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Regina
Céli de Souza
IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo
Regina Céli de Souza, nasci em 30 de Junho de 1961 em Prados, uma
cidadezinha pertinho de São João del-Rei, sou a filha mais
nova da minha casa, tenho uma família de 12 irmãos. A minha
família é de gente muito simples, todos nasceram em Prados,
mesmo tanto da família do meu pai quanto da minha mãe. Meu
pai se chama Jaime do Nascimento e minha mãe Ana do Nascimento
que já faleceu.
MEMÔRIAS DE MINHA INFÂNCIA
Eu vivi
a minha infância toda em Prados, a minha casa era uma casa muito
simples, a gente passava muita dificuldade, mas a minha mãe teve
assim um papel importantíssimo, porque ela conseguiu educar todo
mundo muito bem, mesmo passando todas as dificuldades que a gente tinha.
Todo mundo ajudava nas tarefas de casa, e era interessante que na época
tudo era muito difícil, usava-se fogão à lenha, com
muitos filhos dentro de casa, então a gente tinha que economizar
para sobreviver bem. O meu pai trabalhava fora da cidade, de mascate,
na época vendendo produtos no lombo de burros e saía pelas
redondezas. Ele ficava 3 meses fora de casa e a minha mãe ficava
criando os filhos. Então, ele recebia aquele dinheiro, e no final
quando chegava de viagem é que ele fazia as compras todas de casa.
Prados era uma cidade pequenininha, ainda é até hoje, e
a minha casa ficava praticamente no centro da cidade. Nós não
temos bairro não, só centro e alguns lugares afastados.
Eu sempre gostei da minha casa, apesar de sua simplicidade..
Eu costumo sempre contar para minhas crianças em casa, que no nosso
tempo, nós brincávamos muito de pique, gostávamos
muito de brincar principalmente quando ficava escuro, lá em Prados
tinha uma luz que chamava luz do Azevedo, era escura toda vida! Não
era da Cemig, Era aquela luz apagadinha! E juntava a criançada
da rua ficava do lado de fora até tarde brincando, sempre tinha
algum adulto por perto. Como era muito pequena a cidade, não havia
o perigo, que essas crianças correm hoje, nós brincávamos
era na rua mesmo. A gente brincava de pique, todos os tipos de piques
a gente brincava, pique - esconde, pique pega, brincávamos de amarelinha.
E eu costumo falar para a minha filha, que hoje a criançada só
gosta de bonecas bonitas e nós não tínhamos bonecas,
não tínhamos brinquedo, não tínhamos dinheiro
para comprar boneca e a gente brincava com banco. A gente pegava o banco,
punha o banco em pé e ficava andando. Fingíamos que era
uma boneca. E muitas meninas da minha época, faziam assim, a gente
não tinha condições de comprar, só as que
podiam mais, mas mesmo assim não existiam bonecas de cabelo. Eram
bonecas de papelão, escurinhas, lindíssimas! É, tinha
de papelão e de louça. Eu me lembro das que eram de papelão.
E as que eram de plástico, eram feinhas, sem cabelo sem nada. Aqueles
bonecos de cabeça grande, sem nada. Agora, eu me lembro de uma
boneca de papelão, que eu tinha que eu ganhei e eu fiquei muito
feliz da vida Nos tínhamos mania de lavar as bonecas, de dar banho,
só que aquelas de papelão, não tinham condições
de tomar banho. E eu me lembro que eu ganhei a boneca no natal. Outras
meninas também ganharam e umas falavam que não podia lavar,
outras falavam que podia, e um dia eu cismei de lavar a minha. Quando
coloquei a boneca na bacia com água, pus bastante sabão
para lavar, ela se desmanchou. Virou um papelão só dentro
da água. E isso me deixou muito triste, porque era uma boneca que
eu adorava! que eu adorava!
E um outro
fato da minha infância que me marcou muito, foi a minha participação
num teatro montado pela escola. Eu era uma pessoa muito alegre, muito
serelepe, gostava muito de participar de tudo! Eu me lembro uma vez de
um teatro que se chamava é ... " O teatro das bonecas"
, e cada menina representava um pais, então a gente cantava, a
gente dançava. Eu me lembro que eu era a portuguesa, a minha irmã
era costureira eu pedi à ela que fizesse a roupa para mim. E ela
sempre fazia, sempre fez tudo, mas eu fiquei apavorada, que eu achei que
ia ficar muito caro a roupa! Tinha um aventalzinho, tinha um coletinho,
tinha um lencinho de cabeça e tudo, uma portuguesa mesmo. Mas ela
fez a roupa, o teatro ficou lindíssimo, são coisas assim
que marcaram a minha vida de infância . Minha mãe gostava
muito que eu participasse durante o mês de maio, da coroação.
