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Maria de Lurdes Carvalho Canaan Identificação Meu nome é Maria de Lurdes Carvalho Canaan, nasci em 3 de fevereiro de 1915, em São João del-Rei. Meu pai chamava-se José Augusto de Carvalho, e minha mãe Nair do Carmo Carvalho. Minha mãe era sanjoanense, meu pai não. Eles se conheceram aqui em São João del-Rei, minha mãe não viajava. Não sei como eles se conheceram. Os pais daquela época eram muito fechados, então, a gente pouca coisa sabe da vida deles. Família Eu era filha única, era só eu e o meu irmão, então eu ajudava muito a minha mãe, minha mãe exigia, fazia o serviço da casa, e como eu tinha vontade de estudar eu dava um tempo, né? Arranjava um tempo para estudar. O serviço de casa era muito mais difícil. Como nós falamos meu pai sempre dedicou, depois que ele saiu lá da Rede, dessa Oeste de Minas, ele sempre no comércio, então tinha um barzinho, minha mãe fazia muita coisa para o bar e eu ajudava, estava sempre ali junto. Naquela época não havia colégio estadual, o colégio era pago, e se estudar no Colégio Nossa Senhora das Dores era privilégio dos ricos, e nós não éramos ricos, então, foi à custa de muito sacrifício. Quando eu terminei o primeiro ano que eu fiquei no Colégio, no fim do ano meus pais me falaram: "Ah, Lurdes, você não vai continuar, está ficando muito dispendioso, tá ficando muito difícil manter você no colégio." Mas eu tive uma paixão minha filha, quantas vezes isso, meus netos eu chorei, chorava, não podia ver uma colega as lágrimas desciam. Tinha uma costureira aqui na Paulo Freitas, minha mãe falou: "Ah, você vai aprender costura, não vai continuar a estudar." Mas aquilo não me convenceu, eu queria era estudar mesmo. Então eu fazia tudo para estudar, para ser boa aluna, eu queria era ser professora. E consegui. As irmãs mandavam recado para meus pais, minha mãe foi lá e naquela época a diretora do Colégio era a Irmã Menescal, e ela então conversou muito com a minha mãe e afinal minha mãe concordou e eu fiz duas provas sozinha, eu já tinha perdido duas provas, fim do ano, e consegui.
Educação Estudei no Colégio Nossa Senhora das Dores. Naquele tempo nós fazíamos dois anos que nós chamávamos de adaptação, depois fazíamos três normal. Ao todo eram cinco anos. Sonhava uma sala de aula, os alunos. Naquela época nós cantávamos um hino assim: "Ser professora sempre foi na vida o meu desejo mais sincero e ardente" (canta), e quando eu cantava isso, eu cantava com o coração. Se fosse para começar outra vez, eu seria ainda professora. O que me influenciou? Eu achava tão bonito, assim, a professora na sala de aula, dando aula, os alunos, aquilo me encantava. Foi vocação mesmo, fui chamada para ser professora. (ri) Eu era adolescente, eu devia ter uns 13 anos. Tinha começado a estudar. Nós morávamos aqui na Rua Paulo Freitas, e o Colégio Nossa Senhora das Dores sempre foi ali, naquele lugar. Depois nós mudamos para a Avenida Oito de Dezembro, aí ficou mais fácil. Adorava. Até hoje quando eu perco o sono eu fico lembrando do Colégio, das professoras... Era muito bom. Deixou recordação muito bom. Era uma educação integral. Elas educavam mesmo. Aquilo elas cuidavam de tudo, educação religiosa, moral, social. O Colégio fez 100 anos, até participei das festas. A participação foi muito boa, eles entrevistavam alunas, eu mesma fui entrevistada lá. Eu era uma das mais velhas do Colégio. Da minha turma tem muito pouco, quase todas já morreram. Era o francês, inglês não, inglês eu não sei uma palavra, latim também não foi da minha época. Língua mesmo era o francês e a nossa, o português. O ensino era muito, não estou desfazendo do ensino de hoje não, mas elas... era dirigido por irmãs Vicentinas, e elas... também nós tínhamos professores, tinha um professor aí de português, que era um promotor de justiça, o nome dele... Dr. Lafaiete Correa, Promotor de Justiça da Comarca, professor da língua portuguesa. Tinha também o Dr. Pinto Coelho, Juiz de Direitos da Comarca, professor de história. O Colégio mudou minha filha, sabe por quê? Porque as irmãs foram embora. O ensino acho que ainda é bom, mas a educação hoje é diferente. O prédio ainda é o mesmo. Muito bem cuidado, até aumentaram o prédio, fizeram modificações, melhorou. A capela, o teatro, na minha época não tinha não, nós freqüentávamos a capela da Santa Casa. Agora quando as minhas filhas estudaram lá, desde a primeira até, a Suely que é a primeira, e a Dodora que foi a última, já havia, já tinha o colégio, o teatro, já tinha melhorado bastante.
