abertos.

 

Avaliação / Expectativa de vida

Eu sou uma pessoa muito ambiciosa, as vezes quero fazer muita coisa em pouco tempo, mas eu me admiro por nunca me deixar abater e ter enfrentado a vida com toda a dificuldade que eu tive em toda a minha vida, eu sou feliz, sou uma pessoa muito feliz. Eu conquistei muita coisa, acho que a primeira coisa que me deixa feliz é conquistar a minha própria pessoa, a minha segurança, eu acredito em mim. A única coisa que me desestrutura, que eu não sei lidar, que me desequilibra é a doença. Profissionalmente eu sou muito realizada. Sou uma pessoa que gosta de ajudar, adoro ver as pessoas crescerem. O ser humano é muito egoísta, o ser humano é solidário na tristeza, no sofrimento, é difícil o se humano ser solidário no sucesso Eu sou solidária, adoro ver alguém crescendo. A simplicidade, a coragem, o abrir-se diante das pessoas. A simplicidade é a características mais importantes das pessoas. Desde que eu comecei a estudar eu sou a mesma Ilda.

 

Avaliação / Filosofia de vida

O sonho é que me movimentou , o sonho é que me fez a pessoa que eu sou hoje. É sonho grande, é tornar isso real e compartilhar esse sonho.

Quando se dá uma entrevista nesse nível, você começa até a se valorizar mais. Essa foi uma entrevista da minha vida toda. De vez em quando a gente tem que pensar no que a gente já vez, para nos valorizarmos como pessoa, por mais que se seja anônimo em relação ao país, a sua interferência no seu meio é importante, você modifica as pessoas. Quando a gente se relaciona com outras pessoa, não foi casual. Quando você passa pela vida das pessoas sem modificá-las e sem se modificar, não valeu a pena ter encontrado com essa pessoa. Você tem que se modificar a cada momento . Como diz a velha música de Raul Seixas: Somos uma metamorfose ambulante.

Depoimento de ILDA ROSA DE SOUZA CUNHA
Entrevistada pela Professora MÁRCIA REZENDE DOS PASSOS e pelas alunas do Curso de Magistério do SIEES (Agda, Cláudia, Cynara, Dalila, Elizete, Janaína, Joana, Lana, Liliana, Maria Isabel, Vanessa)
Local: SIEES - SISTEMA INTEGRADO DE ENSINO ESPECIALIZADO
SÃO JOÃO DEL REI, 17/09/1999
Transcrito por MÁRCIA REZENDE DOS PASSOS