Eu também gostava, de cantar, de participar com o meu vestidinho
de virgem Já fui para a coroação ainda. São
fatos assim, marcantes na vida da gente.
A coroação é assim lá em Prados tem toda uma
historia, pois sendo uma cidade histórica, tem uma orquestra sinfônica
muito boa, muito interessante, atrai muitos turistas,. Todos os dias do
mês de maio tem coroação de Nossa Senhora , então
as crianças se vestem de anjos, de virgens e ensaiam as músicas
para serem cantadas. E o meu maior sonho era pôr coroa de ouro.
Eu cantava bem, mas eu não consegui pôr. Sempre tinha algum
outro preferido que acabava pondo a coroa e sobrava uma outra para mim.
Mas a gente ficava feliz assim mesmo. Tinha coroa de ouro, de flores e
tinha de prata. Tinha não! Tem! É a mesma coisa até
hoje. Os anos se passaram, as crianças são outras, mas a
tradição é cultivada. A história se repete.
Mas eu já tinha colocado todas, véu, já tinha colocado
coroa de flores ...
Mas a coroa de ouro eu sempre tinha vontade. Mas são coisas que
marcam a infância da gente.
PRIMEIROS
ANOS ESCOLARES
A gente
cresceu, começamos a trabalhar, eu estudei, tive a oportunidade
de estudar, bem como minhas irmãs. Estudei em Prados até
à 8º série, no Grupo Escolar Viviano Caldas e no 2º
grau é que eu vim para São João del-Rei estudar.
Eu vivi a minha infância toda em Prados, a minha casa era uma casa
muito simples, a gente passava muita dificuldade, mas a minha mãe
teve assim um papel importantíssimo, porque ela conseguiu educar
todo mundo muito bem. Todo mundo ajudava nas tarefas de casa, Usava-se
fogão à lenha, a gente vivia de uma forma muito simples,
muitos filhos dentro de casa, então a gente tinha que economizar
para sobreviver bem. O meu pai trabalhava fora da cidade. ele trabalhava
de mascate vendia seus produtos no lombo de burros e saía pelas
redondezas. Ele ficava 3 meses fora de casa e a minha mãe que ficava
criando filhos. Então, ele recebia aquele dinheiro, e no final
quando chegava de viagem é que ele fazia as compras todas de casa.
Prados era uma cidade pequenininha, ainda é até hoje, e
minha casa ficava praticamente no centro da cidade. Nós não
temos bairro não, lá é o centro e algumas, alguns
lugares afastados . Eu sempre gostei da minha casa, apesar de sua simplicidade
depois a gente cresceu, começamos a trabalhar, eu estudei, tive
a oportunidade de estudar. Minhas irmãs também tiveram a
oportunidade de estudar, então, quando eu formei a 8º série
lá e vim fazer o 2º grau aqui. Estudei na Escola de Comércio,
que antigamente chamava-se Escola Técnica de Comércio Tiradentes.
Fiz o 2º grau Magistério em 1978, comecei a trabalhar logo
quando então começou a melhorar a situação
da nossa casa pois nós compramos eletrodomésticos, mobiliamos
a casa de novo, aí pudemos ter uma vida mais tranqüila.
CURSO NORMAL
Eu estudava
à noite aqui em São João del Rei, era muito difícil
vir de Prados para cá. Na época não tinha asfalto,
passávamos muito aperto! O trajeto, dependendo da estrada, demorava
40 minutos, 50 min. Dependendo, se estivesse chovendo muito e tivesse
com muito barro, ficava até uma hora e meia, porque os ônibus
atolavam. Então eu vinha para cá às 18 horas, 20
para 19 hrs, 7 horas a gente já estava na escola e estudava até
10 e meia e voltávamos todo dia. E nesse meio tempo eu não
trabalhava, só estudava. O Curso Normal, para aquela época,
no início da década de 70, eu achei que foi bom, porque
havia uma outra idéia de magistério, uma outra idéia
de professora. o que se passava lá é o que hoje a gente
chama de Ensino Tradicional mesmo. A didática lá era mais
voltada para fazer bichinhos de flanelógrafo, aprender fazer plano.
