Trabalhos

André Azevedo da Fonseca e Cristiane Ferreira de Moura
Casa da esquina assombrou imaginário popular

No alvorecer do século XX, uma epidemia assombrou o cotidiano brasileiro. A doença prenunciava-se em uma inocente tosse e, depois de evoluir para um estado em que o enfermo passava a vomitar sangue, transformava jovens saudáveis em criaturas esqueléticas que gemiam e se arrastavam até padecer em suas casas - isso quando não eram asilados para morrer em Campos do Jordão, apelidada na época como "Tisiópolis". Trata-se da tuberculose, doença tida como romântica para os poetas do século XIX, mas que devorou famílias e apavorou o imaginário social do início do século passado.
Ao realizar uma reportagem sobre histórias que estavam por trás de edificações abandonadas do patrimônio cultural de Uberaba (MG), o estudante de Jornalismo André Azevedo da Fonseca viu surgir, entre os relatos, uma história imprecisa sobre um terreno baldio, no centro da cidade, onde, há muitos anos, havia uma casa na qual uma família inteira morrera de tuberculose…
Investigando o caso, foi possível perceber outros fenômenos curiosos. Apesar de localizar-se na praça Rui Barbosa - região central da cidade - o terreno permaneceu abandonado por todo o século. Desde a demolição do casarão, nunca mais nada foi construído por lá. Hoje, serve precariamente como estacionamento. Além disso, não foram encontradas fotografias da casa nos principais arquivos da cidade. Todas as edificações vizinhas foram exaustivamente fotografadas, mas essa casa não. O único registro de sua existência é uma foto da primeira década do século, em que aparece um pedaço de sua fachada.
Com o auxílio da estudante de História da Uniube, Cristiane Ferreira de Moura, foram realizadas pesquisas em periódicos da época (disponíveis no Arquivo Público da cidade); consultas em árvores genealógicas; entrevistas com remanescentes da família e contemporâneos (como o "seu Juquita", de 92 anos); e consultas a trabalhos como "Memória da Tuberculose", da Fundação Oswaldo Cruz. Assim, foi possível reconstruir a história que, por envolver famílias tradicionais da cidade, havia sido condenada ao esquecimento - as três irmãs tuberculosas, por exemplo, deixaram de ser citadas até nas biografias oficiais do pai, um ex-agente executivo (cargo correspondente ao de prefeito). Dessa forma, foi possível verificar um forte sintoma do estigma social que a doença conferia às pessoas na época.
Para narrar esse caso, houve um esforço em relacionar aspectos do cotidiano local com traços da História do Brasil e do mundo (uma das personagens sofre complicações diretas devido à 1ª Guerra Mundial), tudo isso entrelaçado às memórias, comentários, impressões, intuições e vivências do cotidiano das pessoas.
Entre as primeiras pistas e a redação final, o trabalho foi desenvolvido, de forma espaçada, durante três meses. A reportagem foi publicada no "Revelação" - jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Uniube - um periódico semanal com tiragem de 8 mil exemplares, que circula em toda a cidade. A reportagem repercutiu na imprensa local, o autor recebeu mensagens de pessoas que se emocionaram com o relato, professores pediram exemplares para trabalhar com seus alunos - pois consideraram uma forma sedutora de convidar os estudantes a mergulhar na História de sua cidade. Ainda hoje a reportagem é referência na cidade quando o assunto é tuberculose.
A justificativa para a participação do congresso é apresentar uma proposta de cobertura jornalística que se apropria da memória coletiva e organiza dados para subsidiar a identidade cultural e o imaginário popular da cidade. As reportagens conquistaram menção especial na categoria Jornalismo do Prêmio Estímulo à Cidadania da Expocom/Intercom, em 2002.

Andrea Paula dos Santos
Vozes da Marcha pela Terra: histórias de vida de trabalhadores rurais sem terra na luta pela reforma agrária no Brasil

No dia 17 de abril de 1997 chegava em Brasília a Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça. O massacre de Eldorado dos Carajás (PA), onde 19 trabalhadores rurais sem terra foram assassinados pela polícia, completava um ano sem que se punissem os culpados ou se regularizasse a questão da terra. Exigindo a reforma agrária como forma de justiça social, os trabalhadores rurais sem terra mobilizaram a sociedade brasileira, que saiu às ruas para recebê-los na capital depois de uma marcha que durou quase três meses e partiu de vários lugares do país.
Acompanhamos esta que foi a maior manifestação política organizada pelos movimentos sociais nos últimos tempos e registramos as memórias de luta de 16 trabalhadores sem terra através de histórias de vida. Eles marcharam vindos de 16 estados diferentes do Brasil e contaram suas trajetórias abrangendo temas que vão desde a exclusão social de que foram vítimas até o seu engajamento no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o que lhes proporcionou um espaço de organização coletiva em busca da conquista da terra para garantir uma vida digna.
Ao final da realização das entrevistas, produzimos um livro com as histórias de vida, selecionado entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti de 1999, cujos direitos autorais foram doados ao MST. Entendemos que tornar públicas essas histórias e apoiar o movimento social em sua causa é a forma que nós, professores e pesquisadores, podemos contribuir de fato com a construção de uma rede alternativa de documentos históricos e, por conseguinte, com a transformação social necessária em nossa sociedade.

Anna Rita Ferreira de Araújo (Solidaried'Arte)
Projeto Solidaried'Arte: trabalhando em rede pela mudança da arte solidária.

Nos programas de voluntariado é comum a contemplação de atividades artísticas com oficinas, apresentações, recreação entre outros. Acredita-se que estas atividades presentes nos objetivos dos projetos voltados para o terceiro setor, por seu caráter lúdico e terapêutico, favoreçam os objetivos de resgate social, sensibilização, formação de consciência e construção de cidadania. Inegável é a eficácia de tais atividades, quando bem desenvolvidas. Por outro lado, é visível o desconhecimento, por parte dos coordenadores dos projetos e dos próprios voluntários envolvidos nas atividades artísticas, do papel cognitivo e formador da arte. Esse desconhecimento perpassa a sociedade em geral, inclusive as escolas e os educadores. E este é um problema estrutural do nosso país e que envolve nossa memória histórica e cultural.
Preocupados com estas questões e com o crescimento, nos últimos anos, das ações de voluntariado no Brasil que, muitas vezes, atuam sem se dar conta do grande potencial formador da arte, que apenas se utilizam desta como alegoria de projetos sociais, surgiu a proposta do Solidaried'Arte: uma comunidade virtual colaborativa ( e-group), sem fins lucrativos que visa a troca, reflexão, ações e discussão sobre as experiências de voluntariado em Arte. O Projeto, atuando há um ano e meio na Internet e nas comunidades carentes de São Paulo, tem como missão ajudar as pessoas envolvidas com o voluntariado a conhecer mais sobre a arte e compreender seu papel na formação dos indivíduos. De despertar e conscientizar o artista e o arte-educador para a importância de sua história e o compromisso de cidadania que, estes, devem assumir com a mudança social.
O projeto Solidaried'Arte, não possui qualquer vínculo com entidades, governos e empresas. Seus recursos (materiais e imateriais) são oriundos do empenho pessoal de cada participante que abraça e se integra à rede. Com visão pós-moderna, artística e tecnológica se propõe a democratizar e compartilhar a reflexão e o conhecimento, além da solidariedade, entre os que atuam e partilham da Arte no Terceiro Setor.
Ciente do caminho percorrido e do longo caminho a percorrer neste sentido, o projeto vem a público apresentar e discutir suas ações já realizadas e idéias em construção. O Solidaried'Arte busca a troca de conhecimento e experiências com interlocutores preocupados com as questões humanas e sociais brasileiras. Dessa forma, pretende contribuir e aprender com o debate da Memória, através do resgate social e de identidade que temos como missão realizar com os arte-educadores e arte-educandos envolvidos no projeto; da Rede, através de nossa experiência com educadores de diversas partes do país; e principalmente, da Mudança que tanto almejamos e vemos aos poucos os seus resultados.

Antonio Eleilson Leite (Ação Educativa)
O teatro Leopoldo Fróes Memória Cultural da Vila Buarque

Por meio de um levantamento sobre a cena cultural da Vila Buarque nas décadas de 1950/60/70, observamos que a maioria das instituições culturais da época permanece até os dias de hoje no Bairro. É assim o caso do Teatro de Arena Eugênio Kusnet e os teatros Itália, Fernando Azevedo, Paiol, Anchieta. Permanecem também a Biblioteca Monteiro Lobato, Escola de Sociologia e Política, Universidade Mackenzie, USP ( atrávés do Centro Universitário Maria Antônia ), Senac, Sesc, Aliança Francesa, Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sindicato dos Jornalistas. Por outro lado, várias outras instituições surgiram nas décadas posteriores, mantendo a tradição de agitação local.

Essa efervescência cultural porém, não é percebida na Cidade e nem mesmo os moradores do Bairro se dão conta da ampla oferta de serviços de educação e cultura existentes no local. De acordo com entrevistas realizadas recentemente com cerca de 15 moradores com mais de 30 anos de residência no local, a maioria se mostrou saudosista de uma época de agito cultural, que, para eles, se perdeu no tempo.

Ícone de um "passado de glória", o Teatro Leopoldo Fróes talvez seja um emblema dessa época esquecida de um Bairro que respirava cultura, glamour e vida intelectual. Inaugurado em 1952 como Teatro Infanto-Juvenil, o Leopoldo Fróes manteve uma programação regular por 10 anos. Em 1966, nele foi realizado o espetáculo Um Blues para Mr. Charles da Cia de Teatro Negro. Depois disso, o espaço foi utilizado para várias outras atividades sociais, até ser destruído no ano de 1972, com a alegação de construção no local de um amplo Centro Cultural. O projeto não foi efetivado e, no lugar do Centro Cultural, uma quadra de esportes foi erguida no terreno.

Recuperar a memória do Teatro Leopoldo Fróes e sua fugaz existência poderá nos ajudar a entender como a identidade do Bairro se perdeu. A Ação Educativa, por meio do Centro de Juventude e Educação Continuada pretende dar prosseguimento a pesquisa iniciada em 2002 por conta do 50º aniversário da inauguração deste Teatro a fim de estudar a tradição cultural da Vila Buarque tendo como recurso, o depoimento de moradores ou pessoas que viveram as décadas de 50/60/70 no local.

Sediada na Vila Buarque, a Ação Educativa motivou-se pela temática em função de sua aspiração em estabelecer um contato efetivo com a comunidade local, sobretudo com os grupos socialmente excluídos. Já vem atuando em rede com as instuições de educação e cultura do Bairro e deseja ampliar sua atuação como espaço de cultura e educação. Conhecer melhor o Bairro e sua identidade é fundamental para isso.

Claudia Rose Ribeiro da Silva e Antônio Carlos Pinto Vieira (CEASM)
Projeto Maré de Histórias

O Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré - CEASM, é uma Organização Não-Governamental criada em 1997, a partir da iniciativa da iniciativa de alguns moradores e ex-moradores das 16 comunidades que compõem o bairro da Maré. Esses moradores tinham em comum formação universitária e uma trajetória de militância em movimentos sociais nas comunidades.
Uma das estratégias adotadas pela instituição é trabalhar com os moradores o sentido de pertencimento ao lugar, suas origens e identidades associadas ao espaço global, cidade, país, mundo, possibilitando dessa forma, a ampliação de seus tempos e espaços existenciais e sociais.
Nesse sentido foi criada a Rede Memória da Maré, um programa voltado para o registro, preservação e divulgação da história local.
A atuação da Rede Memória se dá no sentido de favorecer a criação de canais que fortaleçam os vínculos comunitários entre os moradores da Maré e destes com a cidade.
Atualmente, a Rede Memória da Maré desenvolve os seguintes projetos:
1º. Arquivo Dona Orosina Vieira - O Arquivo Dona Orosina Vieira, foi inaugurado no dia 26 de abril de 2002, com o objetivo de preservar e divulgar a história do Rio de Janeiro, a partir da perspectiva do bairro Maré. Dessa forma, a iniciativa de constituição do arquivo contribui para ampliar as práticas de cidadania por parte dos moradores da Maré, democratizando o acesso a informações importantes sobre sua história. A equipe é formada por jovens universitários moradores da Maré que fizeram, em geral, o pré-vestibular oferecido pelo CEASM. Atualmente, eles estão em universidades públicas, cursando faculdades de História, Biblioteconomia, Arquivologia etc. Esses jovens realizam trabalho de pesquisa junto aos moradores locais para reproduzir os acervos pessoais, além de desenvolver pesquisa também em arquivos públicos da cidade.
2º. Projeto de História Oral - O Projeto de História Oral tem o objetivo de preservar a história das comunidades da Maré, através do registro dos depoimentos orais dos moradores mais antigos que são gravados em áudio e vídeo. Os documentos produzidos pelo projeto, além de compor o acervo do Arquivo, também contribuem para superar as eventuais lacunas da documentação existentes sobre a história local.
3º. Exposição Itinerante Memórias da Maré - O objetivo desse projeto é divulgar o acervo. Grande parte do acervo do Arquivo é constituída por fotografias, que retratam variados aspectos da história das comunidades locais, incluindo fotos do início do século XX, de autoria do conhecido fotógrafo Augusto Malta. A exposição está sendo apresentada em várias escolas da rede pública da Maré, sempre acompanhada de oficinas de jogos pedagógicos, desenvolvidos artesanalmente pela equipe do projeto.
4º. Grupo Maré de Histórias - Contadores de Histórias da Maré - O grupo é formado por moradores da Maré, que contam as histórias sobre o cotidiano e o imaginário das comunidades locais e desenvolvem um trabalho a partir das narrativas dos moradores, explorando o aspecto lúdico da história da Maré - as lendas e os causos narrados pelos mais velhos. Histórias como O Ensopado de Cobra, O Porco com Cara de Gente, O Casamento na Palafita e A Figueira Mal Assombrada fazem parte do repertório do Grupo Maré de Histórias que, assim como a Exposição Memórias da Maré, também faz apresentações itinerantes pelas escolas públicas do bairro.
Dessa forma, entendemos que o trabalho de memória deva ser desenvolvido em rede para potencializar seus resultados e garantir a permanente relação do local com o global.

