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John
Sommers
Meu
nome é John Somers; nasci na Inglaterra em 30 de março
1930 Minha família tinha uma indústria de forjas pesadas,
na cidade de Halesowen, perto de Birmingham, mas nunca trabalhei na
firma. Entrei com 18 anos no exército britânico, onde servi
por oito anos. A minha última colocação foi na
área de "Inteligência" que, como sempre nos exércitos
do mundo, tem muito pouco a ver com inteligência.
Em 1954 casei -me com uma moça inglesa nascida no Brasil. Depois
de muito pouca convivência com militares, ela queria voltar para
o Brasil e, em 1956, eu vim também. Morava no Rio, quando ainda
era a capital do país. Morei primeiro em Lagoinha, Santa Teresa,
e trabalhei seis anos em empregos na cidade até sentir que já
entendia um pouco do Brasil e do português.
Na minha atividade na Inglaterra tinha aprendido tcheco e em conseqüência
tive muitos amigos tchecos, quando cheguei ao Brasil. Um deles viajava
no interior vendendo brocas de aço para mineradores. Eu sugeri
que ele procurasse alguns antiquários naquela tal das Minas;
não eram lá as cidades de ouro do século XVIII?
Dito feito; ele trouxe umas fotos do depósito do grande 'caballero'
galhego Venerando Garcia. Na mesma noite viajei para São João
del-Rei e, no dia seguinte, comprei uma grande quantidade de antiguidades,
de uma só vez, do Venerando. Passei todo meu tempo livre no porão
da casa, em Santa Teresa, durante dois anos, arrumando e classificando
a minha compra. Nada como empatar o capital da gente para nos ensinar
um assunto novo. No fim de dois anos eu sabia muito do passado do Brasil.
Em 1960 tive oportunidade de alugar uma casa no Largo do Boticário,
e resolvi montar um antiquário nela.
Passamos uns anos de alegria na vida semiboêmia de antiquário.
A loja alcançou um certo succés d'estime, mas percebi,
depois de certo tempo, que as antiguidades de Minas estavam escasseando.
No começo chegava um caminhão por semana para comprar;
depois por mês, depois de seis em seis meses e, no final, um por
ano. Eu tinha montado uma oficina de conserto em São João
del-Rei, empregando três excelentes marceneiros; acrescentei ferreiros
para fazer ferragens para os móveis. O povo era muito habilidoso,
e tinha muita vontade de aprender, trabalhar. Aprendemos todos juntos.
Minha teoria era sempre a de trazer o móvel para o seu estado
original. Pouco me interessava o giro rápido. O móvel
mineiro era muito bonito, embora hoje seja muito raro encontrar uma
peça boa no seu local de origem. Mesmo naquele tempo era raro
encontrar no seu estado original. Móveis do estilo Dom Joào
V eu não encontrei; já tinham sido todos vendidos, mas
pouco me importava, porque preferi o estilo mais genuinamente mineiro,
de linhas retas.
Minhas experiências como antiquário eram formativas na
minha vida futura. Porque uma pessoa se apaixona pelo passado é
um mistério. Mecanismo de fuga? Mais misterioso ainda é
porque uma pessoa, eu no caso, chega a se apaixonar pelo passado de
um povo ou de um país que não o seu. Uma possível
explicação é que o Brasil que eu vi nos anos 60,
era como um laboratório vivo de fatos já esquecidos na
Europa. Brasil é um país luso, por mais que alguns exaltados
se declarem "tropicalistas", e sendo luso, preserva detalhes
herdados dos Mouros, dos Romanos, e dos pré-romanos Brigantes
e Lusitani. O carro de boi, até hoje com rodas maciças,
era feito pelos Lusitani. A prata no Brasil não é tratada
com capricho, polida e guardada em panos quando fora de uso. Ela era
um metal utilitário, e para ser limpa era esfregada com areia
e limão, como faziam os Romanos, e em pouco tempo reduzida a
um objeto fosco, sem brilho. Muitas vezes pratas chegavam a ser pintadas
de branco, para evitar o trabalho de limpá-las. Lembro-me de
móveis com puxadores de prata e castiçais de estanho,
pintados de branco. Motivo maior que a preguiça era que não
havia material para limpar metais no interior.Vamos citar outros exemplos
do passado remoto, que ainda estavam vivas em 1960:
· o uso de cadeiras de parto, com buraco no meio, um método
que já está sendo proposto de novo.