Mas não havia na época essa preocupação da
formação do professor assim como a gente vê hoje.
De algumas professoras eu me lembro da Terezinha Pinheiro, que era a professora
de didática, gostávamos muito dela e também da Maria
Pereira que hoje é a diretora da Escola Municipal Pio XII e a Zaíra,
ex-diretora do Polivalente que dava aula de Biologia para nós.
Muitos outros professores passaram por lá, mas essas acompanharam
a gente por mais tempo.
PROFISSÃO
PROFESSORA
Eu me formei
em 1978, eu tinha 18 anos incompletos e eu sempre gostei muito de ler
e estudar. No ano seguinte, eu não consegui vaga, na época
tinham muitas professoras, como tem hoje ainda, mas me parece que era
mais valorizado, eram mais fácil da gente entrar no estado. Em
1979, me parece que foi a 1º vez que eu fui substituir por dois meses
numa turma de 3 série na Escola Dr. Viviano Caldas.
E foi uma experiência muito interessante, eu substitui a professora
2 meses, que ela havia feito uma cirurgia, e assim eu aprendi muito porque
quando a gente sai do Magistério, principalmente novinha assim,
a gente não tem uma idéia de uma sala de aula completamente
diferente! No ano seguinte, eu fui trabalhar numa escola rural, e tive
uma experiência completamente diferente! Trabalhei o ano inteiro,
em 1980. Eu trabalhava pelo município de Lagoa Dourada era uma
comunidade do Sítio Novo, que pertencia a Prados, mas a escola
pertencia a Lagoa Dourada, E lá, eu tive uma experiência
muito interessante porque eu trabalhava com classes multisseriadas. Éramos
duas professoras. Eu trabalhava com 1ª e 2 ª séries e
a outra professora com 3ª e 4ª séries. Eram poucos alunos,
mas nós tínhamos que dar conta de alfabetizar e desenvolver
a leitura e a produção dos alunos de 2ª série.
Como que eu fazia? Dividia o quadro ao meio, dividia os alunos, de um
lado ficava os de 1ª série, do outro ficava os de 2ª
série e eu ia passando atividades. Era dificílimo! Porque
ninguém era alfabetizado, crianças não eram crianças
que tivessem cursado a pré-escola, eram crianças de zona
rural mesmo que não tinham nenhum contato com a leitura e a escrita.
Então era muito difícil para nós! Fiquei o ano todo,
no ano seguinte, eu já consegui uma vaga em Prados mesmo, no município
de Prados, mas zona rural também. É, Escola Estadual da
Estação de Prados. Fiquei lá o ano todo também
com classe multisseriada de 3ª e 4ª séries. E esse ano
foi uma no muito difícil, porque anteriormente quando eu trabalhava
no Sítio Novo, eu morava na casa de uns amigos lá na localidade.
Na Estação de Prados, Nós íamos todo dia de
ônibus, saíamos no ônibus de 6 horas, andávamos
20 minutos a pé ainda, chegávamos lá 6 e meia na
escola. Aí trabalhávamos, ficávamos sem almoço,
a gente ás vezes merendava na escola, para depois voltarmos para
casa de novo, chegávamos em casa todo dia ás duas horas
da tarde. Essa era a nossa vida. Dificílima! Mas eu acho que valeu
a pena. Lá eu trabalhava com 3ª e 4ª séries e.
como eu já havia tido experiência de 1ª e 2ª, não
foi muito difícil não. Eu já havia habituado a trabalhar
com o quadro dividido, atividades de um lado, atividades do outro e atendimento
individual. Daí para frente é que eu aprendi a fazer atendimento
individual com as crianças, porque não tinha como a gente
ensinar sem a gente prestar atendimento individual, e fazer trabalho diversificado,
porque eram muita as diferenças de aprendizagem.
