Lígia dos Santos Nascimento

IDENTIFICAÇÃO


Eu me chamo Lígia dos Santos Nascimento, nasci no dia 22 de Janeiro de 1943, perto daqu de São João del Rei, no Distrito de Conceição da Barra. Meu pai tinha um emprego público federal, era funcionário do Correio e nós éramos dez irmãos, sendo eu a mais velha da família. Meu pai chamava Eusébio dos Santos e minha mãe Maria Amélia dos Santos. Eu era o dentinho de ouro do meu pai, considerado na época, um dos homens mais bem remunerados do lugar.

INFÂNCIA

Eu tive uma infância com muita abundância, com tudo que eu queria. Papai gostava de musica, tinha um conjunto musical e tocava vários instrumentos. O violão dele parecia até que falava. Ele também gostava muito de futebol, fazia muita torcida e toda vez que vinha para cá torcer pelo time de futebol ou para tocar em festas ele me trazia. Na época, meu pai não deixava, mas eu já gostava de jogar bola. Dizia que isso era brincadeira de homem. Eu também gostava muito de jogar bolinha de gude. Hoje eu já não jogo mais. Eu gostava de brincadeira assim; jogar bola e andar de bicicleta. Hoje eu gosto de boneca, adoro uma boneca, mas quando era menina eu nem ligava! Também adorava brincar na enxurrada, eu me lembro da minha mãe correndo atrás de nós .Na escola, na hora do recreio brincava-se muito de roda de pique, de corda