· A fabricação de arame manualmente, para fazer
"jóias", hoje denominado bijuteria, pelo mesmo processo
descrito por Theophilus, c. 1140
· Isolamento das fazendas do resto do mundo europeu ou metropolitano:
os relógios, às vezes, tinham instruções
em português arcaico de como acertá-los, caso estivesem
parados, pelo movimento do sol. A fazenda podia ter um marceneiro/carapina,
capaz de fazer da cabeça, sem nenhum exemplo impresso, móveis
simples, mas de grande beleza. Mas se a fazenda não tinha um
ferreiro, o móvel ficava sem puxadores para as gavetas. Tais
móveis, às vezes, passavam de século em século,
até nossos dias, sem puxadores, ou talvez esperavam 50 ou 100
anos para serem depois completados com puxadores ou fechaduras. Este
estado de coisas perdurou até o final do século XIX. A
prova disso está nos talheres fundidos na própria fazenda,
em prata baixa, muito baixa, usando modelos franceses ou ingleses daquela
data. Uma das antiguidades mais comuns eram as "caixas" de
fundição para fundir colheres e garfos, e outros maiores
para fundir estribos. Eu me lembro de ter visto fazendeiros chegando
à cidade para depositar dinheiro no banco, usando ternos desbotados,
feitos de algodão da fazenda, andando descalços, e carregando
o dinheiro em sacos de algodão.
· O conceito 'fazenda', uma unidade econômica autárquica,
como as villae imperii do tempo de Charlemagne. Os construtores das
fazendas desenhavam uma construçao que externamente tinha a aparência
de uma casa. Ao entrar na casa, porém, encontravam-se cômodos
grandes ocupadas como depósitos de arroz, café, feijão,
ou salas usadas para a produção de selaria, bridões,
ou estribos, ou salas para fiar e tecer as roupas da família.
Kubitschek queria levar estradas e automóveis para o interior
para abrir o Brasil, mas o resultado era o de fazer o dinheiro, penosamente
carregado em sacos para os bancos, fluir para São Paulo e as
Arábias.
· Na casa do meu primo, fazendeiro no País de Gales, tinha
um retrete muito sociável, levantado em cima de um riacho, com
dois lugares, lado a lado, mas há muitos anos em desuso. Vi um
igual na Bavária, mas ainda em uso, em 1950. Em Ouro Preto vi
um dia uma casa sendo remodelada, modernizada. Um dos pedaços
da sucata saídos da casa era um pranchão com três
lugares.
· Instrumentos musicais eram raros, provavelmente pela sua delicadeza
e fragilidade, mas eu me lembro de um contrabaixo feito de folha de
flandres galvanizado (Durante algum tempo tive uma secretária,
de cor, descendente de uma longa estirpe de luteiros). Claro que também
havia centenas de Stradivarius, daqueles da Bohemia.
· Lembro-me de descobrir no meio das ferragens do Sr. Venerando
uma lâmpada, ou castiçal, de ferro da Alemanha, c. 1450.
Como, em Minas Gerais de 1700? Lembro-me de uma pinça de três
dedos que joguei fora, achando que era uma bugiganga moderna de pegar
gelo ou azeitonas. Muitos anos depois percebi que era utensílio
raríssimo de cirurgião, para retirar bala redonda de ferido.
· As armas da milícia do interior eram muito diversificadas.
Lembro-me de uma espada com cabo ajeitado, que levava a inscrição
Henrique, Espadero del Rey en Colonia, que presumivelmente era usada
contra os holandeses na sua guerra de independência do século
XV. Quando usada em Minas, ja tinha 200 anos. A frase "sair pela
culatra" é expressiva: ninguém sabia melhor do que
o coitado do dono de uma espingarda que vi, da qual a culatra tinha
explodido na cara do atirador.
· Quando faltavam rendas para cobrir as janelas, pintavam-se
os vidros usando bonitos moldes de madeira. Já tive um molde
similar, cuja única explicação era de decorar as
ruas na Semana Santa com pétalas de flores.