Eu não fui preparada no curso normal de maneira nenhuma e construi
essa prática porque nós tínhamos que ter rendimento,
porque na época, a gente era contratada, e se a gente não
conseguisse ficar o tempo todo, complicava. Nós tínhamos
que ter rendimento. Eu acho que isso era ruim, para todo profissional
iniciante, correr o risco de não fazer um bom trabalho. Mas todo
profissional iniciante, ele faz de tudo para ele se sair bem, para que
depois a gente forme um nome, como é o que eu tenho hoje. A escola
não tinha recurso nenhum. E eu ainda me lembro que nessa época
eu desenvolvi o trabalho de coordenação da escola. A parte
burocrática era todinha por minha conta. Corria perigo de ficar
professora sem pagamento, servente sem pagamento, papelada para a delegacia
sem entrar no dia certo, e a gente ficar sem pagamento. Então era
muito difícil! Eu tinha que correr em São João del-Rei
para buscar a papelada, não ficar dependendo dos outros para trazer.
Mas foi um ano que eu aprendi muito. Eu tinha poucos alunos, parece que
eu tinha 12, eu tinha 4 ou 5 de 4ª série, e os outros eram
de 3ª. E foi um desafio porque eu tinha que dar toda a matéria
de 3ª e a matéria da 4ª. Mas era uma turma da 4ª,
era uma turma boa e deu para vencer legal.
CONCURSO
PUBLICO ESTADUAL
No ano seguinte
eu prestei concurso para professora do Estado, no penúltimo concurso,
onde eu passei com mais uma colega. Aí eu tinha ficado um ano já,
na Estação de Prados e então eu fui remanejada da
Estação de Prados para Escola Dr. Viviano Caldas. E lá
eu fiquei até 1986.
Em 1986 eu me casei, vim morar aqui em São João del-Rei
e pedi para vim trabalhar aqui na escola Mateus Salomé, inicialmente
por ser mais perto da minha casa. Eu moro ao lado da escola e ficava mais
prático trabalhar numa escola perto de casa desde 1986. Em julho
eu vim para cá no sistema de, empréstimo, à serviço.
Eu vinha de lá para cá, eu trabalhava aqui fora de sala,
trabalhava na diretoria junto com a Mercês, ela estava entrando,
pegando a direção nessa época, então eu trabalhava
mais de eventual mesmo. Fiquei o resto do ano assim, a minha folha de
pagamento era feita lá em Prados eu recebia lá, até
o final do ano. No ano seguinte eu já vim para cá. Aí
eu fiquei um ano como excedente, aí eu já peguei classe.
Fiquei um ano como excedente, e depois eu já passei à integrar
ao quadro da escola.
CASAMENTO
E FAMILIA
Eu conheci
o meu marido com 18 anos, até então eu não tinha
namorado muito não que eu não fui namoradeira não
. Então, ele é de Santa Catarina, nós nos conhecemos
em Prados, num Domingo lá, a gente saía muito, lá
tinha aqueles bolinhos, que a gente tem até saudade. Cidade pequena
é tudo diferente! Nós nos conhecemos num baile. E começamos
à namorar, nós namoramos 5 ano mais ou menos, e em 86 eu
me casei. Tenho 2 filhos, a minha vida de casada é uma vida normal.
Temos os desencontros às vezes, temos assim, problemas como todo
mundo tem, mas nada que seja demais, a gente procura se entender sempre.
Tenho 2 filhos lindos, saudáveis! Tenho um menino que hoje tem
12 anos, chama Flavio Nascimento Souza e tenho a minha filha de 6 anos,
Larissa Nascimento Souza. E procuro dar muita atenção para
eles, muita atenção pro meu marido. A minha família
é uma família harmoniosa, apesar dos eventuais problemas
que surgem no dia a dia
PROFISSÃO
E FORMAÇÃO
Eu sempre
gostei de ser professora! Sempre trabalho para o bem dos meus alunos,
faço de tudo para eles aprenderem. Acho que nos últimos
5 anos, tá ficando muito difícil, pela própria educação
que as crianças estão tendo. Os pais não conseguem
mais impor limites nos filhos, os filhos estão vindo para escola
de famílias muito desestruturadas ainda, mas, ainda assim, eu procuro
fazer o melhor para os meus alunos
Eu tentei durante vezes entrar para a faculdade, fiz vestibular na antiga
faculdade Dom Bosco e não passei da 1ª vez Em 89, não
passei de novo, mas eu não desisti, porque o meu sonho era fazer
o curso superior. Primeiro porque era interessante para minha parte profissional,
e que eu queria aprender mais, segundo eu achava que com o magistério
eu sabia muito pouco. E as coisas vão evoluindo, cada dia que a
gente estudava mais um pouquinho, a gente aprende mais um pouco, é
um degrau que a gente sobe a mais. Em 1991 é que eu fiz o vestibular
novamente, passei no curso de Pedagogia, e comecei a estudar em 92. Passei
por dificuldades, porque em 92 eu estava grávida, então,
eu subia todos os dias, eu sempre fui muito caxiona, fui uma aluna que
não gostava de matar aula, eu gostava de ir todos os dias mesmo
grávida com a barriga enorme, eu subia o morro todo dia para a
faculdade. Mas eu não desistir. Muitas pessoas achavam que eu devia
trancar matrícula, deixar o neném nascer para depois...