Débora Ortiz De Leão
Professoras Alfabetizadoras: Memórias, Saberes e Representações

Repensar a formação das professoras alfabetizadoras a partir de suas memórias e saberes, nos permite olhar na direção de um outro caminho. Fala-se ainda hoje em alfabetização como se fosse algo a espera de novas metodologias ou teorias que possam diminuir os altos índices de analfabetismo do nosso país. Porém, desconsidera-se as trajetórias das professoras que atuam nas turmas de alfabetização e, destas, com os diferentes encaminhamentos dados à leitura e escrita nos ambientes escolares. Nosso objetivo é identificar, via memória, alguns saberes mobilizados por essas professoras no seu cotidiano de sala de aula. Como a relação com a leitura e escrita foi se construindo ao longo de suas histórias de vida e se essa relação interfere (ou não) em seus saberes da ação pedagógica. É uma pesquisa qualitativa, que tem nos relatos orais (gravados e transcritos) e nas escritas autobiográficas, sua principal fonte de investigação. Utilizamos ainda, entrevistas semi-estruturadas e um diário de campo. Incluímos, também a fotografia, como forma de ampliação da possibilidade de resgatar a história de vida contada através de imagens. Participam da pesquisa, três professoras alfabetizadoras de uma escola pública da cidade de Santa Maria/RS. Nesse trabalho, tanto as professoras pesquisadas, quanto a pesquisadora, se apropriam das representações e dos significados construídos nos diferentes espaços/tempos de formação. Os trabalhos desenvolvidos até aqui e as reflexões propostas em oficinas nos permitem compreender essas profissionais da educação como pessoas capazes de ressignificar suas ações, confrontando o passado com o presente e alterando suas práticas atuais.

Denísia Martins Borba
Afromineiridades: Os Bantus em Belo Horizonte

Para retratar o espaço trabalhado, o Terreiro de Candomblé, devemos sempre estabelecermos relações com a cidade. A cidade diz respeito a um espaço onde as pessoas se relacionam e constróem suas vidas.

Na (re)construção da história da cidade e do Terreiro, encontramos diferenciados o cotidiano religioso, o tempo histórico e o tempo vivido. Assim, devemos considerar que entre o vivido e o narrado localiza-se o fazer próprio do pesquisador. A escrita da história é marcada pela época em que vivemos, e o que é recuperado está sempre ganhando sentidos diferenciados.

Nos propusemos a pensar o espaço urbano como espaço da coletividade, um lugar onde as pessoas moram, trabalham, transitam, mas também se relacionam, desenvolvem afetividades e, geram expectativas e sonhos.

O nosso objeto de estudo, está marcado pela religiosidade popular e a nossa busca, é tentar resgatar a memória, desse povo, não mais africano, não só brasileiro, mas afro-brasileiro. Vamos apresentar a construção simbólica, dessa religião em Belo Horizonte.

Observamos vários elementos que fazem parte do cotidiano do candomblé, como por exemplo a presença marcante da reconstituição dessa religião, quase que na sua totalidade através da história oral, considerando que esta resgata a vida plena de um Terreiro, que mesmo sofrendo alterações, fica registrado na memória.

Para a construção da história do candomblé, os depoimentos são preciosos, pois somente através de do processo de rememoração é que se pode chegar a opiniões e análises do processo vivenciado pela família ancestral. Nesse sentido, os entrevistados narram importantes acontecimentos, considerando suas experiências cotidianas.

As tentativas de se resgatar alguns aspectos da cultura religiosa trazida, cultivada e reinterpretada pelos afrodescendetes nos parece pertinente, hoje, princípio, de um novo milênio, nesse momento em que há uma tentativa das instituições governamentais em reconhecer a marcante presença do povo africano na formação da sociedade brasileira.

Edna Maria Pita (Fundação Gol de Letra)
Núcleo Museu da Pessoa - Vila Albertina

A Fundação Gol de Letra tem como missão, Investir na formação de gerações de crianças e adolescentes capazes de transformar suas realidades, garantindo-lhes o direito à educação, à cultura e à assistência social.

No início de 2002, a Fundação Gol de Letra em parceria com o Museu da Pessoa e a Federação Nacional Léo Lagrange, desenvolveram o Projeto Museu Popular Vivo da Vila Albertina, neste projeto a oficina de Escrita da Vida teve um grande destaque, pois as pessoas da comunidade que a realizaram deixaram registradas suas histórias em livros produzidos por elas mesmas, livros estes que, hoje fazem parte do acervo da Biblioteca Comunitária da Fundação Gol de Letra.

O anseio em continuar a registrar as histórias dos moradores da comunidade, se transformou uma proposta, mas que durante algum tempo tornou-se um projeto engavetado, mas não esquecido.

Aproveitando a proposta do Museu da Pessoa em realizar o Seminário Internacional, Memória, rede e mudança social, esperamos resgatar e estruturar um núcleo de registro em nossa comunidade, temos a expectativa de que após participar das ações propostas pelo Museu da Pessoa, possamos repensar e avaliar como colocaremos todas estas idéias em prática na comunidade da Vila Albertina.

Erotilde Honório Silva (Universidade de Fortaleza)
Memória... Em Mim Mora

O presente trabalho trata da memória dos remanescentes de Guassussê, distrito de Orós, aldeiazinha perdida no Sertão Central do Ceará a 400km. de Fortaleza, capital do Ceará. Estas lembranças estão ligadas a um grupo de pessoas localizadas num tempo e espaço definidos e que vivenciaram momentos dramáticos e marcantes de suas vidas, por ocasião da construção do Açude de Orós, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek, em 1960. São eles um dos muitos grupos atingidos pela construção de barragens, no Brasil.
Trabalho com este grupo de idosos e com a comunidade (3000 habitantes) há 7 anos resgatando a história que eles vivenciaram e descobrindo como a memória chega às novas gerações: crianças, adolescentes e adultos jovens. A partir de suas histórias de vida foi escrita uma peça de teatro AUTO DA TERRA DA SANTA, encenada pelos próprios moradores, idosos, crianças e jovens. Também a partir da memória desenvolvemos na comunidade um trabalho artístico com 1 grupo de teatro, 1 coral adulto, 1 coral infantil e 1 grupo de dança. Essas atividades são desenvolvidas dentro das 3 escolas do distrito em oficinas de arte e oficinas de metodologia para os professores no sentido de melhorar a qualidade de ensino e a relação entre escola e comunidade. O texto da peça é estudado em sala de aula, os velhos vão à escola recontar suas histórias e os alunos fazem trabalho de campo entrevistando os idosos e ouvindo suas histórias. Observou-se uma menor evasão escolar e maior atenção dos alunos e pais para com a escola. As atividades artísticas que tratam da memória são apresentadas ao longo do ano em eventos para a comunidade e nas comunidades vizinhas o que muito tem colaborado para melhorar a auto-estima dos habitantes do povoado que viveram uma história dramática até chegarem a esse local.
Desse ponto de vista é fundamental levar-se em conta a perspectiva da memória na construção de identidades. É através dela que podemos definir valores referendados pela experiência e projetarmos o futuro, inseridos num espaço e tempo determinados e nas relações que aí se estabelecem. Participar desse evento com certeza muito enriquecerá a nossa perspectiva de construir ligações da memória dos pequenos grupos que não constam da história oficial, com o aqui e o agora, colocando na berlinda a existência dos projetos de comunicação da contemporaneidade, confrontando realidades distintas, procurando suas imbricações e desdobramentos.

Gisela Kodja
Bordadeiras do Morro da Nova Cintra - O fim de uma tradição

Introdução: Este trabalho foi apresentado durante o seminário Comunidade e Poder Local, no curso de pós-graduação em Gerontologia Social da PUC-SP, sob a orietação da Profª Drª Maria Lúcia Carvalho, titular da disciplina, no 1º semestre de 2003.

Objeto: formação expontânea de comunidades envolvendo idosos.

Objetivos: avaliar a importância de experimentar a vivência cooperativa para pessoas da terceira idade e avaliar o impacto das relações associativas na sociedade.

Metodologia: A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas e acompanhamento das atividades de um grupo de bordadeiras, imigrantes da Ilha da |Madeira, residentes na cidade de Santos, litoral do Estado de São Paulo. Este grupo de mulheres, fundou a União das Bordadeiras do Morro São Bento, com o objetivo de preservar uma tradição que elas trouxeram de sua terra natal. Todas elas, quando se engajaram neste movimento, já tinham mais de 60 anos.

Conclusão: O trabalho manual, a preservação das lembranças e a convivência com outras imigrantes motiva, empolga, renova a vida das bordadeiras.

Inês Assunção de Castro Teixeira
Vida e Obra de Guignard em Minas Gerais

Visando conhecer a trajetória do pintor modernista Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896 - 1962) iniciou-se, no ano de 2002, o estudo e a investigação de elementos de sua vida e de sua obra. Este trabalho focaliza, sobretudo, seu período de vida em Belo Horizonte e Ouro Preto (Minas Gerais), entre os anos de 1944 e 1962, nele reconstituindo os traços, os costumes e a figura humana do artista; seus rituais e rotinas de vida e de trabalho, bem como as relações entre o artista e estas cidades. Esta reconstituição está sendo feita por meio de pesquisa documental em acervos individuais e institucionais e, sobretudo, pela metodologia da História Oral. Neste sentido, estão sendo realizadas entrevistas com diversas pessoas que conviveram intensa e freqüentemente com o pintor ou que o conheceram de perto, além de críticos e historiadores da arte. Quanto ao estudo da obra, está sendo feito um inventário para obtenção de subsídios para o mesmo, destacando-se a identificação de materiais e técnicas próprias do processo criativo do artista. Algumas obras significativas estão sendo analisadas por métodos físico-químicos e experimento de cores, contribuindo para revelar a sua autenticidade. Espera-se que as questões, descobertas e a metodologia deste trabalho, na confluência da vida e da obra do artista, possam servir de referências e subsídios para estudos nas áreas de Artes Plásticas, de História da Arte, de educação e de preservação de bens culturais. Pretende-se ainda, como resultado final, oferecer ao público um banco de dados referencial, subdividido em Vida e Obra, Depoimentos, Inventário, Estudo da Obra e Bibliografia sobre o artista, com acesso via Internet.

Observação: Vínculos institucionais deste projeto de pesquisa e justificativa para a participação no Seminário

Este projeto de pesquisa, atividade em andamento, é um dos trabalhos desenvolvidos atualmente pelo Programa de História Oral do Centro de Estudos Mineiros da FAFICH/UFMG, um dos principais centros de trabalho com História Oral no Brasil. Trata-se de um Programa e Acervo com longa e significativa produção de pesquisa, mediante financiamentos do CNPq, CAPES, FAPEMIG, UFMG, criado em 1990 por um grupo de pesquisadores da UFMG. O projeto Guignard, mais especificamente, também financiado pelo CNPq, está sendo realizado em parceria com o CECOR, um centro de conservação de obras artísticas da Escola de Belas Artes da UFMG. Seja pelos trabalhos já realizados por este Programa de História Oral, seja pela programação do Seminário, seja pela temática e metodologia utilizada no Projeto Guignard, temos grande interesse em participar e contribuir com este Seminário, trocando experiências, conhecimentos e inquietações com outras instituições e grupos que trabalham com História Oral. Deve-se ainda destacar que a pesquisa aqui proposta para apresentação no referido seminário, já resultou em um projeto de acervo e informação digital, a ser disponibilizado via on line em futuro próximo, que pretendemos também apresentar no Seminário.

Inês Ferreira de Souza Bragança (UERJ) e Jaqueline Morais (UFRJ)
Vozes da Educação - Memória e História das Escolas de São Gonçalo

O Projeto de Pesquisa e Extensão "Vozes da Educação, Memória e História das Escolas de São Gonçalo", foi criado em 1996 na Faculdade de Formação de Professores da UERJ e tem como objetivo principal promover o resgate da memória e da história da educação de São Gonçalo. A atuação do projeto tem como princípio a articulação entre pesquisa, extensão e ensino, buscando permanente interlocução entre os diferentes setores sociais externos e internos à comunidade universitária.
Ao longo dos sete anos o projeto desenvolveu diferentes ações buscando constituir espaços de memória, narração e formação para alunos/as e professores/as em um permanente diálogo com a cidade de São Gonçalo: gincana para criação do acervo, projeto "Profissão-Professor", em convênio com o Sepe/SG, projeto "Vídeo-Educador", diversos seminários, cursos e mostras. Contudo, para apresentação no "Seminário Internacional", destacamos especialmente a organização dos núcleos de memória nas escolas, envolvendo seus sujeitos (professores/as, alunos/as e comunidade) no levantamento da história da educação pública contida nas fontes documentais existentes nas escolas, bem como no registro de relatos orais .
A recuperação destes registros que compõem a memória da educação tem trazido significativo impacto, não só pela necessidade de se resgatar a memória institucional e cotidiana de nossas escolas, mas fundamentalmente pela possibilidade de estabelecermos elos articuladores que nos permitam historicizar e problematizar propostas e projetos de educação em vigor nos dias atuais. Desejamos com nosso trabalho possibilitar um movimento de reflexão dos professores/as acerca de sua própria história com vistas a garantir a sistematização e organização dos registros dessa memória.
Pretendemos, no relato de nosso trabalho, estabelecer um diálogo sobre essa experiência. As vozes da escola contam suas memórias e histórias, e ao contá-las, Universidade e escola ressignificam seus saberes e organizam projetos de futuro. Neste movimento vislumbramos a revitalização da formação e da ação docente.