Trajetória profissional Morei em São João del Rei até em 1932. Em 33 eu comecei a trabalhar como professora, depois que me formei. Nunca foi preciso fazer uma segunda época, nunca repeti o ano, tinha que ser uma boa aluna. Senão ia deixar de estudar. Formei em 1932, em dezembro, sempre as formaturas eram no dia 8 de dezembro e eu mesma procurei um senhor aqui que tinha influência na política, o Senhor Manoel Neto, e pedi a ele, eu mesma, que arranjasse um lugar para mim que eu queria trabalhar, eu queria ser professora, eu precisava trabalhar, meus pais eram pobres, e meu desejo era trabalhar, eles então me arranjaram essa escola lá, naquela época, Estação de João Pinheiro, Conceição da Barra, e eu lecionei lá 15 anos, comecei em 1933 e fui até 1941. Em 48 eu fui transferida para Conceição da Barra, porque lá era escola isolada, mas, em 1948, passou a ser escolas reunidas, e precisava de mais professoras, e eu pedi e eles me transferiram, aí já passou para o estado, porque até antes era municipal. Um bom livro é coisa muito boa. Jornal eu lia mas livro a gente não tinha muito dinheiro, mas tinha que fazer pesquisa por causa da profissão porque como é que ia ensinar. Muitas vezes você estava aí com o primeiro ano que nós tratávamos naquela época, não tinha o pré. A gente pegava o aluno no primeiro ano analfabeto completamente analfabeto. Então eu gostava muito da classe que a gente chamava de novatinhos. Esse primeiro ano é o que chama hoje de primeiro ano do primeiro grau. Eles não sabiam nem pegar no lápis, posição tudo isso você tinha que estar atenta porque é base. Entrava para escola com sete anos, analfabetos mesmo. Tinha bastante alunos, em média uns 35 até 40 e poucos, escola mista. O uniforme da escola era como era aqui mesmo. A saia azul marinho e a blusa branca. Parece que era o uniforme mesmo de toda escola do estado. Continuei lecionando, e algumas vezes eu ficava como diretora. Eu tinha que conciliar a família e a escola. Tinha ajudante, às vezes tinha boas pessoas que ajudavam, mas às vezes não, mas a gente dava, procurava fazer o que podia, e deu certo. E sempre reclamaram, assim, o vencimento de professora não é bom. Todo mundo sabe disso. Haviam mais professoras, aliás, todas eram professoras, agora, houve uma época em que o nosso diretor era professor, Joaquim Pinto Lara. Você ouviu falar no ex-padre Tiago Lara? Era pai dele, foi ótimo diretor. Formadas e leigas, mais formadas. Formada aqui tem Celeste, mas eu não me lembro o sobrenome dela, mora no Matozinhos, casada, tem outra Branca Guimarães que morava lá na Rua Santo Antônio, formada. Iracema Moura, a irmã dela, Maria de Lourdes Moura, todas essas eram formadas. Leigas eu me lembro de Adélia Paiva... Branca Lara... e outras que no momento é difícil de lembrar. A Adélia mora acho que no Rio, a Iracema Moura mora em Conceição da Barra, a Celeste mora em Matozinhos, a Branca também mora aqui em São João. Alguns dos meus filhos estudaram comigo, alguns não, não é bom, não. Os filhos, eles são muito visados porque se um filho tem uma boa nota, há sempre um tititi por aqui, um cochicho ali, e então é preciso de ter uma consciência muito bem formada. Eu não tinha muito tempo para estudar em casa com meus filhos, até que não dei muita