Mas eu não desisti, eu continuei vindo. Achei o meu curso de Pedagogia
muito bom em vários aspectos.
Alguns outros acho que ainda deixam a desejar. Mas quando eu entrei no
curso de pedagogia, me parece que nesse ano foi introduzida a parte de
lingüística aplicada a educação, a nossa sala
foi a felizarda, nós tínhamos 50 alunos na sala. E , além
de todas as disciplinas, nós trabalhamos 180 horas de lingüística,
e isso ajudou demais no nosso trabalho, principalmente aqui dentro da
escola. Eu acho o curso de pedagogia, um bom curso, o que eu acho é
que ele peca é pelo fato doas habilitações ficarem
mito desvinculadas umas das outras, a formação deveria ser
para o pedagogo e não para habilitações separadas.
Nessa minha formação, as leituras oferecidas durante o curso
vinham assim, de muitos livros, muitos textos xerocados de livros e toda
a bibliografia mais nova, a mais atual. Havia aquela preocupação
dos professores em trazer tudo o que tinha de novo para nós. E
inclusive na época, é ... começou a falar muito em
construtivismo. Então tudo o que tinha sobre construtivismo, nós
trabalhamos na FUNREI, e desenvolvemos aqui na escola, que nós
começamos trabalhar também na escola com o construtivismo,
e no início foi difícil para gente. Uma mudança de
filosofia, de modo de ver o ensino muito grande sim, porque nós
tivemos que ler muito e estudar muito para gente conseguir acompanhar.
Eu vinha de uma formação tradicional, do professor tradicional,
de uma escola tradicional onde eu trabalhava com cartilha. Já conhecia
o trabalho com todas as cartilhas, quando eu cheguei aqui no Mateus ...
aqui se adotava uma cartilha diferente que era construída pelos
próprios alunos, mas era uma cartilha, só que era uma cartilha
dentro da realidade do aluno. Eu não cheguei a ver muito, porque
nessa época eu estava fora de sala de aula. No ano seguinte, quando
eu peguei ... Foi em 87. A 1º vez que eu peguei turma aqui foi em
87. Em 85 e 86, me parece que fizeram uma experiência nova, com
cartilha construída na própria escola, mas cartilha. Em
87, na época havia na escola uma professora de nome Celeste que
trabalhava na escola, parece que ela era vice - diretora aqui, e ela trabalhava
no SESI, desenvolvia um trabalho, dentro da proposta construtivista. E
nós tentamos, à partir desse momento, contar com a Celeste
para desenvolver novo modo de construir a pratica aqui no Mateus Salomé,
também. Então ela se dispôs à fazer cursos
com a gente, ela vinha dar o curso para nós, nós ficávamos
aqui horas e horas estudando aos sábados de carnaval, nós
ficamos aqui um tempão estudando e todo mundo se empenhou, não
só a 1º série, juntamente com mais 3 colegas, e tudo
era novo para nós. E nós iniciamos do nada mesmo, só
lendo. Pegávamos as apostilas, líamos, discutíamos
com a Mercês, discutíamos com a Celeste, na época
a Rosélia era a supervisora, discutíamos sempre. Estávamos
sempre encontrando. Como nós não tínhamos muito tempo,
que todas eram casadas, tinham seus afazeres domésticos, nós
nos encontrávamos de meio dia às cinco horas. Trabalhávamos
de meio dia às quatro, e ficávamos aqui até às
5 horas, 5 e meia estudando, planejando o dia seguinte, como faríamos
com essa questão da criança, da liberdade de expressão,
de ouvir mais a linguagem oral, a espontaneidade da criança, da
intervenção na escrita, tudo isso era muito novo para nós.
Então, fizemos uma semana para nós. Então duas ...
começamos à trabalhar com a história do dia. Mas
ficava uma coisa um tanto quanto solta, a gente ficava um pouco perdida.
