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Quando chegaram ao Rio de Janeiro pela primeira
vez, em 1503, os portugueses procuravam pontos
nos quais seus navios, a caminho da Ásia,
pudessem se reabastecer de água doce e,
caso necessário, fazer pequenos reparos.
Precisavam, pois, encontrar uma foz de rio situada
em uma baía de águas profundas que
lhes permitissem manobrar e ancorar sem o risco
de serem lançados contra a costa pelo vento
e pelo mar. O litoral brasileiro tem poucos acidentes
geográficos desse tipo, e nem todos reúnem
as condições ideais. Não
era o caso da "foz do rio de janeiro",
um local amplo, de águas muito profundas,
totalmente abrigadas do Atlântico, com uma
barra estreita e sem afloramentos de rocha subaquática.
O sonho de todo marinheiro. Além disso,
desembocavam em sua costa vários rios pequenos
e cristalinos, a vegetação era exuberante
e havia muitas praias, para as quais os navios
poderiam ser arrastados se fosse necessário
fazer reparos nas obras vivas (as partes do casco
que ficam sob a água).
O fato de não ter sido instalada aqui,
imediatamente, uma cidade, deve-se a questões
geográficas: a cidade de Salvador, bem
mais ao norte, estava situada num ponto mais vantajoso
em relação à costa africana;
além disto, aqui o regime dos ventos exigia
um tempo maior de entrada. Na primeira metade
do século XVI, o interesse dos portugueses
pela costa brasileira era mais estratégico
do que propriamente econômico: o controle
dos dois lados do Atlântico quase inviabilizava
o acesso de qualquer outra potência naval
aos ricos mercados orientais. A fundação
do Rio de Janeiro foi motivada pelas tentativas
francesas de instalar uma colônia na América
do Sul, ameaçando o monopólio luso.
Após uma breve guerra, os portugueses perceberam
que a existência de uma cidade era a única
forma de garantir a posse da região e,
assim, a baía ganhou uma cidade, um porto
e um anel de fortificações.
Ao longo do resto do século XVI e de parte
do seguinte, o crescimento da cidade esteve ligado
a um incipiente comércio com a África
portuguesa, e ao contrabando com as colônias
espanholas da foz do Prata. A ocupação
holandesa do Nordeste português a partir
de 1640, fez crescer o papel do Rio como articulador
do comércio atlântico português.
Somou-se a isso o aumento da importância
das plantações de cana da região
dos Campos dos Goitacases. A retomada, pelos portugueses
baseados aqui, da costa de Angola, fez crescer
a predominância da cidade como pólo
de tráfico negreiro. O porto foi sendo
paulatinamente melhorado, com a construção
de trapiches (armazéns gerais) e cais flutuantes.
A cidade concentrava-se numa área de uns
oitocentos metros de frente, situada entre a ponta
de Santiago - depois conhecida como "do Calabouço"
- e a região da atual Candelária.
Na primeira metade do século XVIII, tinha
perto de 10.000 habitantes, 16 fortalezas de diversos
tamanhos - todas em mau estado de conservação
e precariamente aparelhadas - e recebia a visita
de cerca de 500 navios a cada ano. A maioria deles
trazia escravos da África ou mercadorias
que seriam distribuídas em uma região
que ia até Minas Gerais. Boa parte dessas
mercadorias era contrabando a ser levado para
o sul do continente, onde era pago com prata boliviana
de alto valor. Era do Rio que partiam, também,
navios portugueses com ouro barreado, extraído
nas Minas, a uns 400 quilômetros para o
interior. Pode-se dizer que a cidade já
tinha adquirido a identidade da qual não
iria mais se separar: porto exportador-importador
e sede de comércio de longo curso.
Este caráter se manteve após a
independência, mas com uma mudança
significativa: a partir de 1808, com a instalação
da Corte portuguesa e a abertura dos portos à
navegação "amiga" (leia-se
Inglaterra; as outras nações "amigas"
tinham suas mercadorias oneradas com impostos
extras), o comércio se intensificou. A
instalação de toda a burocracia
portuguesa (o Rio era sede do império português),
a cidade ganhou uma identidade extra, que manteria
pelos 150 anos seguintes: o de centro das decisões
políticas. Isso fez aumentar ainda mais
sua característica de centro de comércio
de longo curso, trazendo para cá representações
de uma série de firmas estrangeiras interessadas
em participar do mercado americano.
Ao longo do século XIX, a predominância
econômica, política e naval da Inglaterra
intensificou a presença, no Rio, de companhias
navegadoras britânicas. Mas ao porto da
Guanabara também demandavam navios de diversas
outras nacionalidades, além, como é
óbvio, dos brasileiros. A navegação
de cabotagem de longa distância tinha na
cidade seu ponto de articulação.
A atividade portuária, comercial e, principalmente,
política, fez com que o Rio também
se tornasse a sede da Marinha de Guerra que, desde
o século XVIII, tinha aqui sua maior base,
o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. A presença
dessa grande base naval, somada às necessidades
criadas durante os conflitos do Prata (1850-1870),
contribuíram para que surgisse aqui uma
pequena indústria de construção
e reparos navais. Tanto o Arsenal quanto a região
de Niterói passaram a sediar docas e diques
de reparos e construção. Desde então,
a indústria de construção
e reparos navais firmou-se como uma das principais
atividades da região.