assistência aos meus filhos, mas, graças a Deus, eles não exigiam também muito de mim, não, faziam direitinho os seus deveres. Às vezes era meio horário, mas quando estava na diretoria era o dia inteiro, turno da manhã e turno da tarde. Minhas crianças ficavam com babá, a empregada, a moça que me ajudava e meu marido tinha um armazém quase defronte a minha casa, então estava sempre ali, junto. Precisava trabalhar... Com a família, e eu que tencionava que eles estudassem alguma coisa, porque em Conceição da Barra só tinha o curso primário, como é que os filhos iam ficar só com o curso primário? Meus dois filhos mais velhos, a Suely estudou interna no Colégio Nossa Senhora das Dores, por 7 anos, pagar internato naquela época. Meu orçamento era mais para ajudar no estudo dos meninos. O meu filho Adílson, que era o mais velho estudou também como interno no Ginásio Santo Antônio... O primeiro e o segundo grau interno no Colégio, tive mais dois filhos que ficaram aqui no Colégio Salesiano, internos. Eu estava ainda em Conceição da Barra, e foi este o motivo que me fez transferir para São João del-Rei, porque estava ficando muito difícil. Eu só vim para aqui depois que eu me aposentei, em fins de 62, e mudei para aqui no princípio de 63.
Escola e Tecnologia Mas sabe que uma coisa que me preocupa minha filha, é que naquela época as professoras exigiam demais. Os tempos mudaram. O progresso. Mas você sabe que o progresso tem uma parte positiva e a outra parte negativa. Hoje com essa mídia, esses meios de comunicação que nós temos, tudo ficou mais fácil, parece que a criança hoje já nasce pegando as coisas sabe de tudo, então isso naquele tempo não havia. Criança não tinha revistinha, não tinha televisão. Nada, nada eu me lembro ainda quando apareceram os primeiros rádios. Então não tinha, criança de hoje tem tudo, mas se é bom por um lado não é tão bom para um outro. Eu acho que hoje o que atrapalha muito é a disciplina. Eu acho que não houve meio termo, nessa mudança. Eu acho que o erro esteve aí, porque não houve um meio termo foi de uma ponta a outra foi uma mudança muito brusca e acho que foi isso que atrapalhou. A televisão foi positiva para conhecimentos gerais porque a criança hoje, o jovem hoje, ele então tem muito mais conhecimento geral do que antigamente, antigamente não tinha, mas outra parte também num foi boa porque essa formação oral, social eu acho que não deixou de prejudicar. Está aí na frente dos olhos que a criança ao invés de brincar fica o dia todo com a televisão ligada e o brinquedo faz parte da vida da criança. A criança não pode deixar de brincar, criança precisa brincar. As crianças de antigamente não tinham esses brinquedos que tem hoje, então a criança fazia o boizinho de chuchu, de fruta de lobo punha pezinho fazia o curral. Porque lá no interior que é o que eles viam os pais fazerem, brincavam, eles mesmos faziam os carrinhos. Estava lá pelejando, fazia uma rodinha pegava nos pedaço de tábua ficava lá pegando, eles mesmos faziam, não encontrava quase para comprar e quase ninguém também tinha dinheiro para comprar e isso também desenvolvia muito a criança, e vocês devem saber disso muito bem, e hoje falta tudo isso. A criança hoje tem tudo, não quer ter trabalho e o trabalho educa.