Após uns 15 dias mais ou menos, foi um dado interessante, nós
ficamos tão perdidas, que combinamos assim ... "Acho que a
gente vai ter que começar à voltar na apostila, porque não
vai dar certo. "Isso era ... era final de fevereiro, princípio
de março. Nós já tínhamos feito toda aquela
questão de conhecimento do aluno, de ver qual a bobagem que ele
tinha, já estávamos entrando mesmo na alfabetização,
conhecimento prévio, que o aluno traz, mas tivemos muito medo de
fracasso. Todo mundo tem medo de fracasso diante do novo. Quinze dias
depois, estávamos desesperadas, com medo de não acontecer
nada. Então nos reunimos com a Mercês, com a Celeste e falamos
com ela: -"Olha, eu acho que não vai dar. Nós estamos
com muito medo de a gente chegar ao final do ano e ter fracassado e ninguém
tá lendo e escrevendo, porque nós não sabemos lidar
com isso." E ela muito tristemente respondeu para gente assim: -
"Vocês é que sabem, vocês é que estão
na sala de aula. Eu acho que deveriam tentar mais, mas se vocês
acham que não vão dar conta, que não vai dar certo,
eu também ... É preferível usar o método que
vocês dêem conta, do que um método que possa fracassar."
Mas nós voltamos para sala de aula, o mais curioso é que
as crianças já haviam se acostumado naquele ritmo de aula
que a gente trabalhava. Começamos com a silabação,
e o mais curioso é que não deu certo também, eles
não gostaram. As aulas ficaram super cansativas! Ninguém
tolerava. Nós não agüentávamos, as crianças
não tinham interesse nenhum, aí nós optamos nesse
ano pelo método global. Trabalhamos com o Os brinquedos da noite.
Deu muito certo, foi ótimo. Trabalhamos das partes para o todo,
ao todo para as partes, para frases, palavras, tudo desenvolvemos todo
o método global, e nesse meio tempo, eu já estava na faculdade,
já estava trabalhando, entendendo melhor como era o método
global também. Trabalhamos bem durante 2 anos. Enquanto isso continuamos
as reuniões, continuamos a ler muito, à estudar muito juntas.
No ano seguinte, parece que foi 1992, 1993, quando eu já estava
lá mesmo, aí que nós pegamos mesmo firmemente a proposta
construtivista, a postura do professor construtivista, porque ela não
é uma filosofia, uma proposta que vocês tem que seguir obrigatoriamente.
É uma postura do professor na sala de aula, mas não é
uma corrente. Então nós começamos a trabalhar com
a vida do aluno. Eles contavam histórias, nós registrávamos
todos os dias uma história no quadro, fazíamos a leitura,
dali tirávamos palavras, tirávamos frases para eles construírem
outras histórias, juntos. Montávamos livrinhos da história
deles, paralelamente a isso, trabalhávamos a matemática
também, idade, quantos filhos o pai e a mãe tinham em casa,
como que era a vida na família. Começamos à entender
o quê que era partir da realidade do aluno, ou seja, com o que a
gente conhece dele, com o conhecimento prévio que a gente vai ter
de vida dele, nós demos inicio à alfabetização.
O primeiro ano, que nós trabalhamos assim, eles escreveram pouco.
Leram muito bem, chegamos ao final do ano com a certeza de que escreveram
pouco.
Acho que nós lemos muito, estudamos muito, e escrevemos pouco.
Aqui na escola nós temos essa idéia de ler, discutir, mas
registramos pouco. Agora é que nós procuramos registrar
mais. É isso aconteceu com nossos alunos. Hoje em dia registramos
antes da pratica, durante a pratica e depois da pratica. Porque se nós
planejamos, nós temos que registrar antes, à medida que
a gente executa aquele planejamento, que a gente executa aquelas idéias
que nós estudamos, a gente vai colocar se deu certo ou não,
se tem que aprimorar. Tem coisas que a gente estuda e que na prática
não funciona. Ou funciona numa turma e não funciona em outra.
Então registramos, que tem que ser de uma outra forma, discutimos
juntas às vezes.
Nos fazemos troca de material, de livros, troca de folhetos e de informações.