Isabela Oliveira Pereira Da Silva
Produção videográfica do Teatro Oficina realizada durante o período da ditadura militar

A presente proposta tem como objetivo apresentar o desenvolvimento da pesquisa "Mapeamento da produção videográfica do Teatro Oficina realizada durante o período da ditadura militar", selecionada pelo Programa Rumos Pesquisa Itaú Cultural 2003, cujo objetivo é incentivar trabalhos que tratem da relação entre as artes e as mídias. A pesquisa visa, em síntese, fazer o mapeamento da produção em vídeo do núcleo de realizadores ligados ao Teatro Oficina e se desdobra em dois momentos: 1) levantar e catalogar dados já existentes; 2) produzir um novo acervo, de registro audiovisual, com entrevistas e relatos de seus realizadores que deverá servir para consultas públicas no futuro.
A atividade junto ao Itaú Cultural se insere em um projeto maior, intitulado "Imagens subversivas: os usos e desusos da expressão videográfica pelo Teatro Oficina no período da ditadura militar". Trata-se de uma pesquisa em nível de Mestrado, em desenvolvimento desde março de 2003 junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, Campus de Marília cujo objetivo é investigar o surgimento de novas tecnologias audiovisuais, as inovações no campo da estética e da linguagem nas artes e comunicações e os usos do vídeo durante o período (1964-1985). É nessa época que surge no Brasil artistas pioneiros que começam a explorar o vídeo como suporte de uma nova linguagem dissociada da televisão, nesse sentido, o chamado "vídeo independente" constitui uma rica fonte de informações capaz de fornecer muitas respostas acerca do contexto social da época estudada.
A participação do presente trabalho no evento justifica-se pela importância da reflexão sobre o uso politicamente orientado de novos meios de reprodução de imagem como prática de resistência social e suas relações entre condicionantes objetivas e subjetivas, tais como técnica, tecnologia, arte e política, contribuindo, assim, para o debate das possibilidades emancipatórias da artemídia, em especial do vídeo. Além da discussão teórica, a participação no grupo de trabalho possibilita a articulação da iniciativa de constituir uma rede de memória com base no acervo estudado, disponibilizando assim os resultados da pesquisa que destina-se a resgatar parte importante tanto da memória audiovisual brasileira como também da história recente do país.

Ivete Faria (Estação Memória)
Biblioteca Interativa

A Estação Memória é um espaço de comunicação, dedicado às trocas culturais entre as gerações, aberto ao público em 1997, na Biblioteca Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, no bairro de Pinheiros. O projeto foi criado na Universidade de São Paulo, em 1991, pelo Prof. Dr. Edmir Perrotti, do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes, e realizado em parceria com o Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo.
A Estação Memória coleta e trata as experiências de vida de idosos, disseminando-as, de diferentes modos, junto a grupos de alunos, educadores e interessados em geral, como forma de inserção sociocultural de segmentos excluídos e de resposta ao hiato comunicacional entre as gerações.
Os relatos dos idosos são a matéria prima da Estação Memória. Por isso, a coleta dos depoimentos é parte importantíssima do trabalho. Além das entrevistas individuais são realizados também encontros com grupos, para registrar depoimentos sobre vários temas. Dentre as diferentes práticas culturais realizadas, são desenvolvidas sistematicamente a Oficina de Memória e a Roda de Histórias. Na Roda, os idosos narram não só histórias de vida, mas também histórias de ficção como contos de tradição oral, lendas, mitos, etc. compartilhando estas experiências com crianças e jovens de diversas instituições educacionais. A produção obtida nas Oficinas é tratada gerando outros materiais e atividades. Boa parte das histórias já virou livros, exposições, painéis, cartas... O material elaborado pelos idosos, além de permitir a conservação dos depoimentos, dá apoio à preparação de encontros inter-geracionais. Nesses encontros os velhos se aproximam, narram e trocam suas experiências de vida com os mais jovens.
A Estação não quer apurar a verdade dos fatos: o que se busca é a lição dos fatos guardada na memória dos sujeitos.

Júlia Falivene Alves, Maria Cristina Vendrameto e Maria Lucia Mendes de Carvalho (Centro Paula Souza)
Pesquisa sobre o Ensino Público Profissional no Estado de São Paulo: Memória Institucional e Transformações Histórico-Espaciais Regionais.

O projeto consistiu na instalação de Centros de Memória nas oito escolas participantes - com Acervos Documentais Organizados, Bancos de Dados Informatizados, espaço para Exposição de Fotos e de Objetos Museológicos, Salas de Trabalho e Salas de Consulta e Pesquisa - e a viabilidade de acesso do público, em geral, e de pesquisadores, em particular; aos documentos textuais, iconográficos, museológicos e às entrevistas/depoimentos de seus ex-alunos, ex-professores e funcionários.
O trabalho de organização das fontes provenientes dos diferentes conjuntos documentais das escolas técnicas viabilizou o contato da comunidade escolar e da população local com questões referentes à preservação da memória institucional e o desenvolvimento de ações de preservação do patrimônio histórico e cultural - entendidas como fundamentais para a constituição e o exercício da cidadania.
Como resultado de suas atividades, o projeto produziu um Álbum Fotográfico, com cerca de 100 fotos dentre as mais antigas dos Acervos das escolas e textos explicativos e complementares, e também, o livro "Contribuição à Pesquisa do Ensino Técnico no Estado de São Paulo: Inventário de Fontes Documentais, e lançará a obra "Memória e História, Educação e Trabalho no Estado de São Paulo: uma relação em construção", além de um CD-Rom de Divulgação sobre o desenvolvimento do Projeto.
O envolvimento de alunos, professores, funcionários e comunidade local com a história da instituição escolar da qual são agentes possibilitou oportunidades de reflexão sobre as relações entre memória e história; mais ainda, contribui para ações efetivas de solidariedade, de valorização das experiências humanas acumuladas - fonte de apoio a implementação de programas e projetos educacionais, culturais, técnicos e científicos que visem à melhoria das condições e da qualidade de ensino.

2 - Objetivos
Promover a construção e preservação da memória institucional;
Propiciar o encontro entre pesquisa e atividade pedagógica, através da integração dos diferentes agentes das práticas escolares na produção do conhecimento histórico.

3 - Justificativa
A precária situação dos acervos documentais das escolas técnicas: documentação dispersa, sem qualquer acondicionamento, deteriorando-se e sendo perdida - exigia providências urgentes no sentido do envolvimento das escolas e de sua administração com a questão de construção e preservação da memória institucional. Com esse intuito o projeto foi apresentado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo pelo Centro de Memória da Universidade de São Paulo, e desenvolvido, de 1998 a 2001, em cooperação com o Centro Paula Souza, através da Coordenadoria do Ensino Técnico, em oito escolas da Instituição.

Leila Gasperazzo Ignatius Grassi
Memória Histórica Familiar: O Resgate da Cultura Popular

Esse trabalho diz respeito a uma prática docente com alunos do ensino superior na disciplina Cultura Brasileira que ministrei por 09 anos na USC (Universidade do Sagrado Coração), Bauru (SP). Trata-se de refletir, a partir dos nossos nomes e sobrenomes sobre nossa maneira de pensar, agir e sentir, isto é sobre nossa cultura. Resgatando como e porque do nosso nome, quem nos deu, nossos apelidos, nossos sobrenomes de onde vieram, suas grafias, etc. chegamos à nossa história familiar e reconstruímos a cultura popular brasileira com suas especificidades regionais.
Desse trabalho rememorado, refletido, discutido, partilhado, resultam documentos escritos (trabalhos de final de disciplina) já levados à publicação por parte de várias famílias dos alunos com distribuição a todos os seus membros e também uma vontade maior de redescobrir e mais conhecer sobre nossa história nacional. Do micro universo (cada um de nós) até o macro universo (no caso o Brasil), com um melhor aproveitamento e construção do conteúdo curricular.
Participar desse Seminário e colocar em discussão essa prática de ensino aumentará nosso saber a respeito da cultura brasileira e despertará a curiosidade científica para a pesquisa sobre a MEMÓRIA, para que transformemos essa memória histórica numa extensa REDE para uma trajetória de MUDANÇA SOCIAL efetiva.

Licemar Vieira Melo
Batalha do Pulador: um resgate

Este trabalho desenvolvido em 1999, através da disciplina Projeto Experimental em Jornalismo, do curso de Comunicação Social: Jornalismo, da Universidade de Passo Fundo - RS, reconstitui, através da história oral, um dos maiores e mais violentos combates acontecidos durante a Revolução Federalista de 1893: a batalha do Pulador.
O combate, que aconteceu em 27 de junho de 1894, destacou Passo Fundo, um município do norte gaúcho, no cenário da guerra civil que, por mais de 30 meses, dividiu o Rio Grande do Sul em duas facções políticas e exterminou com a vida de 12 mil gaúchos, vítimas de um genocídio que popularizou a prática da degola.
Além de marcos históricos feitos em pedra, que servem para demarcar o local onde teria acontecido a batalha -distrito de Pulador, interior do município de Passo Fundo, o fato, que aconteceu há mais de um século, ainda era preservado por descendentes de combatentes e de pessoas que testemunharam aquele episódio, que guardavam, na memória, as histórias contadas por seus pais ou avós.
Com este trabalho, que durou seis meses, foi possível não só relembrar um fato histórico de destaque para o município, e que era desconhecido de grande parte de sua população, mas, através das histórias relatadas, tirar do anonimato pessoas que, por convicções ideológicas e políticas, participaram da batalha e nunca tiveram os seus nomes citados nos livros de História.
O resultado dessa iniciativa foi a publicação da reportagem "Anônimos combatentes do Pulador" no jornal O Nacional, de Passo Fundo, em 27 de novembro de 1999.
Essa reportagem especial, de 7 páginas, registrou um outro olhar, que não o da história oficial, sobre a batalha do Pulador e revelou, através do uso da história oral, detalhes curiosos da vida pessoal de combatentes e de mulheres que viveram naquela época.
Essa publicação, resultado de um trabalho acadêmico, foi requerida pela Câmara de Vereadores de Passo Fundo, para ficar arquivada nos Anais daquela Casa Legislativa, por oportunizar "a Passo Fundo e nossa gente, este mergulho ao nosso passado e ao resgate destas ações heróicas e dedicadas".

Lourival dos Santos
Sincretismo e religiosidade de negros Católicos Devotos da Aparecida

A Comunicação versará sobre os resultados de pesquisa de doutorado em fase de conclusão. O trabalho baseia-se em entrevistas com famílias negras católicas devotas de Nossa Senhora Aparecida.
Em geral os trabalhos acadêmicos sobre religiosidade dos negros brasileiros giram em torno de manifestações das religiões afro-brasileiras, dando ênfase a resistência cultural expressas nas práticas religiosas e na visão de mundo peculiar advinda da adesão à essas religiões.
Meu trabalho procura mostrar a influência dos negros nas práticas devocionais católicas, na cidade de São Paulo. A imagem de Nossa Senhora Aparecida sofreu um processo de enegrecimento entre o final do século XIX e o início do século XX. Não considero obra do acaso o fato de a padroeira do "maior país católico do mundo" ser negra (ou mestiça?).
Nas entrevistas, nota-se a "invisibilidade" da negritude de Nossa Senhora Aparecida para os brancos, fato que se repete na maior parte das canções e orações dedicadas à Virgem Aparecida. Opostamente, para as famílias negras, a cor de Nossa Senhora é sublinhada quase como um ato de afirmação política.

Lucia Alves da Silva Lino (MAST)
O Grupo Mundo da Lua e as Lembranças Científicas do Vô Chico

O Grupo Mundo da Lua nasceu de um projeto denominado "Museu Conta Histórias", que começou a ser desenvolvido em agosto de 1994 no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). O objetivo principal era popularizar a ciência através da arte de contar histórias.
Em 1994, a contação de histórias era feita no primeiro domingo do mês juntamente com outras atividades da instituição. Em 1997, o grupo Mundo da Lua foi criado e o projeto "Museu Conta Histórias" tornou-se uma atividade fixa na programação do MAST, e acontece todo quarto domingo do mês.
No início do projeto contávamos histórias já existentes, mas com o passar do tempo, motivados pela dificuldade de encontrar textos já produzidos que atendessem a proposta do projeto - integrar histórias à atividade científica - percebemos a necessidade de criar histórias inéditas que respondessem aos nossos objetivos. Assim, o grupo passou a produzir textos direcionados a um fenômeno científico, que de tão corriqueiro, acaba passando despercebido.
Criamos a cidadezinha Pedra do Céu onde mora o vô Chico, um velhinho de 90 anos e profundo conhecedor dos assuntos científicos. Ele conta para as crianças como buscava respostas para as suas indagações com relação à ciência.
Após contar uma história, fazemos brincadeiras e atividades que lembram algo acontecido no conto infantil e, a partir daí, procuramos aprofundar um fenômeno, despertar o interesse para o seu conhecimento ou explicação por parte do público. Ao final das atividades, sempre distribuímos um texto relacionado ao tema proposto.

Objetivo: Popularizar a ciência através da arte de contar histórias, despertando o interesse pelo conhecimento científico no público infanto-juvenil (7 a 12 anos).

