Elizabeth Aparecida de Resende Paiva

IDENTIFICAÇÃO

Eu me chamo Elizabeth Aparecida de Resende Paiva, nasci no dia 18 de Junho de 1956 aqui em São João del-Rei. Meus pais chamam-se Benedito Aniceto de Resende e Maria de Lourdes Oliveira Resende. Sou descendente de imigrantes italianos por parte de minha mãe, ela que sempre nos contava suas histórias do tempo em que ainda morava num núcleo de colonos italianos vindos para cá no final do século passado em busca de melhores condições de vida. Sua família vivia do cultivo da terra e mamãe nos contava do tempo em que vinha para a cidade, junto com sua família vender os produtos que plantavam lá na colônia José Teodoro. Elas vinham caminhando pela linha do trem que ia para o sertão, carregando apoiado nos ombros uma haste de madeira com dois balaios em cada uma das extremidades. As derlas, como eram chamadas as cestas, traziam frutas, flores e outros produtos hortifrutigranjeiros para o mercado municipal, que ficava no centro da cidade, e também para uma região conhecida como o bairro das Fábricas bem rente à linha do trem. O meu pai era de um distrito de São João que depois se emancipou e recebeu o nome de Resende Costa. Meu avô paterno havia comprado uma fazenda, perto de Ritápolis. Entre o intervalo do sítio e da colônia, é que meu pai conheceu minha mãe. Papai conta que ele só tinha na vida, um violão e uma mula que ele usava para fazer serenata e conquistou a mamãe.


LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA


Somos nove irmãos em casa. Sete homens e duas mulheres e eu sou a sexta. Eu era xodó da casa, pois eu era uma mulher no meio de sete. O papai tinha um sítio perto de Ritápolis, um lugar chamado Sítio do Rio Abaixo porque pertencia a Ritápolis e ficava próximo à mineração Santa Rita do Rio Abaixo. Então a gente vivia lá, o papai construiu uma casinha, simples de roça, a gente ia estudar em Ritápolis, mas como meu pai tinha mineração, eu ia com meus irmãos e alguns meninos lá da região. Na época vendia muito e era um preço muito bom, então ele conseguiu até adquirir muita coisa! Ele hoje, tem 4 sítios bem grandes, tem aquela casa, tem estacionamento, tudo com o dinheiro que ele batalhou. Durante o caminho encontrávamos muitos garimpeiros pela estrada.


VIDA ESCOLAR

Quando eu completei a idade para entrar na escola meu pai comprou uma casa aqui na cidade, deu para os meus tios morarem para que eu tivesse, dessa forma, condições de freqüentar o grupo escolar, em 1964. Essa época foi para mim muito difícil, pois eu tinha apenas sete anos e larguei a minha mãe, meu pai e meus irmãos, nos quais eu era agarrada, e fui morar com os meus tios em São João del Rei. Eu me sentia uma criança solitária. Eu estudei no Grupo Escolar Mateus Salomé, no 2º ano de fundação do Mateus Salomé. A minha primeira professora foi a Dona Glória. E eu era muito caprichosa, quando ela ia fazer as provas, as avaliações, ela me pedia os cadernos emprestados, que eu era assim, um primor. Depois tive a Ana Maria, depois a Dona Beatriz, uma moreninha e a última, eu acho que eu tinha saído de lá. Essa minha tia que eu morava com ela, era muito brigona, tinha outras filhas, uma vez me lembro que ela fez um paletó xadrez, nós éramos umas sete da mesma casa que ia para lá, todo mundo de paletó xadrez, igualzinho. Apelidaram a gente, mas foi uma confusão. A escola era muito pequena e aconchegante, tinha apenas quatro salas de aula, todas feitas de lata e quando a gente conversava mais alto fazia um enorme barulho. A escola tinha uma salinha que servia de diretoria, uma cozinha e dois banheiros para os alunos e um para os adultos. Eu me lembro que havia bem do outro lado da rua uma fábrica de sabão sempre exalando um mau cheiro. A escola era muito arrumadinha, os professores muito dedicados e sempre nos incentivavam. Havia uma área toda gramada e neste lugar nós brincávamos de corda, de peteca. Eu fui alfabetizada com a cartilha dos TRÊS PORQUINHOS e eu amava a cada dia quando a gente recebia um pedacinho do livro Lembro-me bem...ERA UMA VEZ, ERA UMA VEZ...TRÊS PORQUINHOS. Aquilo nos trazia uma grande emoção. Eu gostava de ir à escola. O único problema que eu tinha era a saudade da minha mãe, e eu chorava demais por causa dela e do meu pai. Depois de um tempo meus pais vieram para a cidade trazendo meus outros irmãos para estudar. Fui fazer o ginasial na Escola Técnica de Comercio Tiradentes e fiquei por lá até concluir o Curso Normal, em 1978 pois meus pais se mudaram para São Paulo . Depois que eu formei, aqui não tinha emprego, eu peguei e fui para São Paulo. Eu cheguei lá fui trabalhar numa firma de Condutores elétricas da Ford do Brasil. Trabalhei de secretária, mas eu não estava gostando de lá. Eu não gosto muito de cidade grande. Senti o impacto e voltei. Depois que eu voltei, eu arrumei um emprego no Itaipu Pneus, trabalhando de secretária, mas aquilo não estava legal, porque não estava dentro da minha área, eu estava sentindo frustração. Comecei a batalhar por um emprego de professora.