O Atlântico Sul teve sua importância
reforçada com o crescimento dos impérios
coloniais europeus na África e na Ásia.
A América Latina, reduzida ao papel de
produtora de alimentos e matérias- primas,
tinha importância política inversamente
proporcional à sua importância econômica.
Na segunda metade do século XIX, os portos
de Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro
estavam entre os de maior movimento do mundo.
Isso fazia com que os governos tivessem particular
interesse em que as instalações
se mantivessem relativamente modernas e em bom
estado. No final dos oitocentos, um surto de grandes
obras públicas, motivado pela disponibilidade
de capitais, fez com que os principais portos
da América do Sul sofressem grandes obras,
o que também aconteceu no Rio de Janeiro.
Nesta cidade, uma grande reforma urbana tentou
dar a cidade feição européia,
de forma a capacitá-la a competir com Buenos
Aires e Montevidéu como centro de atração
de investimentos estrangeiros. A modernização
do porto transferiu suas instalações
para a região em torno da ponta do Caju,
intensamente modificada por aterros e dotada de
infra-estrutura moderna e equipamentos capazes
de ampliar o movimento de mercadorias. As instalações
eram concessões públicas feitas,
por longos períodos, a empresas particulares
de características monopolistas. Às
vésperas da Primeira Guerra Mundial, algumas
das empresas mais lucrativas do mundo estavam
sediadas no Rio de Janeiro: A Companhia Docas
do Rio era uma delas.
A Primeira Guerra levou à diminuição
da importância do porto do Rio no que concerne
ao volume de cargas. Isso é compreensível,
visto que o comércio das grandes potências
envolvidas na guerra diminuiu muito, e as nações
periféricas passaram a exportar mais, pois
o consumo de alimentos e matérias-primas
aumentou. O Rio já competia, desde o final
do século XIX, com Santos, em São
Paulo, de onde partia o grosso das exportações
de café do Brasil. Mas ainda levaria muito
tempo até que o Rio perdesse para Santos
a liderança em volume de cargas e negócios
- isto só iria acontecer em meados dos
anos cinqüenta do século passado.
Durante a Segunda Guerra, aumentou a participação
da navegação de cabotagem nas atividades
portuárias. O volume de atracações
chegou a crescer cerca de 12 por cento, o que
não significa que houve um aumento no volume
de cargas, pois os navios costeiros são
significativamente menores do que os grandes vapores
oceânicos.
Na década de 30, observa-se certa estagnação
nas atividades econômicas ligadas ao setor
portuário, pois, com o crescimento da indústria
paulista, muito intenso nos anos 30, parte do
movimento do Rio transferiu-se para Santos. O
movimento de atracações ainda não
traduz tal esvaziamento por causa da permanência,
no Rio, das grandes casas importadoras e das empresas
de navegação de cabotagem. Entre
as mais conhecidas, estavam a Companhia de Navegação
Costeira, que também tinha uma grande instalação
de reparos navais em Niterói, e a Organização
Henrique Lage, com estaleiros e oficinas na ilha
do Governador. O Rio também manteve, embora
incipiente, uma indústria estatal de estaleiros
militares, situados no Arsenal de Marinha e na
ilha do Governador. Esses estaleiros dedicavam-se
a reparos e construção de vasos
de guerra, atividades que iriam se intensificar
no final da década de 30, e com a eclosão
da Segunda Guerra Mundial.
As campanhas submarinas, tanto na Primeira Guerra
Mundial quanto na Segunda, não foram intensas,
pois o grosso das operações acontecia
no Atlântico Norte. Entretanto, com o fechamento
do Canal de Suez, motivado pelas operações
militares no norte da África e no Pacífico,
a rota do cabo readquiriu sua importância
estratégica, e, em decorrência, sua
importância econômica. Parte dos navios
mercantes ingleses que se dirigiam ao norte da
América do Sul e ao Golfo do México
passaram a demandar o porto do Rio. Na Segunda
Guerra, o aumento do tráfego marítimo
na costa brasileira atraiu navios de guerra e
submarinos alemães e italianos para a região,
o que complicou as atividades do porto do Rio.
A administração das instalações
passou às mãos da Marinha Brasileira,
assessorada por especialistas norte-americanos.
Tudo isso contribuiu para aumentar o movimento
do porto. Aqui eram formados comboios que demandavam
o norte e o sul do país. Isso não
significa, entretanto, um significativo aumento
do volume de cargas, pelo mesmo motivo citado
antes: o volume de comércio com as potências
em guerra caiu a quase nenhum, e, após
1941, os EUA tornaram-se, virtualmente, o único
parceiro comercial do Brasil. Diversas firmas
de importação alemãs e italianas
foram fechadas e outras, francesas, inglesas e
belgas, reduziram suas atividades a quase nada.