Justificativa da participação: A contação de histórias é uma representação viva da memória de uma sociedade. A atividade que desenvolvo no MAST procura despertar o lado cientista que existe em cada um de nós.

Marcia de Castro Borges
Trajetória da Associação dos Expedicionários Brasileiros em Campinas

Este paper tem o objetivo de relatar o processo de pesquisa que possibilitou uma reconstrução da trajetória da Associação dos Expedicionários Brasileiros em Campinas, a partir da memória de seus membros. Tal investigação utilizou como alicerce as ferramentas metodológicas da História Oral, as quais foram fundamentais para conhecer uma parte da história dos soldados brasileiros (expedicionários) que lutaram ao lado dos Aliados durante a II Guerra Mundial, na Itália ( Livorno, Monte Castelo, Montese) entre 1944 e 1945, que quase sempre esteve silenciada.
Essa proposta efetivou-se através de entrevistas coletadas com o grupo, e buscou mesclar História Oral Temática com História Oral de Vida, interligando informações pessoais ou factuais, referentes à esses atores da história, relevantes na elaboração da história da Associação dos Expedicionários Brasileiros em Campinas.
Ainda que para desenvolver este trabalho as fontes de pesquisa sejam fartas, foi necessário selecionar um número reduzido de depoentes, com o intuito de apresentar a história dessa associação de ex-combatentes e divulgar para a comunidade em que vivem.
Todos participantes da Força Expedicionária Brasileira - FEB, e constituem uma rica fonte histórica viva, que através de suas memórias constróem a própria história. Não devemos esquecer que o registro desta história contribui para a história social brasileira.
Sobre a Associação devemos ressaltar que seu quadro de sócios não é renovável, ao contrário de uma associação normal, o que configura um fator significativo para a pesquisa, pois prevê um fim. Assim, esta é uma tentativa de dar voz a uma história de luta que esteve silenciada por muito tempo.
Associação dos Expedicionários Campineiros, pioneira no território nacional, é formada por ex-combatentes brasileiros da 2ª Guerra Mundial, tanto pelos que lutaram nas fronteiras, quanto por aqueles que foram lutar em solo estrangeiro.

Márcia Regina da Silva Ramos Carneiro
Memória de Militantes Integralistas

Como pesquisadora e membro do Laboratório de História Oral da Universidade Federal Fluminense, tenho trabalhado no recolhimento e na análise de depoimentos de militantes da Ação Integralista Brasileira, associação com caracteríticas fascistas. Trabalho com histórias de vida e de militância integralista desde 1996, quando comecei a pesquisar o tema para a minha monografia de graduação na UFF a partir do relato de uma ex-militante. Ao cursar o mestrado (UFF), minha dissertação abordou o mesmo assunto e, usando também a metodologia da História Oral, tabalhei com depoimentos de cinco militantes da AIB do período 1932-1938. Atualmente, em minha pesquisa de doutorado, estou recolhendo depoimentos de militantes que buscam reorganizar o movimento em todo o Brasil. Entre eles há ex-militantes da AIB, ex-pardidários do PRP (Partido de Representação Popular), braço partidário da ideologia integralista no período entre 1945 até 1964, e jovens simpatizantes das idéias integralistas. Devido ao impacto nos meios acadêmicos deste trabalho sobre a reconstrução da memória integralista nos dias atuais, a continuidade da pesquisa tornou-se relevante para uma compreensão mais crítica da formação ideológica da sociedade brasileira. O meu objetivo em participar deste evento é poder dialogar com outros estudiosos do resgate de memórias e contribuir para a possibildade de se pensar os argumentos do "outro", sobre as suas idéias e escolhas no que se refere ao pensar a política e a vida de brasileiros que não estão representados nas configurações de maioria.

Maria Aparecida Magnani
Centro de Referência em Educação Mário Covas

Na reformulação da proposta inicial foram mantidos os principais objetivos e com essa perspectiva, o Memorial da Educação Paulista iniciou seu trabalho com ações, tais como:

- montagem da exposição: A escola pública e o saber: trajetória de uma relação, instalada no CRE e apresentada virtualmente no site www.crmariocovas.sp.gov.br, que destaca, sobretudo, aspectos significativos da história da educação paulista.
Inaugurada em 12 de março de 2002, essa exposição já foi vista, até 22 de maio de 2003, por 7.307 pessoas, na sua maioria educadores e alunos de cursos de magistério, em visitas programadas e monitoradas, além das 3.578 visitas expontâneas ao CRE que, na sua maioria, recebem orientações de nossos monitores.
- desenvolvimento do Projeto Nossa Escola tem História, estimulando e orientando escolas estaduais paulistas a inventariar e preservar seus patrimônios históricos, bem como a registrar depoimentos para formação de um banco de dados central.
- Museu virtual: Uma das propostas do Núcleo de Referência em Memória da Educação é organizar a catalogação do acervo histórico de cinco escolas importantes do ponto de vista histórico. Posteriormente, pretende-se ampliar esse trabalho para outras quinze escolas, que serão acompanhadas de perto para o desenvolvimento de seus projetos. Os resultados desse trabalho serão divulgados no site do CRE;
- Publicação de um hipertexto sobre a história da educação paulista (já em fase de finalização);
- Publicação de histórias das escolas estaduais paulistas (até o momento já estão no site as 109 escolas mais antigas);
- Coleta e hospedagem no site do CRE de depoimentos de pessoas cujas trajetórias de vida estão ligadas às escolas estaduais paulistas;
- Organização de um Banco de Dados, com documentos, fotos, depoimentos, informações sobre acervos, que deverá se alimentado continuamente;
- Higienização, catalogação, acondicionamento e registro em banco de dados do acervo histórico da Escola Estadual Caetano de Campos.

Maria da Conceição Carneiro Oliveira
Coleção Pensar e Construir - História

A coleção Pensar e Construir- História como uma contribuição para o ensino da história que seja capaz de desenvolver valores e atitudes de respeito à cidadania e a pluralidade étnica e cultural
É necessário combater o preconceito e o racismo e estimular um ensino de respeito à pluralidade étnica e cultural.
Pesquisa divulgada recentemente pelo MEC mostra que a exclusão social, a piora na qualidade do ensino e o racismo afetam profundamente o aprendizado das crianças negras. A conclusão é do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), após estudo da evolução dos resultados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), entre 1995 e 2001.
O trabalho mostra que a média obtida pelos alunos brancos da 4ª série do ensino fundamental em língua portuguesa, em 1995, era de 193,4 enquanto dos alunos negros era 173,8. Naquele ano, a diferença era de 19,6 pontos na escala que vai de 125 a 425. Já em 2001, a média entre os brancos foi de 174 e a dos negros de 147,9 -uma diferença de 26,1 pontos. Segundo o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Carlos Henrique Araújo: "Este resultado revela que houve um aprofundamento da desigualdade nos últimos anos entre negros e brancos".
O presidente da Fundação Cultural Palmares, Ubiratan Castro de Araújo,
enfatiza que há um "motor" que reproduz a desigualdade racial da sociedade na escola e afirma: "Da educação infantil à superior há em todo o sistema de ensino pessoas reproduzindo o racismo de forma automática." Para ele, qualquer ação de enfrentamento da desigualdade racial na educação deve ser acompanhada de políticas de combate ao racismo. (Folha de São Paulo edição online, 14/07/2003 Piora na qualidade do ensino afeta mais estudantes negros, diz MEC).
A coleção Pensar e Construir- História tem como objetivo o resgate da história da escravidão, assim como o de grupos sociais sistematicamente marginalizados socialmente e em seu direito à memória e à história.
A partir do trabalho com texto narrativo ficcional, protagonizado por 11 personagens-crianças representativas da diversidade socioeconômica, cultural, étnica, pertencentes a diferentes arranjos familiares e residindo em diferentes regiões do pais, diferentes temas significativos são trabalhos em perspectiva histórica e próximos ao cotidiano de nossas crianças.
Mesmo aprovada pela avaliação do PNLD, que reconhece no esforço autoral a pertinência entre a proposta pedagógica e o trabalho desenvolvido em cada volume para a formação de cidadãos críticos e solidários, a coleção vem sofrendo inúmeras resistências e perseguições por parte dos setores conservadores da sociedade. A editora recebe e-mails de orientadores pedagógicos que se recusam a adotar a coleção, devido ao fato de ela valorizar o candomblé como prática social e como traço de identidade no passado e presente de nosso país. Em junho um vereador do PL da Câmara de Pato Branco (PA) e pastor da Igreja Quadrangular, após um pronunciamento corrosivo na tribuna onde associa as religiões afro-brasileiras à "coisa do demônio" e explica a miséria do continente africano devido "à adoração dos demônios", requereu junto às autoridades executivas e legislativas do estado do Paraná a cassação da coleção.
Esse trabalho pretende mostrar como é necessário um ensino de história comprometido com o combate ao preconceito e à discriminação e como ele é possível a partir de uma proposta didático-pedagógica que tem a coragem de enfrentar os conflitos latentes em nossa sociedade e evitados a todo custo em nossas escolas.

Maria de Fátima Ramos de Almeida
Laboratório de Ensino e Aprendizagem Em História/UFU: Uma Experiência

O Laboratório de Ensino e Aprendizagem em História foi criado em 1982, no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia, com a finalidade de promover estudos, pesquisas, produção e intercâmbio de recursos didáticos e pedagógicos relativos ao ensino de história nos níveis fundamental, médio e superior. Para isto foi criada uma infra-estrutura mínima que implicava espaço próprio e pequeno acervo bibliográfico, o qual se ampliou ao longo do tempo por meio de doações e intercâmbios. Os recursos para implementação das atividades do LEAH foram ampliados com a aquisição de equipamentos, arregimentação de documentos oficiais ou não relativos à educação e produção teórica e de material didático-pedagógico, por meio da realização de projetos destinados à melhoria do ensino de História.
Recentemente, em 2002, quando o LEAH foi incorporado ao Centro de Documentação e Pesquisa do Instituto de História, decidiu-se organizar a sua memória e fazer um inventário do seu acervo. Este acervo foi disponibilizado aos pesquisadores da área da educação, tornando-se importante fonte para a elaboração de novos projetos que possibilitem o aprofundamento da interação Universidade/comunidade escolar de nível básico.
O acervo do LEAH formou-se com as atividades que foram sendo realizadas desde a criação do Laboratório. Os documentos que o constituem dizem respeito a relatórios de Prática de Ensino de História e de atividades de extensão; anais de encontros e seminários; projetos de cursos, oficinas e de atividades diversas que promoveu; documentos produzidos para intervenção em processos de reformas curriculares do sistema educacional do estado de Minas Gerais e do município de Uberlândia; monografias, dissertações e teses dos alunos e professores dos cursos de História da UFU; documentos relativos às suas próprias publicações - revistas Cadernos de História e O livro didático em discussão - ; mapas; cartazes; documentos orais (entrevistas, conferências, mesas redondas); documentários em vídeo; fotografias; diafilmes; atas, correspondências internas e externas.
O trabalho de organização arquivística desse material, realizado pelo historiador João Francisco Natal Greco (funcionário do CDHIS) e pelo estagiário Renato Jales da Silva Jr. (aluno do curso de graduação em História), obedeceu a uma metodologia específica, que será apresentada no evento em power point, utilizando o equipamento datashow.

Marialice Piacentini (Fundação Fé e Alegria)
A experiência do Projeto Bibliotecas Comunitárias no levantamento da memória da comunidade.

A Fundação Fé e Alegria (FyA), é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, vinculada aos jesuítas, fundada em 1955 na Venezuela e presente no Brasil desde 1980, com atuação em 10 estados brasileiros.
O Projeto Bibliotecas Comunitárias é desenvolvido pela Fundação Fé e Alegria em São Paulo, desde 1994, em parceria com instituições comunitárias localizadas em bairros periféricos das zonas norte e sul da cidade de São Paulo.
Tem como objetivo contribuir para fortalecimento da ação protagônica de jovens, na promoção do acesso a informação e a cultura e a produção de conhecimento na sua comunidade.
As comunidades, assessoradas pela equipe de Fé e Alegria, planejam, montam e respondem pelo funcionamento das Bibliotecas com o protagonismo de jovens voluntários, denominados mediadores de leitura.
É um projeto inovador por mobilizar jovens na sua promoção e sustentabilidade e também pela proposta de tratamento da informação e produção de conhecimento que supera as concepções conservacionista e difusionista de biblioteca.
Atualmente, estão em funcionamento, 10 bibliotecas, em bairros das regiões norte e sul da cidade de São Paulo e 2 em processo de implantação.

Como público alvo direto do projeto, são 86 jovens atuando como mediadores de leitura e indiretos todos os atendidos pela biblioteca, em 2002, foram 12.803 atendimentos realizados.
As atividades realizadas visam instrumentalizar a atuação do mediador dentro da perspectiva de atuação como sujeito social e cultural comprometido com sua comunidade. São elas: a) Formação Continuada para Mediadores de Leitura, atualmente focada na temática memória da comunidade; b) Conselho de representantes das BCs, denominado "Porta Vozes da Cultura"; c) Assessoria local; d) Encontro com Representantes de Instituições Acolhedoras, lideres de comunidade e representantes dos mediadores de leitura e) Encontros Culturais; f) Visitas a Museus, exposições e espaços culturais; g) Formação de lideranças comunitárias.
Em 2003, o projeto Bibliotecas Comunitárias deu início a atividade de registro da memória da comunidade, através de depoimentos das pessoas mais antigas das comunidades, onde as bibliotecas estão inseridas. Para os mediadores de leitura é uma experiência nova e aos poucos vão percebendo seu significado e a sua importância. Para fortalecer esta experiência é importante que se sintam articulados a outras experiências do gênero.