VIDA DE PROFESSORA

Eu queria dar aula e fui logo lecionar na estação de Ibitutinga, próximo à linha de trem do sertão. Era uma turma multisseriada e algumas vezes trabalhava com alunos da 1ª,2ª e 3ª séries. Fiquei lá por dois anos. Depois me mudei para Ritápolis porque fui estudar na Faculdade Dom Bosco, no curso de Psicologia, com a duração de cinco anos. Mesmo assim eu continuava dando aulas no primário, lá em Ritápolis. Quando fiz um concurso para professora primária na rede estadual e fui aprovada, em 1989, comecei a trabalhar no Colégio Estadual Cônego Osvaldo Lustosa. Inicialmente tive muita dificuldade, mas aos poucos fui adaptando-me ao tipo de trabalho que se fazia naquela escola. Na primeira reunião de planejamento, nós manuseávamos livros de literatura e íamos tecendo idéias sobre os diferentes projetos da escola A principio, eu não entendia muito, mas quem me ajudou muito foram as próprias crianças. Através delas percebi uma forma diferente de ser professora mas confesso que no começo tive muita preocupação pois esta era uma maneira diferente de dar aulas.. os alunos estavam sempre em atividades, fazendo trabalhos de grupo ,pesquisando, anotando, recortando, montando...Tenho muitas saudades do livro Minas Patrizinha e das idéias que bolávamos a partir dele. Foi nesta escola que aprendi a trabalhar com jornal e chegamos até a fazer um bem legal. A partir daí fizemos uma excursão ate Lagoa Santa e várias outras excursões. No tempo do Estadual tínhamos muitos encontros para discutirmos as questões pedagógicas para trocar idéias e experiências, rever a nossa prática e, principalmente, fazíamos muitas reuniões à noite com os pais para que estes pudessem entender o nosso trabalho, dar sugestões Com isso os pais colaboravam muito conosco, se envolviam na proposta da escola. Eles nos ajudavam nas excursões e noutras atividades quando eram solicitados. Líamos muito para fazer um bom trabalho e as crianças percebiam isso. Trabalhei nesta escola por seis anos e depois vim trabalhar aqui na Escola Estadual Mateus Salomé. Adoro trabalhar com literatura na sala de aula, tento passar esse gosto para meus alunos e confesso ter montado muitos projetos interessantes. Um deles se chamava "Para gostar de Ler". Atualmente o projeto Identidade do Mateusinho está dando muitos frutos, principalmente para as crianças com as quais eu lido. Elas se sentem mais valorizadas e sabem dizer muitas cousas sobre elas mesmas., sobre seus direitos principalmente a uma melhor qualidade de vida. Procuro ajudar minha turma deixando meus alunos se soltarem, falarem deles mesmos. Quem não conhece este modo de trabalhar pensa que estou perdendo tempo, mas é com este espaço que eu ganho o resto. Meus alunos adoram contar casos da vida deles ou de casos ouvidos de outras pessoas. A forma como a escola trabalha conosco é semelhante ao que se fazia lá no Cônego Osvaldo, pois temos sempre encontros para reflexão e planejamentos. Gosto de trabalhar assim porque temos sempre um retorno do que fazemos. O projeto de musicalização feito junto com o Conservatório de Musica ajudou-me a levar a música para dentro da escola. Também no PROCAP, outro projeto de capacitação para professores, com a duração de um ano em 1998, ajudou a todas nós na escola a repensar a própria pratica.

