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O Saara é a forma como popularmente
ficou conhecido o espaço na área
central da cidade do Rio de Janeiro, que respeita
os limites da administração da associação
comercial S.A.A.R.A (Sociedade de Amigos
das Adjacências da Rua da
Alfândega), fundada em 1962, que
é composta por 13 ruas e cerca de 1.200
estabelecimentos comerciais e é um dos
mais antigos e dinâmicos centros comerciais
do Rio.
Quem vai fazer compras na rua da Alfândega,
a maior e mais tradicional rua do Saara, está
procurando variedade de produtos e preços
baratos que são oferecidos pelo comércio
local. Os passantes disputam espaços com
os pregoeiros que, com microfones ou alto-falantes,
ou com o bater de palmas, anunciam as promoções
do dia. Uma atividade comercial feita de forma
"diferente", "meio tumultuada",
como dizem alguns consumidores cariocas, que transitam
por ali sem poder imaginar que aquele já
foi um lugar bem menos "eclético",
onde as ruas eram tranqüilas, as lojas eram
"a meia-porta" e vendiam basicamente
artigos por atacado para uma clientela que vinha
de todo o país para abastecer seus comércios
com compras de tecidos e artigos de armarinho
na rua da Alfândega, a então chamada
"rua dos Turcos", que ficava na região
da também conhecida como a "pequena
Turquia do Rio de Janeiro".
O perfil do atual Saara, começa a ser traçado
em fins do século XIX, com a chegada dos
primeiros imigrantes de origem síria e
libanesa que se estabeleceram nas imediações
da Praça da República e da rua da
Alfândega, que já existia no século
XVII com o nome de Caminho do Capueruçu
e era a principal rua da região. Historicamente,
sempre foi uma rua com vocação para
o comércio. Em um conjunto arquitetônico
originário do século XIX, além
das residências e do pequeno comércio,
havia um grande atacado de tecidos e de gêneros
alimentícios de propriedade de imigrantes
de origem portuguesa e outras atividades ligadas
a este tipo de comércio como as cordoarias,
caixotarias e depósitos. As ruas adjacentes,
como a Senhor dos Passos, a Buenos Aires - em
outros tempos chamada de rua do Hospício
-, a avenida Tomé de Sousa, então
rua do Núncio, e que hoje tem sua continuação
chamada de República do Líbano,
também faziam parte do que ficaria conhecido
como "pequena Turquia". Isto porque,
como atestam os censos demográficos de
1906 e 1920, a Freguesia do Sacramento - região
que incorporava o que é hoje o Saara -
registrava um grande o número de estrangeiros
recenseados, e entre eles era expressiva a presença
de imigrantes oriundos da então chamada
Grande Síria e/ou "Turquia-Asiática".
Muitos deles ainda vieram com passaportes emitidos
pelo Império Turco-Otomano que dominava
esta região até o final da 1o. Guerra
Mundial, o que lhes valeu o apelido genérico
de "turcos". A maioria deles inicia
a vida como vendedor ambulante e comercializava
cortes de fazendas, artigos de armarinho e colchas,
comprados na região da rua da Alfândega
e eram conhecidos como mascates. Aliás,
o mascate é considerado um símbolo
do comércio na área e tem até
uma estátua em sua homenagem no Saara.
Muitos imigrantes de origem judaica, por sua vez,
também iniciam a vida no Brasil como "prestamistas",
isto é, vendendo à prestação
cortes de fazenda e roupas de cama e mesa. Posteriormente,
passam a comercializar artigos menores, mais leves,
como relógios, jóias e guarda-chuvas.
Os prestamistas atuavam nos subúrbios e
bairros da cidade; os mascates, nas periferias,
e também na zona rural e áreas fora
do Estado. O certo é que era a região
da rua da Alfândega que centralizava o comércio
de tecidos e miudezas na cidade, facilitado pela
proximidade com a Estrada de Ferro Central do
Brasil e o Cais do Porto. Os mascates e os prestamistas
foram substituídos, posteriormente, por
um outro tipo de "vendedor ambulante":
as sacoleiras, que na década de 1970 e
1980 compravam na região do Saara pequenas
quantidades de artigos para revender. O crescimento
do comércio varejista nos subúrbios
e a abertura de créditos pelos grandes
magazines reduziu a presença das sacoleiras
na região.