Maria Daniela Bueno de Camargo Paulino (Espaço Cultural da Fazenda Capoava)
A preservação do Patrimônio e o Resgate da Memória: A Fazenda Capoava.

A recuperação de um patrimônio secular num espaço rural, a Fazenda Capoava, fundada em 1750 com a lavoura canavieira que passou a partir de 1880 a ser uma unidade produtiva cafeeira até cerca de 1942, na cidade de Itu implicou na recuperação da Memória da região, visto a necessidade de informações de documentação histórica e de coleta de História oral, de pessoas que moraram ou freqüentaram o local em questão: proprietários e familiares, colonos, trabalhadores, ascendentes de escravos. Foi iniciado no ano de 2001 e continua, em 2003 em desenvolvimento, incluindo desdobramentos dos objetivos iniciais.

A memória tornou-se territorialidade do patrimônio edificado; e as informações trazidas pela recuperação e preservação destes itens podem esclarecer a História da região.O patrimônio pode ser explicado pelos relatos de memória de quem ali viveu, construiu e trabalhou. Desta forma ela foi um instrumento de esclarecimento que se tornou fundamental para a reconstrução das características históricas e culturais do centro do trabalho, envolvendo a comunidade local e escolas da cidade de Itu.

As informações ganharam um livro e um espaço físico, ele próprio um patrimônio histórico e território da memória: uma antiga tulha de café. Neste local, a memória pode cristalizar-se em objetos e fotografias. O acervo formado neste espaço fornece ferramentas pedagógicas para escolas estaduais da cidade de Itu. Em parceria com o CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, a Fazenda desenvolve o projeto educacional: "Revivendo a História, repensando a vida", que possibilita na forma de visitas e trabalhos o contato com as informações sobre a História e Cultura locais que foram recuperadas; neste âmbito, o trabalho com resgate de memória é uma ferramenta que se estende à comunidade local e propicia novas possibilidades de aprendizado.

A participação no Seminário Memória, rede e mudança social objetiva a exposição do trabalho como forma de trocas de experiências de trabalhos com memórias, técnicas de pesquisa e formas de trabalhar com o material coletado assim como disponibilizar o material a todos os que possam se interessar. O material recolhido pelo Espaço Cultural da Fazenda Capoava está inserido na temática e proposta de atividades do Evento.

Marlus Niebuhr (CEDOM)
Projeto CEDOM: Experiências com Acervo, Educação e Memória

O presente resumo discute a formação do Centro de Documentação Oral e Memória - CEDOM e sua contribuição para a dinamização da pesquisa, a valorização dos Acervos históricos na cidade de Brusque e região, bem como o salutar envolvimento entre a Universidade e o Ensino Básico.

O projeto "CEDOM" foi criado a partir da constatação da importância da constituição de acervos de memória, neste sentido buscou-se a história oral como fundamental instrumento de pesquisa. Buscando apoio da instituição FEBE, Fundação Educacional de Brusque, o Centro foi criado em 1997, e conta hoje com 109 entrevistas, que estão transcritas e digitalizadas, como também 800 imagens (documentação iconográfica) que estão distribuídas nas linhas de pesquisa: memória e educação, memória e imigração, acervos e tecnologia.

Linha de pesquisa "memória e educação" se destaca o projeto "Bairro e Memória":
- Fase 01 - Bairro São João, Fase 02 - Bairro Limeira, Fase 03 - Santa Terezinha (em andamento). O diferencial deste projeto é que as salas de aula e os corredores das escolas se transformaram em espaços que refletiram a cultura local; grandes painéis retratavam os passos da pesquisa expondo trechos de entrevistas e fotografias, os idosos foram convidados de honra apresentando seus depoimentos à comunidade local.

Linha de pesquisa "memória e imigração" onde encontramos entrevistas com imigrantes da região do Vale do Itajaí Mirim. Entre os relatos a disposição, encontram-se da imigração italiana, alemã e polonesa. Sendo que merece destaque o Núcleo de Documentação Italiana.

Linha de pesquisa "Acervos e tecnologia" desenvolvendo um trabalho de democratização de informações através da internet, bem como auxiliando no processo de preservação do Patrimônio Histórico do Vale do Itajaí Mirim e região.

Mirian Celeste F.D. Martins (Instituto de Artes /Unesp)
Ressonâncias Estéticas: Marcas de Histórias do Passado de Olhares "Mediados"

Nossas histórias singulares deixam marcas. Buscar suas ressonâncias, reatualizando-as com sentimentos e pensamentos do passado, traz à tona conceitos que nos fundamentaram e provocam uma ressignificação de nossa ação frente a aprendizes da arte.
Remexer na bagagem de nossas memórias traz de volta o sabor doce ou amargo, a traquinagem divertida ou a percepção dolorida de valores incompreendidos, resgatam também os passeios, viagens ou encontros com pessoas fantásticas, marcando as primeiras noções ou conceitos do universo da arte.
Alguns conceitos são tão fortemente construídos em nossa infância que passam a determinar perspectivas que só poderão ser reavaliadas se outras situações forem oportunizadas para que sejam ressignificadas. As obras ou reproduções com as quais convivemos em nossas casas, as visitas a Museus e as viagens, também engrossam as águas que fluem em nosso imaginário estético.
A disponibilidade para produzir ou para compreender o processo de criação do outro, assim como o exercício do pensamento divergente - capaz de investigar significações através de perspectivas até conflitantes - e também as conexões rizomáticas - possibilitando uma ampliação da experiência vivida, podem nos conscientizar de como nossas histórias singulares estão interconectadas com tempos, espaços e mediações adequadas ou não.
A frequentação a museus, galerias, espetáculos teatrais e salas de concerto, prazerosas ou não, reatualizadas pela memória podem remeter ao fato de que muitas vezes não apreciamos o que não temos repertório interno para compreender. Se esta significação não é mediada, o sentimento de rejeição instala-se; não gostar pode inibir a disponibilidade ao contato, aos diálogos, também internos, enriquecidos pela socialização dos saberes e das perspectivas de outros.
Como canal entre a obra e o fruidor, a mediação pode provocar a disponibilidade e a empatia, mas também o rebaixamento da sensibilidade e o distanciamento da experiência estética. Assim, quando hoje propomos novas mediações, não podemos deixar de considerar as ressonâncias de outras, que embaçam ou deixam mais cristalinas o olhar/viver para novos encontros com a arte.
A linguagem da arte fala por sua própria língua e é por ela mesma que se a lê, em experiências estéticas que envolvem pensamentos, sentimentos e a própria vida, como diz Dewey. Contudo, o diálogo silencioso com falas internas nem sempre traduzíveis é marcada por ressonâncias nem sempre tornadas conscientes ou alvo de nossas ações.
Partindo das memórias singulares, com educadores de todas as áreas, é possível construir um elo vivo que emancipa o olhar de seus limites, às vezes empobrecido de experiências culturais. Através da memória singular, revista e ressignificada, cada educador pode se perceber como um ser da cultura e pode se tornar mais consciente das marcas que também deixa em seu aluno quando propõe uma visita, uma viagem, o contato com a arte. É isto que tem sido comprovado em minhas pesquisas e ações na formação de educadores.
Como filhas da Memória, as Musas nos instigam a percorrer caminhos mais sensíveis e humanos: um convite para encontros estéticos.

Mônica de Oliveira Paulo (ONG Rocinha Comunidade XXI)
Centro de História e Memória da Rocinha

A Rocinha é uma favela que começou a sua formação no início do século XX. Seus primeiro habitantes foram portugueses, espanhóis, negros e nordestinos. Isto contribuiu para o surgimento de diversas culturas, que podemos observar através das configurações sociais de cada localidade que no conjunto compõe o todo da favela.
O Centro de História e Memória da Rocinha pretende mapear esta diversidade cultural. Utilizando a metodologia da História Oral, registro fotográfico e também a análise documental.

OBJETIVO

Construir uma história da Rocinha a partir da fala de seus moradores, caracterizar o espaço da favela pela prática de seus moradores que o constroem e reconstroem no tempo vivido de suas experiências. Este espaço praticado é dialético com o espaço construído pelo discurso oficial e elitista, que caracteriza a favela de uma forma homogênea, habitado por um outro que não se inclui nos padrões da cidade "formal".
É também um de nossos objetivos construir as diversas identidades que se formaram no tempo e no espaço social da favela. E neste espaço de alteridade que se formam as múltiplas identidades vinculadas às localidades que compõe a Rocinha.

RESULTADOS ALCANÇADOS

Mapeamento geográfico de 21 áreas que formam a Rocinha. São elas:

1. 199
2. Boiadeiro
3. Cachopa
4. Cachopinha
5. Dionéia
6. Estrada da Gávea
7. Laboriaux
8. Macega
9. Morro da Roupa Suja
10. Paula Brito
11. Raiz
12. Rua 1
13. Rua 2
14. Rua 3
15. Rua 4
16. Terreirão
17. Umuarama
18. Valão
19. Vila Cruzado
20. Vila Vermelha
21. VilaVerde

Formação de um grupo de estudos composto por 09 jovens;
Inicio do levantamento fotográfico da favela, captando imagens definidas por temas escolhidos pelos jovens que participam do projeto;
Inclusão do Projeto no site - www.mundorocinha.com.br;
Coluna no Jornal Comunitário Rocinha Notícias;
Parceria firmada com o Observatório Social de Favelas/IETS

RESULTADOS ESPERADOS

Lançamento do folder do projeto em agosto de 2003;
Exposição fotográfica no final do mês de agosto;
Criação do Arquivo do Varal de Lembranças - acervo de documentos que deram origem ao livro;
Formação de uma oficina de contadores de história e
Formação de uma pequena biblioteca do centro

Patrícia Maciel Gazoni (Monte Azul)

A Monte Azul sempre pautou seu trabalho no desenvolvimento da comunidade, sempre houve muita participação. As pessoas têm muitas histórias em comum, histórias que fizeram e fazem partem do cotidiano de construção de um lugar melhor para viver. A maioria dos colaboradores (funcionários) provêm das comunidades atendidas, reforçando a idéia de lugar-comum.
Existe muito material escrito sobre a história, fotos muito antigas, slides, alguns vídeos, enfim, sempre houve uma preocupação em registrar a história da comunidade Monte Azul, mas ela precisa ser organizada.
Alguns moradores da favela passaram a vida inteira aqui, outros chegaram logo no início, enfim, existe muito depoimento para colher. Material humano é o que não falta.
Acho importante deixar para as futuras gerações esse registro.

Raquel de Oliveira
Projeto Vida e História das Comunidades Remanescentes de Quilombos no Brasil

O Projeto Vida e História das Comunidades Remanescentes de Quilombos no Brasil, desenvolvido no período de 2001/2002, foi idealizado tendo como base dois objetivos principais: criar acesso à compreensão da história política e cultural dos quilombolas e promover o fortalecimento da construção de sua auto estima. Ao mesmo tempo, buscou-se proporcionar aos professores e alunos do Ensino Fundamental oportunidade de conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro.

A primeira experiência deste projeto que recebeu a denominação "Uma história do povo Kalunga, foi desenvolvida nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, no Estado de Goiás, onde se localiza a área geográfica da comunidade Kalunga, atualmente reconhecida como sítio histórico. "Uma história do povo Kalunga "foi fruto de uma vasta pesquisa de campo e resultou na produção de materiais didáticos, a saber, um livro texto, um caderno de atividades e um encarte para o professor, além da organização de uma exposição itinerante de fotografias. Esses materiais, embassados nos modo de pensar e sentir do povo Kalunga, contêm uma pequena radiografia do que é ser Kalunga na linguagem do povo Kalunga

A última parte do projeto foi dedicada exclusivamente à formação de professores que atuam nessa área e no fortalecimento da participação da comunidade no processo de escolarização de seus filhos. No decorrer do desenvolvimento do trabalho percebemos que estávamos vivenciando e construindo junto com a comunidade um novo processo de resgate da memória e compreensão da história cotidiana, por esta razão tivemos a preocupação de registrar todas as atividades sob diferentes formas - escrita , vídeo, fotografias e fita cassete - na expectava de poder repartir essa experiência com diferentes profissionais, da área da educação, sociologia, antropologia e outras.

Acredito que este Seminário seja um espaço especial e específico, para divulgação e avaliação desta experiência.