Nós temos um planejamento na escola, e temos uma proposta pedagógica
e um projeto pedagógico que é a Identidade, então
... Dentro desse projeto, tudo que nós temos, que encontramos,
que pesquisamos, nós lemos e trazemos para discutir com os colegas
das série da escola, e aproveitamos na medida do possível
o que é dentro da turma da gente.
O Projeto de Identidade, foi a partir do momento que nós começamos
à construir o nosso trabalho dentro da proposta construtivista,
pois nós percebíamos que para que o aluno se alfabetizasse,
primeiro ele tinha que ter sua auto - estima positiva.
E isso , a própria corrente construtivista prega muito, trabalho
como a auto - estima, acreditar no aluno. É basicamente isso. Acreditar
que eles vão conseguir. Alguns mais cedo, outros um pouco tarde,
mas todos conseguem. E nós começamos a perceber que dentro
da nossa escola, havia muita criança com dificuldade, muita criança
desestruturada emocionalmente na família, e à partir desse
momento nós começamos à pensar em um projeto que
elevasse essa auto - estima. Começamos à fazer reuniões
de pais, a Mercês enquanto supervisora, sempre pesquisava em livros
e revistas como a Amae Educando, a Nova Escola e, principalmente, nos
livros pois ela sempre leu muito.
Ela pesquisava e trazia recortes de textos para gente trabalhar em reuniões
pedagógicas, sobre diversos assuntos, é ... relacionados
à Educação, à questão da auto - estima
positiva... Tivemos também muita influencia do Programa o "Salto
para o futuro", que foi da secretaria Estadual, em 1996 acho que
ainda existe na TV Escola, quando a escola passou a fazer uso da antena
parabólica, financiada pelo estado. Nós passamos à
assistir a esse programa pela TVE todas as noites, com um facilitador,
que era um coordenador de curso, então, todas as noites de 7 horas
às 8 horas, o professores que se inscreveram, que se interessaram,
vinham para a escola, assistiam programa na TV, depois debatiam. Assistíamos
o programa, tinha debates, tinham é ... Solução de
dúvidas de professores, leitura de apostilas. Eu tenho todo o material
durante o tempo que eu assisti, material riquíssimo! Inclusive
a parte que eu peguei foi sobre o trabalho com pré - escola, Educação
Infantil, que eu ... que eu presenciei mais. E o coordenador, ele debatia
algumas questões todos os dias. Víamos o vídeo e
discutíamos em cima do material ... líamos o material e
discutíamos em cima do que era proposto.
O PROCAP
No final
do ano de 1997, o governo implantou o Programa de Capacitação
de Professores chamado PROCAP. Eu fui coordenadora do PROCAP, aqui na
escola. Foi uma experiência para mim riquíssima! Passei o
mês de novembro em Barbacena junto com várias outras capacitadoras
das escolas, fazendo um curso ministrado pela equipe de professores da
Universidade de Uberlândia, uma equipe excelente, durante três
semanas. Nós éramos de 30 à 40 pessoas de São
João del-Rei, pois todas as escolas tinham um facilitador. O facilitador,
ele ficou encarregado de coordenar todo o PROCAP na escola, coordenar,
avaliar, distribuir tarefas. Então nós estudamos durante
3 semanas lá em Barbacena e ano anos seguinte nós colocamos
o projeto em funcionamento. Eu tinha em grupo de 20 professores e nós
tínhamos atividades todas segundas- feiras com a duração
de duas horas e meia de momentos presenciais, onde eram debatidos os assuntos
dentro de ... Reflexão sobre a Prática Pedagógica,
Língua Portuguesa, e de Matemática. Nós fizemos 10
módulos ... 5 no 1º semestre e 5 no 2º semestre, dentro
de língua portuguesa, leitura e produção, e a matemática.
Tínhamos um material riquíssimo, dos Guias Curriculares,
ótimo! Excelentes mesmo, fitas, as fitas do vídeo do PROCAP
muito boas, muito bem explicadas. O trabalho consistia em assistirmos
uma fita sobre determinado tema. Debatíamos a fita com a duração
média de meia hora, interessantíssimas. Tínhamos
uma parte que era mesmo a formação de professores. Reflexão
sobre a Prática Pedagógica, que nós chamávamos
de RPP, então foram .... 30 módulos, 10 de RPP, 10 de português
e 10 de matemática, divididos no 1º semestre. De um a cinco
no 1º semestre de cada conteúdo, e de seis à dez, no
2º semestre para cada conteúdo. As discussões eram
riquíssimas, mas havia uma grande quantidade de tarefas que os
professores levavam para casa e isto causou alguns embaraços. Nós
trabalhávamos com as fitas e liamos e discutíamos o texto,
eu sempre trazia dinâmicas diferenciadas, eu sempre me importei
em trazer tarefas diferenciadas para elas resolverem. Na parte de matemática,
principalmente, trabalhamos muito com o lúdico, para que tornasse
mais interessante. E para casa elas tinham que fazer outras leituras.