Basta dizer que a Mala Real Inglesa, responsável,
no fim do século XIX, por quase metade
do movimento internacional no porto do Rio foi,
em 1944, comissária de 0,3 por cento das
cargas daqui despachadas.
Essa situação não teve impacto
significativo sobre a economia da cidade devido
à contração da atividade
econômica mundial. Os países periféricos,
Brasil e Argentina à frente, observaram,
ao contrário, significativos superávites
em suas balanças comerciais, pois faltavam
produtos manufaturados no mercado internacional.
A indústria nacional de bens de consumo
teve notável crescimento, e as manobras
de Getúlio Vargas para criar uma indústria
de base (o principal exemplo foi o da siderurgia
pesada, inaugurada com a Usina de Volta Redonda,
inteiramente financiada pelos norte-americanos),
acabaram por fazer com que as manufaturas nacionais
consumissem alguma quantidade das matérias-primas
nacionais (um bom exemplo disso são as
indústrias química e têxtil).
O fim da guerra, entretanto, altera a situação
novamente, e, como decorrência disto, o
movimento do porto volta a crescer. Mas, agora,
é seguido, nos calcanhares, pelo movimento
do porto de Santos, que se torna, rapidamente,
o maior do Brasil em movimento de carga exportada.
Após o fim da guerra européia, o
aumento das importações de todos
os tipos de produtos sustenta a liderança
carioca no volume total de cargas, além
do fato de a cabotagem continuar a ter a Guanabara
como seu centro articulador. Mas a estagnação
econômica da região é notável,
visto que o advento de Volta Redonda não
chegou a contribuir significativamente para a
economia da cidade do Rio de Janeiro: o minério
lá usado chega de trem, das Minas Gerais,
e os produtos derivados do ferro (aço laminado,
aço em barras e ferro industrial, inicialmente
um total de umas 250.000 toneladas por ano) seguem
para São Paulo da mesma maneira. A indústria
paulista é consumidora dos produtos da
nova indústria siderúrgica brasileira;
as atividades econômicas do Rio não
demandam significativamente tais produtos.
Na segunda metade da década de 50, observa-se
uma tentativa de instalar estaleiros pesados na
cidade ou muito perto dela, em função
da existência, no Rio, de alguma infra-estrutura:
três grandes estaleiros, financiados por
capitais mistos, começam a produzir navios
de longo curso. Um deles fica na região
do próprio porto, e outro, em Niterói.
O terceiro instala-se em Angra dos Reis. Mas a
indústria naval de grande porte ainda levaria
alguns anos para decolar, pois não há
demanda por navios de grande tonelagem, visto
que as empresas nacionais de navegação
saíram da guerra superdimensionadas: o
Lóide Brasileiro, estatal, tem mais navios
do que precisa, e as empresas privadas não
conseguem concorrer com as estrangeiras, dedicando-se,
principalmente, à cabotagem nacional de
longo curso, atividade na qual possuem uma espécie
de "reserva de mercado".
A década de cinqüenta também
vê o porto do Rio perder a liderança
em volume de cargas para o porto de Santos. O
desenvolvimento econômico dos anos 50, intenso
em São Paulo, não teve correspondente
no Rio de Janeiro. A instalação
de indústrias "de substituição
de exportações", principalmente
em torno da cidade de São Paulo, faz crescer
o volume de cargas importadas em Santos, pois
essas indústrias incorporam uma grande
quantidade de produtos feitos fora do país.
Parte da cabotagem também se transfere
para Santos - um golpe que é considerado
mortal para o porto do Rio. Atrás da cabotagem,
seguem diversas firmas de comércio marítimo.
Com o movimento militar de 1964, e a reorganização
econômica, foram feitas algumas tentativas
de revitalização industrial. Ao
mesmo tempo em que buscavam a autonomia em certas
áreas onde o país era tradicionalmente
dependente - o transporte de carga marítima
era uma delas -, os militares também procuraram
incentivar o comércio exterior, através
da exportação de produtos primários
e semi-industrializados. Se a política
de "conquista dos fretes" multiplicou,
no final dos anos 60, a indústria naval
por quatro, a exportação de matérias-primas
levou à ampliação da infra-estrutura
portuária. Grandes complexos portuários
foram construídos na baía de Sepetiba,
no Rio, e em Vitória, no Espírito
Santo, sem que tivessem sido feitos investimentos
de vulto no porto do Rio. Este continuou sendo
um pólo de importação, principalmente
de alimentos e bens de consumo, enquanto o movimento
de grandes cargas deslocava-se para outros lugares.
A situação atual do porto do Rio
de Janeiro, talvez um dos mais tradicionais fora
da Europa, reflete, nos dias que correm, a situação
de estagnação econômica do
estado e da cidade do Rio de Janeiro. Os imensos
armazéns da região da Gamboa, desativados
há muitos anos, e a idéia de se
construir um enorme museu de arte onde antes havia
um importante conjunto de docas, reflete a situação
de morte lenta desse organismo que, outrora, funcionava
como agregador das atividades econômicas
de toda uma vasta região do Brasil.
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