Raquel R. dos Santos (Unbes)
Projeto Registrando nosso História

-Breve histórico da formação do grupo: O grupo foi formado a partir de uma parceria com a Fundação Abrinq no projeto Geração Jovem. Com o intuito de estimular o protagonismo juvenil dentro do tema Memória e História desenvolvemos um projeto intitulado "Registrando Nossa História".
A proposta surgiu a partir de uma atividade de reflexão após o filme "Central do Brasil", onde o grupo de jovens apontou a dificuldade em se manter os vínculos com familiares e amigos distantes, e de um levantamento do Serviço Social que detectou um número expressivo de mães que são analfabetas ou que concluíram apenas a 1a e 2a séries do ensino fundamental e a origem das famílias atendidas com procedência de cidades da região nordeste.
O projeto baseou-se na preparação, na sensibilização, no interesse e no comprometimento do jovem por sua origem, valorizando a cultura e o sentimento de identidade, a partir da ação de escrever cartas.
Ele está inserido num contexto de complementaridade ao ensino formal. À medida que a escola busca ensinar algo sobre a prática social da leitura/escrita através da divisão gradual desta aprendizagem, com a ação de escrever cartas, assim como seu preparo e sensibilização, buscamos cumprir um objetivo que tenha sentido na perspectiva imediata do aluno complementando esta aprendizagem e valorizando o aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.
Desenvolvemos atividades relacionadas ao ato de escrever cartas com conteúdos específicos deste meio de comunicação; atividades relacionadas ao conhecimento da diversidade cultural e ao estudo das características de diferentes regiões; atividades relacionadas a pesquisas e reflexões sobre questões sociais e atividades de sensibilizações para o auto conhecimento; além da banca de cartas onde os jovens atuam como escribas dos familiares, funcionários da instituição e do entorno.
A experiência da banca de cartas no albergue vizinho à instituição é um dos pontos fortes do projeto por possibilitar ao jovem uma vivência de solidariedade permitindo-lhe identificar e contextualizar sua própria realidade de forma crítica. A grande maioria dos jovens pode fazer uma análise de sua estrutura familiar e condições materiais e perceber que mesmo em condições deficitárias podem assumir seu papel de cidadões e dar contribuições valiosas a outros seres humanos. Ainda puderam perceber, através dos relatos que faziam para os jovens nas produções de cartas, que as condições desfavoráveis de muitos usuários do albergue eram fruto das escolhas que haviam feito durante a vida, levando os jovens a refletirem de forma crítica sobre suas próprias escolhas e permitindo-lhes a apropriação de decisões sobre seu futuro.
Participar de uma rede de memória é poder partilhar essa experiência de aprender através do olhar do outro com pessoas que também têm histórias a nos contar, a nos ensinar.


Regina Helena Alves da Silva (Centro Cultural UFMG)
Letramento Digital e Produção em Rede na Afirmação de Identidades e de Memórias Coletivas

Nossa reflexão surgiu a partir do sub-projeto "Culturas Urbanas" da pesquisa "Narrativas do Cotidiano: na mídia, na rua", desenvolvida junto ao Grupo de Estudos em Imagem e Sociabilidade - GRIS - Departamento de Comunicação Social UFMG.
Neste trabalho, ao contrário de algumas visões de conjunto sobre o significado da vida urbana, buscamos a pluralidade de manifestações que a cidade engendra, os vários tipos de cultura e a segregação intercultural, social e política. Procuramos enfocar a diversidade e a criatividade político-cultural urbanas e as experiências coletivas que conformam a história das práticas sociais.
Como resultado desta pesquisa criamos o Programa Cidadania Cultural, no Centro Cultural da UFMG, onde procuramos estabelecer uma troca com a comunidade, potencializando a produção cultural e entendendo a construção da cidadania. Assim, o Centro Cultural passou a funcionar como espaço para o debate sobre políticas públicas, movimentos sociais e demais manifestações culturais da cidade, desenvolvendo atividades que objetivam a inclusão social. Para além disso, estamos iniciando a perspectiva de inclusão digital através de um Laboratório de Hipermídia, um telecentro e uma rede com acesso via satélite. Esta rede, que tem o Centro Cultural como núcleo, congrega nove escolas públicas pólo da cidade de Belo Horizonte, projetos sociais, uma Ong que trabalha com mídias comunitárias, o Museu Histórico, além de projetos de extensão da UFMG no interior do estado ligados a questões sobre patrimônio cultural e ambiental.
O projeto Rede de Letramento Digital e Comunicação busca fazer com que as diversas comunidades se organizem e abram espaços de participação na Esfera Pública, para a constituição de cidadãos conscientes de seu papel político.
A Rede se propõe a ser um espaço de formação para explorar a utilização e criação do ciberespaço. Uma das ações é a pesquisa e utilização de softwares livres no projeto de letramento digital para que, além do domínio do computador e de sua linguagem, os usuários possam apropriar-se deles como meio para a expressão, a comunicação e a intervenção cultural.
Nosso interesse em participar do seminário "Memória, Redes e Mudança Socail" se deve à possibilidade de ampliação da rede, congregando mais experiências. Além disso é importante para um projeto como este participar de discussões que visem analisar o papel da Internet na democratização e preservação da memória social e entender as diversas possibilidades de uso das novas tecnologias.


Reginaldo Moreira (Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e Centro de Memória da Unicamp)
Maluco Beleza - a reinserção social através do rádio

O "Maluco Beleza" é um jornalístico especial, de uma hora de duração, veiculado uma vez ao mês, produzido integralmente por usuários do Serviço de Saúde "Dr. Cândido Ferreira" - hospital modelo de tratamento psiquiátrico, localizado em Campinas. O programa é o resultado da parceria entre a Rádio Educativa FM e o serviço em questão, iniciado em maio de 2002.

O principal objetivo do projeto é desmistificar a loucura na sociedade, através de relatos de história oral nas ondas do rádio, sendo mais um importante instrumento de formação de opinião pública, para a diminuição do preconceito e aumento da inclusão social dos usuários que fazem tratamento no serviço.As pessoas portadoras de doença mental foram excluídas do convívio social e confinadas nos pátios dos manicômios durante séculos, envelhecendo dentro destas instituições totais, com a perda dos direitos e da qualidade de vida.O Serviço de Saúde "Cândido Ferreira", é o primeiro hospital psiquiátrico filantrópico do Estado de São Paulo, fundado em 1924. O ano de 1990 marca uma nova fase na vida das pessoas internadas no então Sanatório "Dr. Cândido Ferreira". A instituição enfrentava problemas financeiros e pediu ajuda ao poder público municipal. Firma-se então um convênio de co-gestão com a Prefeitura Municipal de Campinas. Esta parceira viabiliza a troca dos dirigentes institucionais e uma nova forma de cuidar começa a ser implementada, processo que perdura até hoje. Grades foram retiras, portas foram abertas, foi abolido o uso da camisa de força, do eletrochoque, das punições, das celas forte, do uso indevido de medicamentos.

A forma mais humanizada de tratar deu início ao processo de desospitalização dos internos e a capacitação deles e da sociedade, para um possível convívio social. De 1990 para cá, muitos internos descobriram o paradeiro de seus familiares e alguns voltaram a viver com eles, em sua terra natal. Os idosos que não mais localizaram suas famílias estão sendo ressocializados, e, hoje, a instituição oferece 30 casas localizadas em bairros da cidade de Campinas, que funcionam como "repúblicas mistas", permitindo a maior autonomia e um convívio e participação mais ampliadas na sociedade para mais de 130 pessoas.Muitas formas inovadoras nos modos de cuidar foram e estão sendo implementadas no serviço e a Comunicação tem sido uma importante forma de reinserção psicossocial.

O programa de rádio "Maluco Beleza", produzido e conduzido pelos usuários e veiculado pela Rádio Educativa de Campinas (FM), se propõe a ter um caráter jornalístico, com um tema central ligado ao interesse do coletivo de pessoas que produzem e ao público alvo. Os temas têm se caracterizado pelos direitos humanos aplicados na problemática das pessoas que possuem um problema mental. Essas histórias todas de vida vão sendo apresentadas ao público, e a audiência é grande.Nestes doze meses de programa os principais temas abordados foram: A Luta Antimanicomial, Violência e Saúde, Drogas, Fórum Social Mundial, Guerra, Meio Ambiente, Convívio com as Diferenças e Preconceito.O projeto é aberto a todos os usuários da instituição e conta com a participação de aproximadamente vinte usuários. Semanalmente o grupo de "Rádio" se reúne para definição do tema, das pautas, escolha das músicas e distribuição das tarefas. Estes encontros acabam se caracterizando como um importante espaço de debate e aquecimento para a gravação do tema proposto, que é realizada no estúdio da rádio, uma vez ao mês.

O objetivo do projeto é desmistificar a loucura na sociedade, sendo mais um importante instrumento de formação de opinião pública, para a diminuição do preconceito e aumento da inclusão social dos usuários que fazem tratamento no serviço; ser um importante canal para esclarecimentos de dúvidas sobre a saúde mental; um meio para divulgação dos serviços de saúde mental da cidade, com que a população pode contar; e trazer à tona projetos sociais que via de regra não conseguem espaço na mídia comercial.O especial é composto basicamente de Entrevistas em estúdio com profissionais da área do tema proposto; Enquetes, onde são entrevistadas várias pessoas na rua; Novos Talentos, espaço em que os usuários cantam, recitam poesias, ou outras manifestações de arte; Opinião; Debate; e Músicas, que tenham alguma ligação com o tema proposto.

Roberto Huck (Umesp)
A Construção da Autobiografia dos Alunos da Universidade Livre da Terceira Idade - Umesp: Uma Prática Pedagógica Diferenciada

Objetivo:
Este trabalho alcançou três objetivos, que se complementam:
· Proporcionar o resgate da auto-estima e dos saberes adormecidos do idoso;
· Construir a autobiografia do idoso e, a partir dela, resgatar material para a elaboração de uma metodologia de ensino e pesquisa diferenciada para o aluno idoso;
· Capacitar o aluno da Universidade Livre da Terceira Idade com conhecimentos das técnicas de investigação da Antropologia Cultural.

Público-alvo:
Alunos e alunas da Universidade Livre da Terceira Idade - UMESP

Procedimento:
Como professor da disciplina Prática da Identidade Cultural - Autobiografia, optei por não adotar livro nem apostila, embora os alunos assim o solicitassem. Utilizei o quadro-negro apenas para registrar a contribuição de todos os alunos ao longo da discussão de determinadas categorias de antropologia cultural que estavam sendo abordadas.
Não lidávamos com conceitos preestabelecidos por teorias ou correntes antropológicas, mas os discutíamos, relacionando-os à vida diária dos alunos. Essas discussões em sala de aula contribuíram enormemente para sensibilizá-los sobre sua herança cultural, formalizando-a na construção de sua autobiografia.

Resultados:
A sala de aula foi o espaço natural onde transcorreu este trabalho. Com uma prática educacional não formal, o aluno adquiriu conhecimentos sobre a Antropologia Cultural e aplicou esse conhecimento na construção de sua autobiografia. Além disso, essa experiência educacional pode ser um exemplo para que futuros estudos sejam feitos, proporcionando novas práticas pedagógicas.


Rodrigo Garcez
Movimento no ar

Entre os anos de 1999 e 2001, coordenei um grupo de trabalho que buscou valorizar a cultura popular e a história de vida de um grupo de assentados, ligados ao MST, da região sudoeste do Estado de São Paulo. Neste projeto de arte coletiva apoiado pela Universidade de São Paulo, realizamos um ensaio fotográfico sobre a vida no campo o qual resultou em uma exposição (http://143.107.94.70/fotoscope/campo) posteriormente doada aos assentados como material didático.
Articulando a preservação da identidade cultural com a democratização dos meios tecnológicos, produzimos um CD de moda de viola caipira, onde os camponeses registraram suas impressões de mundo através de canções próprias. Doamos também todos os direitos autorais e a primeira tiragem do CD para os assentados numa cerimônia na qual a comunidade recebeu os produtos culturais (http://143.107.94.70/fotoscope/ interferenciaweb). Em 2002 pudemos apresentar a dinâmica deste projeto numa oficina no II Fórum Social Mundial, na PUC de Porto Alegre-RS. Ainda com relação ao impacto social do projeto, hoje o CD "Movimento no ar" circula entre as rádios comunitárias do MST e alguns dos camponeses participantes do projeto apresentam publicamente suas canções em eventos voltados para a cultura caipira.
Acreditamos que ao compartilhar os processos produtivos dos bens culturais, estabelecemos uma ponte de troca de experiências entre a academia e o saber popular; criando oportunidades para que as histórias de vida individuais ou de grupos socio-economicamente marginalizados, como os sem terra, possam ter um papel ativo no grande circuito de difusão e troca entre as culturas humanas.
Esperamos compartilhar nossas experiências com os outros participantes do seminário, expondo nossas obras e abrindo a discussão sobre os processos sociais, estéticos e éticos envolvidos em um trabalho que une tecnologia, arte e histórias de vida do homem do campo.

Silvia Carvalho - Instituto Avisa Lá
Memória e Formação de Professores

As instituições de educação vêm enfrentando cada vez mais o desafio de desenvolver junto às crianças e jovens com os quais atua, práticas pedagógicas inovadoras, eficientes e atualizadas com o mundo contemporâneo. No entanto a tarefa de desenvolver novas competências profissionais não tem sido nada fácil . Os problemas ligados à formação dos professores, a falta de recursos e condições para o desenvolvimento de boas situações de aprendizagem aliados a uma forte tradição de só se trabalhar com conteúdos "escolarizados", vêm contribuindo para dificultar as mudanças necessárias.

O projeto Memória Local na Escola visa oferecer aos professores e crianças a oportunidade de desenvolver um trabalho contextualizado.Atua diretamente no que é função primordial das escolas, isto é ensinar possibilitando que as crianças aprendam mais e melhor, bem como amplia o contato da comunidade escolar com ferramentas atuais da comunicação em rede.

Recuperar, rememorar ou conhecer a história familiar e de pessoas da comunidade têm sido alavanca importante para o resgate da identidade de um indivíduo ou de um grupo, uma vez que conhecer a partir da prática e experiência de vida, legitima o trajeto de cada um, implicando diretamente todos os sujeitos envolvidos. Além disso a contribuição para melhorar as capacidades para ler e escrever deve ser componente de todo projeto na escola, considerando a grave situação brasileira em relação a alfabetização plena.

O projeto busca portanto: contribuir para o incremento da auto-estima das comunidades por meio de capacitação das crianças para gerarem e produzirem história;contribuir para que as crianças aprendam a obter informações a partir de diferentes portadores tais como imagens, fotos, textos e Internet; incentivar a utilização da escrita para sistematizar e socializar os conhecimentos adquiridos;possibilitar a participação em comunidade virtual de professores e alunos envolvidos; capacitar professores no uso da memória oral como f fonte de conhecimento e aprendizagens para as crianças e no uso do computador no contexto didático.