Pois este era o momento não presencial, planejado para ser executado
em mais ou menos duas horas e meia. O momento não presencial constava
de leitura, resumo, comentário, resposta a algumas questões
e levantamento de dados. Havia também a confecção
do plano de aula.
E esse material feito pelas professoras em casa, ficou todo arquivado
na escola. Toda semana era me entregue, eu tinha uma lista de presença,
eu olhava de todo mundo, o que não estivesse muito satisfatório,
eu chamava em particular a pessoa, pedia para refazer, fui muito respeitada,
foi um ambiente tranqüilo, deu para fazer bem. Mas as professoras
reclamavam da carga de atividades. Porque tinha o plano de aula tinha
que ser executado, e na minha opinião, era um plano muito reducional,
muito antigo, eles pecaram por esse lado. Lã em Barbacena, a equipe
da faculdade de Uberlândia, eles falaram que nós teríamos
que assistir à todas as aulas, humanamente impossível, eu
era professora, além das 2 horas e meia que eu ficava aqui com
elas, eu tinha que estudar em casa, porque eu gostava de estudar para
ver se elas trabalhavam e ainda tinha que corrigir todo o material e apresentar
para elas na semana seguinte o resultado do trabalho o quê que nós
.... o quê que eu achei que poderíamos fazer para evoluir
mais. Era, professora regente, estava dando aula para uma 2º série.
Estava, eu dei aula o ano todo acumulando função. E esse
foi um dos pontos negativos do PROCAP. Em compensação, tenho
registrado comigo, todo o material, tenho a cópia dos relatórios
todos, tenho tudo registrado. Tenho toda a documentação
do PROCAP.
Eu acho que essa formação de professor, provocou mudanças
na prática pedagógica das professoras. Eu acho que reafirmou
a prática e no caso da nossa escola, provocou sim. Quando se iniciou
o PROCAP, todo mundo falou assim: - "Há! Mas isso aqui não
tem nada de novo, isso aqui não tem nada de novo! Já sabemos!
Já sabemos! Mas eu sempre colocava para elas, que nós não
sabemos tudo nós já fazíamos muitas coisas que foram
colocadas no PROCAP, mas aprendemos muitas, principalmente, dentro da
Intervenção da produção de texto e dentro
da matemática, a parte lúdica da matemática. Então
hoje eu vejo nas salas de aula, professoras dizendo: - "Há
eu fiz ... Eu trabalhei com o material dourado, tal conteúdo foi
ótimo! Eu trabalhei com o Tangran tal conteúdo foi ótimo
e eu trabalhei o sistema, é ... De numeração, com
as fichas coloridas, foi ótimo, muito mais "prática".
Havia leitura, havia a confecção da prática, havia
discussão do texto que estava sendo lido, e como é que eram
esses textos que estavam sendo apresentados? Vocês liam, assim,
diretamente das fontes, dos autores originais, eram textos traduzidos?
Como é que é isso?
Os textos informativos para discussão vieram já todos no
guia teórico do professor. Nós tínhamos um guia para
português, um guia para matemática e um material de RPP,
de reflexões sobre prática pedagógica. E são
textos muito atualizados, de autores consagrados, eu não lembro
o nome de todos, mas estão à disposição na
escola. Nós discutíamos as questões de ordem teórica
e pratica, o porque trabalhar, que corrente sustentava aquela teoria,
o porquê trabalhar daquela firma e também todos os objetivos
à serem trabalhados e as atividades práticas para a gente
experimentar.
E eu trazia esses materiais, xerocava na escola e entregava para os professores.
Então, construímos, uma fonte de pesquisa muito rica sim.
A teoria esteve sempre ao lado da prática, não podemos dizer
em hora nenhuma que a teoria estava longe da prática, ou muito
além, nada. Assim, na minha avaliação julgo que este
projeto foi ótimo!
Entrevistada
por Lucinha Guimarães em novembro de 1999.
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