· Fechaduras e segredos eram uma preocupação permanente
dos que tinham algo a esconder. Eu possuía um armário
que tinha sido assaltado com ferramentas pesadas na moldura de cima,
curvada, muita bonita. Presumivelmente o pai morreu sem contar para
os filhos o segredo. O segredo era uma gaveta escondida na moldura de
baixo. Um dia alguém chegou na porta da minha oficina e me ofereceu
uma bonitinha caixa, ou estojo, mas faltando a fechadura. A marca da
fechadura era como tivesse sido recortada, não um simples retângulo.
Comprei, e fui olhar nas minhas ferragens se não tinha uma fechadura
do tamanho certo. Achei, e era a fechadura original da caixa.
Mas, ao mesmo tempo em que existiam tais remanescências primitivas,
existiam também fazendas do princípio do século
XVIII pintadas, por fora e por dentro, com cores e pinturas de enorme
charme e graça. Lembro-me de uma fazenda da qual a ermida tinha
sido decorada, e a padroeira esculpida pelo Aleijadinho. Lembro-me de
outra fazenda da qual a mesa de jantar era tão grande que foi
feita dentro da sala. Anos depois um amigo me contou que ele nasceu
naquela fazenda. Lembro-me de um armário, reduzido a um esqueleto,
sem portas, sem gavetas, cujo desenho nunca tinha visto. Era de madeira
brasileira, mas não desta região. Desconfio que foi feito
em Portugal de madeiras brasileiras importadas, e trazido ao Brasil.
Anos depois descobri que o tipo era comum na região do Porto,
em Portugal. Lembro-me de uma forma de espelho de fechadura, e também
chapa de puxador, que era de latão estampado mas com um vazão
no centro. Mais tarde descobri que esses puxadores eram ingleses, do
séc. XVIII e que tinham pinturas de esmalte de Battersea no centro.
Os centros tinham sido roubados para enfeitar escravas.
Enquanto isso, a oficina expandiu para incluir o conserto de cobre e
latão, a maior parte do qual comprei na Inglaterra. Sempre reparei
que destas compras o estanho se vendia primeiro, e a idéia me
ocorreu de comprar estanho novo na Europa para revender no Brasil. Mas
não havia na Europa um único fabricante que produzia estanho
nos estilos antigos e de uma qualidade cabível com a qualidade
dos meus móveis mineiros. Pensei em fabricar. Custaram seis meses
de leitura nos poucos livros que ainda existiam na época sobre
o assunto. Consegui parcas informações, à razão
de um fato por livro.
Finalmente peguei coragem e começamos a experimentar, com artigos
simples como pratos e copos. Na época eu tinha um operário,
Carlos Adilson, ferreiro genial, que resolvia qualquer problema, entendia
tudo que eu queria, entendia de eletricidade, torno, fundição,
cobre, latão, ferro, polimento, solda, o que fosse. Aí
resolvi tentar algo mais ambicioso. Em 1968, a Igreja do Rosário
de Tiradentes funcionava como museu. Vi lá três castiçais
barrocos. Não tenho muita sorte com padres católicos,
e pedi a Carlos, o mecânico, e a mais um, que era maravilhoso
em desenho, apesar de nunca ter tido aulas de desenho industrial, para
conseguirem do pároco o empréstimo dos castiçais
para copiar. Em troca, prometi o primeiro par que conseguíssemos
fazer para o padre. A experiência foi um sucesso; mas imaginem
minha decepção ao saber que, no mesmo dia que entregamos,
o padre enfiou os castiçais debaixo do braço e saiu batendo
de porta em porta em Tiradentes tentando vendê-los.
Com uma colecão de fotos da nossa produção, de
não mais de sete ou dez peças, incluindo os castiçais,
fui para Inglaterra para procurar uma firma com quem poderia nos associar.
Eles ficaram muito impressionados com a foto dos castiçais, e
começamos a conversar. Nos intervalos das conversas, andei aprendendo
na oficina deles. No fim de três semanas, a proposta deles não
era viável; mas eu ja tinha aprendido tudo que nos faltava.
Este grande homem, Carlos, depois brigou à toa comigo por causa
de uma ferramentinha que estava faltando, saiu da firma e, no dia seguinte,
abriu sua própria fábrica, completamente montada! Foi
uma grande perda para a artesania de São João del-Rei
quando ele sofreu um acidente que o deixou incapacitado de trabalhar.
Em 1970 separei da minha primeira mulher, que morreu em !974. Nosso
filho Gregory mora em São João perto de nós, com
sua esposa e dois filhos lindos.