Sonia Maria Leite Nikitiuk - UFF
Cotidiano, Trabalho Coletivo, História Local e Identidade Profissional: Uma Experiência na Escola da Banqueta

Este trabalho é resultado de um processo vivido ao longo de minha vida pessoal como estudante e professora e que culmina com uma tese de doutoramento onde se pode, através de um processo coletivo de formação continuada, refletir e fazer refletir sobre a construção da identidade profissional do professor e sobre a importância da história local neste processo.
A tese foi desenvolvida no período de dois anos numa escola pública de ensino fundamental, sediada em Angra dos Reis, envolvendo três alunos do curso de Pedagogia em Angra dos Reis e os dez professores que nela atuavam. Os referenciais sobre trabalho coletivo, historicidade, dialogicidade e hominização foram utilizados na prática da pesquisa. A história local trabalhada como eixo curricular e como estratégia pedagógica oportunizou a historicização da vida, a presentificação do tempo, a resignificação do cotidiano, a consciência da profissionalidade, enfim o exercício da cidadania.
A vivência desta experiência a partir do local, de forma participativa, sendo todos os envolvidos (alunos e professores) sujeitos do processo de formação, deu concretude às noções de professor-pesquisador e de ação-reflexão-ação, como se vê em Schön (1992) e Zeichner (1993).
O trabalhar o currículo, através da formação de conceitos, como um processo de conscientização e memória histórica, permitiu uma relação pedagógica em constante processo de interlocução problematizadora do cotidiano, incentivadora do exercício da autoria, provocadora de diversos olhares sobre diferentes visões dos acontecimentos cotidianos e leituras de mundo.
Ao final dos dois anos conseguiu-se que:
- os professores elaborassem e publicassem um pequeno livro sobre todo o processo da construção curricular;
- se iniciasse a construção coletiva de um livro didático;
- a recuperação de memórias de antigos moradores da região;
- a consciência da profissionalidade do ser professor.
Enfim o recuperar memórias, buscar identidades, problematizar a vida, recuperar a história local apresenta-se como alternativa de um projeto interdisciplinar de formação continuada de professores.

Suely Lima de Assis PINTO
A História de Vida e o Processo do Conhecimento

Este estudo, projeto de pesquisa do mestrado em Educação Brasileira da Universidade Federal de Goiás, investiga como se dá a aquisição do conhecimento por meio das experiências de vida, vivenciadas no cotidiano de um sujeito. Analisa-se esta questão por meio de um estudo de caso: o levantamento da história de vida de um pesquisador autodidata. Investiga-se os conhecimentos adquiridos ao longo de sua vida, e as experiências vivenciadas por ele que influenciaram a apreensão deste conhecimento. O levantamento do passado por meio da história de vida, proporcionou uma retomada de saberes construídos, por meio do ensino informal, e principalmente, dos caminhos para uma educação carregada de significados e que, na maioria das vezes, não é apreendida nas escolas. Compreende-se que a socialização e a aprendizagem de um sujeito desenvolve-se, não só na escola, mas em diferentes contextos sociais, como a família, o trabalho, a igreja. É neste contexto, de diferentes determinações que pretende-se compreender como se processa a construção do conhecimento, mostrando o papel preponderante do ensino informal, no desenvolvimento de uma formação humana e cultural mais ampla. Sabe-se que os seres humanos produzem conhecimento ao longo de sua historicidade, e este conhecimento será repassado na sua dimensão social e cultural, nos diferentes processos de socialização. Percebe-se com isto, que estes diferentes fatores constituirá a concepção de mundo do homem, considerando tanto o conjunto das relações sociais, quanto a própria dinamicidade do momento histórico vivenciado pelas sociedades. São estes fatores que, no âmbito de um determinado grupo social, estarão influenciando não só esta concepção de mundo deste grupo como também, sua educação.
Neste sentido, analisa-se aqui o conhecimento de um sujeito, adquiridos ao longo dos anos e as experiências vivenciadas por ele que influenciaram a apreensão desse conhecimento, buscando apreender com suas informações, como ele construiu o seu saber. A investigação deste tema procura compreender como se processa o aprendizado de uma pessoa que a priori possui um conhecimento científico apreendido fora da escola. Para abarcar esses objetivos optou-se por trabalhar com a história oral de vida, de Binômino da Costa Lima ("Seu Meco"), pela singularidade de seu saber diversificado e científico. Desvelar como este saber foi apreendido constitui o maior interessa deste estudo. A compreensão das diferentes determinações que perpassaram a vida do sujeito analisado, só seria abarcada pelo relato de sua vida em sua essência.
A história trabalhada neste estudo representa a história oral de vida de um sujeito socializado por diferentes determinações, dentre elas, a tradição oral. Em seu relato foi possível perceber a relevância de sua família na formação de sua subjetividade, bem como da universidade, para a legitimação do seu conhecimento, (ele possui o título de "Doutor Honoris Causa" pela Universidade Católica de Goiás). Outras determinações perpassaram sua história e possibilitaram o desenvolvimento de um saber característico e único. Para abarcar a dimensão da história de vida que se analisa neste trabalho, a pesquisa que se encontra em andamento, compreende um estudo teórico sobre indivíduo e sociedade e os processos constitutivos deste indivíduo, que se caracteriza principalmente na sua cultura. Busca-se portanto a compreensão dos conceitos de indivíduo, sociedade e cultura. Analisa-se também, a educação e a socialização humana, compreendendo que as mediações do saber desenvolvem-se tanto na escola como nas diferentes instâncias vivenciadas pelo sujeito, como a família, a igreja, o trabalho. A análise deste estudo centra-se, então, na compreensão de sua história de vida e de como este sujeito adquiriu o seu saber.
As conclusões parciais a que se chegou é que mesmo não sendo a escola, uma das mediações mais importantes no processo de formação de seu conhecimento, o estudo formal, como por exemplo, a leitura dos grandes clássicos e o autoestudo se constitui como uma dessas mediações. Sua aproximação com a universidade em determinado momento de sua vida, veio legitimar seu conhecimento dando-lhe maior credibilidade, tanto no meio acadêmico, como em sua comunidade.
Anteriormente a este projeto, como professora do Campus Avançado de Jataí (10 anos) e Diretora do Museu de Histórico de Jataí (7 anos) realizou-se outro projeto com história de vida, financiado pelo CNPq/PIBIC, sobre história de vida de sujeitos que vivenciaram o processo de transformação das fazendas em Jataí-Go.
A participação neste seminário se justifica pelo presente estudo acima descrito(durante a qualificação do mestrado, foi destacado pela banca avaliadora o caráter de ineditismo deste projeto na área da educação, cujos projetos na maioria das vezes, referem-se à educação escolar) e pela necessidade de se criar no Museu Histórico de Jataí um banco de dados sobre história de vida/ história oral/estudos de memória, que possa abarcar o material já coletado em diferentes projetos de pesquisa na região.

Tatiana Carvalho
durval&neide e a pesquisa de narrativas audiovisuais

O grupo interdisciplinar durval&neide foi pensado a partir de nossa bagagem de pesquisas acadêmicas individuais sobre as práticas do documentário e de nossa experiência em sala de aula, no curso de Comunicação Social - Jornalismo do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais. durval (documentaristas unidos da região do Vale do Aço) & neide (núcleo de estudos interdisciplinares do documentário e etc.) é um projeto de pesquisa, ensino e extensão que pretende estimular o estudo e a produção do documentário, numa perspectiva que leva em consideração as particularidades regionais e uma discussão sobre o fazer jornalístico para além das fronteiras das técnicas atualmente empregadas na grande mídia. Integram o núcleo, professores das áreas de Comunicação Social, Sociologia, Letras, Belas Artes e História.
Propomos a análise e produção de produtos midiáticos audiovisuais que tenham como matéria prima a "realidade", a partir de conceitos próprios da Comunicação Social e do Cinema, além de noções emprestadas da História Oral, da Antropologia e das Teorias da Narrativa. Em nosso recorte, tomamos documentários e grandes reportagens que se baseiam no testemunho oral como parte principal de sua investigação sobre os indivíduos e processos e que levam em consideração a natureza particular das expressões das narrativas da memória e do presente. Discutimos ainda a presença de narradores e narrativas não-oficiais e o papel das novas tecnologias digitais na criação de possibilidades de registros/construtos audiovisuais.
O grupo existe desde maio de 2003 e se reúne quinzenalmente para discussão de textos, análise de produtos e discussão de projetos. Atualmente, está em curso o projeto de produção do vídeo-documentário "Cartas de Amor" e a parte da pesquisa "O Espelho e o Bisturi - fronteiras e diálogos entre a reportagem para tv e o vídeo-documentário".
Além de relatarmos nossa experiência, queremos, com a participação no grupo de trabalho, dialogar com outras práticas e olhares não só sobre o tema com o qual trabalhamos, mas, também, sobre questões tangentes a ele.

Teresa Cristina Rego (Faculdade de Educação da USP)
Cultura e Constituição de Singularidades: O Estudo de Autobiografias

Tenho realizado pesquisas que visam o estudo das complexas relações existentes entre o indivíduo, a educação e o contexto cultural em que ele se insere. Estas investigações objetivam analisar o complexo processo de constituição da singularidade psicológica de cada sujeito, evidenciando o papel da educação (especialmente a escolar) neste processo.
Com o objetivo de discutir a (im) pertinência de alguns mitos e visões recorrentes sobre o tema, a pretensão tem sido a de investigar com maior atenção o conjunto de fatores (tais como o contexto sócio-político, o universo familiar, o tipo de educação doméstica e escolar, o ambiente intelectual, os incidentes imponderáveis, os episódios marcantes, o círculo de amizades etc) presentes nas trajetórias individuais, entendendo-os como parcialmente responsáveis pela definição das singularidades. O objetivo tem sido também o de examinar o modo particular de cada sujeito lidar com estes fatores externos e o impacto disso na constituição de seu modo de ser.
Os estudos sobre o papel da cultura no processo de constituição de singularidades ainda são parciais e incompletos. Apesar de ser uma área pouco pesquisada e não se constituir um campo com identidade própria, é possível encontrar em alguns estudos de autores estrangeiros importantes contribuições que vêm permitindo novas e fecundas descobertas sobre as relações entre desenvolvimento psíquico e as marcas culturais que o constituem. Estas pesquisas seguem linhas diferentes, mas a maioria se inspira na matriz teórica elaborada por L. S. Vygotsky e seus colaboradores nas primeiras décadas do século passado. De um modo geral, os novos dados não refutam as premissas básicas da abordagem vygotskiana, mas têm permitido atualizar e ampliar os postulados já elaborados. Os dados obtidos pelo conjunto de investigações contemporâneas renovam e ampliam a compreensão das relações existentes entre processos psíquicos e as influências culturais na medida em que não somente indicam novas perspectivas investigativas como também colaboram para a superação de visões já consagradas nesse campo.
É por essa razão que tenho aprofundado os estudos relacionados às contribuições de L. S. Vygotsky e de autores contemporâneos que igualmente atribuem um lugar central à noção de construção social do sujeito e que estudam o funcionamento psicológico à luz de sua gênese e evolução. Entendemos que as teses que postulam a interação dialética do indivíduo e seu meio cultural são potencialmente férteis para a compreensão da constituição da singularidade, já que permitem entender o papel desempenhado pela cultura na configuração do universo psíquico do sujeito. Estes construtos teóricos apesar de férteis, ainda são pouco compreendidos e assimilados no Brasil. Sendo assim, os resultados dos estudos realizados têm trazido contribuições que ajudam a elucidar pontos obscuros e polêmicos no debate contemporâneo.
A pesquisa empírica tem se pautado no estudo aprofundado de algumas narrativas autobiográficas, de pessoas de diferentes contextos culturais e trajetórias individuais (diferentes nacionalidades, profissões, formações, egressos de diversos extratos sociais e que viveram em diferentes épocas). A intenção tem sido a de usar dados biográficos para investigar a interdependência de fatores que originaram combinações específicas na história de vida de cada indivíduo. Essas análises têm possibilitado o apontamento de aspectos dominantes e generalizáveis entre os sujeitos investigados.
As memórias pessoais organizadas em narrativas e depoimentos autobiográficos, onde os sujeitos analisam e comentam seu percurso individual, tem servido como fontes valiosas no esforço de reconstruir e compreender os inúmeros aspectos presentes no processo de constituição da história de cada sujeito. Como as memórias não são somente individuais mas também coletivas e sociais (Halbwachs, Bosi), elas têm possibilitado também a construção de um painel geral das diversas formas de influências recebidas e processadas pelos indivíduos ao longo da vida.
Os resultados obtidos até agora trazem insumos que contribuem para o avanço da discussão das influências culturais nos modos de funcionamento psicológico. Sugerem também algumas perspectivas e implicações para a prática educacional assim como lançam novos desafios para a investigação e elaboração teóricas neste campo. Estas são as principais justificativas para a participação no encontro: expor e debater os resultados destes trabalhos assim como trocar experiências sobre o tema.