VIDA FAMILIAR

Eu tenho um filho mais velho. Fui mãe solteira, Miguel Ângelo, hoje é um rapaz, estuda na Escola Cônego Osvaldo Lustosa, é um bom menino , durante a semana ele fica com minha mãe, vejo ele todos os dias, e nos finais de semana ele fica comigo no sito onde moro. Passei um bom tempo sozinha, mas agora estou quatro anos casada, em lua de mel Tenho uma menininha que se chama Débora.
Meu marido se chama Sebastião Paiva, ele é de Nazareno, uma ótima pessoa, a maneira como eu o conheci não dá nem para acreditar. Eu estava num relacionamento difícil de 13 anos e resolvi por um ponto final no dia 2 de novembro de 94. Então eu saí para tomar uma cervejinha com uma amiga, mas no fundo muito triste. Entrei no barzinho e vi o meu futuro marido lá, aquele rapaz sentado. Começou assim, ele sentado numa banquetinha, na beirada do balcão tomando uma cerveja e eu conversando com ele. No outro dia eu voltei, mas parece que eu voltei com uma esperança, uma luizinha lá dentro de mim, sentei com ele, tomei uma cervejinha. Aí, ele me levou em casa, aí começou o namoro. Mas eu tava assim, bem sufocada ainda, e foi difícil eu apaixonar. Um dia eu falei com ele: - Vamos ficar noivos? Ele falou assim: Não. Ainda não tá legal. Aí esperou mais um tempo, aí um dia ele falou assim: - No seu aniversário a gente fia noivos. Comprou a aliança, ficamos noivos. Começamos no dia 2 de novembro, aí no dia 18 de dezembro eu fiquei noiva. Quando foi final do ano, marquei o meu casamento para o dia 23 de dezembro. Casei na igreja Nossa Sra. do Carmo. Fizemos uma festa lá no comunitário Dom Bosco e passei minha lua de mel em Tiradentes. Fomos morar no INOCOOP eu estava torcendo para ficar grávida. Depois, ele resolveu, e falou assim - Há! Eu adoro sítio, adoro mexer com fazenda! Vamos embora! Fomos. Criei coragem e fui, e montamos um alambique lá, temos um alambique, a gente fornece e produz uma cachaça muito boa. Vamos tentar rotular, legalizar. A cana foi um dos primeiros projetos dele. Nós temos sete canaviais enormes. Inclusive esse ano não demos conta de alambicar ela toda, foi preciso vender um pouco.

EXPECTATIVA DE VIDA

Depois de assentado toda essa poeira, buscar um novo projeto que não é fácil, casei mais tarde, é a menininha ainda está pequena. Mas tenho uma grande vontade de fazer pós-graduação.
Eu acho que é muito importante a pessoa se identificar, contar uma história, partindo de uma história, outras pessoas vão aprender com ela. E você tem a oportunidade de falar de você é muito bom! Você estar em pauta é muito bom!