Nas décadas de 1940 e 1950, o centro
da cidade sofreu modificações comerciais
e urbanísticas que atingiram a rua da Alfândega
e suas adjacências. Dentre elas a construção
da avenida Presidente Vargas (inaugurada em 1944)
que provocou a eliminação de um
conjunto de quadras situadas entre as ruas General
Câmara e São Pedro. A demolição
de centenas de edificações, desalojou
uma grande população de moradores
e trabalhadores, entre eles muitos imigrantes,
que ali residiam e comercializavam.
No final da década de 50, a região
vê-se mais uma vez ameaçada pela
execução de um antigo projeto urbanístico
de construção de uma grande avenida
que "cortaria" trechos inteiros das
ruas da Alfândega, Senhor dos Passos e Buenos
Aires. Os comerciantes mobilizam-se contra o projeto,
utilizando-se como principal argumento o de que
eram um dos maiores centros arrecadador de impostos
(ICMS) para o então Estado da Guanabara.
A Sociedade de Amigos das Adjacências
da Rua da Alfândega - S.A.A.R.A
- é fundada neste contexto de mobilização
dos comerciantes que resistiam às mudanças
impostas pelo poder público e que lutavam
por permanecerem na região. De forma bastante
criativa, os comerciantes apropriaram-se de uma
imagem dos países árabes no ocidente
criando então o marketing do lugar,
quando dão à sociedade comercial
o nome S.A.A.R.A. , mesmo que Saara indique o
nome de um deserto no continente africano e não
se situe no Oriente Médio, região
onde estão o Líbano e a Síria,
países de origem da maior parte dos imigrantes
que ocupavam aquela região da cidade. O
certo é que o nome atesta, e reforça,
a predominância cultural e numérica
deste grupo no local.
É também atribuído ao final
da década de 1950 o declínio do
comércio atacadista na região e
a introdução da venda a varejo,
da chegada de artigos de plástico e da
confecção de roupas prontas, o que
traz um movimento novo e diferente ao Saara, que
se populariza.
Os imigrantes chineses chegam ao Saara no final
da década de 1950, inicialmente vindos
da China Continental. Esse número aumenta
com a chegada, no inicio da década de 1960,
dos chineses de Taiwan, Ilha de Formosa, que introduzem
novos ramos de comércio como os artigos
para presentes (e também a venda de sapatilhas
chinesas e guarda-chuvas) a fabricação
e comércio do ramo de festas de aniversário
e o ramo de flores artificiais. Os imigrantes
coreanos chegam na década de 1990 e trabalham,
basicamente, com a confecção de
roupas, especialmente femininas, a preços
baixos e com produtos importados, como lápis,
borrachas, adesivos, bichinhos e almofadinhas
de pelúcia, móbiles entre outros.
A região do Saara hoje é considerada
por seus comerciantes como sendo o "maior
shopping-center a céu aberto da América
Latina" recebendo diariamente cerca de 60
mil pessoas e no Natal chega a atrair 1 milhão
de pessoas às suas ruas. O comércio
local também segue os festejos sazonais
(e comercias) como o Carnaval, Páscoa,
o Dia das Mães, São João,
Dia dos Pais, Dia das Crianças, Dia de
São Cosme e Damião, o que garante
movimento no Saara durante o ano todo. Muitas
lojas anunciam pela Rádio Saara, que funciona
diariamente e tem cerca de 80 alto-falantes espalhados
pelas ruas de pedestres do local. É a mais
antiga rádio comunitária do Centro,
que está sempre fazendo propaganda do "oásis
de paz" que é fazer compras no Saara,
e dos preços baratos das mercadorias, que
não são preços "faraônicos",
como divulga o locutor.