Namoro e Casamento Fui sozinha lecionar na Estação João Pinheiro, morava numa pensão. Meus pais e meu irmão continuaram aqui, depois mudaram para Conceição da Barra, uns oito anos depois. Mas em 1934 eu me casei, na pensão morei só em 1933, em julho de 34 eu me casei, e fiquei morando lá. Eu o conheci lá, ele trabalhava, tinha um armazém na estação e ele trabalhava nesse armazém. Ah, namorar naquele tempo era muito diferente de hoje. A gente namorava só olhava, assim, de longe, mas era bom (riu). Até que nós ficávamos bem juntos porque ele também estava na mesma pensão que eu. Os pais moravam na fazenda e ele dormia lá num outro lugar, lá junto com o armazém, mas a refeição ele tomava na mesma pensão que eu. Um ano de namoro, nos casamos aqui em São João del Rei, na Matriz do Pilar, em julho de 34. E fomos morar lá na Estação João Pinheiro. Trabalhei lá 15 anos. O primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, agora, a sexta filha que é a Zilá já nasceu em Conceição da Barra. Tive 12 filhos e perdi , o primeiro eu perdi ao nascer e depois eu perdi uma menina com seis anos, o diagnóstico que o médico deu foi hepatite infecciosa, eu a trouxe para São João e voltei com ela morta. Meu marido não trouxe o negócio para cá, ele continuou lá, onde nós moramos primeiro, em João Pinheiro, tinha uma fábrica de queijo, manteiga, que existe até hoje, mas agora pouco produz, mas naquela época era uma fábrica que produzia bastante, e como o dono da fábrica morava no Rio, era um suíço, ele era o gerente da fábrica, então ele ficava lá a semana toda e vinha fins de semana. O salário do meu marido não era suficiente para educar essa família, não era mesmo. Então, valeu a pena. Meus pais, antes de mim, voltaram para São João. Moravam pouco aqui para cima. Meu irmão também morava aqui em São João, naquela ladeira que vai para o Quartel. Eu tenho 25 netos e 3 bisnetos em véspera do quarto. A minha relação com os netos é ótima, muito boa não tenho nada que queixar deles não, me respeitam me tratam muito bem parece que me estimam e isso é bom né? Eu procuro tomar conhecimento da educação dos netos mas eu não me interfiro muito não. Os tempos mudaram tudo mudou e se a gente avó, for querer dar muita opinião, tirar o que é da parte dos pais para tomar sobre a gente tá errado. A educação cabe aos pais, senão vai dar errado começa a interferir dá errado, agora quando tem uma ocasião a gente conversa, eles são... e eu gosto muito deles, eles conversam muito comigo me tratam muito bem a gente procura conversar muito assim época de natal páscoa uma festinha a gente tá sempre jogando uma sementinha, a gente procura passar alguma coisa boa para eles, como a gente deseja que eles sejam muito felizes.
Vida Cotidiana Sempre faço muito para minha família (crochê), estou sempre fazendo uma coisinha para um, uma coisinha para outro. Olha eu faço caminho de mesa, eu faço biquinho nas toalhas, nos panos de prato, cortininha. Minha filha tem um sítio lá onde nós morávamos em João Pinheiro, hoje Congo Fino então uma cortininha de crochê dessas guilhotinas, vidraças estou sempre procurando ajudar. Aprendi com minha mãe, ela gostava de fazer, foi ela que me ensinou, me distrai tanto. Eu tive um problema e o médico disse que foi uma esquemia cerebral me deu um problema nessa mão esquerda tem 4 anos, então durante três anos eu não pude fazer crochê, porque dói muito é diferente, muito diferente da outra, sabe me atrapalhava, mas um dia eu resolvi pegar na agulha experimentar e consegui com um pouquinho de esforço consegui. Durante estes três anos eu lia muito jornal. Em João Pinheiro tinha "O Jornal". Ainda tem esse jornal? Trazia notícia do Brasil todo, vinha do Rio. Fazia assinatura, meu marido por exemplo assinava, então eu podia tá com muito serviço, mas nem que fosse aqueles artigos de fundo que era coisa, eu tinha que passar os olhos. Eu gostava muito dos livros de Machado de Assis. Literatura, até que eu não tenho lido quase não. Tenho lido, o poder positivo da mente, de auto ajuda. Lauro Trevisan é ótimo. Muito bom. Gostava também de ler aqueles, aquelas poesias de Carminha Gutier, lia muito. Gosto ainda de poesia. Agente distrai muito, enriquece também a mente, conhecimento, não pode parar não. O livro que eu consigo pegar eu leio.(risos). Eu tenho muito que agradecer a Deus. No nosso tempo era aqueles romancesinhos de água com açúcar, de lê ali literatura também gosto. E eu tinha uma prima que era igual a mim gostava de lecionar de ler, nós duas nos parecíamos muito, era como se fosse uma irmã, ela morava em Belo Horizonte depois se transferiu para São Paulo, mas nós estávamos sempre juntas, ela vinha muito aqui , e quando chegava, às vezes passava quase a noite toda batendo aquele papo, sempre a gente foi muito amiga.