Vani Kenski (Site Educacional LTDA. / CIETEC / PEN / USP)
Trajetórias. A Progressão de um Grupo de Pesquisa: Do MENT a Site Educacional

Os estudos que desenvolvo sobre "Memória" foram iniciados com a minha tese de Doutorado (1987/1990) sobre a memória dos antigos leitores do jornal Opinião ("O fascínio do Opinião"). Mesmo antes de concluir esta pesquisa, a partir de 1989, iniciei na UNICAMP, o oferecimento de disciplinas e pesquisas IC sobre o tema "Memória" em suas articulações com a minha área de atuação: Educação. A participação intensa no Grupo de Pesquisas "Novas Tecnologias, Comunicação e Cultura" , o NTC, na ECA/USP (espaço em que desenvolvi a minha tese de Doutorado), trouxe aos meus estudos a inclusão destes novos temas. Assim, com o intuito de investigar as mudanças ocorridas no ensino e na cultura - sobretudo na memória social e individual - com a popularização das tecnologias digitais de comunicação e informação, iniciei em 1992, na UNICAMP, as atividades do Grupo de Estudo "Memória, Ensino e Novas Tecnologias" , o MENT. Desde então, o Grupo MENT já desenvolveu atividades de ensino e mais de trinta pesquisas acadêmicas (IC, Mestrado, Doutorado e minhas pesquisas individuais) sobre estes temas em, pelo menos três Universidades diferentes: UNICAMP, USP e UMESP. A articulação entre professores e alunos que participaram do MENT, em suas diversas fases, mantém-se constante até hoje. Os obstáculos encontrados na manutenção do grupo em um espaço estritamente acadêmico, a maturidade de pesquisa obtida coletivamente nestes onze anos de atuação e o desejo de continuar no processo de produção e socialização de conhecimentos, realizando atividades de ensino e pesquisa dentro dos temas privilegiados pelo MENT, levou-nos, no inicio deste ano, ao desafio de criação da empresa SITE Educacional para o desenvolvimento de pesquisas e o oferecimento de consultorias e de cursos on-line para profissionais e professores que desejam atuar em atividades de ensino nos espaços e ambientes virtuais na web. A Empresa tornou-se possível a partir do nosso ingresso no CIETEC, a incubadora de empresas tecnológicas da USP, que têm nos orientado para a viabilização de uma empresa de qualidade, sem abandonar as nossas formações de professores e de pesquisadores.

 

Virgínia Paes Coelho
Gênero e família: a socialização da mulher relembrada nas memórias femininas - 1960-1990

Minha experiência em trabalhar com memórias no doutorado teve por foco um segmento específico: mulheres nascidas na década de 60 do século XX. Meu objetivo foi pesquisar as mudanças que estão ocorrendo na família brasileira, no que se refere à educação feminina, tendo as mulheres de camadas médias urbanas como narradoras de um período histórico que abrangeu mais de 30 anos.
Duas questões nortearam este enfoque: de um lado, conhecer como os fatos políticos, econômicos e culturais influíram na organização de suas famílias de origem e como estas os absorveram e reproduziram na socialização dos filhos. De outro, interessava saber como mulheres que viveram um período de autoritarismo político, com posterior enfrentamento deste contexto pela organização da sociedade civil, incorporaram as transformações que ocorreram na transmissão de valores aos filhos, em especial, na educação das filhas.
O estudo desenvolveu-se em 3 anos, tendo a pesquisa empírica ocorrido no espaço total de 6 meses (não computados o tempo de transcrição e análise do conteúdo). A hipótese que orientou minhas investigações foi de que, embora haja continuidades na forma como a família vem socializando as meninas, mulheres intelectualizadas, pertencentes a uma camada com maior poder aquisitivo, que foram educadas num período de grandes mudanças nacionais e mundiais, estariam mais propensas a absorver as inovações culturais, superando preconceitos e assumindo novos padrões de conduta. Os processos históricos e culturais que viabilizam as mudanças e permanências na educação de gênero poderiam, desse modo, tornarem-se mais nítidos. O estudo revelou mudanças e continuidades no processo de educação da mulher na família, contribuindo para novas análises sobre esse tema.
2. Objetivo e justificativa da participação
As formas peculiares da narração, imprimidas pelos sujeitos entrevistados, estão ligadas à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade. A técnica está intrinsecamente ligada à postura e ao método de pesquisa que utilizei e que pode ser útil para novas pesquisas com memórias femininas. Meu objetivo de participação é possibilitar a ampliação de estudos de gênero trabalhando com memórias, na análise de atitudes, significados e produção de valores nas práticas cotidianas de socialização da mulher.

Wagner Araújo e Kelli Suzana
A experiência do Projeto Bibliotecas Comunitárias no levantamento da memória da comunidade

A Fundação Fé e Alegria (FyA), é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, vinculada aos jesuítas, fundada em 1955 na Venezuela e presente no Brasil desde 1980, com atuação em 10 estados brasileiros.
O Projeto Bibliotecas Comunitárias é desenvolvido pela Fundação Fé e Alegria em São Paulo, desde 1994, em parceria com instituições comunitárias localizadas em bairros periféricos das zonas norte e sul da cidade de São Paulo.
Tem como objetivo contribuir para fortalecimento da ação protagônica de jovens, na promoção do acesso a informação e a cultura e a produção de conhecimento na sua comunidade.
As comunidades, assessoradas pela equipe de Fé e Alegria, planejam, montam e respondem pelo funcionamento das Bibliotecas com o protagonismo de jovens voluntários, denominados mediadores de leitura.
É um projeto inovador por mobilizar jovens na sua promoção e sustentabilidade e também pela proposta de tratamento da informação e produção de conhecimento que supera as concepções conservacionista e difusionista de biblioteca.
Atualmente, estão em funcionamento, 10 bibliotecas, em bairros das regiões norte e sul da cidade de São Paulo e 2 em processo de implantação.
Como público alvo direto do projeto, são 86 jovens atuando como mediadores de leitura e indiretos todos os atendidos pela biblioteca, em 2002, foram 12.803 atendimentos realizados.
As atividades realizadas visam instrumentalizar a atuação do mediador dentro da perspectiva de atuação como sujeito social e cultural comprometido com sua comunidade. São elas: a) Formação Continuada para Mediadores de Leitura, atualmente focada na temática memória da comunidade; b) Conselho de representantes das BCs, denominado "Porta Vozes da Cultura"; c) Assessoria local; d) Encontro com Representantes de Instituições Acolhedoras, lideres de comunidade e representantes dos mediadores de leitura e) Encontros Culturais; f) Visitas a Museus, exposições e espaços culturais; g) Formação de lideranças comunitárias.
Em 2003, o projeto Bibliotecas Comunitárias deu início a atividade de registro da memória da comunidade, através de depoimentos das pessoas mais antigas das comunidades, onde as bibliotecas estão inseridas. Para os mediadores de leitura é uma experiência nova e aos poucos vão percebendo seu significado e a sua importância. Para fortalecer esta experiência é importante que se sintam articulados a outras experiências do gênero.

Wilmar da Rocha D'Ángelis (Instituto de Estudos da Linguagem - IEL - UNICAMP)
Experiências relacionando memória oral e pesquisa documental e memória oral e educação

Atuei como indigenista, dos 19 aos 29 anos, junto a povos indígenas no Sul do Brasil, especialmente junto a comunidades do povo Kaingang. As exigência do compromisso indigenista levaram-me a atuar, entre outras formas, como pesquisador da história indígena daquelas comunidades (sobretudo Kaingang).
O primeiro grande desafio nesse sentido foi o de escrever a história do Toldo Chimbangue, que levei a efeito em 1984. Para reconstruir a história daquela comunidade Kaingang, de modo a provar seus direitos às terras que lhes foram usurpadas entre as décadas de 1940 e 1970, realizei mais de uma centena de entrevistas na comunidade, indo e voltando à fontes orais, indo e voltando de uma para outra. No primeiro momento, encontrei uma enorme dificuldade em reconhecer a coerência dos relatos que as diversas fontes me franqueavam: ora pareciam fragmentários, ora pareciam contradizer-se. Demorei a entender que estava diante de um mosaico cuja unidade precisava ser construída pelo ouvinte e, em alguns momentos, sentia que em vários aspectos era uma tarefa importante também para os membros da comunidade, que não conseguiam ultrapassar a visão dos relatos e tradições familiares que perpetuavam. O outro 'jogo' importantíssimo foi o balanço entre os relatos da tradição oral e a pesquisa documental (sobretudo em fontes primárias, como as depositadas no Arquivo Nacional, no Museu do Índio e em arquivos públicos estaduais). Em diversos momentos o relato oral dos membros da comunidade trazia pistas esclarecedoras sobre determinadas datas, utilíssimas para a busca de documentos nas mais variadas fontes (embora nem sempre a busca acabasse se revelando frutífera). Em outros momentos, a descoberta de uma informação em fontes escritas ou iconográficas ativava a memória oral, e muitas descobertas novas se produziam. O resultado de todo esse processo ficou perenizado no livro "Toldo Chimbangue: história e luta Kaingang em Santa Catarina" (Xanxerê, SC: Cimi Regional Sul, 1984), que teve papel importe na reconquista das terras do Chimbangue por sua comunidade.
Um segundo desafio surgiu em 1993, quando os Kaingang da área indígena Xapecó me pediram, explicitamente, que elaborasse um trabalho sobre a história do Toldo Imbú (ou Umbú), nos moldes daquele feito para o Toldo Chimbangue. Com a participação ativa do Kaingang Vicente Fernandes Fókáe, realizei dezenas de entrevistas e, também aqui, operamos o 'jogo' entre a memória oral e a pesquisa documental. Os resultados, outra vez, foram positivos para a comunidade do Xapecó recuperar as terras do Imbú. O resultado da pesquisa compõe o trabalho (que assinei como co-autoria com Vicente Fókáe) com o título: "Toldo Imbú. O cacique Condá, os índios do Xapecó e as terras do Imbú" (Chapecó: UNOESC, Série Documentos 3, 1994).
Em 1993 eu também iniciara uma investigação para descobrir o destino de comunidades Kaingang que, no século XIX, haviam morado em Misiones (Argentina). Com base na pesquisa documental, e em poucos depoimentos que pessoalmente ouvira em anos passados, concluí que parte dos Kaingang de Misiones deveria ter entrado no território do Rio Grande do Sul ainda na década de 1860 e, provavelmente, teria vindo a constituir a área de Inhacorá, em aliança com um famoso cacique de então (Fongue). Em 1996 entrei em contato com membros da comunidade, realizei algumas entrevistas e incentivei a investigação pelos professores da aldeia. Outra vez os resultados foram valiosíssimos.
Finalmente, aliando memória oral e educação, duas tarefas que tenho proposto em aulas de Língua Materna, em programa de formação de professores Kaingang (2001-2005), são a elaboração de biografias de lideranças da comunidade, escritas em língua indígena, e a realização de entrevistas gravadas com pessoas da comunidade sobre fatos de sua história, entrevistas que devem ser transcritas para análise.
Há duas questões que gostaria de ver aprofundadas ou debatidas por pessoas que trabalham com essa perspectiva ou abordagem, o que por si justifica a existência de redes: (i) a da relação entre memória oral e a língua em que é vazada essa memória, que coloca o problema da 'tradução', mesmo quando se trata 'apenas' de variedades da 'mesma' língua; (ii) as questões relacionadas ao papel e ação do agente estimulador (provocador) da memória.

Yara Rovai (Esporte Clube Pinheiros)
Centro Pró-Memória Hans Nobiling do Esporte Clube Pinheiros

O Centro Pró-Memória Hans Nobiling foi inaugurado em 1991 para levantar e conservar a memória do Esporte Clube Pinheiros. Fundado em 1899 como Sport Club Germania, o Clube em sua história carrega a trajetória do esporte nacional. O regaste dessa memória foi a pedra fundamental para a construção do Centro. Criado em 1991, após 12 anos vem se tornando referência na pesquisa da história esportiva paulista e brasileira. Aspectos do modo de vida da colônia alemã em São Paulo no final do século XIX e início do XX também são objeto de investigação, assim como o desenvolvimento urbano da região de Pinheiros e Itaim-Bibi em São Paulo. Seu acervo eclético é constituído por fotografias, filmes, documentos textuais, vestuário, objetos esportivos e de premiação. Uma das primeiras iniciativas do Centro foi a criação do museu oral. Foram e continuam sendo gravados depoimentos de atletas, diretores, associados e freqüentadores do Clube. As gravações em princípio feitas em fitas cassete, passaram em seguida a serem realizadas em vídeo. Essas histórias de vida gravadas durante mais de uma década foram utilizadas na elaboração do livro do Centenário do Clube, editado em 1999. Dessa forma foi deixada aos protagonistas a tarefa de contar suas histórias. Muitas exposições temáticas realizadas pelo Centro também utilizam os depoimentos do Museu Oral. Pesquisadores e jornalistas encontram nessas histórias vasto material para teses, reportagens e publicações como o vídeo realizado pela TV USP e que foi ao ar pela TV Cultura sobre o Rio Pinheiros ou a edição do livro O Rio Pinheiros, publicado pela Secretaria do Meio Ambiente.
Desde o início o objetivo do grupo gestor do Centro foi a democratização da informação através da internet. Assim, desenvolveu-se um banco de dados informatizado, específico para a nossa realidade, já com a perspectiva de que a consulta pudesse ser realizada também via rede. Há um ano esse sistema está disponibilizado e aberto ao público em geral. Grande parte dos depoimentos possuem sinopses disponíveis na internet e todas as gravações estão sendo digitalizadas para inclusão no banco e internet. Atualmente o Centro Pró-Memória Hans Nobiling é aberto a escolas, pesquisadores, jornalistas e todos que se interessarem.
A disponibilização da informação extra muros foi um objetivo que não estava contemplado no projeto dos diretores do Clube, que na época da abertura do Centro pretendiam que este servisse apenas a comunidade de sócios.

Essa comunicação tem como objetivo a divulgação desse trabalho, que desde o início possuía princípios claros de construção de um centro para pesquisa, conservação e divulgação da história e do patrimônio histórico da instituição. Nasceu a partir de um projeto primordial e não desvirtuou seus princípios através de medidas facilitadoras, em que fosse abandonada a sua missão.