E assim, em um comércio feito no pavimento
térreo e em alguns sobrados, em um conjunto
arquitetônico preservado pelo Corredor Cultural
da cidade do Rio de Janeiro, que encontramos de
armarinhos tradicionais como o Boueri e o Gandelman
que vendem aviamentos às casas de tecidos
e tapeçarias localizadas na rua Buenos
Aires e na Praça da República .
De artigos de madeira e de palha aos artigos de
carnaval (da fantasia de clóvis às
penas importadas) e que tem, na Casa Turuna -
desde 1918 na avenida Passos - , a sua loja mais
tradicional. É no Saara também que
localiza-se a Charutaria Syria, há mais
de 100 na rua Senhor dos Passos, e o Café
e Bar B. de Fora, (que por ser tão pequeno,
deixa os clientes com a b. de fora) que é
sempre visitado por políticos em campanha.
Assim como, é super tradicional a Casa
Lopes - cutelaria e a Casa Coelho - de cofres,
ambas na rua da Conceição. No Saara
também encontramos casas de especiarias,
como as tradicionais Casa Pedro e J. Asmar e restaurantes
árabes, como o Restaurante Cedro do Líbano,
onde se come um delicioso carneiro com hortelã.
Sem esquecer do tradicional restaurante português,
o Penafiel. Ali também tem várias
lojas de brinquedo, e a famosa Gabriel Habib,
especializada em vendas de brinquedos no atacado
e varejo, apesar de ter fechado depois de 85 anos
na rua da Alfândega, se mantém em
outros bairros da cidade. E são dezenas
as lojas de chapeados (joiazinhas de preço
bem baixo) e algumas são as lojas que vendem
artigos para relojoeiros, além das casas
de essências e perfumarias, há muitos
anos na região. Diversas são as
lojas de artigos de cama, mesa e banho, como também
são muitas as malharias, as confecções
- femininas, masculinas e infantis e as lojas
que vendem roupas jeans, lingeries e meias. O
Saara também está repleto de lojinhas
que vendem artigos de festas, como copinhos, pratinhos,
bolas e isopores coloridos. Já as lojas
de ferragens e ferramentas são tradicionalmente
encontradas na rua Buenos Aires, assim como as
óticas e lojas de fotografia. E, quem quiser
cuidar do espírito depois das compras,
pode ir a uma das 3 igrejas que localizadas na
região: na rua Senhor dos Passos, esquina
com Gonçalves Ledo, tem a pequena e bela
Igreja Nossa Senhora do Terço; na rua da
Alfândega tem a Igreja Santa Efigênia
e Santo Elesbão - culto que foi introduzido
no Brasil pelos escravos e , perto do Campo de
Santana, tem a Igreja de São Jorge. Não
são poucos os comerciantes do Saara que
ostentam a imagem de São Jorge ornamentadas
com luz, flores e fitas no interior de suas lojas.
No dia 23 de abril é comemorado o dia de
São Jorge e há um comércio
todo próprio neste festejo: santinhos,
imagens, flores, fitas e velas brancas e vermelhas
são vendidas, em quantidade, aos devotos,
na rua da Alfândega.
Essa diversidade e multiplicidade é fascinante,
e é o que faz do Saara parte da cultura
carioca além de ser um atraente lugar de
comércio na cidade.
Referências Bibliográficas:
- Acervo permanente do projeto "Memória
do Saara" - Coordenação
Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos
- CIEC/ECO/UFRJ.
- BLYTH, Annabella. "Cristalização
espacial e identidade cultural: uma abordagem
da herança urbana ( o Saara, na área
central da cidade do Rio de Janeiro)".
Dissertação de Mestrado. Instituto
de Geociências/UFRJ. Rio de Janeiro: 1991,
2 vols.
- RIBEIRO, Paula. " 'Saara' - uma paisagem
singular na cidade do Rio de Janeiro (1960-1990)".
Dissertação de Mestrado. Programa
de Estudos Pós-Graduados em Historia Social,
PUC/SP. São Paulo: 2000, 2 vols.
- WORCMAN, Susane. SAARA. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará: Prefeitura do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: Coleção Cantos do
Rio, n. 12, 2000.
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