Repensando a prática pedagógica Me sinto realizada com a profissão, e se eu tivesse que recomeçar eu queria fazer tudo de novo, com mais perfeição, porque nós erramos muito. Como eu falei naquele tempo os professores eram muito, exigiam demais. Então a gente deve ter cometido muita injustiça, dava muito castigo, no meu tempo não era da palmatória, eu não alcancei o tempo da palmatória. Quando eu comecei a estudar eu morava lá na, no Bonfim, minha primeira escola onde eu me alfabetizei numa escola particular era um padre que dirigia essa escola ainda tinha a palmatória. Na hora da tabuada, devo ter apanhado alguma, devo ter esquecido. Agente tinha que decorar aquilo tudo. E uns não sabiam, era bolo daquilo mas eu não pequei isso não. Eu não concordo com a palmatória. O castigo era ficar de pé na sala de aula às vezes de joelhos, também não aprovo hoje. Ai meu Deus, hoje a gente tem que pedir perdão a Deus pelas injustiças que nós cometemos.(risos) O que faltava também era o dialogo entre professor e aluno, não havia, então o aluno, o filho ele não podia justificar você não ouvia ele justificar. Professor, pai, mãe era autoridade ali ó. Não era certo. Isso não podia continuar, por isso que eu falo muita coisa foi muito bom outras coisas não teve meio termo. Muita coisa tinha que ser mais devagar, não ir tão longe, tão depressa, parece que criou assim um, um impacto, nem sei explicar . Tenho saudade da profissão, de ser professora. Ah, daqueles alunos, a disciplina naquele tempo era diferente... Daquelas aulas, parece que de tudo.(riu)
Lembranças e Perspectivas Eu logo que cheguei aqui passei a coordenar a catequese, aqui na Capela, pertinho da gente. Até hoje ainda tem o catecismo, então eu passei a trabalhar com crianças também. Nunca fiquei sem uma atividade de lecionar, saí da escola e entrei para a catequese. Até há poucos anos eu ainda preparava alunos para Primeira Comunhão e agora o batismo, o curso lá do batismo, padrinhos e pais, porque a igreja hoje exige um cursinho de preparação. Sempre fui muito voltada para as atividades religiosas, mesmo em Conceição da Barra, sempre arranjei um tempinho para ajudar. Desde que eu vim para São João eu moro na mesma casa, desde de fevereiro de 63 até hoje, são 36 anos. Gosto de morar aqui, a comunidade aqui é muito boa, muito amiga. Eu me sinto realizada porque o meu desejo eu acho que sempre foi esse, participar dessas atividades, fazer alguma coisa, mesmo com essa idade eu sinto que ainda não posso cruzar os braços, enquanto Deus me der lucidez, força. Agora a gente faz pouca coisa, mas tem que fazer. Sonhar acho que a gente sonha sempre, mas vai ficando muito difícil. Ah, as pernas já não ajudam a caminhar. Mas mesmo assim eu, nós aqui com esse grupo de reflexão, essas pessoas, umas seis ou sete pessoas senhoras que se reúnem aqui comigo às terças feiras a gente ainda procura fornecer cestas básicas a essas famílias pobres. A gente, nós, elas as colegas, porque eu já não tenho força na perna, nas pernas para ficar andando. Mas as pessoas que participam pedem nas casas, e nós distribuímos todo mês umas três cestas. E eu não ponho ninguém para me ajudar. Não é para não pagar não, não é por causa do dinheiro não, é o prazer aquilo foi feito por mim. E eu falo que o meu cartão postal é a minha horta. E eu ainda colho aí aquela planta, aquela verdura que eu mesma plantei, que eu mesma reguei, adubei, cuidei até a colheita.
Depoimento de Maria de Lurdes Carvalho Canaan
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