TRAJETÓRIA ESCOLAR

Fiz o primário no Grupo Escolar Adilio Borges e fui reprovada na 4ª ano por causa de uma prova oral de matemática com uma situação problema. Sobre a mesa colocavam-se várias fichas e nós, os alunos da classe, tínhamos que ficar um atras do outro, numa fila em volta da mesa e a gente era chamada individualmente. Então o diretor falava para pegarmos uma ficha e que tínhamos três minutos pra falar como é que íamos resolver essa situação problema. Na minha vez me deu um branco. Eu não conseguia falar, e nem ler. Eu não fiz nada, eu não falei nada. Os 3 minutos venceram e eu fui reprovada, repeti a 4ª série. Depois, para ir para o ginásio, antigamente, a gente tinha que fazer o curso de admissão ao ginásio. Eu estudei um ano particular, neste curso de admissão. Guardo poucas lembranças das salas de aula só me lembro, de uma sala de aula. Logo quando a gente entrava assim, era uma salinha bem pequena, e a Branca Lara foi minha professora do primeiro e segundo anos . Nesta salinha bem pequenininha, quando a professora punha de castigo havia uma janela, a gente ficava em cima do banco para todo mundo ver que a gente estava de castigo, ajoelhada no milho. Lá também tinha palmatória., uma vez também eu fiquei de castigo, na nossa hortinha. Eu fiquei de castigo, eu e mais uma colega e ns tínhamos que pegar água pra aguar aquelas plantinhas. Porem todos as pessoas foram embora na hora do almoço e esqueceram a gente lá. Esta foi a 1ª vez que meu pai foi ate a escola para reclamar porque meu pai também nunca entrou em assunto da escola. Foi o único dia que eu vi meu pai bravo mesmo .Mas a diretora ,era muito boa, conversou com ele, mostrando que não aconteceu nada, aí ele se acalmou. Meu pai não deixava a gente sair pra fora de Cassiterita para estudar. Ele sempre dizia que a vida era muita curta, não gostava de ficar longe dos filhos. Por isso fiquei um tempo longe da escola. Só mais tarde depois voltei a estudar, quando foi criado o Colégio da Comunidade na cidade. Depois que fiz o exame de admissão, fui estudar na escola da Comunidade. Lá eu fiz a 5ª, 6ª,séries. Quando eu estava na 7ª série, eu fiquei grávida . Eu estava já com 29 anos e estudava a noite. A maioria dos professores vinham daqui de São João del-Rei.. Era tudo muito bom, só que estávamos na época da ditadura, mais ou menos em 19 75 . Aconteceu um fato, no desfile de sete de setembro, como eu não pude desfilar, que eu estava grávida, eu emprestei a minha meia para outra colega desfilar, Quando terminou o desfile ela falou assim: "Lígia, eu vou lavar a sua meia depois te entrego." Tudo bem. Então eu fui para a escola sem a meia, e por esta razão a diretora não me deixou assistir aula. E nessa época eu já tinha o Alexandre, meu filho. Eu ia com ele no colo e ia perguntando para as pessoas: " Pode ficar com ele pra mim?" Quem falava que podia eu deixava. Eu expliquei para ela mas ela falou que não podia. No outro dia eu já estava com a meia e eu cheguei atrasada como sempre. Nesse dia quem tinha ficado com o Alexandre pra mim era a filha do cabo. Eu fui pra aula, bem atrasada, cheguei correndo ela falou assim: "Lígia, você está com a meia?" Eu para não parar, eu dei um pulo assim pra ela ver, pra coisa levantar e mostrei assim, ela falou que ... aquilo foi uma falta de respeito e mandou que eu saísse. Eu falei: que não sairia não. Se já perdi aula ontem, vou perder hoje? Eu não sou vagabunda não, eu faço o maior sacrifício!" Pagava o colégio com o abono que meu pai deixou do correio. " Para assistir aula, deixo o menino com qualquer pessoa, e devo voltar por causa disso? Isso não foi desrespeito, é só pra te mostrar que eu estava com a meia". Aí foi aquela confusão e estudavam dois policiais na escola. Eu falei que não sairia, só se a polícia me tirasse A diretora chamou a polícia e vieram os dois o Geraldinho e outro apelidado de Leite Ninho. De repente estava armada aquela confusão. Por fim, eu resolvi sair. Mas eu só saí quando ela saiu na frente e eu saí atrás dela com os dois policiais no meio das duas. Cheguei em casa e escrevi uma carta para a Superintendente de Ensino. Ela era mulher de um delegado, era uma morena muito bonita, não sei como se chamava, acho que seu nome era Cleia. E contei o caso todo para ela. Eu me lembro que no início da carta eu escrevi assim, que eu sabia que aquela carta não ia valer nada, que talvez nem chegasse às mãos dela. Contei tudo, de quanto que eu ganhava, quanto eu pagava, contei o caso da meia, contei tudo. Quando eu já não me lembrava quase do fato. Eis que numa bela tarde, a moça foi até a cidade, reuniu a nossa turma, nós contamos pra ela como era a situação. No final, depois que ela conversou com todo mundo e falou assim para mim: " Agora quero falar com você". Eu estava com o Alexandre no colo. Aí ela foi tão bacana comigo que eu chorei! Só me lembro de suas palavras Aí ela falou assim: "Eu sei que tá desesperada, está nervosa, você tem um filho para criar, você quer crescer e tem gente impedindo. Então, ela falou tão bonito comigo, dizendo que eu poderia ir sossegada que isso tudo mudaria. Foi depois disto tudo que resolvi estudar no Rio de Janeiro, fiz um curso de secretaria no Senac, para arrumar logo um emprego, porque a minha intenção era estudar depois no Curso Normal. E eu aprendi até taquigrafia. Eu era craque em taquigrafia, depois esqueci tudo, porque fiquei sem praticar. Depois do meu casamento vim morar aqui em São João. Quando a sobrinha de meu marido veio morar comigo para estudar no curso de Magistério, eu resolvi fazer o mesmo. Ele funcionava à noite no Instituto Auxiliadora e consegui me formar em 1983. Eu me lembro de algumas professoras: a Leia de Português, a Maria de Química, a Vitoria de Física, a Luci de Inglês. Do curso de Magistério eu me lembro da Maria Silvia, da Roselia e, da Rutinha Viegas...

VIDA DE PROFESSORA

Eu tenho 15 anos de Magistério. Aqui em São João del Rei, a primeira escola onde trabalhei ,foi no João dos Santos, gostei muito desta escola. Depois veio a minha efetivação eu pude escolher trabalhar aqui na Escola Estadual Mateus Salomé. Eu já tenho onze anos de trabalho no Mateus e a principio fui muito discriminada porque eu não conhecia quase nada da proposta construtivista
Confesso que quando as professoras falavam deste assunto, falavam lá. "Professora que só tem Magistério não vale nada!" Antes de eu chegar para trabalhar no Mateus, uns dois anos antes, a escola já trabalhava nessa linha construtivista e na minha formação nunca tinha ouvido falar nisto. Acontece que eu sou teimosa, comecei a ler ,a estudar e, ficava sempre correndo atras.