Ao longo dos anos colecionei estanhos antigos, principalmente de estanhos
que já existiam no Brasil, mas também de estanhos comprados
na Europa. Cada leva de imigrantes trazia seus pertences; refugiados
do Hitler trouxeram estanhos de Alemanha; Pieds-noires de Algéria
traziam franceses, húngaros de 1956 traziam de países
que hoje se chamam Slovakia, Hungria, Romênia. Eu comprava quando
eram de qualidade ou tipos interessantes. Trazia também de Portugal.
Como nossa casa estava ficando cheia demais, abri um museu, um dos dois
únicos museus do mundo dedicado ao estanho. O museu foi inaugurado
uma segunda vez pelo saudoso e amado são-joanense Tancredo Neves.
De lá para cá abriu-se mais um museu, do grande colecionador
escocês e nosso amigo Alex Neish, que formou sua coleção
quando morava no Brasil, e doou-a justamente para Stratford-on-Avon,
onde eu morava até vir para o Brasil.
A finalidade do nosso museu era primeiro de estabelecer critérios
de qualidade para nós, ou seja, para mim e para os empregados;
segundo, de demonstrar ao público que a qualidade do nosso produto
não era em nada inferior aos antigos, e terceiro, de inspirar-nos
com desenhos para copiar. De fato este último foi o mais fraco
dos motivos. Poucos objetos de mesa dos séculos XVII e XVIII
têm alguma finalidade numa mesa moderna. A coleção
produzida pela fábrica obedecia uma linha estilística
única, orientada por uma só pessoa, que era eu, enquanto
o museu era composto de artigos sem relação entre um e
outro. Hoje a firma está em outras mãos, auto-entitulados
profissionais, e não sei quais os critérios que os orientam.
Ouvi dizer que sua equipe não inclui nenhum entendido no assunto
de história do estanho
Uma quarta finalidade do museu era a de demonstrar aos visitantes que
estanho formava uma parte importante do dia-a-dia do Brasil no passado.
Poucos sabem que no Brasil Colonial se fabricava estanho. Os inventários
guardados no Museu Regional do Patrimônio de São João
del-Rei incluem muitas menções ao estanho, e sempre em
primeiro lugar, na parte que relaciona Bens Móveis.
Em 1972 casei -me com uma bela mineira Betinha, de quem muitos amigos
e fregueses lembram-se, dos anos bons da firma. Betinha e eu temos mais
duas filhas, com a ajuda das quais temos uma neta e mais um netinho,
também lindos. Mantemos na nossa casa da foto, uma pousada onde
se combinam toda a beleza do estilo colonial, com o conforto e cozinha
no melhor estilo anglo-mineiro.
Já desligado do estanho, latão é agora o metal
que me interessa. Como antiquário eu comprava muito latão
em Portugal e Espanha. Mas nunca descobri notícia de nenhuma
fabricação de latão em Portugal. Os dois, Espanha
e Portugal, têm grandes quantidades de latão antigo. Em
um antiquário em Lisboa, por exemplo, você encontra meia
dúzia de objetos do século XV, e dúzias dos séc.
XVII e XVIII. Em outro, mais de 70 candieiros do séc XVIII. Estou
atualmente escrevendo um livro da história de bronze e do latão
na Ibéria. Não existe ainda nenhum livro sobre o assunto.
Existem, sim, na Alemanha, Holanda, Inglaterra, mas justamente dos dois
países com o maior acervo, nada. Minhas pesquisas estão
revelando aspectos econômicos do período completamente
desconhecidos no métier. Por exemplo, Al Andalus exportava latão
em folha para toda a Europa, Marrocos e Egito por, no mínimo,
300 anos. Muitos dos turíbulos ditos dos séc XIV e XV
são na realidade 200 ou até 400 anos mais antigos. O livro,
originalmente, planejado para ter um só volume de 300 páginas,
cobrindo do ano 711 até 1900, já está com 400 páginas
prontas, somente de 711 até 1090, que é justamente o período
mais interessante, e com maior número de peças sobreexistentes.
Mais dois volumes serão necessários para chegar ao término.
Idealmente ainda me falta visitar museus em Cairo, Marrocos e mais uma
dúzia de outros museus importantes na Europa. Os problemas maiores
são, como sempre, dinheiro e tempo, já que, como acontece
com a maioria de nós, eu também sou mortal.
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