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Memória

A memória de cada um é ponto de partida para a constituição de sua identidade. Memória não é História. Memória é o que registramos em nosso corpo. História é a narrativa que montamos a partir de nossa memória - é a construção do que lembramos. Memória tampouco é um depósito de tudo que nos aconteceu. A memória é, por excelência, seletiva. Guardamos aquilo que, por um motivo ou por outro, tem ou teve algum significado em nossas vidas. História é como organizamos e traduzimos para o outro - seja um ouvinte, seja um outro invisível - partes daquilo que reconhecemos em nossa memória.

Assim, nossa história de vida é a narrativa que construímos a partir do que guardamos seletivamente em nossa memória. A forma como organizamos a nossa memória e, conseqüentemente, como construímos nossa história é a forma que compreendemos a nós próprios. Por isso, a história não é sobre o passado, mas sobre nosso presente e futuro. É o que nos dá identidade.

Do mesmo modo como nossa história pessoal é uma organização do que seletivamente guardamos na memória, a história de um grupo é também a organização do que foi seletivamente demarcado como significativo na memória social. Essa organização do que é considerado significativo é o que dá coesão a um grupo. É o que estabelece sua identidade. Participar de um grupo significa necessariamente compartilhar sua história. É a narrativa histórica que norteia a compreensão do presente para o indivíduo e para o grupo. Não há um grupo sem história.

Normalmente o que um grupo preserva é aquilo que, no seu momento presente, considera importante. É a estrutura social vigente que determina o que da memória tem valor. E, em geral, é essa mesma estrutura social que subsidia a construção da narrativa histórica oficial (registrada e consolidada em documentos, em livros didáticos, em filmes etc). Dessa forma, a sociedade vai reconstruindo sua história e garantindo sua permanência enquanto grupo. O resultado desse processo é a constituição de "narrativas históricas oficiais" que são, no mais das vezes, lineares e contêm o ponto de vista da ideologia dominante.

Rede

Podemos vislumbrar um futuro em que a narrativa histórica da sociedade possa conter múltiplas "vozes", incluindo, sem hierarquia, histórias de vida de indivíduos de todos os segmentos da sociedade, e no qual a história de cada um será um ponto de nossa teia social. O resultado será uma memória social construída a partir da diversidade (cultural, social e individual). Para que tal "memória" se constitua é necessário consolidar um "espaço democrático" de construção da memória. Um espaço onde todo e qualquer indivíduo e/ou grupo possam ser autores de sua própria história. Um espaço onde essas narrativas não sejam hierarquizadas nem apresentadas de forma linear, abrindo uma nova forma de "construção" de nossa identidade.

Construir esta "memória social" implica a constituição de uma "rede de autores" que, sem mediação, incluam suas histórias e tenham suas narrativas integradas à memória social. Tal rede - ampla em sua diversidade - deve ser construída de forma descentralizada e aberta. Nesse sentido, este espaço deve ser virtual. A Internet possibilita que o público seja, além de consumidor, também produtor de conteúdo. Por tratar-se de uma rede fundamentada na ampla difusão de informações, permite que a própria pessoa e/ou grupo produzam suas histórias bem como a disseminação desse acervo, viabilizando a democratização do conteúdo. O acervo resultante será um painel rico e multifacetado dos inúmeros grupos sociais que constituem nossa sociedade.

Mudança Social

Na medida em que tornarmos tal "espaço de memória" uma referência presente para a sociedade, teremos uma nova forma de constituição das "narrativas históricas oficiais". Teremos novas "vozes" atuando, o que significará a possível reavaliação dos valores dominantes que constituem nossa identidade. Dar "voz" a todo e qualquer indivíduo é uma maneira de rever os valores vigentes e, certamente, de transformá-los no futuro.

A sensibilização feita a partir das histórias de vida desperta os cidadãos para a consciência de sua participação na história e na própria comunidade. Entretanto, a mudança social ocorre no momento em que essa percepção de ser agente de sua própria história deixa de ser individual e resulta em intervenções na coletividade. Na medida em que o indivíduo percebe sua responsabilidade na construção da história - da sua cidade, de seu país - e mobiliza seus pares para que eles também transformem essa relação com a história, ele está cumprindo um papel social. Desta forma, estará exercendo plena responsabilidade social.