ENTRADA PARA A FUNREI

Já na década de noventa, num belo dia, já estava nesta escola há mais de quatro anos e algumas colegas começaram a conversar sobre a possibilidade de tentarmos o vestibular para a FUNREI. Fiquei feliz porque consegui passar em sétimo lugar. Achei o curso de Pedagogia difícil, mas eu nunca me entreguei, fui encarando, estudando e com isso aprendendo muitas coisas sobre o construtivismo.

RELAAO COM A LEITURA E COM A POESIA

Sabe porquê eu leio muito? Porque meu pai ele trabalhava no Correio e ele assinava o jornal O Globo e adorava ler. Desde meus 7 anos que eu leio jornal. Eu adoro! Neste, domingo eu comprei 4 jornais; O Globo, Estado de Minas, Folha de São Paulo e o jornal de Esportes. Eu dou muita aula com coisa que eu tiro de jornal ate de jornal distribuído na hora da missa. Há pouco tempo ,na semana da pátria eu levei um texto lá para a escola, falando sobre o país que nós temos e o país que nos gostaríamos de ter. Ele foi, retirado de uma revista chamada O Mensageiro. uma revista mensal que eu assino e trago sempre discutir com meus alunos na sala de aula alguns temas como alcoolismo, violência, aids, saúde, televisão .Esta revista vem sempre com muita poesia e faço muita oficina de poesia com meus alunos mais no coletivo, i Essa turma de agora tem um pouco mais . de dificuldade. Mas a gente trabalha a idéia numa sementeira de idéias, escreve nela as palavras- chave e a partir dai fazemos poesias .Penso em colocar tudo num envelope e no fim do ano entregar para meus alunos. Quando eu fiz meu estagio de Supervisão Escolar percebi que n a minha mente aconteceu algo porque eu pude constatar a importância do trabalho realizado por minha equipe com os alunos do Tome Portes. Parecia que eles eram muito marginalizados ,ficavam lá atras ,no fundo da sala de aula ,saiam a toda hora para beber água e ir ao banheiro. Estes alunos ainda não estavam alfabetizados e, com certeza ,estavam condenados a uma reprovação. A minha proposta de trabalho era orientar um grupo de normalistas do colégio Estadual para um trabalho de monitoria com estes alunos .Tivemos que contar com o apoio de muitas colegas da Pedagogia para trocarmos experiência, material, dificuldades e pude constatar ao avanço dos alunos da alfabetização, que dentro de um mês já estavam lendo, e também o das alunas monitoras do curso Normal. Varias delas já estão dando aula na rede publica ou particular.
Confesso Ter ficado com lagrimas nos olhos ao ver aqueles alunos lendo, pude com isso ver o fruto do meu trabalho e perceber que eu também estava produzindo e aprendendo. Então nós fizemos um estágio, mas espetacular! Acho que clareou de vez, a prática de orientar aquelas quatro normalistas, e de poder constatar, registrar.
A nossa escola se tornou conhecida pelo trabalho que faz quanto aos professores promovendo a formação da equipe, permitindo trocas de experiências e incentivando todas nos. O Edmar Rabelo ,da UFMG, mostrou-me a importância do trabalho corporal, antes da representação de determinados conhecimentos matemáticos e em outros momentos da necessidade de se repensar a questão da avaliação. Não posso deixar de mencionar os encontros com a professora Gracinha sobre a matemática lúdica e os diversos cursos realizados ,aqui na escola ,com o pessoal da FUNREI para discutir-se a questão da alfabetização.

LEMBRANCAS DE UMA PROFESSORA

Tenho muitas saudades da professora Dona Lourdes Canaan pois foi com ela que eu aprendi muito. Eu sou apaixonada por ela porque ela ensaiava o teatro e chegamos a fazer cada teatro!

Entrevistada por Lucinha Guimarães em outubro de 1999.